Just Call My Name
3 Nem o inferno tirará você de mim.
Apenas uma semana havia se passado desde o ocorrido com o estranho homem no quarto de Mio. Desde então, Tarou não havia saído de seu lado. Sempre que a garota ia dormir, ele estava ali. Sempre que ela acordava, ele continuava ali, cuidando dela. Os sonhos não aconteciam mais, porém, agora estavam vivos bem ali, no quarto 345 do Hospital Seiko. A garota estava tão feliz por Tarou ser real e estar ao lado dela, que por um tempo esqueceu dos seus problemas: a doença, os tratamentos e o homem misterioso e sombrio que tentara matá-la a procura de um cristal, o qual estava no pescoço de Tarou. Quando Mio começou a se acostumar com a doce presença do rapaz, os problemas voltaram à cabeça dela e, naturalmente, dúvidas surgiram e ela sentia a necessidade de tirá-las. Bom, ninguém melhor que Tarou para explicar o que havia acontecido ali.
Era uma manhã cinzenta e fria. O sol estava totalmente coberto pelas carregadas nuvens que a qualquer hora iriam se dissolver em frias gotas d’água. Tarou, como sempre, estava sentado na poltrona bege ao lado da cama na qual Mio estava deitada. Ele estava lendo uma revista sobre decoração e jardinagem, deixada pelas enfermeiras na mesinha ao pé da cama. A luz fluorescente do quarto fazia seus cabelos castanhos brilharem. Ele parecia um anjo, se olhasse para ele por muito tempo. Todos seus traços eram extremamente perfeitos. Os lábios finos e bem contornados, as bochechas levemente rosadas e a pele clara, acentuando todas as suas qualidades. Mio ficava sem ar por alguns instantes quando ele se aproximava ou a encarava nos olhos. Ela juntou toda sua coragem e então, se dirigiu a ele, trêmula:
- Ei, Tarou. Q-quem era aquele homem que estava atrás do seu cristal há uma semana?
Tarou fechou a revista e se levantou. Foi em direção ao pé da cama e a colocou sobre a mesinha. Sentou-se novamente na poltrona, com uma expressão indecifrável no rosto. Encarou a garota com intensos olhos castanhos por algum momento.
- Mio, venha cá. – Ele deu leves tapinhas em seu colo com a mão esquerda, fazendo um convite para que ela se sentasse ali.
Mio se levantou da cama. Sentou-se no colo de Tarou apreensiva e desajeitada. Suas bochechas estavam extremamente vermelhas e seu coração batia rapidamente. Tarou segurou-a pela cintura e a levantou no ar, virando-a e fazendo com que ela se sentasse de frente para ele em seu colo. As pernas dela estavam cada uma de um dos lados da cintura dele. Ele colocou os braços dela em volta de seu pescoço e após isso, levou suas mãos até a base das costas dela. Encarou-a novamente. Aproximou seus lábios da bochecha dela e deu um beijinho demorado ali. Então, afastou-se o suficiente para poder olhar o rosto da garota, e disse:
- Eu tenho tentado te proteger todo esse tempo, mas eu devia saber que uma hora, assim que eu aparecesse, teria que te contar toda a verdade. Eu realmente não quero te envolver em tudo isso, não quero pô-la em risco. Não posso continuar a esconder isso de você agora que aquele homem apareceu tentando matá-la. Agora, Mio, preciso que você me diga se vai me querer ao seu lado, mesmo que a verdade que eu te conte seja a mais assustadora. Quero saber se você quer que eu continue sempre com você. Se não, eu apenas irei embora e você não terá mais nenhuma lembrança de mim. – Nesse ponto, lágrimas começaram a escorrer pelos olhos de Mio, e ela o apertou num abraço. Em meio a lágrimas e um certo desespero, ela respondeu:
- Mas é claro! É claro que eu quero você ao meu lado. Quero que você continue comigo pra sempre! Não me importa o quão dolorosas as coisas serão, se você estiver comigo, eu terei forças! Nunca, nunca mais me diga que vai embora e que não terei mais nenhuma lembrança sua!
Tarou apertou mais o frágil corpo da garota contra si. Com sua mão direita, afastou os cabelos louros do rosto dela e depois, passou o dedo indicador lenta e levemente pelo lábio inferior dela. Agora que ele fora confortado por tais palavras, sentia-se um pouco mais seguro para contar a verdade a ela. Mas ainda assim, temia sua reação.
- Mio, aquele homem... era um demônio. – A garota estremeceu em seus braços. – Ele estava atrás de você, porque pensou que você possuía esse cristal que está em meu pescoço. E o motivo de ele pensar assim... é a minha proximidade com você. Na verdade... eu sou seu anjo da guarda, Mio. Sou o responsável por manter você em segurança. Mas, como você pode perceber, há certas coisas que eu não posso evitar, como a sua doença. Quando, há dois anos, você começou a ficar doente, eu não sabia o que fazer. Eu via você enfraquecer dia após dia, e não conseguia tirar isso de você! Não conseguia te salvar. Isso acabou comigo. Foi então, que seus pais te deixaram aqui à própria sorte. Você iria morrer, logo, logo e não havia nada que eu pudesse fazer. Então, a única maneira de te ajudar, seria aparecer pra você. Comecei a aparecer nos seus sonhos e você parecia estar melhorando, você estava bem, não parecia que nenhum perigo iria mais rondá-la. Porém, o que me permitiu estar em seus sonhos, foi esse cristal. Aquele demônio quer corrompê-lo, usá-lo para o mal, por isso veio atrás de você. Desde que ele fez isso, não me bastaria ficar apenas em seus sonhos para protegê-la. Por você, pela sua segurança, eu faria tudo, Mio. E então, me decidi. Nem o inferno tirará você de mim. Eu teria que me tornar real. Eu fugi do mundo astral e me tornei um “mortal”. Mas, como você pôde perceber, não sou um mortal normal. Ainda tenho meus poderes e habilidades de anjo, a única diferença é que... eu posso morrer.
Fale com o autor