Juntos pelo acaso
25 Conversando
Notas iniciais
— Seu José, nós podemos ficar aqui dentro durante essa manhã? — perguntei ao zelador do cemitério assim que entramos nele. Sali segurava minha mão fortemente.
— Você não deveriam estudar, crianças? — perguntou ele, distraído com suas próprias unhas.
— É meio que por isso que queremos ficar aqui — murmurei. — Precisamos nos esconder. É um motivo que vale a pena.
Ele finalmente ergueu sua cabeça e olhou para mim. Não parecia muito inflexível, apenas curioso.
— Realmente vale a pena, menino Gustavo?
— Confie em mim.
Mesmo que com alguma relutância, o senhor assentiu e se afastou um passo para o lado a fim de nos dar passagem. Apertou a minha mão e a de Sali assim que passamos por ele e nos dirigimos para os túmulos mais para os fundos do cemitério. Sentei-me no chão e me apoiei em um túmulo e, quando Sali foi fazer o mesmo, a puxei para o meu colo. Ela não relutou.
— Senti sua falta — sussurrei, apertando sua cintura.
Ela suspirou e envolveu meu pescoço, se ajeitando melhor em meu corpo.
— Eu também, Guto — ela murmurou. — Você nem faz ideia do quanto.
Fechei meus olhos e hesitei.
— Então por que não me deu notícias?
Foi sua vez de hesitar. Enquanto ela se preparava para responder, eu me consolava com o cheiro adocicado de seu perfume. Tinha sentido tanta falta daquele cheiro e de sua presença. E, naquele dia, queria apenas ficar o mais perto o possível dela.
— Porque eu estava com medo — ela sussurrou com a voz falha. Abri meus olhos e percebi que ela tinha lágrimas nos seus. — Estava com medo de piorar tudo ainda mais.
— Piorar o que?
Ela respirou fundo.
— Deixa eu te contar desde o começo, desde que chegamos aqui no domingo passado — ela acariciou minha nuca. — Minha mãe me arranjou um emprego de meio período. Dessa forma, eu me mantenho ocupada o dia todo: de manhã vou para a escola, de tarde eu trabalho e de noite faço as tarefas que preciso fazer. Não tenho tempo para distrações. E percebi que não poderia ter você, porque nunca conseguiria de fato ultrapassar todas as barreiras e enfrentar minha mãe. Percebi que eu era fraca — ela fechou seus olhos e deixou as lágrimas escorrerem. E foi a primeira vez que eu a vi chorar por nós. — Então decidi afastá-lo, ignorá-lo, deixá-lo. Tirar você da minha vida agora para que não sofresse ainda mais no futuro.
— Você me fez sofrer da mesma forma com a falta de notícias, Sali — murmurei angustiado. — Talvez até mais.
— Eu sei — ela choramingou e apoiou a testa na minha, como eu costumava fazer com ela. — Mas eu não tinha força o suficiente para ouvir a sua voz procurando por mim e saber que eu não poderia vê-lo. É egoísta e um pouco dependente, mas é a primeira vez que eu me sinto dessa forma. Eu não sabia como prosseguir, Guto.
Suspirei e ajeitei-a de forma que eu pudesse olhá-la direto nos olhos. Segurei seu rosto entre minhas mãos e limpei suas lágrimas.
— É a primeira vez que você chora por nós — comentei deliberadamente.
Ela sorriu um pouquinho.
— É a primeira vez que eu amo alguém a ponto de chorar por essa pessoa — ela acrescentou como uma explicação.
Quis fechar meus olhos e fazê-la repetir aquela frase para sempre. Era a primeira vez que ela chorava por outra pessoa porque era a primeira vez que ela amava alguém. E eu era o sortudo escolhido para ser amado por Sali.
— E é por isso que está tão perdida — completei com um sorriso melancólico, em vez de pedir para que ela repetisse a frase. Ela desviou o olhar. — Mas eu estou disposto a te ajudar. Adoraria te situar novamente em toda essa situação confusa.
Ela riu por entre as lágrimas.
— E eu adoraria que você me ajudasse, Guto — ela enterrou seu rosto no meu pescoço. — Acho que você seria a pessoa ideal.
Percebi que não sentia raiva dela e que não precisava sentir. Ela apenas estava experimentando toda uma vida nova, um sentimento novo e não sabia como prosseguir. Estava vivendo o amor avassalador dos livros que lia, mas não sabia como lidar com ele. E eu somente precisava ajudá-la.
— Eu também te amo — sussurrei contra seus cabelos. — Como nunca amei ninguém.
Pude imaginar um sorriso em seus lábios.
— Eu sabia que valia a pena esperar por isso.
