Juntos Enquanto Pudermos
28 Sem Rumo
Notas iniciais
Eu andava de lá para cá em frente aos portões. Duas semanas se passaram desde a expulsão de Raú da prisão. Judith estava em meu colo, perdida em um sono profundo e calmo. Eu a balançava lentamente enquanto caminhava. Eu observava atentamente seus olhos miúdos que constatavam com suas bochechas grandes e rosadas. Judith já estava maior e mais pesada, seus dentes já haviam nascido e ela já se sentava sozinha em seu berço improvisado.
Um movimento atrás de mim indicava que alguém se aproximava. Eu não me virei, pois já sabia de quem se tratava somente em ouvir os passos. Após alguns momentos ouvi sua voz.
–Como vão minhas “bravinhas”? -Daryl perguntou cobrindo meus braços com a suas mãos grandes e firmes. Em seguida, senti seus lábios quentes e molhados e sua barba rala e pontuda roçando-me o rosto ao beija-lo.
–Ela está dormindo como um anjo. –eu disse sorrindo ao fitar seu rosto e seus olhos azuis. Ele sorriu de volta.
–Até que você leva jeito pra coisa, magrela.- disse-me novamente. Eu dei risada.
–Eu sempre gostei de crianças... é uma pena que eu não possa ter uma. –eu divaguei e meu semblante entristeceu.
–Por que acha isso? –Daryl perguntou e sua voz estava baixa e empática.
–Parece obvio, não é mesmo?- eu disse fitando-o. –Quero dizer... eu sempre sonhei que teria uma profissão respeitável, encontraria o cara perfeito e depois teria filhos, um, dois, quantos viessem e na férias viajaríamos pelo mundo como uma família feliz. Eu sei que é um sonho bobo e infantil mais era o que eu queria para mim...
–É claro que não é um sonho bobo. -disse ele. –Agora me diga... você não quer mais isso?
–É claro que sim, Daryl! Eu quero muito, mas... Olha só o mundo em que vivemos? Não restou mais nada...
Ficamos em silencio por alguns momentos. Eu perdida em meus pensamentos. Então, comecei a imaginar meu futuro ao lado de Daryl. E se por acaso tivéssemos nos encontrado em outra época, teríamos nos atraído? E se esse inferno passasse, será que Daryl ainda ficaria comigo e o meu sonho, será que se realizaria?
Então me peguei imaginado:
“Eu em casa, de preferencia em um lugar verde e com muitos parques em volta, segurando uma menina tão linda como Judith mais que tivesse os traços e os olhos do pai... Daryl chegando em casa num dia de sol, após uma jornada de trabalho. Eu e nossa filha o aguardando de braços abertos, beijos e abraços.”
–E você? –eu perguntei para ele. Saindo de meu sonho, pois era quase impossível que se realizasse. –Como você imaginava seu futuro antes desse inferno começar? –eu perguntei.
–Eu? Bem... nunca me peguei pensando sobre isso, mas... eu trabalhava arrumando motos antes disso começar e não tive muito tempo para pensar em futuro e nem nada. Mais no fundo eu sempre quis... sei lá. Sabe... Mais se um dia eu chegasse a me juntar com alguém com certeza seria diferente do que foram meus pais. Sabe? –ele me perguntou como se algum pensamento lhe ocorresse subitamente. –Agora que te conheci posso até imaginar um futuro tipo... eu e você juntos com alguns pirralhos correndo soltos e sujando a casa de barro.
Eu olhei para ele ruborizada. Daryl imaginava eu junto com ele e com filhos? Meus olhos se encheram de lagrimas e minha garganta arranhou. Eu sorri-lhe e percebi que Daryl estava mais envergonhado do que eu. Ergui-me nas pontas dos pés e lhe dei um beijo no rosto.
–Não sei o que dizer, Daryl. Mais quero lhe agradecer.
–Por quê?
–Por você aparecer em meu caminho e fazer sentir-me viva novamente. Você é tudo para mim agora. Tudo que me resta.
Ele ficava cada vez mais sem graça mais eu precisa mostrar para ele mesmo que com palavras humildes o quanto ele significava para mim. Então nos beijamos desajeitadamente, pois Judith ainda estava em meu colo e não podíamos nos aproximar muito para não machuca-la. A menina acordou chorando com a nossa movimentação e eu comecei a balançá-la novamente para que se acalmasse.
