Juntando os Pedaços
3 Capítulo II - Junho
Notas iniciais
Tiago
— Vamos fazer o numeral oito. Quem aqui sabe qual é? — Tiago estava sentado no chão ao lado dos seus alunos, meninos e meninas entre 6 à 9 anos, que estavam sentados em pequenas cadeiras ao redor da mesa redonda. Ouviu as crianças gritarem que sabia, uns levantaram as mãos, outros ficaram em pé, apenas 3 não esboçaram uma reação de alegria por saber. — Ana!
— Oi, tio. — a menina roia as unhas envergonhada.
— Vem aqui, vamos fazer uma brincadeira. — a menina se levantou e foi até ele. — Ô criançada, quando um amiguinho ou amiguinha não sabe fazer alguma coisa o que a gente faz? — perguntou.
— ENSINA!!! — gritaram os alunos.
— Tio, eu posso pegar as tintas? — o pequeno Mateus perguntou e Tiago confirmou.
— Hum… quem aqui quer ser o quadro pra nossa amiga Ana aprender a fazer o número 8? — perguntou olhando pras crianças, onde recebeu ainda mais gritaria. Todos queriam participar. — Olha aí, Aninha… Muitos quadros pra você pintar. Mas, quem mais aqui não sabe fazer o número oito e quer aprender? — os outros dois levantaram as mãos contagiado pela alegria dos coleguinhas. — João e Pedro também serão os pintores. Vamos fazer uma filha pra não ficar tanta bagunça. — disse rindo, os meninos lhe obedeceram. — Ah, quem vai querer ser o primeiro a ensinar?
— Tio! Tio!! Eu posso ser o primeiro? — Mateus estava com a caixa de tintas nas mãos, se mostrava ansioso.
— Claro que pode! — pegou a caixa e pediu pra Ana escolher qual cor ela queria primeiro, depois deixou-a no chão próximo dele. O primeiro a ser pintado seria o Lucas. — Aninha, primeiro o Mateus vai pegar na sua mão pra te ensinar, ok? Mateus, tem que ser devagar, não esqueça. — os meninos balançaram a cabeça concordando. Então Aninha passou o dedo na tinta amarela e Mateus pegou em sua mão levando até o rosto de Lucas, onde bem devagar fez o numeral oito em um lado da bochecha dele, ela pediu outra cor e Mateus fez o mesmo com ela no outro lado da bochecha. — Quer fazer sozinha agora, princesa? — perguntou colocando o cabelo dela pra trás, ela tentou levar a outra mão que não estava suja de tinta a boca para roer, mas Tiago segurou a mão dela entre as suas. — Não precisa ter vergonha, ninguém aqui vai rir de você, tá bem? — ela balançou a cabeça, mas disse que queria Mateus a ajudasse mais uma vez e o menino o fez. Por fim, ela tentou só e conseguiu fazer o número oito, meio torto, mas toda turma a parabenizou gritando e pulando.
— Obrigada, tio Tiago! — ela agradeceu abraçando ele e o beijando na bochecha. Ele sorriu para ela e voltou a ajudar os outros.
Eram essas pequenas coisas que o fazia continuar a ensinar, ele não conseguia mais se ver em outro local a não ser ali, ainda mais em algo que era completamente dele. Pra ele não existia recompensa maior do que ver nos rostos das crianças um sorriso feliz por ter conseguido fazer algo que antes eles tinham tanta dificuldade.
— Clara, vou almoçar. Volto antes que a turma da tarde chegue, ok? — Clara era uma das voluntárias que ia lá duas vezes na semana ler histórias infantis para as crianças. Também ajudava às vezes na recepção. — Você quer que eu traga algo pra você comer?
— Ih, Tiago… não precisa! Trouxe comida hoje, mas valeu.
Se fosse qualquer dia ele comeria em qualquer lugar próximo dali, mas hoje sua irmã estava pela Paulista assistindo filme e o chamou para almoçar com ela, como o IBE (Ilha do Bem Ensinar) não ficava tão longe dali resolveu ir a pé, fazia muito tempo que não andava por lá e seria bom ver se continuava tudo do mesmo jeito. Se o Masp continuava incrível, os pequenos parques e se ainda existiam músicos tocando nas calçadas. E sim, tudo estava como ele lembrava, o que era bom, pois assim não se perderia. Sempre imaginou São Paulo como uma cidade enorme, com muita gente circulando de um lado para o outro, muita diversidade de cultura e de costumes, mas não esperava que em meio a tanta gente fosse voltar a vê-la.
