Juntos pelo acaso
35 Epílogo
Notas iniciais
Às vezes, a presença de uma pessoa na sua vida é tão mágica que parece que foi um sonho. Quando Sali me deixou sem notícias, eu comecei a pensar nisso. Tudo tinha sido tão maravilhoso quando ela estava junto comigo que só poderia ter sido um sonho; um sonho cruel, porque no dia que eu acordei dele eu me senti terrivelmente mal.
Mas, é claro, eu sabia que Sali não tinha sido realmente um sonho. Afinal, eu tinha todos os seus textos e as lembranças que meus amigos e meus familiares também tinham dela. Sali tinha sido real, mas parecia um ser de outro mundo.
No começo, eu senti raiva. Ela, que eu amava tanto e que dizia me amar tanto, tinha me deixado sem nada. Sem uma única notícia (ela mudou seu número de telefone e excluiu seu Facebook); a única coisa que tinha me restado dela era um bilhete sobre descomplicar, um bilhete que quebrava todas as nossas promessas de luta, que quebrava tudo o que nós tínhamos teimado em acreditar durante um ano todo: que nós dois venceríamos juntos o último obstáculo.
Mas então, depois de longos anos, eu finalmente li o bilhete de verdade e entendi tudo o que ele queria dizer. Sali não aceitava a ideia de uma pessoa presa à outra e quis me libertar no final de tudo, quis que eu fosse livre. A vida é cheia desses momentos em que nós devemos nos descomplicar; e, com muita luta e reflexão, eu entendi que meu relacionamento com Sali também era um desses momentos.
E então eu comecei a lutar para me descomplicar. Não queria esquecê-la ou apagar tudo que tínhamos vivido, mas parei de me prender a uma esperança vã de que ela voltaria. Demorei muito para conseguir colocar todos os seus conselhos em prática — descomplicar não é fácil —, mas finalmente comecei a viver de verdade de novo.
Comecei a olhar para as pessoas, a sentir novamente. Durante anos, eu tinha permanecido em um estado de torpor em que eu era intocável; não permitia que se aproximassem de mim, não me permitia me aproximar dos outros. E então, depois que entendi que precisava me descomplicar, voltei a viver. Aos poucos, com calma, com cuidado. No entanto, eu definitivamente estava vivendo.
Foi no dia que eu recebi a notícia que Seu José tinha morrido que percebi que tinha, enfim, me descomplicado. Depois de quatro longos anos, saber que eu voltaria a um cemitério não me apavorou e não me deixou deprimido com as lembranças. Eu simplesmente fui ao cemitério, mas com a mente vazia.
E quando encontrei Sali lá no enterro, adulta e madura, a dor que senti não foi tão grande. Foi quase como um pequeno incômodo em meu peito. Sem medo de meus sentimentos, me aproximei dela e parei ao seu lado.
— Você cortou o seu cabelo — comentei e sorri. — Eu gostei.
Ela suspirou quando ouviu minha voz e se virou para mim.
— Foi uma parte do processo de me descomplicar — ela respondeu e sorriu sem mostrar os dentes. — Você também está diferente.
— Pra melhor ou pior?
Ela entortou a cabeça.
— Essa é uma pergunta que merece reflexão. Pode ser melhor em alguns aspectos, pior em outros...
Afinal, as coisas não tinham mudado tanto. Ela ainda falava coisas sem sentido, ainda refletia por coisas bobas e ainda era linda.
— É triste a morte dele, não é? — ela comentou depois de um tempo em que ficamos em silêncio.
— Pelo menos ele vai encher o cemitério de vida — refleti.
— Com certeza vai — ela concordou e, depois de hesitar por um momento, me olhou. — Você não quer tomar um café comigo? Esse cemitério me fez lembrar que você ainda me deve uma história.
— A história que você não quis que eu te contasse para que nós tivéssemos mais um motivo pra sair de novo?
— Isso — ela sorriu.
— Essa é a hora de sair de novo?
— Sim.
Eu estava a pé, então fui de carro com ela. Foi uma situação diferente, algo que nunca tínhamos vivido antes. No começo, estranhei muito toda a situação, mas depois entendi que era importante perceber o quanto nós não éramos mais os mesmos. Quatro anos haviam se passado e isso é muito tempo para questões internas e externas.
— Como está sua família? — ela perguntou no meio do caminho.
Sali já não usava mais sua trança típica; seu cabelo estava da altura de seu ombro e estava meio rebelde, como se ela não o tivesse penteado. Parecia quase como um símbolo de liberdade; antes, usar trança era para ela quase como um símbolo de que tudo tinha que estar certo e organizado o tempo todo, mas naquele momento ela estava livre para deixar seu cabelo solto e tomando seu rumo próprio. Ela tinha um brilho diferente nos olhos também — mais confiante, mais brilhante. Sali parecia quase uma outra pessoa, exceto por sua voz e seu jeito de falar que permaneceram intactos.
