Juntos Através da Noite
2 Capítulo 2
Notas iniciais
XD
Capítulo 2
A eficiência dos empregados se mostrou mais uma vez nas horas seguintes, quando todas as nossas coisas mais necessárias foram empacotadas e colocadas no carro que nos levaria até o nosso jato particular. Tínhamos grana.
Muita grana.
Minha família costumava ser um grupo de pessoas com o mesmo nome que estavam espalhadas pelo mundo. Isso mesmo, costumava, porque agora eram somente nós os Romenos.
Os Dashkov, meus Dashkov, estavam por trás de um número grande de empresas multinacionais, monumentais esquemas criminosos – a maioria bem desconhecida da polícia internacional – e órgãos públicos de vários países. Eram políticos, embaixadores, magnatas do mercado de ações e outras coisas pomposas como essas.
Mesmo desprezando o irracional acúmulo de dinheiro nas mãos de poucos “felizardos”, eu tinha minha cota de benefício. Toda a cota de benefício que um jovem que acaba de completar dezoito anos pode ter, e isso não me fazia feliz.
Minha vida parecia vazia, eu me sentia vazio, desde o começo.
Não vou contar como foi a minha infância no Castelo Dashkov, só saiba que foi não uma infância feliz. Poderia ter sido para uma criança que gostasse de morar em lugares grandes, escuros e macabros como a própria morte, ou para uma que não se deixasse abater por eles, como os meus irmãos.
Ivan era o mais velho, já tinha seus 25 anos. Depois vinham eu e Dimitri, com dezoito, e por último Nadja, com catorze. Dentre os quatro, o único que apresentava problemas sérios para gostar da própria vida era eu.
Estranho. Depois de tudo eu vejo como as coisas mudaram, só é uma pena que tanta coisa tivesse que acontecer para que eu passasse a dar valor aos meus pulmões cheios de ar.
Quem dera tivesse sido somente o amor, quem dera tivesse sido somente ela.
***
— Mamãe não está – falou Nadja quando eu bati na porta do seu quarto.
Ela estava andando de um lado para o outro, fazendo seus cabelos loiros dançar enquanto ia socando coisas aleatórias na mala, ajudada por duas empregadas.
— Para onde ela foi?
Ela levantou os olhos para mim e pensou por um momento.
— Encontrei com Ivan há quinze minutos, ele disse que sairia com ela para a cidade, tinha algo a ver com a compra de ações ou qualquer coisa assim.
Revirei os olhos.
— É bem o estilo dela. Vamos nos mudar para o outro lado da Europa fugindo da morte e ela nem ao menos vai se despedir...
— Eu não me importo com isso – falou enquanto apertava vestidos de qualquer jeito no fundo da bolsa – Já deixei de me importar há algum tempo, e acho que você deveria fazer o mesmo.
Fiquei encarando por um momento até que me lembrei que tinha minhas próprias coisas para arrumar. Não demorou muito, em uma hora tudo o que eu julgava importante estava pronto. Exceto minha Harley, ela iria em outro voo mais tarde.
Eu adorava andar de moto, não iria me separar de uma Harley Davidson, mesmo que tivesse dinheiro para comprar mais dez delas. Quando disse isso no jardim, depois da arrumação, Dimitri me deu total apoio.
Estávamos esperando Antoine, o servo leal do meu pai, que iria nos vigiar na Itália. Quando ele chegasse, embarcaríamos na nossa jornada pessoal rumo ao desconhecido. Que maravilhoso.
Dimitri e eu nos colocamos na sombra de uma árvore para nos esconder do sol da manhã e ficamos brincando com Baskerville, nosso labrador negro. Eu o chamei assim em homenagem ao livro de Sherlock Holmes e ao mangá Hellsing. Ler era uma das coisas que me mantinham respirando naquela época.
Meu irmão se retorcia na cadeira de rodas para alcançar as patas de Baskerville e levantá-las do chão.
— O que você achou dessa coisa de vingança? – ele perguntou, com o tom brincalhão e inocente que sempre permeava a sua voz.
— Muito estranho, não acredito que depois de tanto tempo alguém iria colocar sua vida em risco para cumprir uma ameaça boba dessas.
— Espero que não tenha muita lama na Itália...
— Que comentário aleatório DD, e bem idiota também.
Ele riu. Estava sempre rindo e sendo feliz. Nem o acidente que o deixou paralítico dois anos atrás conseguiu sufocar a fonte de alegria que brotava dentro dele.
— É sério, as rodas ficam melecadas e eu sempre sujo as minhas mangas quando a terra está molhada. Mas quanto ao nosso problema, eu também acho estranho, na verdade, acho que alguém que tem interesse em nos matar está usando essa história como fachada para se esconder.
