Após uma conversa sincera e triste com Ema e Afrânio. Ele viu sua filha partir

— Eu nunca fiquei tão decepcionada com vocês dois

— Minha neta tente compreender. Nós fizemos isso para proteger...

— Nem termine essa frase, vovô. O senhor não aceita que errou e não quer que ninguém saiba. Até escondeu de meu pai

— Ema, nos perdoe

— Não me peça isso agora, papai. Estou indo embora com meus amigos para São Paulo

— Eu não vou deixar

— O senhor não tem que deixar nada. Os dois perderam a moral quando me enganaram

— Você vai se perder em São Paulo. Eu não criei uma neta para isso

— Trabalhar é se perder? De que adianta ter um nome nobre se estamos na rua da amargura. Adeus

— Ema

— Deixe papai. Ela precisa ficar sozinha

— Isso tudo é culpa sua que nunca teve pulso com essa menina

— O senhor a mimou mais do que eu

— Quieto! Não me contradiga, Aurelinho. O que será de nós?

— Eu não sei, papai

Depois de tanto custo Aurélio conseguiu fazer o Barão dormir. Resolveu beber um último cálice de vinho do porto e abrir o álbum com todas fotos da família, se emocionou ao acompanhar o crescimento de Ema. No fundo sentia um orgulho imenso por ela estar tendo coragem de sair da acomodação, embora os motivos que a fizeram ter tal atitude o deixassem triste.

— Boa sorte, minha filha. Seja feliz

Enquanto pais prenderiam suas filhas, as obrigaria a casar com um homem rico, de posses, ele jamais faria tal coisa. Criou Ema de forma livre de certas convenções, não queria a filha passando pelo o que passou. O medo de casar com alguém desconhecido, tudo bem, ele não foi infeliz, mas podia ter vivido mais coisas, talvez até ter casado com o amor da sua vida. Aurélio sabia que a vida do homem era muito mais fácil, uma filha mulher lhe deu um mínimo de consciência. Seu pai que vez ou outra se intrometia na educação, por esse motivo Ema era um tanto insegura e reservada.

Tomou mais um cálice e se lembrou do quanto estava magoado com Julieta. Na verdade, ela nem merecia suas lamúrias, a questão é que era difícil arrancar o sentimento e as dúvidas insistiam em permanecer na sua cabeça “Por que fez isso?” “O que ela esconde por trás de Julieta Bittencourt?” Chegou a um ponto, onde estava farto de remar contra a correnteza, ela tinha todo direito mesmo de tomar o que é dela, só esperava que honrasse seu compromisso com ele.

Pensando claramente desconfiava que Julieta estivesse fazendo todo esse rebuliço por não aceitar o fato de ama-lo, além dela possivelmente ter descoberto que ele esteve em seu quarto sem sua autorização. Que diabos! Haviam tantas possibilidades, por que a mulher parecia se dividir em várias outras? Quando achava que dava dois passos a frente, na verdade eram dez para trás. Não era hora de pensar na Rainha do Café e sim em como iria se sustentar daqui para frente, afinal tinha um pai velho e adoentado. Pela primeira vez na vida trabalharia, estava com medo não iria negar, mas com a certeza de que sobreviveria.

(...)

— Dona Ofélia e Seu Felisberto eu peço que por gentileza abriguem meu pai por um tempo até eu me estabilizar

— Claro, seu Aurélio. Será um prazer ter uma figura ilustre como o Barão

— É isso que eu recebo depois de anos de cuidado, Aurélio. Ficar na casa dessa mulher, mãe de uma doida que está levando minha neta junto – o velho ranzinza cochichou

— Papai! Colabore, não temos dinheiro para ficarmos em um hotel. Se o senhor não fosse tão turrão teríamos vendidos nossas terras a Julieta e estaríamos em situação menos ruim.

Com tudo resolvido partiu para buscar um emprego, mas as pessoas ficavam envergonhadas a empregar o filho do Barão. Achavam sempre que o trabalho não estaria a altura. Aurélio sentia-se duplamente humilhado, queria poder voltar no tempo e ter enfrentado o pai, ter feito alguma faculdade. Deixando de ser um acomodado. Nessa hora um sentimento de fracasso invadiu-lhe. Ficou com raiva de Afrânio, de si mesmo, de Julieta, simplesmente do mundo. Já era noite quando perambulava pelas ruas.

*

Julieta estava exausta após um dia inteiro de mudanças

— Você vai ficar aí?

