Notas iniciais
Olá! Bem, eu sei que avisei no grupo que não postaria hoje, mas a minha inspiração ressurgiu magicamente. Foi incrível! E escrevi mil palavras em uma hora, finalizando finalmente o capítulo ♥ Acho que ter relaxado foi uma ótima ideia ♥ Btw, eu dedico esse capítulo à Kath por ter me dado as principais ideias pra eu desenvolver o capítulo. Thank you ♥ Então, aqui eu trago mais um capítulo de JPA. Dessa vez no dia certo. Espero que gostem! :3

— Guto, tem uma carta pra você — minha mãe me disse quando estava prestes a ir pra escola.

— Carta? Pra mim? De quem? — franzi meu cenho e voltei alguns passos, pegando o papel da mão de minha mãe.

— De uma tal de Sabrina — ela sorriu conspiratoriamente. — Estou indo, filho. Boa aula — ela me deu um beijo de despedida e se virou para mim pouco antes de entrar no casso. — Quer carona?

— Não, mãe — murmurei meio avoado. — Prefiro ir a pé.

— Tudo bem, então — ela deu de ombros e entrou no veículo.

Apesar de estar em cima da hora, voltei para dentro de casa e abri a correspondência. Minhas mãos tremiam. O que Sali tinha aprontado daquela vez? O papel era pequeno e rosa. Percebi que ela tinha passado seu perfume nele.

O bilhete não tinha saudação. Não pude evitar um sorriso ao me lembrar do quanto ela era invocada com o fato de eu não saudar as pessoas quando começamos a conversar.

Eu estava pensando que, uma vez que as mensagens pelo celular não são seguras, os bilhetes são. Se quiser me contar algo deixe uma carta antes de ir para a escola ou tarde da noite. Sou eu quem vejo a correspondência de manhã.

Foi apenas uma ideia.

Te amo, Guto.

Sali”.

E um coração finalizava o bilhete.

Era uma ótima ideia. Daquela forma sua mãe não poderia nos descobrir tão facilmente, a não ser que Sali não pudesse levantar de manhã para pegar as correspondências. Mas tive certeza de que ela o faria a qualquer custo. E, além do mais, seria meio como um romance à moda antiga, superando as mais diversas dificuldades.

Naquele dia, fui para a escola sorridente. E estava tão alegre que nem percebi que Laura sorriu e me cumprimentou quando passou ao meu lado. Para mim, ela era apenas uma colega qualquer que eu tive ao longo da vida. Não me afetava mais de nenhuma forma. Apenas uma pessoa.

Quando que eu pude imaginar que a consideraria como “apenas uma pessoa”?

.

Mudei o tom de voz para tentar representar outro personagem para Rafa. Ele riu quando percebeu que eu tinha deixado o tom agudo para parecer a voz de uma garota.

— Você não seria uma boa menina, Guto — ele balançou a cabeça.

— Ei, pirralho — empurrei seus ombros fracamente. — Não te dei moral pra falar assim comigo — falei em um tom brincalhão.

— Quê?!

— Ah… deixa pra lá — fiz um gesto desatento com as mãos e ajeitei o gibi no meu colo novamente.

— Eu quero saber! — ele exclamou. — Você não disse que ia me ensinar tudo que eu não sei?

Respirei fundo e, por fim, sorri. Rafa era um menino esperto ao exigir conhecimento. E eu um péssimo irmão mais velho por negá-lo involuntariamente.

— Eu quis dizer que não te dei o “direito” de falar assim comigo. Alguma coisa assim — expliquei gentilmente.

— Ah, sim — ele assentiu. — Continue agora, Guto.

Ri com seu jeito de mandar e prossegui com a leitura até que nossos pais entraram no quarto com um sorriso sapeca no rosto. Eles seguravam na mão um jogo de videogame.

— Chega de leitura por hoje — minha mãe decretou. — Vamos jogar videogame.

— Aeee — Rafa explodiu em uma comemoração, pulando da cama e correndo abraçar os dois. — Todo mundo?

— Sim. Todo mundo — meu pai assentiu. — Vamos, Guto.

Dei de ombros e sorri.

— Por que não?

Jogamos um jogo de dança. Fizemos diversas rodadas com diferentes duplas e nos divertimos depois ao ver os vídeos. Todos dançavam ridiculamente mal, mas o sorriso em cada rosto iluminava a cena. A cena de uma família unida. A cena da minha família.

Rafa era o mais radiante de todos. Percebi o quanto era importante para ele aqueles momentos. Ele era apenas uma criança e parecia se sentir protegido quando tínhamos aqueles momentos de união. Tão pequeno e com tantas experiências… e ainda uma criança. Que brincava, corria, dançava e sorria. Ele sempre sorria. E talvez aquela fosse a coisa mais importante. Talvez aquela fosse a solução de todos os problemas.

