Juramento eterno
1 Capítulo 1
Irlanda, 1809
Quando o olhar de lady Sakura Haruno, pousou, embaçado, na figura da irmã, que respirava com muita dificuldade, ela deu-se conta de que jamais antes vira alguém morrer. Os movimentos do peito de Hinata eram tão lentos que mal moviam os lençóis.
Sakura perdera a mãe quando muito criança, mas as mulheres que haviam ajudado no funeral falavam em voz baixa sobre aquela morte, as bocas encobertas pelas mãos. A experiência com o falecimento da querida mãezinha fora vaga e um tanto obscura, pois Sakura não sofrera muito, só chegando a compreender o que acontecera muito tempo depois.
Sabia que a mãe não estava mais por perto, é claro, mas pensara que talvez se encontrasse em Londres, com o pai. Imaginara que em breve viria para casa, como sempre. Rindo, a bela mãe de Sakura, que era francesa, entraria como um raio de sol no quarto da filha ou na sala de de estudos, com os braços carregados de presentes e usando um chapéu novo e elegante da chapelaria mais cara de Londres. Quando, por fim, Sakura compreendera que maman nunca mais voltaria, a saudade que sentia já lhe era familiar e suportável.
Mas não tinha certeza de que se daria o mesmo agora, com Hinata, ainda que soubesse nada poder fazer a respeito. Por fim, por insistência sua, Naruto Uzumaki chamara um médico. Embora o doutor tivesse conseguido por no mundo o bebê, coisa que a parteira não pudera fazer, apenas balançara a cabeça, desanimado, em resposta as perguntas de Sakura, que desejava saber se a irmã ficaria bem.
Agora que se tornara óbvio, até mesmo para uma jovem tão inexperiente, que Hinata não sobreviveria ao amanhecer. Sakura, pusera-se a relembrar tudo que haviam vivenciado ao longo dos anos. Risos e lágrimas, mil segredos sussurrados, as angústias das primeiras paixões e, os sonhos para o futuro.
Duas meninas pequenas, órfãs de mãe, aos cuidados de um pai cada vez mais frio distante. Sakura sempre estivera ao lado de Hinata, e só falhará uma vez. E ali estava o resultado de seu fracasso: sua solitária irmã em breve não faria mais parte desse mundo.
“Está tão branca e fria...”, pensou Sakura, tomando entre os seus os dedos delgados de Hinata, na vã esperança de aquecê-los. Tentava retardar o passamento um pouco mais, enquanto, junto a Naruto e a ama-seca que ele contratara, esforçava-se para agasalhar o recém-nascido e mantê-lo vivo. Naquele Instante, parecia que iria perder ambas as batalhas.
- Não fique tão zangada comigo, Sakura...
Aquelas palavras sussurradas a arrancaram das lembranças tristes. O olhar de Sakura deslizou da mão cadavérica de Hinata para seu rosto pálido. Os olhos da irmã, que desde criança costumavam brilhar de alegria, estavam muito abertos e escuros nas órbitas profundas, a pele ao redor, muito amarelada.
-Jamais poderia me zangar com você, minha querida! – Sakura respondeu, com suavidade.
Forçou um sorriso, pois suspeitava que a irmã a conhecia bem demais para se deixar enganar.
- Vou morrer, não é verdade?
Com um nó na garganta, Sakura fez um gesto de cabeça, assentindo. Era muito tarde para mentiras e dissimulações. Já houvera muitas, e Hinata merecia a oportunidade de fazer as pazes com o Pai Celestial.
É claro que devia haver pouca coisa recriminável nos dezesseis anos de vida de Hinata Haruno para que Deus ficasse contrariado. Seu único pecado fora amar Naruto Uzumaki a ponto de engravidar sem ser casada. Pecara apenas por ser jovem e ingênua demais para resistir as maquinações e lisonjas de um homem mais velho e experiente.
-Pobre papai... – Uma lágrima escorregou pela face de Hinata. Deslizando pelo canto do nariz e parando na fronha branca do travesseiro.
Quase não se via diferença, naquele instante, entre a cor de seu rosto e da roupa de cama.
Sakura secou a umidade com o polegar, consciente da frieza estranha ao tocar a irmã.
- Não chore, minha querida.
-Onde está meu bebê?
-Dormindo.
Sakura e a babá se revezaram segurando o bebê, tentando aquecer o corpinho frágil. A mulher tentara tirar Naruto da apatia e faze-lo buscar um balde de carvão para o fogo, de modo que o quarto alugado pudesse fornecer o mínimo de calor, mas aquilo não seria suficiente para animar o nenê ou afastar o hálito gélido dos lábios de Hinata.
- Naruto? – Sussurrou a moribunda, o olhar questionando Sakura.
