Juntos Enquanto Pudermos
3 Primeira noite
Notas iniciais
PRIMEIRA NOITE
Eu concordei meio sem saber o que dizer, estava entorpecida e cansada. Então me encaminhei para o banheiro e antes que atingisse o fim do corredor, ouvi o som inconfundível de água caindo e soube que havia alguém usando o chuveiro.
Eu esperei na porta afinal, mesmo tendo uma leve ideia de quem poderia estar lá. Enquanto esperava recordei-me das horas que antecederam minha chegada ali e involuntariamente me peguei pensando nele, isso mesmo: Daryl – não sei o porquê, mais aquele homem bruto e agressivo mexeu comigo e embora naquele momento eu negasse até a morte, eu sentia falta da presença dele. Não sei explicar, mais... Eu sei que faz poucas horas só que estava ali na prisão, mais aquele jeito de pegar meu braço... Mais olha só o que eu estou dizendo? Nem pensar o quero perto de mim. Eu devia estar carente apenas ou então foi à insolação que só teve efeito agora. Esqueça-o Marry, AGORA!
–Falando sozinha?
Sobressaltei-me. Não achei que tivesse pensando em voz alta e nem tinha percebido que o ruído do chuveiro havia cessado. Daryl estava parado em pé e descalço na entrada, estava envolto por uma toalha branca da cintura para baixo. Meus olhos foram atraídos para seu peitoral que estava coberto de gotículas d´água. Seus cabelos com fios ligeiramente compridos estavam colados ao rosto. Respirei fundo e saí de meus devaneios.
–Não. Só pensei um pouco alto. –respondi enquanto ele me olhava desconfiado como se eu tivesse enlouquecido. — Já terminou? –perguntei indiferente.
Ele tomou a toalha de minhas mãos e passou por seus cabelos úmidos, secando-os.
–Já sim.
Seguiu-se um silencio incomodo enquanto ele ainda secava os cabelos e eu o observava.
–O chão ta molhado, não vai cair e quebrar algum osso. Já temos muitos problemas para resolver sem precisar de mais um.
–Não se preocupe, eu tomo cuidado. –disse desviando dos olhos (e corpo) dele.
–Eh! Eu percebi, lá fora. –disse ele debochado empurrando a toalha de volta para mim e se afastando pelo corredor.
Sabe aquilo que eu havia sentido por ele há pouco? Que estava sentindo sua falta? Naquele momento eu não estava mais.
–Grosso! Arrogante! –resmunguei com meus botões.
Quando me certifiquei de que ele estava bem longe, entrei no banheiro reparei que havia vários chuveiros dispostos um ao lado do outro e não tinha divisórias. O chão era liso e escorregadio. Dando uma olhadela ao redor para verificar se tinha alguém me espionando. Tirei a roupa.
Estava há tantos dias sem tomar banho que tive dificuldades de tirar a calça jeans. Soltei meus cabelos negros, embaraçados e oleosos de sujeira e quase pulei de alegria ao ver que tinha pelo menos uns três frascos de shampoo. Lavei-me o melhor que pude. A água fria não me incomodou muito, pois já estava acostumada a tomar banho nos rios da cidade. Após meia hora, saí do chuveiro e peguei a toalha para me secar. Então percebi que ela estava praticamente ensopada. Respirei fundo e vesti a camisa marrom com botões na frente e de mangas rasgadas que Maggie me trouxera. Era enorme, chegando à metade das minhas coxas, tirei o cinto da calça que usava antes do banho e passei-o pela cintura.
–Pronto — disse a mim mesma- ficou melhor.
Peguei a minhas roupas e a toalha e fiz exatamente o que Maggie havia dito.
Comi uma sopa enlatada e levemente morna, que Carl havia preparado e fui me juntar aos outros, lá dentro do pavilhão em uma cela um pouco maior que as outras, afinal estava escuro e Carl disse que não era bom ficar ao lado de fora no anoitecer.
Ele me conduziu até uma cela onde estava quase todo mundo; Carol, Maggie, Gleen, Rick, Daryl, Hershel, Judith, Beth e Michonne.
Eu me aproximei timidamente motivada por Carl.
–Não tenha medo. –disse ele.
–Oi. Estar melhor? – Rick me perguntando soando profissional.
–Sim. – respondi. –Minhas pernas ainda doem mais se recuperam.
–Bom. –disse apenas.
Eu me preparei para agradecer a eles por tudo que havia feito por mim.
–Gente, eu agradeço muito mesmo o que vocês fizeram. Eu...
–Eí! Essa blusa é minha.
Olhei para a pessoa que havia me interrompido. Era ele de novo; Daryl. Houve um momento de silencio constrangedor, eu olhei para Maggie em busca de socorro, afinal foi ela que me dera à blusa justo dele para vestir.
–Fui eu que a emprestou, algum problema?
Antes que Daryl pudesse responder eu intervi.
