Just A Dream
2 Capitulo 2
Jane encarava seu reflexo no espelho. Estava vestindo uma saia vermelha soltinha e rodada até um pouco acima dos joelhos, uma camisa xadrez da mesma cor, uma regata amarela desbotada por baixo e para completar botinhas sem salto de cano curto, vermelhas. Sempre questionaram o modo dela se vestir ali, lhes diziam para usar roupas mais compridas e menos marcantes, mais ela nunca se importou. Costumava responder que se quisessem a ver vestida como uma careta teriam de lhe expulsar para a Abnegação. Penteou os cabelos loiros levemente lisos que caiam livremente sobre os ombros, e estava pronta para fazer um rabo de cavalo quando sua mãe entrou no quarto com sua irmã. Conversavam sobre um assunto qualquer que Jennette não se importou em prestar atenção. Na realidade, nunca se preocupou em participar das conversas ‘’animadas’’ que sua irmã e sua mãe tinham, as duas eram como melhores amigas, contavam tudo uma pra outra. Mas como Jane era diferente, sempre foi mais ligada ao pai e a outra irmã mais velha. Porém, infelizmente seu pai trabalhava demais e sua irmã mudou de facção quando completou 16 anos, escolhendo a Erudição.
–Terra chamando Jennette. – Sua mãe falou, lhe despertando de seus pensamentos. –Filha, eu estou falando com você.
–Desculpe mãe, estava distraída. – Sacudiu a cabeça, para expulsar os devaneios e finalmente prestar atenção na conversa.
–Como sempre. – Andrea falou, fazendo sua filha mais velha revirar os olhos. –Eu estava perguntando como vai querer cortar seu cabelo hoje, já cortei o da sua irmã, olhe... – Apontou para a outra, que sorriu tímida remexendo as madeixas. –E alias, que roupas hein?! Você deveria se vestir melhor, pelo menos hoje...
–Eu já estou vestida melhor mãe. – Revirou os olhos, alisando a saia. – E Sam, seu cabelo ficou bonito assim, esse corte combina com você. Agora só temos que dar uma mudada nessas suas roupas e...
–Obrigada. –Samantha, sua irmã a cortou, corando ao perceber o que fez. Sam apesar de ser alguns meses mais velha que Jennette, era mais tímida e mais na dela. Não conseguia tratar mal as pessoas ou ofende-las, também não se importava com a aparência e vivia ajudando os outros. A cada dia Jane tinha mais certeza de que sua irmã acabaria indo para a Abnegação, facção de origem da sua mãe. Na verdade tinha até uma certa ironia nisso, já que ela mesma iria para a facção de origem de seu pai, a Audácia.
–Agora vamos arrumar o seu. – Dizendo isso sua mãe aproximou-se com a tesoura em mãos, fazendo Jane andar para trás bruscamente e quase se desequilibrar. –Qual o problema querida?
–Eu acho que dessa vez eu mesma cortarei. – Pegou a tesoura da mão de sua mãe e direcionou-se na frente do espelho, começando a repicar suas mechas de cabelo loiro escuro. –Eu acho que tenho que aprender, já que você não estará mais lá para cortar pra mim... – Às vezes Jane falava coisas assim, coisas que machucam pessoas, e ela nem sequer se dava conta disso. Como agora, acabou de magoar sua mãe.
–Jennette... – Sua irmã a repreendeu.
–Oh. – Disse simplesmente, se dando conta do que falou. –Desculpe mãe. Mas não deixa de ser verdade. – Deu de ombros. –E então, o que acharam? – Perguntou, remexendo os cabelos agora repicados em total desordem.
–A sua cara. – As três sorriram, esquecendo-se do momento desagradável poucos segundos atrás. – Vamos indo meninas, não queremos nos atrasar.
–Na verdade... – Jane mordeu o lábio inferior. –Vocês podem ir indo, combinei de esperar o Matthew para irmos juntos...
–Okay. – Sua mãe respondeu, Andrea sempre aprovara o namoro dos dois, sempre achou o jovem LeFlaur um bom garoto, por mais que apostasse que ele acabaria namorando Sam, não Jane.
–O que você vai fazer se ele for pra outra facção? Está na cara que vocês são bem diferentes... – Perguntou sua irmã. Essa mesma pergunta, vindo de qualquer outra pessoa soaria como uma provocação, menos de sua irmã. A garota era inocente demais até para provocar alguém.
–Namoraremos a distancia é claro. – Deu de ombros. –Ainda vamos nos ver só que... menos. Pelo menos por enquanto.
–Isso não é proibido? Eu nunca vi namoro entre duas facções e...
–Sabe o que deveria ser proibido? – Jane cortou a irmã. –Suas roupas. – Mordeu o lábio inferior, reprimindo uma risada enquanto apontava para as roupas da outra.
–Chega meninas. – Sua mãe interveio, mas também segurava o riso. – Você deveria parar de falar sobre o namoro da sua irmã e arrumar um pra você. Vamos esperar lá em baixo
***
Pov Jane.