Portanto, sorri.

E, por alguns instantes, todos os meus problemas me pareceram muito distantes.

.

Queria escrever uma carta a Sali, mas não sabia o que escrever nela. Apenas queria me comunicar. Mostrar que estava vivo, que me importava e que tinha gostado da ideia. Suspirei e peguei meu caderno, preparando a caneta. Mas de nada adiantava. As ideias teimavam em não vir ao meu encontro. O que escrever para Sali?

Percebendo que minha cabeça estava terrivelmente limitada naquele dia, liguei uma música qualquer e fechei meus olhos. Tentei vagar pelos confins de minha mente e me lembrar de cada coisa importante que vivi com Sali. De cada momento que indicasse que eu já gostava dela e vice-versa, mas que na época parecia bobo e sem sentido. De cada momento constrangedor e de cada sorriso roubado. E houve muitos. Mais do que pude contar.

A primeira lembrança que me veio foi de um dia qualquer. Eu nem mesmo sabia que já era apaixonado por ela. Na noite anterior tinha lido um texto incrível e o anotado em um papel para ler para ela. Eu apoiei-me no tronco de nossa árvore e ergui meus joelhos de modo que ela deitasse em minhas pernas. E, desse modo, comecei a ler…

*

“Quase

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas id
eias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de c
or, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

Sali sorriu emocionada ao me olhar assim que terminei de ler o texto. Em seguida ela suspirou e se apoiou nas minhas pernas mais uma vez, fechando seus olhos e sussurrando:

— Que texto mais lindo, Guto — foi o que disse suavemente. — Tão reflexivo, profundo e real. Qual é o autor?

— Luís Fernando Veríssimo.

— Os textos dele são sempre bons. E eu amei aquele final! “Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.” — ela levantou sua cabeça e me olhou mais uma vez. — Eu não quero quase viver, Guto — murmurou.

— Então viva intensamente — sorri e abaixei meus joelhos, puxando-a para o meu lado e abraçando seus ombros. — Não viva com medo.

Ela franziu o cenho.

— Às vezes é um pouco difícil seguir esse conselho — concluiu com uma tristeza velada. — Às vezes simplesmente não temos disposição para não ter medo. Ou o medo é maior que tudo.

— Não pode ser — balancei a cabeça. — Ele precisa ser enterrado no fundo de uma gaveta e esquecido lá — acariciei seu cabelo e a senti relaxar. — Não tenha medo — sussurrei.

— Nem de cemitérios?

— Mas o medo de cemitérios você já perdeu! — exclamei e ela riu.

— Realmente — assentiu. — E de um jeito bem peculiar…

— Bem criativo — corrigi. Ela sorriu. — Viu só? Não tema a vida.

Ela suspirou e afagou a minha mão que estava no seu ombro.

— Como é a última frase do texto mesmo?

Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

— Eu vou viver. Realmente viver — ela decidiu subitamente depois de alguns instantes de silêncio. Levantou-se do chão e começou a andar. — Sabe, no final o que me espera é somente a morte. E o que eu tenho fazer até lá? Somente viver. Então é isso que farei — caiu ajoelhada ao meu lado novamente, com os olhos brilhando de esperança. — E você vai viver junto comigo!

— Claro que sim — concordei sem hesitar. — E nós vamos aproveitar muito…

— Cada hora, minuto e segundo — ela sorriu e abraçou meus ombros. — Prometa que você estará comigo todos esses momentos sempre. Ao meu lado. Ainda sendo o melhor amigo do mundo.

Não consegui entender a tristeza que me invadiu ao ouvir a última frase. “Ainda sendo o melhor amigo do mundo.” O que me incomodava tanto naquilo?

Apesar do pequeno incômodo que senti, não evitei um sorriso animado com a perspectiva de compartilhar momentos felizes com Sali. Seria ótimo. Talvez a melhor coisa que pudesse me acontecer.

— Eu prometo, Sali.

E fiquei realmente empolgado com a perspectiva de conseguir cumprir aquela promessa.

*

Sorri com aquela lembrança. Na época eu já me incomodava quando ela se referia a mim como se eu fosse sem amigo, sem nem mesmo saber que eu queria que ela se referisse a mim como algo mais. Um namorado? O amor de sua vida? Eu não sabia. Mas amigo já não era o suficiente.

As minhas demonstrações de carinho por ela aconteceram lentamente. No começo eu quase tinha medo de tocá-la; e se ela não gostasse? E se me rejeitasse? No entanto, aos poucos fui perdendo esse receio. Talvez eu tivesse esperança que ela gostasse de mim. A verdade, contudo, era que eu não aguentava ficar nem mesmo um segundo afastado dela. A verdade era que o meu corpo clamava pelo dela em silêncio e eu o respondia sempre. A verdade era que eu sempre estivera apaixonado, desde a primeira vez que a olhara, mas não sabia.