Sakura rememorou com amargura o que ele dissera quando ousara questionar onde estava indo. Ela implorara para que ficasse, mas Naruto fora insensível a seus rogos. Apesar do ódio que sentia por ele, Sakura tentou dar uma desculpa aceitável pelo comportamento abominável de Uzumaki.
E por que não mentir? Ficou tentada, olhando os olhos aflitos da irmã. O que importava naquele momento? Naruto Uzumaki nada fizera além de dizer mentiras, desde que o conhecera e o apresentara a Hinara. Se arrependimento matasse...
A linhagem dos Haruno na última geração era só de mulheres, e não havia nem mesmo um primo distante as inúmeras propriedades de seu pai. Fazia muito tempo que ficara estipulado que Sakura e Hinata seriam as herdeiras, e desde que Lorde Haruno não voltara a se casar e já estava bastante idoso, com quase setenta anos, em breve tomariam posse da fortuna.
E então, belo e muito charmoso, o ex- soldado irlandês Naruto Uzumaki, primeiro cortejara Sakura, mas, percebendo que o coração da jovem já estava comprometido para sempre, dirigira sua atenção para Hinata, ainda uma menina.
Apesar das oportunidades limitadas, Naruto conquistara Hinara antes que Sakura ou o pai percebessem o que estava acontecendo, e, quando se deram conta, já era tarde demais para impedir o desastre.
Afinal, Hinata não quebrara nenhum osso, dissera Sakura certa vez. Isso hora, é claro, antes de a irmã planejar fugir com o aventureiro irlandês, que tinha o dobro de sua idade. O bilhete de Hinata, com sua letra grande e infantil, reminiscência da sala de aula que abandonara havia a pouco tempo, fora deixado sobre o travesseiro de Sakura.
Lorde Haruno, marquês de Brynmoor, esforçara-se para detê-los. Entretanto, Uzumaki era muito esperto para se deixar apanhar por um pai enraivecido. Em vez de seguir a grande estrada do norte até Gretna, o casal fora para a costa, pegar um navio que os levaria à Irlanda, e desaparecera.
Fora então que o mundo do Sakura desabara, levando consigo toda a estabilidade que conhecera, em questão de minutos. Como resultado da fuga de Hinata, o marquês, irado, espalhara aos quatro ventos a morte de sua caçula. Chegara mesmo a organizar um funeral com um caixão vazio na cripta dos Haruno.
Espantada, com a raiva insana do pai e sua atitude bizarra, Sakura tentara dizer ao padre que sua irmã não estava morta, mas o marquês a impedira.
A outra única pessoa em quem poderia confiar estava muito distante, lutando com Neji, na Espanha, para poder fazer alguma coisa. Escrever-lhe contando os detalhes sórdidos da situação de seus entes queridos parecera impossível a Sakura, mesmo quando a carta de condolências de Sasuke, seu noivo, chegara.
O irmão de Sasuke, escrevera-lhe sobre a suposta morte de Hinata, e quando a resposta de Sasuke, vinda da península Ibérica, alcançara as mãos de Sakura, já era tarde demais.
Então, dois meses depois, a mensagem desesperada de Hinata chegara, implorando para que Sakura fosse a seu encontro, na Irlanda. Nem por um instante a irmã ponderara não ir, embora tivesse sido necessário faltar com a verdade ao pai, pela primeira vez na vida.
Inventara que uma amiga da mãe, doente, a convidara para uma visita prolongada. O marquês cada dia mais mergulhado na loucura, acreditara na história sem questionar.
Quando Sakura chegou a Dublin, e descobriu que Uzumaki nem mesmo se casara com Hinata, compreendeu que não poderia abandonar a irmã, para que desse à luz sozinha. Nem mesmo quando viu-se frente a frente com Uzumaki, que tentou flertar com ela novamente, sendo rejeitado de imediato. Assim era o homem que seduzira e levara sua irmãzinha aquela situação.
-Naruto foi comprar mais carvão para o fogo – Responder Sakura, interrompendo os devaneios.
Estava ficando mestra em mentiras, concluiu, e tratou de acrescentar outra balela, só por garantia:
-Teve receio que o bebê não ficasse aquecido.
O olhar febril de Hinata não a deixou. “ Ela deseja tanto acreditar. Ainda tenta com desespero, crer no homem pelo qual abandonou tudo. Pobre Hinata...”
- Cuide dele.
“De Uzumaki? ” Sakura não conseguiu crer, mas logo compreendeu o que a irmã tentava dizer. Hinata desejava que prometesse cuidar conta do menino, aquele ser pequenino cuja vida parecia tão débil quanto a da mão.
- Tomarei.
-Jamais conte... – As pálpebras de Hinata baixaram-se, ante a respiração entrecortada, o rumor odioso que vinha-lhe a garganta, tornando-se audível.
Então, voltou a abrir os olhos devagar, íris azul-acinzentadas um pouco mais brilhantes.