No começo Tiago sentiu um certo choque, afinal foram anos sem se encontrarem, após darem o ponto final em Ilhabela não haviam voltado a se ver e todos esses anos longe também não sabia nada da vida dela. Após o choque inicial, sentiu seu corpo se aquecer como antes, mesmo com o passar dos anos ele parecia reconhecer a presença dela mesmo que estivesse ainda um pouco distante dele, se aproximou dela e olhou bem o seu rosto, não acreditando que ela estava com a mesma aparência de que quando a conheceu e vê-la assim, com uma áurea tão bem, parecendo estar em paz, o deixou bem e feliz. Sorriu para ela, pois foi inevitável não sorrir e ela lhe sorriu de volta, era como se falassem que estava tudo ok, sem mágoas — mesmo sabendo que ainda existia algumas lá no fundo-, mas ali estavam invadidos por sentimentos bons um pelo outro.
Foi um encontro tão inesperado que nem havia reparado que estava voltando para o mesmo lugar de onde veio. Tiago lutou contra o desejo que corria por suas veias de voltar até ela e procurar saber como ela estava, sentia necessidade de conversar com ela, de voltar pra perto dela, mas desistiu. Só parou e a observou voltando na mesma direção que veio, olhando sempre para trás com um sorriso que lhe aqueceu o coração.
Era estranho se sentir assim, havia tantas coisas entre eles do passado ainda e apesar de conhecer Isabela, não conhecia a pessoa que ela é agora. Gostaria, mas não sabia se era o certo. Ou se era o momento. Entretanto achou incrível o quanto eles continuavam a se comunicar com o olhar. De surpresos, para curiosos, alegres e saudades, uma avalanche de sentimentos ditos sem uma palavra, eles não precisam de nada disso. Nunca precisaram.
Saiu de seus devaneios quando ouviu seu telefone tocar, era sua irmã perguntando onde ele estava, perguntou se ela poderia vir ao encontro dele, estava desnorteado demais para sair em sua procura.
*****
Isabela
Algumas semanas se passaram desde a tarde em que Isabela se pegou pensando a respeito do passado daquela maneira que não fazia há anos. Rafael tinha ido viajar com os pais para o aniversário de familiares no interior, e eles até a convidaram para ir junto, mas ela achou que seria melhor ficar em São Paulo e estudar – alguns costumes realmente permanecem, e o de Isa priorizar seus estudos e sua formação talvez nunca mudariam. No entanto, ela não imaginava que bastaria uma manhã de folga, por conta de aulas canceladas, pra que ela colocasse em ordem tudo o que precisava – fazendo com que ela admitisse no final das contas que nem era tanta coisa assim. Com um pouco de esforço daria pra ela ter viajado com Rafael, mas era bom poder ficar um pouco sozinha consigo mesma, e isso era algo praticamente impossível diante da rotina que ela levava.
Foi na Avenida Paulista que ela logo pensou quando se perguntou o que faria com todo aquele tempo livre. Às vezes para se estar realmente sozinha era necessário estar rodeada de uma multidão. Por mais que muitas pessoas sempre digam que a sensação de ser apenas mais um no meio de tanta gente é algo desesperador e sufocante, não era assim que ela se sentia a respeito do assunto. Para Isabela estar rodeada de pessoas não significava se prender em uma teia intransponível de solidão e insignificância, pra ela era, na verdade, uma maneira de ser livre. Era poder andar sem rumo, era poder se dar o direito de não ter um destino definido, de saber que ninguém que a rodeava estava se importando se por dentro ela estava inteira e feliz ou tentando juntar os pedaços. E pra ela, que um dia já fora duas pessoas, era realmente libertador sentir que não era ninguém.
Para além de toda a sensação libertadora que ela sabia que encontraria ali, era na Paulista que ela encontrava seus filmes preferidos em exibição, ou então os mais novos filmes independentes que ela adicionava à sua lista de filmes para serem vistos. Era ali que ela queria estar, se perder e se encontrar, sabendo que ninguém que cruzasse seu caminho iria se perguntar quem era ela e o que ela fazia ali no começo da tarde de uma sexta-feira.
***
Como se houvesse uma conspiração da vida pra que ela aproveitasse o dia ao máximo, o céu estava de azul muito claro e com sol brilhante, poucas nuvens no céu e um vento suave e frio batendo em seu rosto e seu cabelo – se não fosse tão apaixonada por cinema, ela até poderia pensar na possibilidade de passar o dia caminhando por ali, visitando livrarias, cafés e o MASP; mas ela sabia que se arrependeria se não entrasse em uma sala de cinema naquele dia.
Depois de ir até o centro cultural e retirar o ingresso da sua sessão, ela decidiu sair em busca de algum restaurante pra almoçar. E foi em um momento entre duas opções de restaurante que ela adorava que ela se deparou com a única coisa que não havia imaginado que fosse possível fazer parte daquele dia.