–Calma “bravinha”. — disse Daryl passando a mão pelos cabelos aloirados de Judith. –Vamos coloca-la no berço e depois temos que verificar as cercas. –disse-me Daryl explicando que ele foi até ali falar comigo por pedido de Rick. Nós deveríamos conferir todas as entradas e saídas da prisão e as cercas atrás de falhas. Isso levaria o fim do dia inteiro.
Eu assenti e juntos seguimos para o pavilhão onde a menina seria cuidada por Beth que devia estar em companhia de um certo jovem afobado, pois esse era o motivo de me encontrar na função de babá, -não que eu não estivesse gostando, na verdade adorei cumprir tal função e a faria mais vezes se não fosse responsável pela horta.
* * * * * * *
Meia hora já se passara desde que começamos a verificação. Já haviamos conferido todo o perímetro das entradas e grades do lado frontal da prisão e agora estávamos andando pelos corredores internos.
Eu e Daryl estávamos armados, mas não havia com o quê se atentar. Caminhávamos despreocupadamente quando ouvimos um som gutural vindo da sala de maquinas. Daryl elevou o indicador aos lábios pedindo-me silencio. Eu assenti e apanhei minha arma, mas deixei que Daryl fosse à frente.
Ele abriu a porta que estava entreaberta e entrou, eu logo atrás. Um andante com o maxilar solto pulou por sobre nós. Daryl o matou e quando a criatura caiu com um baque no chão ele olhou preocupado para mim.
–Temos problemas! Alguma passagem está aberta. –em seguida saiu sério e caminhou pelo corredor. –ele deve ter vindo pela porta número cinco da ala norte do pavilhão C.
Eu assenti preocupada e segui-o. Estávamos próximos ao portão três, então deixei que Daryl fosse à frente enquanto eu ia revistando o numero três e quatro.
–Marry! –ouvi sua voz no momento em que conferia o cadeado da porta quatro. Após certificar de que estava em ordem segui sua voz.
Segui o corredor e cheguei à porta cinco que estava aberta, olhei para a tranca e vi que estava arrombada. Atravesse a porta e me vi no pátio dos fundos. Daryl já estava lá observando as grades e eu segui seu olhar: a cem metros estavam às grades que deveriam estar com correntes e tabuas. Meus olhos seguiram por sua extensão atrás de falhas, então, em linha reta com a porta cinco reparei que as tabuas estavam espalhadas pelo chão e a havia uma abertura muito grande na grade feita com cortador de ferro.
–Fomos sabotados. –ouvi Daryl dizer. –Aquele filho da mãe esteve aqui e cortou as grades. Marry corre lá no pessoal, havia o Rick e trás cordas e correntes. Vá rápido.
Eu assenti e me preparei para voltar. Olhei para ele.
–Mais e você?
–Vou segura-los aqui para que não entrem. –ele respondeu, mas já era tarde demais...
Um enxame entrou pela abertura e outros tantos vieram do outro lado. Parecia que o filho da mãe do Raú fizera vários buracos na grade. Não dava tempo de fazer mais nada. Eu e Daryl abandonamos o plano e retrocedemos pela porta enquanto atirávamos contra os mais próximos.
Entramos e encostamos a porta e como não havia como fecha-la jogamos alguns entulhos contra ela e corremos. Olhei para trás e vi que o obstáculo foi inútil, pois eles subiam uns sobre os outros e invadiam com facilidade, atraídos por nosso cheiro.
Então de varias portas saiam em dezenas. A prisão fora sitiada antes que pudéssemos fazer algo. Já deveria haver vários seguindo pelos pátios da frente.
Entramos no pavilhão D, o que a gente ocupava, gritando.
–Zumbies, zumbies! Estamos sendo atacados!
Rick e Glenn correram para o pátio onde havia um tanque cheio de armas e começaram a distribuí-las pelos habitantes da prisão.
–Beth, Carl! –Rick os chamou. –Arrumem as coisas e peguem a Judith. Se não conseguirmos conte-los eu quero que vá para o carro e nos esperem lá.
–Mais eu quero ajudar! -Gritou Carl. Não havia tempo para conversar, Rick deu uma metralhadora para ele, relutante.
Beth correu para dentro da prisão para buscar Judith. Timoti gritou:
–Eu vou pegar as mochilas e a comida! Encontro vocês no carro.
