Juntando os Pedaços
1 Prólogo
Notas iniciais
Isabela
Quando se mudou de Remanso para a capital São Paulo, Isabela viu seu mundo se expandir – da pequena e quase desconhecida cidadezinha do interior para a maior metrópole do país. Ao se deparar com os arranha-céus que não lhe permitiam encarar o horizonte ela se deu conta do que era imensidão. Ver todos os dias a quantidade de pessoas que iam e vinham pelas ruas, pelas linhas emaranhadas do metrô, nas lotações dos ônibus, sempre olhando para um ponto que ninguém realmente sabia qual era, fez com que ela logo se convencesse que ali sempre estaria – de uma certa maneira – a salvo dos encontros permanentes do qual ela tinha tanto medo. Estreitar laços sempre fora pra ela um tipo de ponto fraco.
Sua perspectiva se transformou a partir do momento em que ela fez amigos que se transformaram em sua nova família, e ela viu que junto deles poderia ser mais forte e feliz. Mas o que realmente virou seu mundo de cabeça pra baixo e lhe sugou para uma realidade da qual ela nunca se imaginou fazendo parte, foi ter conhecido Tiago.
Por mais que tenha tentado fugir dele e do que sentia, ela se viu diante de um sentimento que era maior que tudo – que ela, que a rotina que ela tentava incessantemente cumprir, e até mesmo maior que o mundo que ela acreditou que fosse imenso, e que não era. Conhecer Tiago fez Isabela ver que o mundo era pequeno demais, muito menor do que ela jamais previra, porque essa imensidão que um dia lhe assustou tanto não lhe permitia fugir dele – era como se todos os caminhos da cidade a levassem até ele.
E foi quando parou de fugir, quando se deu o direito de ser feliz, de amar e ser amada foi que ela viu seu mundo voltar a se encolher. Amar Tiago foi perigoso – de um jeito que nada tem a ver com os romances de adolescente – foi perigoso de verdade. Amando Tiago ela perdeu sua própria vida, se viu obrigada a se transformar em outra pessoa – alguém que ela odiava ser – porque estava consumida pelo rancor, pelo ódio e pelo desejo de se vingar daquele que tentara matá-la. Foram meses e meses nessa crença cega e doentia de que ela entregara sua vida a alguém que tentou destruí-la. Mesmo que ele negasse, ela sabia que a versão que ele contava era improvável demais e que, com certeza, era só uma forma de esconder a verdade.
Por muitas vezes, ao vê-lo se consumir pela culpa e totalmente desarmado diante dela, ela chegou a vacilar e a quase acreditar em sua versão – por mais improvável que ela fosse. Mas Isabela havia se tornado Marina e Marina jamais acreditaria em nada que Tiago dissesse pra se defender. Ser Marina não era fácil, mas era a única proteção que ela tinha contra quem tentou acabar com sua vida. Ser Marina, e torturar Tiago, acabar com seu casamento de conto de fadas, era a única maneira que ela encontrou para se defender da dor que era vê-lo seguir feliz com sua vida enquanto ela era obrigada a viver nas sombras. Ser Marina era sua única chance de enterrar o que ela sentia por ele, de se livrar de todo aquele amor doentio que insistia em viver nela mesmo ela sabendo que ele tentara matá-la. Ser Marina era a única coisa capaz de salvá-la, ao mesmo tempo que ser Marina estava matando-a dia após dia.
Foi só quando chegou até onde queria, foi só quando apontou uma arma para um Tiago entregue e oco por dentro, que ela se lembrou de que não era Marina. Ela era Isabela, a menina cheia de sonhos, de doçura, de coragem e de amor ao próximo. Ela era a menina que um dia viu seu mundo se expandir, e era só isso que ela queria voltar a ser, ao invés de continuar a ser aquela pessoa que havia reduzido seu horizonte a uma vingança doentia. E pra que Isabela pudesse viver de novo, ela entendeu que Tiago também deveria continuar vivendo.
Quando descobriu através de Flávia – sua melhor amiga e aliada – que a versão de Tiago sempre fora verdadeira, algo dentro dela se quebrou e todos os sentimentos que ela tentou sufocar agora passavam a lhe sufocar em contrapartida. Ela queria poder abraça-lo e lhe pedir perdão por nunca ter acreditado nele, por ter tido medo dele, por ter tornado a vida dele um inferno, por ter feito mal a Letícia, por ter machucado tanta gente. Ela queria poder voltar no tempo e acreditar nele, fazer dele seu porto-seguro contra o real culpado por sua tentativa de assassinato. Mas ela não podia. Porque, como ele mesmo havia dito, ela matara nele até mesmo a capacidade de sentir pena.