No início ela até chegou a hesitar, a achar que estava confundindo, mas conforme ele se aproximava – andando em sentido oposto ao que ela vinha, e de frente pra ela, com o ritmo dos passos diminuindo – ela pode ter certeza que realmente se tratava dele. Ainda que um pouco diferente do que ela se lembrava, com a barba começando a crescer em seu rosto, a pele um pouco mais bronzeada e as roupas muito mais despojadas que o estilo herdeiro diretor da empresa da família que ele costumava usar quando eles namoraram – e também quando eles se relacionaram com ela fingindo ser Marina – ainda assim, era ele.
O que ela sentiu quando a certeza se concretizou era algo que ela nem sequer se lembrava que existia. Era aquela sensação de ser atingida por algo muito forte e ainda assim continuar em pé, caminhando. Era como se um furação tivesse despertado diretamente da boca de seu estômago e percorrido todo seu corpo. Era como estar em queda livre sem ter a menor noção se o paraquedas se abriria antes de ela atingir o chão. Era algo que só Tiago lhe despertara desde o começo. E por mais assustador que fosse, ela precisava admitir que era bom.
Mas também era ruim.
Porque as coisas negativas também faziam parte da bagagem imensa de sentimentos que Tiago lhe trazia. O medo, a insegurança e as milhares de coisas não-ditas e que precisavam ser ditadas pairava entre os dois. As pessoas que eles foram e já não era mais, e as pessoas que eles se tornaram estavam ali fazendo com que ela sentisse que vê-lo era como retornar de uma longa viagem: você volta pra casa, você sabe que ainda é a sua casa, mas diferente de como era quando você a deixou.
Quando ela o deixou, ela era Marina e ele era um cara atormentado por um fantasma, consumido por um culpa que não deveria lhe pertencer, fraco psicologicamente por conta de um histórico de perdas, abandonos e carências, de medos e de fragilidades, que ela só ajudou a estraçalhar ainda mais quando decidiu que deveria se vingar. Quando ela o deixou Tiago estava oco e tudo o que havia se quebrado dentro dele já não estava mais lá. Mas naquele momento não. Ele não estava vazio. Havia em seus olhos um brilho que ela não via desde antes do atentado que sofrera em Ilhabela, um brilho que talvez nunca tenha chegado a ver. Ele tinha mudado, era evidente.
Eram tantas perguntas a serem feitas, tantas desculpas e perdões a serem ditos, tantas lembranças boas a serem recordadas e tantas feridas a serem, talvez, finalmente cicatrizadas por completo que foi estranho pra ela não conseguir dizer nada. Ela apenas conseguia olhar pra ele. Por um momento ela sentiu que eles foram envoltos por uma bolha que os isolava de tudo ao redor: a multidão que ia e vinha, os caminhos que eles estavam seguindo, os planos que ela tinha para aquele dia, os músicos que tocavam próximo dali, os ônibus e carros no tráfego incessante; nada disso parecia fazer parte do lugar que ela e Tiago estavam.
Só que assim como ela, ele não disse nada. Ele apenas a olhava com um olhar questionador e doce ao mesmo tempo. E foi quando o sorriso começou a surgir no rosto dele, foi que o coração de Isabela se desfez do medo que sentia de que, após se refazer da surpresa do reencontro, tudo o que viria dele pra ela seria hostil. Mas não foi. Tiago sorria pra ela e ela percebeu que sorria de volta, que talvez tudo aquilo que ela estava sentindo também estivesse refletido em seu rosto como os sentimentos dele pareciam estar. Porque de certa maneira, mesmo que ambos tenham mudado muito durante aquele tempo, ela ainda o conhecia, ela ainda podia identificar em sua expressão, no seu modo de sorrir ou em seu olhar o que ele estava sentindo.
Era estranho e reconfortante a forma como eles se comunicaram sem uma palavra sequer.
A bolha que os envolvia em uma realidade paralela tenha se desfez com a mesma rapidez com que havia surgido. E quase sem perceber, ela já voltara a caminhar, deixando-o para trás, se virando uma vez para olhar, para conferir que ele estava ali também seguindo seu caminho.
Foram necessários alguns minutos andando para que ela percebesse que estava percorrendo o mesmo caminho pelo qual viera quando encontrou Tiago. E quando parou pra pensar ela se deu conta de que, enquanto se encaravam, ambos andaram brevemente em círculo, de maneira muito inconsciente, quase como se tivessem continuado a caminhar como estavam fazendo antes de se encontrarem. Foi impossível conter o riso.
Quando olhou para o relógio ela viu que caminhara por mais tempo do que acreditava, e suas opções de restaurante se tornaram inviáveis, a sessão logo começaria. Ela então se render a um fast-food pra viagem e se pôs a andar na direção do centro cultural torcendo pra chegar antes das luzes se apagarem. Ela odiava quando as pessoas chegavam em cima da hora no cinema e esbarravam nela ou pisavam em seu pé porque já não conseguiam enxergar nada. Não queria ser essa pessoa odiada.
Fale com o autor