Eu já tinha pensado nisso, e Dimitri entendeu que eu concordava com ele. Aquela coisa meio telepática que alguns gêmeos têm um com o outro.
— O problema é descobrir quem é – ele continuou – Porque quando se pensa em pessoas que querem acabar com a nossa família a lista não é pequena...
Aproveitando que estávamos a sós, eu e Dimitri começamos a tecer uma lista de pessoas e organizações que lucrariam com o a morte dos Dashkov, e o resultado não era muito animador. Quando desistimos de contabilizar os suspeitos Nadja se aproximou.
Estava vestida para matar. Com uma echarpe branca e óculos de “abelha-rainha”. Eu me perguntava se essa menina tinha mesmo só catorze anos.
— Antoine está demorando, onde está ele? O carro já devia estar abastecido, se ele sofrer um acidente na volta do posto de combustível eu termino de matá-lo.
— Calma Nadja! – Dimitri ergueu as mãos para cima, se rendendo – Eu não gastei a gasolina, eu nem posso dirigir!
Enfiei a cara no meio das mãos e minha irmã desferiu um tapa carinhoso no ombro dele.
— Seu bobo! Não brinque com uma coisa dessas.
Os dois se davam bem. A felicidade e a calma de Dimitri combinavam com o gênio forte e com a presunção espontânea de Nadja. Estavam sempre nesse clima.
Eu fitei as flores do verão ao nosso redor. Eram selvagens perto dos ângulos afiados do castelo. Me davam vontade de virar uma planta só pra escapar da minha melancolia. Qual era o problema com as pessoas? Ninguém percebia o quão preocupante era a nossa situação?
Agarrei Baskerville e deitei a cabeça nas suas costas. O cachorro me entendia.
Em pouco tempo um Chrysler entrou rugindo pelo pátio do castelo e parou poucos metros na nossa frente. Um homem careca e largo como um guarda-roupa desceu.
— Estamos atrasados – disse Antoine – Yuri, Dimitri e Nadja, entrem no carro. O voo é daqui a meia hora.
Respirei fundo e fiz o que ele pediu. Em algumas horas estávamos no ar.
***
Cruzávamos o céu da região da Transilvânia.
Nadja e Dimitri aproveitavam que Antoine ia de copiloto para jogar no arcaico Game Cube que já tinha ido para o concerto algumas vezes e eu encarava as nuvens, entediado.
Baskerville deitou a cabeçona preta no meu colo.
— Oi amigo – acariciei o seu focinho – Você também não é fã de Super Mario não é?
Ele fungou e subiu na poltrona cor de creme ao lado, se enrolando numa bola.
Quando chegamos ao aeroporto quiseram encarcerá-lo num cubículo no compartimento de carga, mas depois de discutir com o piloto por alguns minutos eu consegui leva-lo comigo sob a promessa de controlar o seu potencial destrutivo.
Não é todo mundo que se sente seguro com um labrador jovem com os hormônios a flor da pele perambulando próximo à cabine repleta de coisas que podem derrubar o avião. Mas até que ele estava se comportando bem, ou melhor que os meus irmãos pelo menos.
— Ca-tching! – Dimitri quicou na poltrona e jogou o joystick com violência em cima da almofada que levava no colo – Te peguei mais uma vez Nadja! Parece que a Rainha do Smash Bros perdeu a coroa! Passa pra cá a minha grana! HÁ-HÁ!
Nadja ficou vermelha e esmurrou o chão.
— Nada disso DD! Eu dobro a aposta e peço revanche!
De súbito Dimitri se lembrou de que eu estava ali.
— E você Yura, não quer jogar um pouco? – ele perguntou.
Uma pitada de indignação fervilhou em meu peito.
— Não, não quero DD.
— Porque tão ranzinza Yura? – perguntou Nadja.
— Porque?! – eu me levantei – Porque o nosso castelo de cartas está caindo! Vocês não conseguem ver isso? Que nossos pais e Ivan também estão correndo perigo? Não conseguem crescer um pouco?!
Por alguns segundos eles me encararam perplexos.
— Me desculpem – falei – Vou dormir um pouco.
Desviei os olhos dos deles e fui me sentar numa poltrona mais para o fundo. Baskerville me seguiu.
Passamos o resto do voo em silêncio, e o entusiasmo deles em jogar ficou mais moderado. Eu não queria ser o estraga prazeres, mas era sempre assim que acontecia.
Se houve alguma tentativa de reviver a conversa eu não presenciei, pois o sono me aprisionou na escuridão da minha mente.
Sonhei com meus pais. Estavam zangados porque Dimitri ficou paralítico ao invés de mim. Eles choravam, diziam que meu irmão era bom e que eu era quem merecia me arrastar o resto da vida numa cadeira de rodas. E não ele.