A vítima do amor sempre é a última a saber.

*

Eu corro muito rápido — Sali se vangloriou com um sorriso gigante. — Duvido que algum de vocês ganhe de mim.

Sali estava na garupa da minha bicicleta e Bia na garupa da bicicleta de Lipe. Aproveitamos o dia quente para irmos a uma cachoeira nos arredores da cidade e, até aquele momento, apenas atravessávamos o pequeno trecho de estrada de chão até o lugar.

Com essas perninhas pequenas aí? Duvido — zombei, revirando meus olhos.

Duvida, Gustavo? — ela falou em um desafiador. — Pare a bicicleta agora mesmo. Vou te provar que sou muito boa.

Sem hesitar, parei de pedalar e apertei o freio. Lipe também parou. Sali saiu da bicicleta saltitante e ficou na minha frente, empinando o nariz.

Duvido que consiga me pegar — sorriu encantadoramente e saiu em disparada, me causando surpresa.

Sem esperar mais nenhum segundo, comecei a correr atrás dela. Apesar de seu tamanho diminuto ela tinha certa velocidade admirável, mas as minhas pernas ainda eram maiores e cobriam mais espaço. Em pouco tempo, consegui abraçar sua cintura e erguê-la do chão.

E, por algum motivo, aquele toque fez a minha barriga esfriar.

Droga — ela exclamou rindo. Soltei-a. — Era pra eu ter ido um pouquinho mais longe.

Da próxima vez você consegue — consolei-a e passei um de meus braços ao redor de seus ombros, andando com ela até a bicicleta novamente.

Acho que tem alguém apaixonado… — Bia cantarolou baixinho assim que voltamos.

Sali corou e se afastou alguns passos de mim, fazendo-me perder o ponto de contato. O vazio que me invadiu naquele momento foi estranho, mas a sugestão de Bia era impossível. Sali era minha amiga. Amiga que estava me ajudando a superar um antigo caso de amor. E era impossível surgir um romance daquela situação.

Revirei meus olhos e voltei para a bicicleta.

Que imaginação, Bia. Que imaginação!

No entanto, quando as mãos de Sali envolveram a minha cintura, senti meu estômago despencar em alta velocidade mais uma vez. Afinal, o que aquilo significava?

*

O significado daquilo era bem simples. Eu já estava apaixonado. Já estava sentindo os efeitos colaterais da paixão; de uma grande paixão. Apenas negava cansativamente o fato por julgá-lo impossível. Afinal, como haveria de me apaixonar justamente pela garota que me ajudava a esquecer e perdoar o meu antigo amor? Não fazia sentido.

E o que no amor faz sentido?

Ao recordar daqueles breves momentos, notei que a paixão sempre tinha me consumido. E que ainda me consumia como se fosse o primeiro dia. Notei também que, apesar de minha grande paixão, Sali ainda era apenas minha… amiga. Nosso relacionamento não estava oficializado.

Sorri. Era exatamente disso que precisávamos.

Comecei a escrever sem pausas. As palavras jorravam de minha mente com fascinante facilidade. A partir daquele dia, nos tornaríamos namorados. E na próxima sexta encontraria uma aliança para que usássemos. Algo combinado. Um colar ou uma pulseira. Qualquer coisa que representasse nossa união sem levantar suspeitas.

Sabe, eu estava aqui pensando… nós ainda somos amigos. Quando tento achar um nome para o que temos, nada me vem à cabeça. Portanto, decidi nomear esse relacionamento como o que realmente é. Um namoro. Nós somos namorados agora, Sali. Ou seremos, caso você queira.

Estava analisando cada etapa de nosso relacionamento e concluí que a vítima do amor é sempre a última a ser informada. Mas nós já fomos informados há algum tempo. Somente precisamos anunciar ao mundo o nosso sentimento. Esse tão incrível e confuso sentimento que gosto de chamar de amor.

Então, de modo pouco convencional, eu te peço em namoro. É por uma carta? Sim. Escondido? Sim. Eu não estou me ajoelhando em sua frente? De jeito nenhum. Mas acho que é o nosso jeito, não é? O que seria de nós sem o papel, a caneta, as palavras e as cartas? Acho que é a única forma certa de oficializar a nossa união. Por meio de um pedaço de papel, que foi por onde tudo começou.

Sem mais delongas, agora acho que devo te perguntar: Sabrina Connor, você aceita ser minha namorada?

Eu te amo.

Guto”.

Notas finais
E entããããããão? O que acharam? Espero que tenham gostado dos flashbacks e do pedido de namoro. Esse foi meio que um capítulo de "transição", por isso não aconteceu nada tão empolgante, mas prometo que os próximos trarão mais emoções :3 Então, acho que até sexta que vem! Amo vocês ♥