— Daqui a pouco eu subo

— Boa noite

— Boa noite

Julieta olhou sem rumo para aquela casa. Finalmente havia tomado posse daquilo que era seu, por quê então não estava feliz? Se deslocou até o piano e tocou uma melodia rápida, logo se lembrou da carta escrita por Aurélio. Em como ela fez seu ser vibrar mais do que gostaria, os detalhes e o sentimento evidente, aliás nunca tinha visto um homem se declarar de tantas maneiras como ele. Era pelo olhar, pelo sorriso, pelos gestos, fechou os olhos ao pensar em seu abraço.

Não aguentando de curiosidade subiu para o quarto que era dele, relutou em entrar, ao fazer ficou nervosa. Tudo era muito organizado, sua mesa continha uma foto daquela que provavelmente era a mãe de Ema, eles pareciam felizes. Na outra Aurélio jovem, sorrindo alegremente. E por último uma com ele, a filha e o Barão. Em um gesto amoroso, Julieta segurou o porta retrato com a foto dele jovem e levou até o coração fechando os olhos fazendo uma súplica

— Eu quero esquecer você

— Então queremos a mesma coisa

Foi quando ela deixou o porta retrato cair no susto

— O senhor aqui? Vá embora

— Eu vou. Só precisava buscar esses porta retratos que meu pai pediu – Era mentira. Ele queria vê-la desesperadamente – Mas a senhora acaba de quebrar um

— Ora, a culpa é sua que me assustou

— Nunca assume nada não é mesmo?

— Pegue logo e vá

— Não precisa repetir. Não sou surdo, aliás nem faço questão de estar no mesmo ambiente que a Rainha do Café

Seu tom irônico a incomodou

— Que bom que concordamos em algo

Ela estava de costas para onde os porta retratos se encontravam, de forma proposital Aurélio chegou perto o suficiente para que pudessem se beijar caso quisessem. O olhar dela desceu para a boca dele, a proximidade inebriou seus sentidos e Aurélio quase se rendeu a paixão que irradiava, mas foi se manteve firme em pegar o que era seu e ir embora sem nem olhar para trás deixando Julieta amargurando o desejo não correspondido.

Do que adiantaria beija-la? Seria uma alegria momentânea, não acalmaria seu coração, pelo contrário, se tornaria mais um motivo para sofrer. Era melhor evitar, talvez fosse mais fácil esquecer. Julieta parecia testar até onde ia os limites de seu amor e agora chegou o fim.

Ela permanecia ali inerte, completamente chocada com aquele desprezo. Algo queimava em seu ser, queria gritar, começou a chorar sem nem perceber. Foi até a cama dele, sentou e segurou o travesseiro onde cheirou. Estava impregnado dele ali. Um sofrimento, uma onda de solidão, de abandono a invadiu, dando um ataque de fúria logo em seguida. Revirou o quarto e desfez o cabelo enquanto deslizava pelo chão num mar de lágrimas.

— Não quero amar nenhum homem. Eles só nos magoam

*

Após alguns dias batendo com a porta na cara, Aurélio conseguiu um emprego numa sapataria, estava se saindo bem, apesar do nervosismo do primeiro dia. Felizmente o dono da loja era novo e não sabia do seu título, ele também não fazia questão de contar. Esperava que ninguém conhecido desse com a língua nos dentes

— Aurélio, eu vou precisar me ausentar. Tome conta de tudo.

— Pode ficar despreocupado seu Maciel.

— Então está bem. Parece que duas clientes entraram

As duas estavam de costas com chapeis elegantes quando ele se aproximou

— Boa tarde, sejam bem-vindas em que posso ajudá-las?

Susana e Julieta se surpreenderam ao constatarem quem era o vendedor. Aurélio odiava toda vez que ao cruzar o olhar com ela seu coração acelerar mesmo depois de tudo. Susana percebeu o clima entre eles, Julieta não desviava o olhar e parecia nervosa como nunca tinha visto.

— Aurélio, o que faz aqui?

— Estou trabalhando como pode ver pelo uniforme

— Claro! Que estupidez, a minha. Confesso que estou surpresa, nunca pensei no filho do Barão trabalhando

— É um trabalho digno e honesto, Susana – A mãe de Camilo censurou sua assistente

Houve um silêncio em meio àquela súbita troca de olhares, quando Susana alertou para a formação de um aglomerado de pessoas.

Notas finais
continua...