De repente suas lágrimas param. Eu estou no chão. Tento mexer minhas pernas mas elas não se movem, então olho para os meus pais para pedir ajuda e eles estão sorrindo. Dimitri está com eles, em pé e sorridente como seria sem o acidente. Eu me calo e fecho os olhos lentamente.
Fui acordado quando já estávamos sob o sol vibrante do sul da Itália.
***
Depois de almoçarmos às pressas num McDonald’s tomamos um táxi na frente do aeroporto e iniciamos uma viagem que se traduziu num porre interminável de paisagens rurais, aonde as casas e a civilização iam ficando cada vez mais isolados e os campos verdes e dourados mais repetitivos. Sem falar que a forma como íamos apertados com um labrador entre nós não ajudava no conforto geral.
O passeio era mórbido – como tudo na minha vida recentemente – e a única coisa que chegava um pouco perto de ser divertido era ver Antoine com o mapa em mãos discutindo com o motorista sobre o caminho a seguir num italiano arranhado e improvisado.
O interessante é que tínhamos pelo menos três aparelhos com GPS naquele carro, mas vê-los brigando era mais legal para nossas sádicas almas de adolescente. O resultado é que já eram 16h e eles ainda pareciam perdidos.
Mais uns minutos depois, quando o tédio já estava ficando insustentável, o motorista estacionou na frente de uma cerca de madeira com o portãozinho fechado por um cadeado e saiu do carro.
Antoine se virou para nós.
— É aqui.
O outro táxi que nos seguia trazendo malas parou e todos nós descemos.
A brisa do fim da tarde acariciou meu rosto e senti a terra cheia de pedras sob os meus pés. Após a cerca havia um caminho por entre árvores enormes que levava até uma casa grande e velha com dois acabados andares.
Desejei intensamente que o paradeiro dos últimos jovens dos Dashkov ficasse mesmo em anonimato porque a propriedade era extremamente exposta, uma casa alta e ampla cercada de natureza verde no meio de alguns quilômetros de campos amarelados e algumas plantações de uva.
Exposta no meio do nada, mais ainda assim exposta.
Poucas casas podiam ser vistas à distância e raramente algum veículo transitava por ali.
Antoine subornou os taxistas para que levassem as malas até a casa e depois os dispensou. Enquanto andávamos pelo caminho de árvores a conversa ressurgiu.
— Que lugar maravilhoso! – disse Nadja – nem acredito que é nosso!
— Tem razão – disse Dimitri.
Eles estavam certos. Pela entrada da fazenda corria uma brisa fresca e flores coloridas cresciam entre as árvores. Somado ao horizonte simplório era uma visão encantadora, mas não uma que eu teria reparado de imediato.
Baskerville estava eufórico e eu lutava para impedir que ele saísse correndo por aí, por causa disso eu ia na frente de todos, puxado por ele. Logo vi que seria um problema evitar que ele saísse sem rumo por ai.
— Parece que temos um riacho no final da propriedade, depois daquela descida – Antoine apontou.
— E internet? – perguntei – Aposto que não...
Dimitri riu.
— Porque não encaramos isso como umas férias longe da sociedade?
— Tipo um SPA? – colaborou Nadja.
— Isso! Ou quase... Vai fazer bem pra você afastar a cabeça do mundo um pouco Yura.
Tentei assimilar o que significava passar um tempo indeterminado sem internet.
Meu coração foi tomado pelo medo.
Quando chegamos à varanda do casarão e os taxistas nos deixaram a sós pudemos observar melhor a nossa nova moradia. Tirando as marcas do tempo que a deixavam com uma aparência desgastada e malcuidada, a casa parecia segura, firme e forte. Aparentemente tinha janelas em todos os cômodos e ficaria bem arejada quando fosse aberta.
Antoine levou alguns minutos para conseguir abrir a porta. Mau sinal. Acho que podia retirar o que pensei sobre a casa estar em boas condições. Quando finalmente conseguiu, a maçaneta se soltou em sua mão e a porta pendeu para o lado, com algumas das dobradiças quebradas.
Nós três o encaramos.
— Acho que... Bem, isso dá pra consertar.
Baskerville se soltou com um tranco e foi o primeiro a entrar na casa nova, fungando como se estivesse farejando alguma coisa interessante.
Merda, xinguei e sai correndo atrás dele.
Estava tudo escuro no primeiro andar. As janelas estavam todas fechadas e tampadas com pedaços de madeira velha.
Quando meus olhos se acostumaram com a penumbra pude identificar o meu cachorro subindo as escadas para o segundo andar, todo estabanado e alegre. Atravessei a sala e subi atrás dele num cômodo iluminado e bem ventilado.