–Se você a quer de volta te devolvo agora. –disse começando a abrir a fivela do cinto e houve uma movimentação quase cômica no local.
Rick desesperou-se, tampando os olhos de Carl e Beth os olhos de Hershel.
–Você não ta pensando em fazer isso aqui, não é mesmo? –disse ele vermelho de constrangimento.
–Para de ser chato, Rick! Deixa a magrela tirar a roupa. –Disse Daryl me olhando descaradamente, como se uma mulher tirar a roupa em sua frente fosse à coisa mais normal do mundo.
Então me lembrei daquela expressão em outro rosto. Congelei onde estava e lagrimas me escaparam dos olhos. Daryl ficou atordoado.
Eu corri para fora. Não queria me lembrar daquilo, mais já que lembrei tentei esquecer. Ao chegar ao lado de fora, me deparei com o claro da lua a fitar-me. Aproximei-me das grades e fiquei a observar aqueles demônios andantes. Passos vieram em minha direção. Não me preocupei, pois sabia que estava segura.
–Ta pensando em atravessar a grade?
–Daryl. –eu disse indiferente sem olha-lo. –Veio buscar sua camisa?
Ele riu.
–Você é meio doida, né magrela?
Eu me virei para ele.
–Porque você sempre me chama assim? A gente se conhece apenas a quatro horas.
–Eu já vi o bastante para imaginar o resto. – ele riu lascivo.
Eu não respondi, olhei para além das grades para os andantes lá fora e vi o quanto nós éramos pequenos em meio à imensidão.
– Porque saiu de lá chorando? – ele perguntou depois de uma pausa.
–Quem disse que chorei. –eu disse me afastando das grades e secando os últimos vestígios das lagrimas com o dorso da mão.
Comecei a caminhar em direção ao pavilhão, então senti-me puxada com violência e percebi que Daryl havia me agarrado pelos braços com força de modo que não pude me soltar. Ficamos em um silencio prolongado enquanto ele me virava para si e me analisava: odiei a lua naquele momento, pois sua luz iluminou os filetes que trilhavam minha face e que eu negava veemente.
–Não está eh? Então o que é isso no seu rosto, enfeite? –perguntou ríspido.
–Porque você não me deixa em paz?! – eu disse tentando me soltar, Daryl me apertou e puxou-me para mais perto de si, meio que me chaqualhando. Nossos rostos ficaram muito próximos e nossos corpos colados. Pude sentir seu batimento cardíaco e ouvir sua respiração rápida e profunda.
Ele me fitou com aqueles olhos azuis e estreitos. Há muito tempo não via olhos tão belos como os dele.
–Fala pra mim, o que te deixou daquele jeito?
Eu não respondi.
–Foi por minha causa, hem?
–Não! –eu afirmei convicta, pois era a mais pura verdade.
–O que é então? –ele insistiu.
Eu me soltei, pois ele afrouxara o aperto. –Você não entenderia...
–Experimenta!
Eu fechei os olhos e respirei fundo, não queria falar daquilo mais se não contasse para ele, com certeza não me deixaria em paz. Afastei-me para longe de seu alcance e massageei meus braços que devia estar vermelhos pelo aperto.
–Você já matou uma pessoa? –lhe perguntei.
–Todo dia.
–Não, não um andante. Eu digo... um vivo mesmo.
Ele pensou um pouco.
–Não. Acho que não.
Fiquei em silencio por um momento.
–Acho que eu já. Hoje de manhã tinha um homem vagando por essas bandas, acho que assim como eu, ele foi atraído pelo motor do carro que você arrumava.
Daryl involuntariamente olhou para o carro estacionado a poucos metros.
–Ele me viu. –continuei e bom, não consegui terminar a frase, minha garganta arranhava.
–Ele tocou em você? –ele perguntou em sua voz apenas audível.
–Não, eu não deixei- eu atirei na perna dele e depois o pendurei para que um dos andantes o pegasse. — se ele tiver sorte deve estar vivo ainda.
–Onde foi isso?
–Há uns cem metros a leste, eu acho.
–Olha, se você quiser amanhã gente vai até lá pra ver se ainda está vivo. Eu vou com você ou o Glenn.
–O.K. -concordei, cabisbaixa. –Mais e se ele ainda estiver vivo, o que faremos?
–Eu prefiro terminar o serviço que você começou mais prefere mantê-lo vivo, eu meto uma flecha entre as pernas dele e depois o largamos por aí, bem longe da prisão.
Eu sorri. A maneira como dizia era muito banal e engraçada. Um pouco de minha raiva destinada a ele sumiu, embora eu não admitisse naquele momento.
–Você é engraçado. –eu lhe disse, percebendo que ele havia ficado envergonhado. A tensão do momento dissipou gradativamente e eu comecei a me sentir mais relaxada. Então uma segunda pessoa se aproximou de nós.
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