Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
6 Capítulo 6 - Dê-me tua mão
Notas iniciais
— O que o senhor está fazendo? Levante-se
— Me chame de Aurélio, por favor.
Ele beijou sua mão provocando um arrepio na espinha
— E-Eu tenho que ir embora
Segurou seu braço enquanto passava por ele
— Vamos esquecer tudo: dívidas, meu pai. Eu quero viver esse sentimento com você
— Está louco?
— Sim, louco por você, por essa sua pose irritantemente atraente. Não paro um segundo de pensar em você, Julieta
Ela sentiu um calor percorrer seu corpo com aquela proximidade, se deixando envolver por aquelas palavras. Foi a deixa que ele precisava para beija-la com paixão. Seu corpo se alegrava ao toque dele, uma sensação nova. Cada vez mais se perdia naqueles movimentos, ele parecia conhecer seu corpo mais que a própria. Estava derretendo, parecendo que a qualquer momento sua sustentação desabaria
— NÃOOO
Julieta acordou assustada com o sonho que acabara de ter. Santo Deus! Ela podia sentir o corpo de Aurélio presente, o cavanhaque roçando em seu rosto. Bebeu uma água e rezou, precisava se confessar, já que havia cometido tantos pecados. Depois do ódio que Camilo despertou nela ao mentir deliberadamente e depois abdicar de tudo e dos laços consanguíneos por Jane, pensou que teria uma noite recheada de pesadelos com o Bittencourt assombrando-lhe.
Por um lado foi bom não ter acontecido, por outro sonhou com Aurélio. Sentiu raiva de si mesma, como pode ser tão leviana a ponto de deixar isso acontecer? Era preciso resolver esse ‘problema’ o mais rápido possível. Amanhã mesmo partiria para o Vale do Café tomar aquilo que é seu por direito e afastar esse homem da sua vida, estabelecendo um ponto final.
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Aurélio saiu cedo para cavalgar em seu Puro Sangue. Precisava aliviar um peso que carregava em seu coração desde que voltara de São Paulo. Duvidava que fossem as preocupações com as dívidas. A quem ele queria enganar, era ela quem tinha roubado sua paz de espírito, não bastava tomar suas terras, fazer ameaças, ela tinha que governar sua mente.
Instiga seu cavalo a ir mais rápido, na tentativa de frear sua memória impregnada dos momentos com Julieta. Foram poucos, no entanto suficientes para perturbar-lhe.
Seu casamento com a mãe de Ema fora arranjado num acordo de famílias, eles construíram uma relação sólida, de muito respeito e carinho, mas não se amavam. Ela morreu ao dar luz a Ema, o maior presente que podia ter-lhe dado. Tudo entre eles era tão suave, sem rompantes, tão oposto ao que é agora.
Julieta despertava tantas emoções misturadas, se lembrou dos lábios macios e do perfume dela, um aroma que remetia ao café. Claro, tinha que ser algo forte, jamais enjoativo. Se fechasse os olhos podia imagina-la nos seus braços.
— Ora, bobagem. Arrea!!
Ao anoitecer...
Petúlia barrava a entrada de Camilo
— Estamos exaustos e famintos. Precisamos comer, você preparar alguma comida para a gente?
— Vocês não são bem vindos a esta casa
— Petúlia, eu não admito que você trate meus convidados dessa maneira
— Desculpe senhor Camilo, mas isso vale para o senhor também. Gosto muito do senhor patrãozinho, mas são ordens expressas da dona Julieta
— Essa casa também é minha
— Era. Você abdicou de tudo. Abriu mão em alto e bom som quando escolheu aquela mateira em detrimento dos seus laços de sangue. Essa sua decisão inclui também abrir mão da sua boa vida. Até que eu morra nada disso aqui será mais seu, quiçá depois de minha morte
— Que triste, minha mãe. Sua maldade está ficando sem limites, se você vai dormir melhor negando dormida ao seu filho tudo bem. Esse é um sinal de que eu não deveria estar aqui. Tenho pernas e tenho saúde, depois de tudo isso irei ficar no hotel da cidade bem longe da sua vilania.
Após descobrir que a mãe alugou todos os quartos do hotel da cidade, Camilo pensou em se abrigar junto com Ludmila e Januário na casa do Barão, o inimigo de sua mãe.
Aliás quando o jovem explanou seus problemas com ela, sem entrar em muitos detalhes, apenas deixando claro que Julieta estava no Vale do Café, Aurélio mal pode disfarçar o sorriso jocoso, fora difícil controlar as batidas de seu coração.
— Então ela está aqui
— Quem, Aurélio?
— Ninguém papai. Ninguém
No outro dia ao longo do café da manhã com uma casa bem cheia, afinal Camilo, Ludmila e Januário faziam toda a diferença. Aurélio de maneira discreta quis saber um pouco mais sobre a rainha do café.
— Sua mãe sempre foi dada a esses rompantes, Camilo? Me parece uma mulher tão sóbria
— Desde que não seja contrariada. Ela está ferida de morte por mim
— Nesse caso qual seria a melhor maneira de contornar a situação? – Aurélio ansiava uma resposta para acalentar seus sentimentos, pois já não sabia mais o que fazer
— Infelizmente não sei. É a primeira vez que a desafio. Percebo que quando a ofensiva é pesada, ela é implacável.
— Ela tem um coração de pedra – o Barão complementou
— Vocês sabem a solução para isso né?
— Não, mas quero saber, Ludmila.
— Falta romance na vida da Rainha do Café
— Isso, minha cara, Ema. Dona Julieta jovem e desejável tem mais é que desfrutar-se
Ah se todos ali soubessem sobre Aurélio e ela, de toda a tensão que existia cada vez que se encontravam em um ambiente. Ludmila havia tirado as palavras de sua boca. Julieta era brava, mas linda e muito atraente, principalmente sua personalidade.
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A fazenda Bittencourt esta a pleno vapor, os raios da manhã invadiam a cozinha, logo o cheiro do café da manhã se alastrava.
Julieta despertava, um banho de ervas lhe esperava, precisava relaxar. Um dia longo de trabalho a esperava, antes se olhou no espelho avaliando o que o tempo já tinha feito, o estrago com certeza era por dentro, vendo seu reflexo de cabelos soltos parecia tão diferente daquela mulher austera, impiedosa e tantas outras coisas mais.
Estava bem consigo mesmo, decidira que após o café tomaria um ar puro, nunca aproveitara esse tempo fora de São Paulo, agora faria diferente. Ao descer a escada fora surpreendida pela presença do homem que atormentava seu juízo. No último degrau ele ofereceu-lhe a mão para descer, ela não iria aceitar, mas deu-lhe e ali Julieta assinou sua sentença para toda uma vida.
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