Em seguida, ela levantou a cabeça de novo e encostou seus lábios nos meus. Suavemente. Parecia apenas um lembrete de que ela estava lá comigo e que eu não deveria deixá-la escapar. E eu realmente não deixaria. Por isso segurei em sua nuca e deixei-a presa ao meu corpo, não dando-a espaço para se libertar de mim. No entanto, ela não parecia incomodada. Sorria enquanto eu roubava diversos beijos seus.
E eu amava tanto o seu sorriso…
— E agora como faremos para nos encontrar? — ela perguntou depois de alguns minutos. Brincava com a gola de meu moletom.
— De noite. No cemitério. O que acha?
Ela demorou um pouco para responder.
— Acho arriscado.
— Mas é válido?
Ela ergueu seus olhos e sorriu para mim.
— A ideia mais válida que você já me sugeriu.
Espelhei seu sorriso e dei um singelo beijo em seus lábios.
Ela era tão linda e incrível. Naquele momento, foi como se não tivéssemos nos afastado. Como se ela não tivesse tido a ideia da separação. Como se nada pudesse nos atrapalhar, mesmo que tudo conspirasse contra nós.
— O amor sempre vence — murmurei, entrelaçando nossos dedos.
— Nem sempre — ela sussurrou. — Mas sempre permanece vivo no coração de quem ama. Em Eleanor & Park, o amor não venceu as dificuldades, mas nunca morreu no coração deles. E é essa a eternidade do amor.
— O nosso é mais eterno que isso. O nosso vencerá todas as dificuldades.
— Realmente, se depender da sua perseverança…
Ri e abracei-a mais forte.
— Eu não vou te deixar escapar, Sali. Não tão cedo. Não sem tentar de todas as formas.
Ela suspirou e se afastou para me encarar com ternura.
— Posso te pedir uma coisa?
— Qualquer coisa.
Ela sorriu melancolicamente.
— Eu sou um pouco difícil de lidar. Então nunca desista de mim, tudo bem? Sempre tente de todas as formas que conseguir imaginar.
Acariciei seu rosto.
— Por que diz isso?
— Porque as pessoas costumam desistir de coisas que não são fáceis.
— Eu não desisto de coisas difíceis — murmurei. — E jamais vou desistir de você. Eu prometo.
Ela me abraçou bem forte. O abraço mais forte que eu já tinha recebido até então. O abraço mais cheio de amor.
— Obrigada.
— Não há de quê, Senhorita Dificuldade.
Ela riu.
— Vai precisar de muito treino.
— Estou disposto a treinar.
— E de muita coragem.
— Isso eu já tenho.
— Então você está preparado.
E eu realmente estava.
Passamos o resto da manhã simplesmente conversando banalidades na companhia um do outro. Era tão agradável simplesmente poder ficar sentado ao lado de Sali e poder conversar com ela. Sempre tínhamos tantos assuntos, infinitos deles, esperando para escaparem por nossas bocas. Conseguíamos conversar desde que nos conhecemos e nos comunicávamos apenas por redes sociais até aquele momento, enquanto ela deitava sua cabeça no meu colo e me contava sobre tudo o que tinha acontecido na minha ausência.
— É estranho trabalhar — ela comentou. — Mas eu estou bem feliz em poder ter meu próprio dinheiro ao fim do mês, sabe? Me dá um pouco mais de autonomia, independência.
— Eu acho legal trabalhar — falei enquanto brincava com a ponta de sua trança. — Só é ruim porque assim você fica mais longe de mim.
— Não vou mais ficar, então pode tirar esse biquinho de menino mimado da sua boca — ela deu um tapa fraco na lateral de meu rosto. — Aliás, deveria aproveitar pra arranjar um emprego agora também. Assim nós dois teremos nossa própria independência.
— Sabe que não é uma má ideia? De noite eu posso até levar um cachorro-quente no cemitério porque terei meu dinheiro para comprar. Não morreremos de fome!
— Bobo — ela riu. — Mas trazer cachorro-quente não é tão ruim assim.
— Óbvio que não! E ainda com duas vinas.
— Vinas? — Sali gargalhou e até se sentou, apoiando-se em mim. — Você é mesmo do interior do Paraná, né?
— Nascido e criado aqui — assenti, abraçando sua cintura. — Por quê? Você não fala vina?
— Nunca falei. Sempre gostei mais de falar salsicha. Vina é esquisito.
— Você que é chata — resmunguei, fingindo estar irritado.
— Realmente, vai ter que aprender a me aturar, Gustavo. Achou que seria fácil?
Suspirei e fechei meus olhos a fim de fazer uma encenação em torno da frase de efeito que estava prestes a falar.
— Deus nunca disse que seria fácil…
— Ele simplesmente prometeu que valeria a pena — Sali completou com um revirar de olhos. — Amo essa frase, mas ela é muito clichê de facebook. Poderia ter apelado para outra menos conhecida.
— Alguma coisa mais “tumblr”?
