Notas iniciais
primeiro capítulo aqui, agora a história começa mesmo :3

Acordo assustada, gritando e suando frio, tem sido assim durante a última semana, todos os dias o mesmo pesadelo com outras pessoas. Nunca fui de ter pesadelos, mas esse mês está sendo assim, todos os dias essa merda de pesadelo. O mais estranho é que ninguém vem ver o que aconteceu comigo, eu acordo gritando, quase morrendo e nada. Só o Alex veio uma vez, e nem foi por se importar comigo, ele disse que meus gritos estavam atrapalhando o seu sono. Enfim, esses pesadelos estão me deixando preocupada, justo nesse mês, e um por dia. Mas não deve ser nada. São apenas sonhos, sonhos ruins.

Levanto da cama, escovo os dentes, coloco um jeans e uma camiseta e faço meu café. Ainda estou me decidindo se vou pra escola ou encontro meus amigos pra bagunçar algum lugar por aí, não os vejo desde sexta. Eu estou meio ansiosa porque eu ainda não conversei com eles depois do pesadelo, nem contei nada e eu preciso de sua opinião. Acho que vou encontrar com eles e dormir na casa de alguém, talvez não tenha pesadelos lá. De qualquer jeito, ninguém se importa com o que eu faço ou deixo de fazer mesmo. Meu pai simplesmente parou de se importar desde que minha mãe se foi. Ele simplesmente casou com essa tal de Jackie e eu parei de existir. E com ela veio de brinde Alex, o sonho do meu pai, um filho mais velho pra cuidar de tudo. É como se eles fossem a perfeita família e eu só a garota com a mãe morta. Não que a Jackie seja má, nem o Alex, eles são legais, bem legais, é só que eu não faço parte desse lindo retrato de família feliz.

Pensando nisso tomo meu café e tento não acordar Alex, ele tem um péssimo humor de manhã, ainda mais quando é acordado. Se ele se atrasar ou perdera aula, a culpa não é minha. Aliás, nem sei se eu vou pra escola. Enquanto tento me decidir percebo que há algo faltando, mas deixo pra lá. Termino meu café e subo as escadas pra escovar os dentes e quando passo em frente à porta de seu quarto não escuto sou habitual ronco. Era isso. Ele não avisou se iria dormir fora, o que normalmente faz, pelo menos pra mim. Sinto um frio repentino na nuca e chego perto da porta. Nada. Um arrepio de medo percorre meu corpo. Não pode ter acontecido nada, mas mesmo assim. Chego mais perto e abro uma fresta da porta pra ver se está tudo bem e quando olho pra dentro o vejo lá, largado sobre um livro. Solto um suspiro de alivio e entro no quarto, preciso falar com ele sobre esses sonhos, ele vai me ajudar. Eu acho que eu estou ficando paranoica. O que quero dizer é, o que poderia ter acontecido com ele?

Chego perto dele devagar pra não acordá-lo do jeito errado e observo o quanto ele é bonito, temos a mesma idade, mas ele é bem mais desenvolvido do que eu, deve ser por causa do basquete. Vou chegando mais perto, perto o suficiente para sentir sua respiração se misturando com a minha. Começo a resistir ao terrível impulso de beijá-lo, mas percebo que, de qualquer jeito, não somos irmãos e desistindo, o beijo. Quando percebo o que fiz já era tarde de mais, então me afasto. Ou pelo menos tento, mas sinto mãos nas minhas costas, me prendendo. Abro os olhos e vejo Alex me corresponder com a mesma intensidade, ainda com os olhos fechados, como se nunca tivesse acordado. Como se fosse possível, ele me puxa pra mais perto e eu sento no seu colo, pelo menos acho que era essa a ideia, mas eu bato no abajur em cima da mesa e o derrubo no chão, estragando o nosso momento. Ele se afasta de mim e ao contrário do que eu pensava, estava com a cara mais normal do mundo, como se nada tivesse acontecido diz:

-Vai se arrumar ou vai acabar se atrasando pra escola. Dessa vez eu não vou te encobrir, agora vai que eu também tenho que me vestir. Quer carona?