–Olá. – Falei enquanto entrava na sala e varria o local com os olhos.
–Hey. – Disse uma mulher, que vinha aparentemente da Abnegação, sorrindo. Apesar de sorrir ela parecia um tanto nervosa. –Sou Natalie Prior e vou aplicar o sue teste. Sente-se.
–Okay. – Disse enquanto me sentava em uma cadeira um tanto... estranha.
–Você terá uma série de escolhas para testar sua aptidão para cada facção. Até termos um resultado. – Ela falava enquanto arrumava fios da cadeira, atrás de mim. – Não se preocupe, 95% vão para a facção de origem.
–Eu não quero ir pra minha facção de origem. – Respondi, um pouco rápido demais. –E pra falar a verdade, é você que parece um tanto preocupada. – Deixei escapar sem querer.
–Não, é? É uma das poucas. – Falou ela, se referindo ao que eu disse primeiro e ignorando completamente o que eu disse depois. Entregou-me um copinho com um liquido azul. –Beba isso, querida.
–O que é? – Perguntei curiosa, analisando o conteúdo do copo.
–Só beba. – Dei de ombros e bebi. – Me virei para entregar o copo pra ela e me surpreendi ao perceber que ela tinha... sumido?
Levantei-me e comecei a caminhar pela sala, tentando inutilmente achar uma porta. Não tinha portas. Comecei a desesperar-me, eu odeio lugares fechados. Enquanto eu andava pelas paredes procurando uma saída, elas iam se tornando espelhos e logo já tinham muitas de mim me encarando. Fechei os olhos, achando que tinha pirado. Os abri novamente, na esperança de que tudo tivesse sumido, mais ainda estava ali. Andei até o espelho mais próximo e encarei a mim mesma com o olhar mais feio que eu tinha, que obviamente ela retribuiu.
–Escolhe uma. Agora. – Olhou para duas mesinhas atrás de mim. Em uma das mesas, tinha um pedaço enorme de carne, enquanto outro tinha uma faca. Sem hesitar, andei até a faca e rapidamente a peguei.
–O que eu vou fazer com isso? – Perguntei para a eu do espelho, e escutei um rosnado atrás de mim.
Me virei, vendo um cachorro enorme e peludo, rosnando e latindo pra mim, ele estava prestes a atacar. Olhei para a faca em minhas mãos e depois para o cachorro. Fiz isso repetidas vezes enquanto ele se aproximava. Eu devia ter pego a carne. A carne. Olhei para a mesa onde ela estava na intuição de pegá-la, mas ela não estava mais lá. O cachorro continuava a se aproximar. Eu não vou mata-lo, não posso. É só um cachorro. Ele então pulou sobre mim, me derrubando no chão. Eu segurava sua cabeça que estava extremamente próxima do meu pescoço, tão próxima que eu conseguia sentir seu halito quente batendo contra minha pele. Eu poderia fraquejar e em questão de segundos ele rasgaria meu pescoço. Mas eu não o mataria, ele é apenas um cachorro.
Ele então simplesmente sai de cima de mim e senta-se na minha frente, como se fosse um cachorro domado. Eu o encaro confusa. Ele me olha também. Nossos olhares se prendem e é como se eu conseguisse ler sua alma. Porém nossa conexão visual é interrompida bruscamente quando ele vira a cabeça para o lado rosnando. Lá longe, no fim da sala, eu consigo enxergar uma silhueta feminina, tão ou mais confusa quanto eu. O cachorro a vê e começa a se aproximar dela, latindo e rosnando como fazia comigo. Me aproximo também, e aos poucos consigo reconhece-lá. É Sam. O cachorro começa a correr na direção dela, que cai de joelhos no chão completamente apavorada. Sem pensar duas vezes começo a correr na direção do cachorro, e quando finalmente o alcanço, pulo sobre ele, o esfaqueando com a faca que eu tinha escolhido minutos atrás. Levanto-me rapidamente e olho em direção a onde estava Sam, ela não esta mais ali.
Olho ao reder e percebo que eu também não estou mais na sala. Começo a caminhar tentando reconhecer o lugar e percebo que estou em uma rua deserta. Não há ninguém na rua, isso me assusta. Caminho rapidamente em direção à esquina, tentando sair dali o mais rápido possível. Quando finalmente chego à esquina ouço um grito. Mas não um grito normal, de alguém que se assustou com alguma coisa ou algo assim, parece um grito um tanto... desesperado?! Viro-me para ver o que gritou e dou de cara com uma cena nem um pouco agradável. Dois homens se aproximam de uma garota que se escora no muro, tentando se distanciar deles o mais rápido o possível. Reparo que um deles tem uma arma, e a segura apontando na direção da garota enquanto o outro começa a tirar a roupa da mesma. Ela iria ser estuprada. Não, eu não vou deixar isso acontecer.
