Notas iniciais
Olááááá! Sexta-feira merece um novo capítulo de JPA! Mesmo que seja de transição e mais curto que os outros, eu gostei dele ♥ Espero que gostem! :3

O vestibular.

O tão temido vestibular.

Durante um mês, não me encontrei com Sali. O único contato que tínhamos era através das cartas e falávamos mais da tão terrível prova do que de qualquer outra coisa. Naquele período, me enterrei nos livros e tentei aprender o maior número de coisas possíveis. Eu estava com medo. Com muito medo de não conseguir passar no vestibular, de ficar preso um ano sem fazer nada. Era aterrorizante.

E então o pior dia chegou.

Eu tinha escolhido cursar Administração. Depois que comecei a trabalhar, descobri que era um ramo com o qual eu me identificava. A minha real vontade era Publicidade e Propaganda, mas no final a praticidade venceu; eu nunca teria futuro com aquele curso em uma cidade pequena de interior.

Meus pais e Rafa me levaram até a universidade e, assim que desci do carro, avistei Lipe e Bia. Ambos estavam abraçados e conversavam tranquilamente. Logo me dirigi até eles.

— E aí, Guto — Lipe estendeu sua mão e apertou a minha.

Dei um beijo na bochecha de Bia.

— Nervosos? — perguntei, retorcendo a folha com os meus dados pessoais.

— Ei, cuidado com essa folha aí. Acho que ela precisa sobreviver até a prova — Bia zombou.

Revirei meus olhos e tentei me controlar. Eu precisava me controlar.

— Eu tô um pouco nervoso — Lipe respondeu à minha pergunta. — Acho que todos estão. Mas não no seu estado de nervos.

Eu sabia que estava mais nervoso do que deveria. Afinal, não era o único que tinha a chance de reprovar ou de passar. Mais pessoas se afligiam com aquela tortura. No entanto, eu só conseguia pensar em uma coisa naquele dia: e se eu não conseguir?

Tentei controlar a minha respiração.

— Sali está vindo em nossa direção — Bia murmurou, olhando para além de mim. — Não se vire. O carro da mãe dela ainda está estacionado. Fique parado… isso.

— Oi — quando ouvi a sua voz tão conhecida ao meu lado, meu coração acelerou. Tinha sentido tanta falta daquela voz para me acalmar…

Virei-me para vê-la melhor. Sali usava uma roupa básica — camiseta, calça jeans e tênis — e estava com o seu cabelo preso em sua tradicional trança embutida. Estava tão linda. Tinha quase me esquecido de como era a sua presença física, palpável. Ela sorriu quando viu que eu a olhava.

— Pronto, a mãe de Sali já foi. Se quiserem vocês podem…

Sem esperar Bia concluir sua frase, com a mão livre segurei na nuca de Sali e depositei um beijo demorado em seus lábios. Tinha sentido saudade do seu gosto de maçã verde. Senti uma de suas mãos pousar em meus ombros e um sorriso se formando em seus lábios durante o beijo. Naquele momento, não me importei que tivesse diversos pares de olhos nos queimando.

Quando separamos o beijo e eu passei meu braço por seus ombros, ela pareceu constrangida. Corou consideravelmente ao ver Lipe e Bia nos olhando.

— Ai, meu Deus — murmurou envergonhada.

— Também senti sua falta, meu amor — zombei de seu jeito preocupado.

Ela revirou os olhos e riu. Apesar de tudo, parecia nervosa.

— Enfim, o vestibular — murmurou depois de um suspiro demorado.

Assenti. Lipe e Bia disseram que iam para suas respectivas salas, deixando-me sozinho com Sali. Com medo que alguém pudesse nos reconhecer, a levei até a lateral do prédio e segurei seu rosto entre minhas mãos.

— Senti sua falta — ela sussurrou antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa.

Sorri, repentinamente esquecendo de minhas preocupações. Sali tinha o poder de me acalmar.

— Certo — murmurei, acariciando seu rosto. — Eu também.