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Tiago
Tiago passou a vida inteira quebrado pela falta que a mãe fez não só na vida dele, como na vida das irmãs. O pai não foi um exemplo de pai perfeito, mas pelo menos eles sempre tiveram apoio dos avôs e tios. Mesmo assim não conseguiram suprir a necessidade de amor materno que precisavam.
Encontrar Letícia foi como se pudesse finalmente ter algo para se manter em pé, algo para se manter sã, a ideia de formar uma família com ela o deixou com esperança de finalmente ter algo que sempre sonhou a vida inteira, então veio a doença dela. Onde ele a apoiou todos os dias, dando toda a força que ela precisava para sair bem e curada do câncer.
Muitos pensavam que deixou de ter esse sonho com a Letícia por causa dela, mas não era verdade. Amava Leti, porém aquilo que sentiu no começo do relacionamento foi se apagando com o tempo, se tornando amizade, entretanto não ele não teve forças suficiente para colocar um ponto final na história. Admitia ter sido fraco, covarde, mas não queria magoá-la, ela era importante demais para ele. Ela havia sido um motivo para ele perceber que não poderia levar mais essa história adiante e que ele mereceria ser feliz pelo menos uma vez na vida.
O que sentiu por ela foi completamente diferente do que havia sentido por qualquer outra pessoa, foi um sentimento avassalador, que virou seu mundo de pernas pro ar e que acabou de uma forma trágica. O ponto final definitivo que deram em Ilhabela foi o necessário pra ele ver o quanto estava mal psicologicamente e que precisava de ajuda. Não conseguir sentir nada por Isabela quando ela quase o matou em Ilhabela por achar que ele havia tentado matá-la anteriormente lhe deixou com medo, medo por não se sentir pena, raiva, amor pela sua ex-namorada estar realmente viva e principalmente o medo por não sentir medo em morrer. Se sentir destruído por dentro o fez pensar que ele precisava mudar, que ele precisava ser outro Tiago, que ele tinha que ir em busca de sentimentos pelo próximo, e que precisava sentir-se vivo.
Com o apoio da família, passou um ano fazendo terapia, para tentar se libertar de todos os demônios que havia dentro dele. Entretanto ao terminar o tratamento viu que precisava de algo mais em sua vida, algo que nem ele sabia o que era até que sua irmã, Camila, lhe deu a ideia de fazer algum intercâmbio. Foi quando em meio a pesquisas descobriu uma ONG que fazia intercâmbios voluntário, para ir para lugares mais pobres e que precisavam de ajuda em variadas áreas. Viajar por quase 5 anos por países mais pobres da América Latina o mudou completamente, finalmente pode achar seu lugar no mundo e sentir que poderia se tornar alguém melhor para a sociedade. Em cada país que ficou aprendeu um pouco da cultura, um pouco do seu povo, seus medos, suas felicidades e suas tristezas. Chegou a ter momentos que sentiu medo por estarem em áreas às vezes um pouco perigosa, sentiu fome e sede, mas tudo isso valeu para ele e se pudesse passaria tudo de novo.
Todos esses anos longe da família lhe fez entender o sentido da importância dela em sua vida e o quanto era amado pelos que ainda restavam vivos e o quanto sentiam falta dele e ele deles. Muitas vezes só se falavam através de cartas por conta de lugares que não havia sinal de telefone e tentou de todas as formas viver sem o dinheiro que seus tios, Pedro e Vitória, insistiam em lhe enviar. Ele estava bem assim.
Conviver na maioria das vezes com crianças fez um bem tão grande que ele nunca imaginou que poderia se sentir assim, lecionava aulas de matemática e inglês, e tinha orgulho por ter tanta paciência para ensinar, por compartilhar aquilo que ele teve com outros que poderiam não ter essa oportunidade. Com tanta coisa em sua cabeça, foi mais fácil para ele não pensar nos momentos bons que passara com ela, e nem nos maus. Mas às vezes ela aparecia em seus sonhos, o acordando assustado ou o deixando em um sentimento de paz. Esses anos todos ele não sabia como ela estava, onde morava, o que estava fazendo de sua vida, só torcia para que ela estivesse bem e feliz. Após toda a tormenta que ela passou, ela merecia isso.
Quando decidiu voltar ao Brasil teve um certo receio de voltar a encontrá-la, mas teria que lidar com isso. E além do mais, o Brasil é grande o suficiente para eles dois e poderiam morrer sem se verem novamente. Fora que a cada ano sua família aumentava e ele estava perdendo cada parte disso. Camila estava grávida, sua tia Vitória também, Analu tinha acabado de receber um prêmio pelo seu primeiro documentário e ele não estava lá com suas irmãs nos momentos mais importantes da vida delas. E ele poderia continuar seu trabalho lá também, poderia enfim realizar o sonho que ele vinha tendo há algum tempo de criar sua própria ONG para crianças carentes diagnosticadas com autismo, déficit de atenção e dislexia.
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