-Não diga a eles, Sakura. Não fale a ninguém, nem mesmo a papai. Ele não suportaria se soubesse o que fiz.
-Não direi, querida.
Outra lágrima deslizou pela face de Hinata, em direção a fronha.
-Iriam me julgar tão mal...
- Não anjinho. Ninguém jamais fará mal juízo de você. Não deixarei que isso aconteça – prometeu Sakura, com veemência – Ninguém nunca saberá.
O olhar de Hinata voltou a cravar-se no semblante de Sakura, tentando avaliar a profundidade daquele juramento.
- Jure em nome do tumulo de nossa mãe Sakura, que ninguém nunca saberá o que fiz.
-Juro.
-Em nome do tumulo de maman – voltou a exigir Hinata, uma chama do antigo entusiasmo cintilando nas pupilas agora vibrantes, parecendo ser como sempre tinham sido: cheios de energia e promessas.
O que importavam seus juramentos, contanto que aplacassem a dor de Hinata? Sakura não trairia a confiança da irmã. Não permitiria que boatos se espalhassem sobre ela e destruíssem o bom nome da família. Era uma jura fácil de fazer. Então, tomando fôlego, fez o que ela queria.
-Juro, sobre o tumulo de nossa mãe, Hinata;
A irmã assentiu, o movimento da cabeça quase imperceptível, e depois tornou a fechar os olhos. E nunca mais voltou a abri-los.
∞.∞
_-Não posso leva-lo comigo – disse Naruto.
As feições bonitas não demonstravam nem tensão nem aborrecimento, ao repetir sua negativa, sem comover-se com os argumentos de Sakura.
- Ele é seu, também. – Sakura aconchegou o bebê ao peito, muito mais segura do papel de mãe do que estivera até duas semanas atrás, quando o menino nascera. – Não pode estar dizendo que pretende abandonar seu próprio filho.
Observou o rostinho da criança, que dormia, serena, algo raro de acontecer. Talvez tivesse perdido a luta para salvar Hinata, mas o filho da irmã fora muito mais tenaz ao agarrar-se a vida,
A ama-seca, Deus a abençoasse, demonstrava ser eficiente e tranquila. Depois de quinze dias em que as mulheres se revezaram nos cuidados, parecia que o bebê iria sobreviver. Mas também tudo levava a crer que Nauruto Uzimaki estava pouco se incomodando com esse pequeno detalhe.
- Você ficará com o garoto. – Naruto esboçou um sorriso despreocupado nos lábios bem delineados. – Fará um trabalho muito melhor que eu, Sakura.
- Não posso leva-lo para casa, Naruto. Não sabe...]
- Detesto dizer isso, mas conheço seu pai o suficiente, minha cara, para não planejar ir até sua porta e apresenta-lo ao neto. Embora adorasse ver a expressão que faria.
— Mas o que vou fazer?!
Em seus dezoito anos, Sakura tinha pouca experiência com bebês, e muita com os loucos rompantes de loucura de seu pai. Como Naruto, Sakura não sabia de que maneira se apresentar diante de lorde Haruno, trazendo o filho ilegítimo de Hinata.
- Tenho certeza de que pensará em uma boa solução, Sakura. Confio em você e sei que Hinata também confiava. Aliás não tenho dúvidas de que preferiria deixar o menino a seus cuidados do que com um incompetente como eu.
Sakura respirou tão fundo que o bebê se mexeu, abrindo os olhos. Observou que eram azuis como os de Hinata e de sua mãe. Aquele tom acinzentado era uma característica da família de sua mãe, documentado na galeria de retratos na casa em Londres. Sakura porém herdou os olhos verdes de seu pai, uma herança direta dos Haruno, também documentada em retratos, em Longforfd.
O bebê bocejou, a boca rosada muito aberta. Parecia encarar Sakura, muito interessado, como se desejasse comunicar-se com a tia.
Talvez para dizer-lhe que Naruto estava certo? Que Hinata preferira que o nenê ficasse nas mãos inexperientes da irmã do que aos cuidados do pai irresponsável e libertino, que demonstrara incapacidade de amar alguma coisa além de seu próprio prazer?
Depois de arruinar a vida de HInata, Naruto fora muito cruel com sua desatenção durante as últimas semanas da difícil gestação, quando Sakura estivera com ela. E também parecia pouco se importar com sua morte.
Sakura tivera de fazer sozinha os preparativos do funeral. O único gesto decente de Naruto, fora o de mandar chamar um padre ao saber do passamento.
Um bebê em Longford seria um acontecimento muito estranho. No entanto, parecia que não havia escolha a não ser leva-lo consigo, por causa do juramento que fizera para a irmã.
Sakura nem fazia ideia de como aquela promessa iria virar de cabeça para baixo seu destino.
E quando, afinal, se deu conta, já era tarde demais para voltar atrás.
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