Ela suspirou e ficou na ponta dos pés, iniciando um beijo caloroso entre nós dois. Pouco me importei com o lugar ou com a situação; naquele momento, éramos apenas um casal matando a saudade. Segurei em sua cintura e ela se apoiou em meu pescoço, sem interromper o beijo.

Eu tinha sentido tanto a sua falta…

Quando finalmente matamos a saudade, tivemos que correr para as nossas salas.

.

A prova estava difícil. Ou talvez eu simplesmente não conseguisse me concentrar.

Depois que rascunhei distraidamente minha redação, obriguei-me a prestar atenção às outras questões. Eu tinha que me concentrar para poder acertar pelo menos as que sabia. Não jogaria fora meses de estudo.

As horas pareciam não passar. O calor e o nervosismo me fizeram suar e a caneta deslizava constantemente de minha mão. Era uma angústia horrível ficar trancado dentro daquela sala fechada, tendo todo o peso do futuro em minhas costas. O que eu faria se não fosse aprovado?

Dediquei-me ao passar a redação a limpo. Com revisão, ela ficou suficientemente boa para que eu não zerasse. A pior parte foi passar as questões para o gabarito. Quanto mais eu preenchia, mais distante parecia o fim. Quando aquela tortura acabaria?

Mas acabou.

E, no momento em que coloquei meu pé para fora da sala, soltei a respiração que não sabia que prendia. Foi um alívio tremendo poder relaxar e descer as escadas da universidade, torcendo para que Sali estivesse à minha espera no estacionamento. Ela não estava, infelizmente. Mas Lipe e Bia estavam abraçados em algum banco, provavelmente comentando sobre a prova que tinham acabado de fazer.

— E aí — cumprimentei-os e me sentei no banco.

— Oi, Guto — Bia sorriu. — Tudo bem? O que achou da prova?

Franzi o cenho.

— Difícil. Mas espero que tenha passado.

— Ah, eu também espero isso — Lipe assentiu com o olhar distante. — Eu realmente preciso entrar.

— Com sorte, todos nós conseguiremos — Bia tentou levantar o astral da conversa. Salvo a noite em que a levamos para o cemitério e as situações de quando ela sentia ciúme de Lipe, Bia era extremamente animada e positiva.

Naquele dia, seu humor não tinha me alcançado.

— Vocês viram Sali?

Ambos balançaram a cabeça negativamente. Suspirei, esperando que ela não tivesse ido embora.

Bia e Lipe conversaram comigo por muito tempo; pelo menos, até onde conseguiram aguentar. Alunos saíam o tempo todo de dentro do prédio, mas nenhum deles era Sali. Eu ainda torcia para que ela estivesse fazendo a prova; precisava falar com ela mais uma vez antes de partir.

O campus esvaziou lentamente. Um tempo depois de os assuntos se esgotarem, Lipe e Bia me olharam de forma piedosa.

— Tem certeza que ela está lá dentro? — Bia perguntou.

— Tenho — mas, na verdade, eu não tinha. — Podem ir. Sei que estão cansados e que só querem ir para casa descansar.

— Mas, Guto… — Lipe tentou argumentar.

— Eu sei que vocês ficariam, se eu pedisse, porque são meus amigos. Mas eu também sou amigo de vocês e é por isso que não posso pedir isso. Vão embora, por favor.

Bia suspirou ruidosamente.

— Guto…

— Vão. Agora.

Lipe levantou depois de pensar mais um pouco. Ele então colocou sua mão no meu ombro.

— Não fique até tão tarde.

Assenti.

— Só até a hora do término das provas. Seis horas da tarde. Só mais uma hora, Lipe.

Ele apertou meu ombro e sorriu fraco. Bia imitou-o antes de ambos seguirem para a bicicleta de Lipe. Pareciam felizes e realizados; se amavam muito, era possível perceber em seus olhares. Perguntei-me se Sali e eu parecíamos assim quando vistos de fora.