Eu não respondo, apenas sorrio e vou paro o meu quarto. Sigo pensando no que aconteceu até o meu quarto e pego minhas coisas. Já estou quase na escada quando me lembro dos dentes. Largo tudo no chão e volto para o banheiro. Ao me olhar no espelho percebo que estou com uma cara péssima, decido me maquiar. Nunca faço isso, mas hoje a coisa estava feia de mais. Procuro o antigo estojo que minha mãe me deu, mas parece até que alguém o escondeu, não o encontro em lugar nenhum. Talvez tenha sido eu. Olho a hora percebo que não dá mais pra chegar na escola a tempo. Não que eu estivesse com muita pressa ou muita vontade de ir. Continuo procurando o estojo quando me lembro de que pode estar no quarto do meu pai, junto de todas as outras coisas que ela deixou. Faz pouco mais de um ano, mas parece uma eternidade.

Eu ainda fico surpresa com a rapidez que meu pai superou a perda. Em menos de seis meses ele estava casando com Jackie e eu ainda chorava todas as noites abraçada com suas roupas. Ela tinha cheiro de terra fresca e flores, cheiro de primavera. Lembro de que ele não me contou que ia casar, ele apenas comprou um vestido bonito pra mim, me levou pra igreja e quando chegamos lá ele me disse que eu ia levar as alianças, e que se eu não fizesse isso, Alex faria. Talvez até ele preferisse. Enfim. Eu fiquei tão chocada que mal conseguia andar, na hora de levar as alianças eu tropecei no primeiro passo e Alex teve que ir comigo. Eu mal o conhecia mas estávamos na mesma classe, depois que viramos “irmãos” é que passe a reparar nele. É uma peste assim como eu, graças aos deuses, pois nós meio que fizemos um acordo silencioso, eu não conto suas merdas e você não conta as minhas. Disso nós passamos a nos meterem encrenca juntos e ficamos realmente amigos. Finalmente acho o estojo que estava procurando e vou para o banheiro do meu quarto.

Andando pelo corredor percebo que a casa está ainda mais silenciosa do que antes, acho que ele deve ter ido sem mim, mas eu teria ouvido o barulho da porta caso fosse isso. Quando passo pelo seu quarto eu paro na porta e olho pra dentro, cautelosamente, com medo do que veria lá. Sinto um calafrio percorrer meu corpo quando percebo que está exatamente do mesmo jeito que estava quando eu entrei antes, o abajur intacto em cima da mesinha e Alex dormindo debruçado no mesmo livro, sem roncar. Dessa vez não entro, corro para o meu quarto pra fazer logo essa maquiagem e sair de uma vez. Vou direto para o banheiro e dou um jeito naquilo que chamo de rosto. Bem rápido. Pego a mochila que eu sempre deixo arrumada caso precise fugir ou algo assim e corro até a porta. Não sem antes tropeçar em absolutamente tudo que está no meu caminho. Eu quase quebrei o vaso favorito da mamãe. Quase.

Quando abro a porta e saio na rua me deparo com uma das coisas mais estranhas que já vi. Em plena segunda-feira de manhã a não tem ninguém na rua. Nenhuma alma viva. O mais completo silêncio. Eu saio de casa nesse mesmo horário há anos e nunca tinha visto nada parecido. Era como se fosse um bairro fantasma, ninguém além de mim na rua. Além de estar tudo vazio tinha um clima estranho no ar, uma coisa ruim, quase como um cheiro. Ainda estava na porta de casa, se eu quisesse poderia voltar. Mas de repente me lembrei do meu irmão e de como parecia que ele simplesmente não estava lá. Todas as outras casas da rua estavam silenciosas, exatamente como a minha. Corro pra dentro de casa e pego as chaves que o Dan esqueceu lá semana passada e as chaves do meu carro. Tomara que lá seus pais estejam dormindo também, não seria nada agradável ter que explicar tudo pra eles. Ele já não é preocupação, ele entenderia. Peguei o carro e voei pelas ruas quietas do meu bairro, rezando para pelo menos o Adan esteja acordado, eu preciso dele, e preciso agora.

Notas finais
é isso, comentem, me xinguem, me critiquem, me ameaçem, mas deem uma opinião pfvr