— É — assenti. — Alguma coisa mais dark ou intensa ou inédita.
— Prometo que vou pesquisar.
— Pesquise bastante. Você está precisando de um repertório novo.
— É que faz tempo que eu não participo da vida de internauta, sabe? Não sei quais são as frases que estão usando.
— Acho que eu também não sei — ela entortou a cabeça. — Mas de qualquer forma você vai ter que aprender. Sabe, o amor não é tão fácil assim. Precisa se esforçar para me conquistar com frases de autores famosos que eu gosto ou dos mais rebuscados que eu nunca consegui passar da página cinco e que sempre me admiro quando alguém consegue.
— Qual autor famoso?
— John Green e Nicholas Sparks, óbvio! “Alguns infinitos são maiores que os outros” ou, sei lá, “estava apaixonado, e a sensação era ainda mais maravilhosa do que eu podia ter imaginado”.
— Agora que você me disse essas frases não vou poder usá-las — reclamei.
— Não mesmo. Eu disse que tinha que se esforçar.
Revirei meus olhos e ri.
— E que tipo de autor rebuscado que eu poderia citar?
— Shakespeare é uma boa opção. Eu não consegui ler Romeu e Julieta. Li as dez primeiras páginas e as dez últimas e o resto acreditei no que os resumos diziam.
Sorri e pigarreei, lembrando-me de uma frase de Romeu e Julieta que tinha visto uma vez.
— “Estas alegrias violentas têm fins violentos. Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora. Que num beijo se consomem”.
— Foi um pouco apelativo, mas bem esforçado — ela admitiu, sem perder o ar de brincadeira. — Você conseguiu me conquistar por ora, Gustavo.
— Consegui mesmo, Sabrina? Salina, digo.
— Salina — ela sorriu nostalgicamente e se encostou em mim. — Desde o primeiro dia.
— E espero que por muitos.
Ela assentiu.
— Sim. Agora será por muitos.
Com um sorriso sereno no rosto, fechei meus olhos e me permiti relaxar com Sali apoiada em mim. Não precisava falar mais nada. Estava imensamente confortável com o silêncio estabelecido e com a ideia de que poderia ter Sali por muitos dias ainda. Por vários dias…
— Amor — a voz de Sali murmurou e senti seu toque em meu rosto. — Guto, nós temos que ir! Está quase na hora!
Abri meus olhos lentamente, tendo dificuldades em focalizar. Estava muito claro.
— Na hora do que?
— De ir para casa — ela parecia agoniada. — Você cochilou. Nós precisamos ir embora.
Franzi meu cenho e olhei ao redor, tentando entender o que ela dizia. Ao meu redor havia somente túmulos e eu senti um instante de confusão, antes de me lembrar do que tínhamos feito. Nós gazeamos aula e agora temos que voltar para casa para que ninguém desconfie.
A partir do momento em que entendi o que estava acontecendo, levantei-me em um pulo e puxei-a comigo, contornando os túmulos com habilidade. Despedi-me rapidamente de José e corri com Sali através da cidade, tentando chegar o mais rápido possível ao seu colégio. Apesar do risco de sermos descobertos, ela ria ao tentar me acompanhar.
— Ai, Guto — ela estava ofegante quando a encostei no muro lateral do colégio onde estudava. Um sorriso iluminava seu rosto. — Nunca pensei que pudesse fazer isso com alguém.
Sorri.
— Mas valeu a pena, não? — falei enquanto tentava arrumar sua trança bagunçada.
— Mais do que eu podia imaginar — ela concordou e puxou meu rosto para o seu em um movimento rápido para me beijar. — Então… eu acho que nos vemos de noite.
— Com certeza — assenti. — Passo na sua casa à meia-noite.
— Isso parece um pouco coisa de príncipe encantado — ela murmurou, acariciando meus braços. — Mas o encanto começará à meia-noite, não terminará.
— Sim — concordei, pressionando-a no muro. — Espere para o encanto começar.
Ela sorriu antes de eu beijá-la lenta e apaixonadamente. Não era um beijo de adeus. Daquela vez, não.
Afastamo-nos quando o sinal da última aula tocou. Sali suspirou e tirou o meu moletom, no entanto, em vez de me devolvê-lo, guardou-o em sua mochila. Depois sorriu para mim.
— Assim eu posso sentir seu cheiro quando não estivermos juntos — ela justificou e se afastou em passos saltitantes.
— Vai dormir abraçada com ele? — provoquei-a.
— Sabe que não é má ideia — ela olhou por cima do ombro e sorriu.
E eu me senti imensamente aliviado. Estava tudo bem entre nós, melhor do que jamais tinha sido. Podíamos vencer tudo. Estávamos dispostos. Porque o amor triunfava; não sempre, mas se lutássemos o suficiente poderíamos conseguir.
E eu sentia, naquele momento, que o amor triunfaria.
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