Depois que eles se foram, sentei-me nas escadas em frente ao prédio para esperar Sali. Coloquei fone de ouvido e passei a ouvir minhas músicas enquanto ela não vinha. Torci para que não tivesse que esperar mais uma hora inteira…

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Mas foi exatamente isso que aconteceu. Quando parecia que não tinha mais ninguém no lugar, alguém surgia de dentro do prédio. Nenhuma dessas pessoas era Sali. Depois de um tempo comecei a acreditar que ela tivesse ido sem se despedir, mas soube exatamente quando ela parou atrás de mim. Era quase como se eu fosse capaz de sentir sua presença.

Suspirei aliviado e me levantei, virando-me em sua direção com a intenção de roubar um beijo. Ela recuou um pouco e disse “não” com os dentes cerrados. Seu olhar se direcionava a algo além de mim.

— Minha mãe já está ali — ela justificou com um dar de ombros cheio de tristeza. Então finalmente me olhou nos olhos. — Não acredito que você esperou até agora para que eu aparecesse e que não posso nem te dar um beijo. Devia ter ido embora, Guto.

— Não, eu não devia — sorri um pouco. — Eu devia ter te esperado sim, nem que fosse só para ver a sua cara exausta de tanto pensar. Queria tanto poder te abraçar e te fazer uma massagem agora…

— Ah, Guto — ela suspirou e vi que quase levantou sua mão para apoiá-la em meu rosto, mas disfarçou e passou-a em seu cabelo. — Eu odeio tanto essa situação. Odeio ter que ir logo e não poder te beijar aqui, na frente de todos.

— Algum dia nós poderemos fazer isso — prometi; e tentei desesperadamente acreditar em minhas palavras.

— A questão é: quando? — pareceu triste ao dizer isso, no entanto teve que se recompor ao começar a descer os degraus. Acompanhei-a uns poucos passos. Ela suspirou e se virou um pouquinho. — Ligue para seus pais virem te buscar. E eu realmente sinto muito por — fez um gesto com a mão abrangendo a todo o lugar — isso.

— Eu sei que sente.

Sali respirou fundo e cerrou suas duas mãos em punhos. Parecia se conter. No próximo segundo, seus olhos se encheram de lágrimas de pura frustração. Tentei cruzar o espaço que nos separava para envolvê-la nos braços, mas ela recuou.

— Não, Guto — me pediu com a voz embargada. — Sinto muito por fazer você passar por isso — lágrimas já escorriam por seu rosto. — Mas eu não posso.

E então se virou e saiu correndo, entrando dentro de um carro estacionado. Imaginei se sua mãe a consolaria e perguntaria o que tinha acontecido. Quis saber o que ela responderia.

Meus pais e Rafa demoraram vinte minutos para chegar a partir do momento em que liguei. Eles não questionaram o motivo do meu silêncio; devem ter achado que era apenas cansaço. Mal imaginavam que estava além de apenas um simples cansaço de um dia de prova; era o cansaço de meses de um amor proibido.

Como as pessoas conseguiam suportar?

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Foi naquele dia que eu descobri o que era o verdadeiro amor.

Estava extremamente preocupado com Sali; queria saber se ela já tinha parado de chorar, se sua mãe tinha brigado com ela, se ela estava de castigo, se ela escrevia, se tinha comido, dormido, tomado banho. Queria desesperadamente saber como ela estava. Sentia que precisava consolá-la.

Nunca antes tinha me preocupado tanto com alguém. Deixei de me importar com meus sentimentos e problemas e coloquei a vida de Sali à frente da minha, pelo menos por aquele dia. Meu coração doía. Para ela, por ela.

Amar é ser capaz de esquecer-se de si mesmo.

Foi naquele dia que eu descobri que nenhuma de minhas declarações tinham sido apenas palavras. O meu amor não se definia em palavras.

Ele era real.

E isso bastava.

Notas finais
Entããããão? O que acharam? Eu sei que foi mais fraquinho, mas achei legal abordar o vestibular e a preocupação do Guto pela Sali. Agora é só aguardar pela próxima sexta :v Beijinhos ♥