Juntando os Pedaços

6 Capítulo III Parte II - Junho


Notas iniciais
Boa noite!!! Aqui está a continuação do capítulo com a parte da nossa Isabela escrita pela Jessicat. Esperamos que vocês gostem.

Isabela

Quando ouviu a voz familiar vindo pelo corredor, Isabela rapidamente entrou pela primeira porta que viu. Ela se sentia ridícula fazendo aquilo já há tantos dias. Mas quando espiou pelo pequeno vidro que dava para o corredor e viu Tiago indo embora com Hércules, ela sentiu um certo alívio com uma dose de ansiedade por não saber quando – e se – voltaria a vê-lo. Ela odiava admitir, mas sabia que sentiria saudades de tê-lo, pelo menos, ao alcance da vista. Ao ter certeza que ele tinha realmente ido embora, ela saiu de onde estava e foi assumir suas tarefas como residente do hospital. Quando passou pela recepção Eliana avisou que Cláudia, a chefe da enfermaria, precisava falar com ela.

Isabela então foi direto para a sala de Cláudia, um tanto apreensiva pelo que poderia estar esperando por ela. Respirou fundo antes de bater na porta, e assim que o fez ouviu a voz de Cláudia pedindo para que entrasse.

— Oi Isa, que bom que é você. – para surpresa de Isabela, Cláudia parecia muito tranquila e contente.

— Eliana me disse que você precisava falar comigo. Achei que fosse algum problema ou algo urgente.

— Ah não. Não é nada demais, mas que bom que você chegou agora, eu estava com medo de nos desencontrarmos porque meu plantão acaba em meia hora, e eu não poderia te entregar isso aqui. – a colega de trabalho lhe entregou um sacola de papel verde que estava guardada em um armário.

— Mas nem é meu aniversário, Clau! – ela riu com o gesto inesperado.

— Não fui eu que comprei, Isa. Foi aquele garoto muito simpático que trouxe o mendigo espancado no centro. Que coisa maluca eles serem pai e filho.

Cláudia continuou falando sobre como aquela história soava até mesmo improvável e de como o gesto de Tiago fora nobre, mas Isabela ia cada vez mais perdendo o foco naquela conversa, confusa com o presente e com tudo o que aquilo lhe causava. A colega saiu, deixando-a sozinha com o presente em mãos, o espanto no rosto e um turbilhão de sentimentos percorrendo todo o seu corpo.

***

O relógio já marcava quase meia-noite quando Isabela entrou em seu apartamento. Antes de acender a luz, ela ficou olhando para a varanda, o lugar pelo qual entrava as luzes da cidade que iluminavam fracamente sua sala. Sem acender a luz ela cruzou a sala e foi se sentar na varanda, levando a sacola em suas mãos. Ela respirou fundo, e tirou a caixa de dentro da sacola já reconhecendo do que se tratava.

Ao abrir a caixa o aroma tão familiar tomou conta do ambiente – era seu aromatizador preferido, aquele que ela nunca mais comprara desde que havia decidido que daria um fim em Marina. Era meio impressionante para ela que Tiago ainda se lembrasse exatamente qual era. Mas era mais que só impressionante. Era... bom!

***

Um par de meses se passaram sem que ela reencontrasse Tiago. Tudo o que sabia dele era por meio de Analu ou Flávia que algumas vezes acabavam comentando algo a respeito dele durante uma conversa. Só que ao contrário do que ela pensava, não vê-lo não era tranquilizador, nem fazia com que a vida dela voltasse para o lugar. Não vê-lo era ruim. Era um pedido silencioso ao destino para que ele virasse a mesma esquina que ela, no mesmo momento, e eles dessem de frente um com o outro novamente – mas isso não acontecia.
Se tinha algo que ela nunca entenderia é como alguém poderia dizer que, quando alguém sai de nossas vidas o que fica é o silêncio. Não havia silêncio algum para ela. As lembranças e a saudade faziam um barulho altíssimo em sua mente todos os dias. A ausência de Tiago era ensurdecedora para ela. E chegou o momento em que Isabela assumiu para si mesma que aquele sentimento não iria embora com tanta facilidade. E algo deveria ser feito a respeito, começando com jogar limpo com a pessoa que ela mais queria bem nos últimos dois anos.
— Isa? – ela ouviu Rafael chamar quando ele entrou no apartamento.
— Já estou indo. – ela respondeu do quarto, respirando fundo para ver se tomava um pouco mais de coragem para fazer o que estava prestes a fazer.
Quando saiu do quarto ela o viu sentado na sala com o aromatizador – que ela mantinha agora na mesinha de centro, meses depois de tê-lo ganhado – nas mãos e cheirando o perfume mais de perto.
— Muito bom esse perfume. Combina mais com você que o outro que você usava.
— Era o meu preferido há alguns anos, mas achei que era hora de algumas mudanças.
— Mas agora alguma coisa aconteceu e você parou de fugir do seu passado.
Não havia sido uma pergunta, ela sabia. E aquela afirmação de Rafael lhe atingiu como um soco na boca do estômago, deixando-a sem ar por alguns momentos.
— Rafa... eu...
— Isa, eu sei o que tá acontecendo. Venho te percebendo cada vez mais distante. Fisicamente você tá comigo, mas seu pensamento nunca tá aqui, né?
Ele falava isso com uma calma que ela não entendia. Dentro dela tudo gritava. E ela queria que ele gritasse também – quem sabe os gritos dele abafariam seus próprios gritos interiores. Mas Rafael não era assim, e era exatamente isso que fez com que ela se apaixonasse por ele e se sentisse tão segura. Era por ser tão diferente de Tiago nesse sentido que ela se deixou levar pela paixão que não demorou a nascer quando ela o conheceu. E era por esse, e tantos outros motivos que faziam dele uma pessoa maravilhosa, que ela nunca se perdoaria pelo que estava fazendo.
— Eu só quero que você saiba que eu nunca quis te machucar. Eu te amo muito e queria que você acreditasse nisso. Só que é exatamente por te amar tanto e te querer tão bem que eu não posso continuar te enganando assim.
— Você me traiu?
— Não! Eu nunca faria isso com você!
— Desculpa por perguntar isso, mas é que o jeito que você falou...
— Rafa...
— Alguém do seu passado voltou, né? E eu suspeito que seja o cara que te fez querer enterrar tão fundo as suas lembranças.