Hershel, Pool, Maggie e Carol apareceram pela porta e correram para o tanque e pegou cada qual, uma arma. Postaram-se em linha reta e aguardaram a chegada dos andantes.
Kari pegou seu filho Dean no colo e correu para um dos carros.
Não demorou muito e os andantes começaram a aparecer por toda a volta. Os mais rápidos que haviam chegado primeiro eram abatidos com facilidade pelos tiros. Contudo, após matarmos cerca de vinte, trinta, não tinha como contarmos no momento, os grupos que iam chegavam eram compostos por mais e mais deles. Nossa contenção estava falhando e muitos deles começavam a chegar perigosamente perto.
Beth saiu pela porta com Judith de pé em um braço que pendia uma sacola e na outra mão uma pistola preta. Timoti apareceu em seguida com inúmeras mochilas penduradas a suas costas e nos braços. Ele seguiu Beth para o carro mais próximo e abrindo a porta, colocaram Judith no banco de trás e as mochilas no porta-malas e se postaram de pé em volta do carro dando-nos cobertura. Kari já estava lá dentro chorando com o filho nos braços. Ela tampava seus ouvidos para que ele não ouvisse os tiros.
Andressa e Alexia saíram com mochilas nos braços em direção ao carro vermelho depois voltaram para nos ajudar.
Enfim, todos nós estávamos ali atirando sem parar. Fazíamos pilhas de andantes, mas os que estavam atrás passavam por cima e continuavam a avançar. Então três andantes saíram de dentro do pavilhão que ocupávamos, foi aí que percebemos que não havia esperanças. Eles tomaram a prisão inteira.
Como nós estávamos posicionados na entrada, os três que saíram quase nos atacaram, mas por sorte, foram mortos por Michonne que saiu pela porta da qual os andantes haviam saídos. Com sua espada em punho, decepou-lhe as cabeças. Rick olhou para ela e perguntou gritando para se fazer ouvir no meio dos tiros.
–O que houve?
–A prisão foi tomada. Eles estão por todos os lados. Não daremos conta. –ele respondeu se aproximando.
Rick assentiu com uma expressão infeliz.
–Debandar! –gritou para nós. –A prisão foi tomada, vamos embora para os carros! –Depois se virou para Michonne. –Abra os portões quando estivermos prontos.
Ela concordou e correu para o portão.
Alguns de nós, ao ouvir a ordem de Rick, começaram a correr em direção aos carros e ligar os motores. Mas os outros, no que me incluía, não obedecemos e continuamos atirando. Eu ouvi Maggie dizer:
–Mas Rick, aqui é nossa casa. Para onde nós vamos?
–Para um lugar seguro. Agora vá e leve o Hershel. –Rick respondeu. –Todos “pro” carro, AGORA!
Então Daryl puxou minha mão.
–Vamos Marry. –eu concordei e começamos a correr para o estacionamento onde a maioria já estava. Daryl pôs a besta nas costas e montou sobre a moto e ligou o motor. Eu subi atrás e ao invés de seguirmos para o portão, nós voltamos para onde estavam os que ainda resistiam e começamos a dar cobertura.
Rick ainda deu algumas ordens e puxou Carl para o estacionamento. Glenn e os outros também o seguiram.
Chegamos todos ao portão que foi aberto por Michonne. O primeiro carro, o cinza de quatro portas, parou na entrada e abriu a porta para que ela entrasse. Depois saiu cantando pneu. A Picape vermelha logo atrás seguida da Kombi azul marinho. Eu e Daryl fomos os últimos a sair com a moto. Ao atravessar o portão, olhei para trás.
O pátio já estava ocupado por eles. De dentro do pavilhão, outrora nosso lar, saía dezenas de andantes, todos loucos para por a mão e os dentes em nós. Não pude evitar uma lagrima que escorreu de meus olhos. Estava tudo acabado. Partíamos sem rumo pela estrada. Não tínhamos mais casa. Não tínhamos mais horta. Quase todos os nossos pertences ficaram para trás. Não tínhamos mais nada além de uns aos outros.
Eu abracei as costas largas de Daryl e fechei meus olhos. Deixei-me levar pelas emoções. Senti o vento batendo em meu rosto enquanto seguimos seja lá para onde o nosso destino e a sorte nos levassem.
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