— Eles estão bem — comentei. — O Rafa está em uma nova fase agora que chegou aos onze anos, ele está descobrindo coisas novas e tentando “largar” da infância, mas continua uma graça. Meus pais continuam juntos e ainda parecem apaixonados, apesar de tudo.
Ela sorriu.
— Eu sabia que eles iam continuar juntos. Tinha certeza disso.
— Às vezes acontece de dar certo — concordei e olhei para fora.
Lembrei de todas as nossas promessas e de como éramos apaixonados anos antes. Entre nós dois, seria possível acontecer? Se nós voltássemos a namorar, como seria?
— O que você está fazendo aqui em Irati? — perguntei.
— Eu vim para o velório de Seu José — ela respondeu. — Mas estava pensando em voltar a morar aqui. Eu sinto saudade.
Não pensei em quais poderiam ser as consequências se Sali voltasse a morar na mesma cidade que eu e notei esse detalhe como uma evolução. Eu realmente tinha seguido seu conselho e me descomplicado — mas ela teria seguido esse mesmo conselho? Estaria ela pensando em tudo como eu estava, de uma perspectiva distante? Ou ela tinha voltado para tentar mais uma vez?
Quando chegamos no estabelecimento, cada um de nós pediu um pedaço de torta e uma xícara de café. Conversamos sobre banalidades por um tempo, até que chegamos ao assunto que pairava silencioso e pesado entre nós.
— Guto... — Sali chamou minha atenção. Olhei-a. — Você seguiu meu conselho? Você se descomplicou?
Não consegui desvendar sua expressão séria.
— Sim, Sali, eu segui — murmurei e desviei meu olhar. — Eu demorei, é claro, mas então eu comecei a realmente tentar e a lutar por isso. Isso foi quando eu perdi todas as minhas esperanças em te rever — olhei-a finalmente e percebi que meus olhos tinham se enchido de lágrimas. — E, sabe, depois de muito tempo eu consegui. Eu olhei para tudo que nós vivemos e resolvi deixar pra trás e seguir apenas o seu último conselho: seguir em frente, viver.
Ela assentiu e tomou um gole de café, tentando digerir as minhas palavras. Depois de um pequeno momento de silêncio, ela sorriu. E não era um sorriso forçado, não tinha nenhum traço de mentira: era um sorriso real.
— Foi bom, não foi? O que nós vivemos.
— Foi muito bom — concordei sorrindo também. — As minhas melhores lembranças estão guardadas naquele ano.
— As minhas também — ela esticou a mão por cima da mesa e segurou na minha, apertando-a levemente. — Guto, você realmente me ensinou a arriscar, a descomplicar, a fazer o que eu quero — ela hesitou. — Eu nunca fiz Direito, como minha mãe desejava que eu fizesse; eu fiz Letras, que era o que eu queria fazer. Nesses últimos anos eu cresci tanto e foi por você, porque você me ajudou naquele ano que nós ficamos juntos. E eu queria te agradecer.
Suspirei e beijei a sua mão.
— Você também me ajudou muito. Se não fosse aquele primeiro texto, tudo poderia ter sido tão diferente. Mas, mesmo com as partes ruins, eu não queria que fosse diferente. Eu também queria te agradecer.
Ela alargou ainda mais o seu sorriso e se levantou para que nós dois nos abraçássemos. E então nós nos abraçamos — e foi delicado e sereno. Eu segurei em sua cintura e afundei meu rosto em seus ombros, assim como ela abraçou meu pescoço bem forte e também se apoiou em mim. Eu não sabia se aquele seria o nosso último ou o primeiro abraço de uma nova fase, mas eu não me importava. Meu coração estava leve e o dela também, eu podia sentir. Foi um abraço demorado, calmo e cheio de palavras não ditas, mas não teve nada de turbulento ou doloroso nele. Eu o considerei como o marco definitivo do dia em que eu entendi na pele o conceito de descomplicar.
Foi quando eu sorri para mim mesmo e senti tudo o que ainda restava de pesado dentro de mim ir embora finalmente. Mesmo que quatro anos tivessem se passado, que Sali não usasse mais suas tranças e que eu tivesse barba, estava tudo certo. Mudanças nem sempre são sacrifício; às vezes, elas são somente evolução.
Quando nos soltamos, Sali também sorria. E eu percebi que nós havíamos nos descomplicado juntos, naquele abraço, que simbolizou tudo o que tínhamos vivido e que ainda poderíamos viver.
— Então... agora você vai me contar a história do cemitério? — ela perguntou se sentando novamente.
Eu também me sentei.
E comecei a contar.
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