https://www.youtube.com/watch?v=orSHFXrC-DY

(ouçam a música)

Isabela não conseguiu responder. Ela sequer conseguia sustentar o olhar de Rafael. Havia um nó em sua garganta que só fazia seu choro aumentar e as palavras ficarem sufocadas.
— Eu não vou te prender, eu não vou te acusar e nem quebrar tudo antes de ir embora batendo a porta. Mas eu preciso que você seja honesta comigo. – ele se aproximou dela e segurou seu rosto entre as mãos, fazendo com que ela olhasse para ele.
— Sim, o Tiago voltou. Nos reencontramos um dia na Paulista, por um acaso e algum tempo depois ele apareceu no hospital. Era ele naquele caso do mendigo. Faz uns dois meses que não o vejo, mas eu não consigo mais fingir que isso não tá mexendo comigo. E é tão errado te prender a mim nessas circunstâncias. Você merece mais que isso, muito mais que alguém pela metade.
Rafael então a abraçou apertado, surpreendendo-a. Era tão bom estar nos braços dele daquela maneira. Ela sabia que nunca se sentiria tão segura e protegida como se sentia com ele, mas ela também sabia que o amor nem sempre significa segurança, e muitas vezes ele pode significar correr alguns riscos.
— Eu te amo, menina. Jamais iria te manter presa a mim por alguma espécie de culpa. Assim como você acha que eu mereço mais que alguém pela metade, você também merece estar com quem te faça se sentir inteira. Você é a pessoa mais especial que já fez parte da minha vida, e eu realmente queria que meus filhos fossem seus também e tivessem esse mesmo sorriso. Eu realmente queria te levar pra todos aqueles lugares que você sonha em ir pra gente descobri-los juntos. Mas eu não sou dono da vida e dos caminhos que ela segue.
— Eu também queria isso tudo, Rafa. Você me faz feliz demais. Eu nunca quis alguém tão bem como quero a você.
— Mas você também não é dona da vida.
— Não sou...
— Não vou mentir, tá doendo muito, muito mesmo – a voz dele saía embargada pelo choro que ele tentava conter, mas ela podia ver as lágrimas em seus olhos – mas eu sei que vai passar e tudo o que eu vou ter serão lembranças maravilhosas e muita saudade.
— Eu não queria te perder. Eu queria poder te escolher.
— Você nunca vai me perder, Isa.
Antes que ela respondesse Rafael a beijou apaixonadamente. Ela correspondeu ao beijo e o puxou para mais perto. Havia urgência nos gestos de ambos, algo que nunca teve antes. Tudo era rápido demais, a respiração estava acelerada também. Rafael a puxou com ele e a prendeu entre ele e a parede. Os dois se encaram por alguns segundos e então ele a pegou pela mão, indo até a varanda. O sol estava se pondo, e o apartamento que Isa morava não dava de frente para nenhum outro prédio, só para um monte de casar bem lá embaixo e o céu que se estendia à frente deles. Rafael então voltou a beijá-la, dessa vez sem tanta pressa, explorando sua boca, seguindo então para seu pescoço e seu colo desnudo pelo decote da blusa. Ele então tirou a blusa que ela vestia e ela fez o mesmo com a dele. Ambos sabiam que precisavam daquilo. Transaram ali mesmo.
Quando Isa saiu do banho já não o encontrou em casa. Ele tinha ido sem dizer adeus, e mesmo que doesse saber que ele havia ido antes de ela se preparar para isso, ela sabia que assim seria melhor. Doeria demais ter que ver Rafael ir embora, e ela não sabia se teria forças pra aguentar isso. No final das contas ele sempre seria o mais corajoso dos dois.

***

Os dias eram terrivelmente longos sem a presença de Rafael neles. E para preencher o vazio que a ausência dele deixara – e pra silenciar todos os ecos que a saudade que ela tinha dele faziam soar – ela encheu suas horas vagas com mais estudo e trabalho só para manter a mente ocupada. Em poucas semanas já havia feito em dia todas as atividades da faculdade e estudado para todas as provas finais. Assistira a vários simpósios e palestras. A da vez era uma palestra sobre um projeto voluntário novo na cidade, o que lhe chamou a atenção porque além de ser algo que ela sempre quisera fazer, era mais uma oportunidade para que ela se mantivesse mais ocupada.

Ela estava checando sua agenda, sentada no meio da segunda fileira do auditório lotado, quando um de seus professores de semestres atrás anunciou o nome do palestrante. O coração dela acelerou automaticamente ao ouvir o nome Tiago Costa Leitão – que com ambos os sobrenomes não lhe deixava dúvidas de que não se tratava de uma louca coincidência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.