Que tipo de pessoa deixa uma casa vazia com as janelas do segundo andar abertas?
Baskerville percorria o hall do segundo andar em círculos com o nariz colado no chão e o rabo abanando.
— Espera aí, o chão está... limpo?
Meu cachorro me ignorou feliz e saiu trotando para o quarto mais distante e entrou pela porta entreaberta.
Pude ouvir o som da sua respiração eufórica, e então um baque de uma porta se fechando.
Corri até o quarto e vi Baskerville elétrico no meio do aposento, ao lado de uma pequena escada dobrável, sendo chacoalhado pelo próprio rabo de tanta ansiedade. Ele olhou para mim e para o teto, como se quisesse dizer alguma coisa.
Logo acima de nós havia uma portinha quadrada que certamente levava para o sótão. O cordão que pendia dela ainda balançava. Tinha alguém ali. E acabara de passar pela porta.
Baskerville ganiu e olhou para mim, esperando pela minha reação.
Eu não sei dizer ainda por que fiz isso, e nem pretendo pensar a respeito, porque foi uma atitude extremamente irresponsável e impensada, coisa que nem combina comigo. Imagine o que poderia ter acontecido se houvesse algum assaltante ou um criminoso qualquer ali... Terrível, mas o fato foi que eu subi os três degraus da escadinha de alumínio, agarrei o cordão de couro gasto e puxei a porta para baixo.
Um ser delicado envolto numa cabeleira negra despencou gritando em cima de mim, acompanhado de algumas latas e alguns outros objetos. Quando me atingiu, a escadinha virou e nós dois caímos por cima dela e rolamos pelo chão, quase esmagando Baskerville, que começou a latir enlouquecidamente.
A dor de ficar entre o chão e outro ser humano que caiu de um buraco no teto atingiu a minha bacia e minha coluna.
— Ai – gemi.
A garota se levantou e puxou os longos cabelos para trás, descobrindo o rosto.
Não sei como descrevê-la fielmente, porque desde o primeiro momento minha cabeça ficou tão confusa enquanto eu a admirava que isso seria impossível, mas posso chegar perto.
Tinha uma pele tão linda e alva que parecia uma versão em carne e osso de uma boneca de porcelana. Seus lábios eram carnudos, mas ao mesmo tempo delicados e avermelhados, e os olhos eram de um azul claro e meio acinzentado, adornado por cílios perfeitos. Ela era pouca coisa mais baixa do que eu, e tudo nela parecia proporcional, os ombros, os quadris e o busto.
Faça o seguinte. Imagine a garota mais bela que sua imaginação pode conceber. Com tudo aquilo que faria você admirá-la por horas sem se cansar. Imagine a garota ideal, perfeita.
Era assim que ela se parecia para mim, mesmo que naquela hora eu ainda não tivesse percebido isso.
Ela cobriu a boca com as mãos depois me ajudou a levantar.
— Ai meu Deus... – ela falou, num italiano visivelmente forçado e sem fluidez, com uma voz aveludada e forte ao mesmo tempo – Me desculpe, você está bem?
Não sei de onde surgiu esse pensamento, mas imaginei que se sua voz tivesse uma cor, seria laranja. Uma cor poderosa e ao mesmo tempo doce.
Quando verifiquei que não tinha quebrado nada e nem estava sangrando, decidi treinar o meu terceiro idioma com ela.
— Quem é você garota? Porque estava escondida no sótão?
Seu olhar ficou ligeiramente desesperado, ela o desviou do meu e começou a recolher as coisas que caíram com ela do sótão.
— Me desculpe, eu jurava que essa estava abandonada, eu não teria invadido se soubesse, me desculpe mesmo, eu...
Nesse momento Antoine e Nadja brotaram da porta do quarto, assustados pelo barulho.
— Ei! Quem é você?! – gritou Antoine, com um revólver 38 destravado nas mãos.
Uma tensão se criou nos meus ombros e mãos. Sabia que Antoine já atirara algumas vezes antes de perguntar quando acreditava estar protegendo meu pai, e sabia o quanto a sua pontaria era precisa quando tinha que fazê-lo.
A garota misteriosa largou os papéis e latas que estava recolhendo e levantou as mãos, tremendo sutilmente.
Antes que qualquer um pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Baskerville pulou sobre ela e a derrubou, cobrindo a sua cara de lambidas amistosas.
Antoine baixou a arma e eu relaxei.
A garota não parecia ser uma ameaça e por sorte não levou um tiro no meio da testa por estar no lugar errado na hora errada.
Mas isso ainda não respondia a pergunta mais importante:
Quem diabos era ela?
Notas finais
ficarei feliz de ouvir a opinião de alguém! XD
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