Corro como nunca havia corrido antes em direção aquela cena horrenda e jogo meu corpo contra o cara que segura a arma, derrubando ambos no chão. Começamos uma luta corporal e logo todos estão gritando. Quando me dou conta estou de pé ao lado da garota, tenho uma arma na mão e há dois corpos no chão. Eu fiz aquilo? Como poderia...? Não. Eu posso até ter feito isso mais... isso não é real.
Pisco repetidas vezes até me dar conta que não estou mais naquela rua escura, e sim em uma espécie de tribunal. Alguém caminha de um lado pro outro em frente a mesa onde estou sentada, falando sem parar. Na plateia há muitas pessoas, incluindo toda a minha família, a família do Matthew, e até a garota que eu salvei.
–A ré se declara inocente ou culpada? –O juiz pergunta, despertando-me dos pensamentos. Percebo que todos estão olhando pra mim, mais não entendo o porquê.
–Como é?
–Você, Srta Jennette Clare Dellacour se declara inocente ou culpada por ter executado Josh Pelerrier Owen e Jacob Margolis Quin na noite de quinta feira do dia 29 de janeiro? –E então eu entendo. Eu estou no tribunal, esse é o meu julgamento por ter feito aquilo com aqueles homens. Mas não me lembro de falar com um advogado, como vou saber o que fazer?
‘’Isso não é real.’’ — Lembro-me mais uma vez. Opto então pelo que é certo.
–Culpada.
Fecho os olhos mais uma vez, não querendo encarar a reação daqueles que amo. Espero escutar a voz do juiz dizendo mais alguma coisa mais o que escuto é diferente.
–Jane, levante-se. –Disse Natalie parecendo mais assustada do que quando eu entrei. –Vá para casa e diga que passou mal. –Mandou, enquanto me ajudava a ficar de pé.
–Espera aí, por quê? –Indaguei curiosa, esse certamente não é o procedimento.
–Apenas faça. –Sua voz saiu tão dura que fiquei desconfortável em contestar apenas assenti brevemente.
–Qual foi o meu resultado?
–Eu não sei se devo te contar.
–COMO ASSIM? –Explodi. Lá vamos nós de novo. –O TESTE É MEU, FUI EU QUEM FIZ, E EU QUERO SABER A PORRA DO MEU RESULTADO!
–Ok, querida acalme-se. –Acho que a assustei com meu tom de voz. –Eu vou dizer, mas por favor não grite. Você vai gritar? –Balancei a cabeça negativamente. –Erudição. –Senti como se tivesse levado um soco na boca do estomago. –Franqueza. –Continuou ela, antes que eu pudesse responder. –E audácia. –Espera aí o que?
–Como assim? Isso não é impossível...
–Não é impossível, só é bem raro. Seu teste foi inconclusivo, chamam de...
–Divergente. –Cortei-a. Não acredito. Divergente, eu? Isso atrapalharia meus planos? Não. Não vou deixar isso acontecer, é apenas um detalhe.
–Como sabe?
–Eu li. –Disfarcei, e ela arqueou as sobrancelhas, mostrando-me claramente que não acreditava. Ela acabou de me contar que sou uma divergente, qual o problema de contar a verdade a ela afinal? –Hackendo alguns computadores da líder da minha facção. –Mordi o lábio. Quando pensei que receberia uma bronca, ela andou em direção a cadeira, sentou-se e fez sinal para que eu me sentasse também. Assim que sentei-me ela segurou minhas mãos e me olhou nos olhos.
–Se você leu, você sabe que é extremamente perigoso, se descobrirem vão matar você. –Assenti. Ela respirou fundo, balançou a cabeça parecendo perdida em pensamentos e continuou. –Minha filha, Beatrice fez o teste mais cedo. O mesmo resultado que o seu. A pessoa que fez o teste dela, a aconselhou a não contar a sua família, e embora eu te aconselhe a mesma coisa, ela contou a mim. O sonho dela era ir para a audácia, ela nunca disse com todas as letras mais eu sabia. –Ela sorriu, encarava o nada parecendo perdida em pensamentos. –Mas eu a alertei que lá seria perigoso, ela correria o risco de ser descoberta. E então amanhã, ela escolhera a Abnegação e voltara para casa. Faça o mesmo querida, fique com sua família. –Ela voltou a me encarar. Eu queria assentir, dizer que faria isso mesmo, mas eu sei que não vou. Nada vai conseguir me fazer mudar de ideia. Eu vou para a audácia. Eu vou ver o que tem fora dos muros. –Porém, mesmo assim eu devo lhe perguntar: o que você quer que eu coloque como resultado do seu teste? –Respirei fundo.
–Audácia.
–Tem certeza?
–Sim. Você não me parece surpresa.
–Qualquer um que visse o seu teste também não ficaria, querida. Você deve ir agora. –Assenti e caminhei até a porta, mas antes de fecha-la completamente do lado de fora decidi falar uma coisa que poucas vezes sai da minha boca.
–Obrigada.
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