Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
4 Capítulo 4 - Audácia
Notas iniciais
Camilo havia surpreendido sua mãe ao realizar um baile de máscaras, ela ficou indignada por não ter sido comunicada anteriormente
— Que brincadeira é essa?
— Ora eu sei que a senhora é admiradora do teatro, então sinta-se homenageada. Aqui está a sua. Com licença, irei receber meus convidados
Respirou fundo na tentativa de acalmar os ânimos, pelo menos ele estava longe de Jane, era o que ela achava. Durante o evento circulou bastante, uma lembrança insistente permanecia na sua mente, sua juventude que fora arrancada como um pé de café, deixando um gosto amargo. Por mais que se esforçasse em lembrar os bons momentos, eles pareciam terem sidos deletados e só se encontravam tristezas, angústias e sofrimento.
Por isso estava sempre envolvida em algum negócio, trabalho em cima de trabalho, porque se afundaria naquele passado e enlouqueceria. Já bastavam as noites com os pesadelos assombrando-lhe. Mesmo morto o fantasma do marido infernizava sua vida.
— Odeio estar em trajes inapropriados para a ocasião
— Que susto, Susana
— Desculpe, Julieta. Você está bem?
— Não, Camilo me apronta uma dessa. Como acha que estou?
— Eu não sei a quem ele puxou, ser tão levado. Talvez o falecido
— Nunca repita em hipótese alguma que Camilo se parece com o Bittencourt
— Tudo bem
Susana já estava acostumada com o humor ácido de Julieta, mas mesmo agora se surpreendeu com sua fúria. Se conhecem há um tempo, fato é que essa relação dela com o finado era um assunto proibido. Não haviam fotos deles juntos e muito menos dele. Havia algo no mínimo estranho no ar.
— Eu vou lá fora. Fique de olho em tudo
— Pode deixar
Anoiteceu rapidamente. Aurélio que estava enfurecido pela escapulida de Ema, foi busca-la no baile, mas o destino pôs Julieta em seu caminho postergando seus planos.
— O que faz aqui?
— Não vim atrapalhar sua festa.
— Acaso veio me dar uma notícia? Vamos entrar, aqui não é ambiente para termos uma conversa
Ele concordou. Podia ter dito logo a verdade e deixa-la sem resposta nenhuma, afinal merecia por ser tão arrogante. Só que havia algo nela que despertava uma curiosidade, talvez um encantamento fosse a palavra mais adequada.
Enquanto Julieta servia o vinho a imagem dele ajoelhado diante dela a pertubava mais do que devia e algo sobre como ele a olhava de canto de olho também. Em todos esses anos já recebeu todo tipo de olhar e propostas indecentes, onde respondia com seus olhos de fúria, ele se reafirmava em sua postura, externava toda sua altivez. Agora era diferente, não era medo, se sentia encabulada. Fez de tudo para não transparecer
— Aqui poderemos conversar com algum equilíbrio sem risco de ocorrer aquela cena patética do senhor ajoelhado
— Eu lamento que a senhora não tenha sensibilidade de reconhecer o desabafo honesto de um pai de família e filho dedicado
— O senhor tem um gosto mesmo pelo drama. Vamos direto ao ponto, em que pé estamos nas negociações? Não creio que queiram ficar em um barco afundando
Agora ele se ergue da cadeira e responde na mesma altura
— A senhora é tão sem emoção que não percebe que não se trata só de dinheiro. A terra tem muito mais valor. Os antepassados de nossa família fundaram aquela região, acha que é fácil entregar tudo de mão beijada a senhora? Só pensa em lucrar e expandir seus negócios, nós não estamos a venda, esteja ciente
— Baixe seu tom comigo ou somarei esse seu abuso na hora de executar a dívida. Eu ainda estou muito paciente, esperando a boa vontade do senhor Barão, qualquer outro não teria tanta compaixão
— Sabe o que mais me intriga?
— Não faço a mínima questão de saber
— Mas vou falar do mesmo jeito – ele se aproxima dela um tanto derrotado por essa discussão sem fim, no entanto não pode evitar de chegar mais perto daquela mulher imponente. Julieta queria se afastar mesmo que suas pernas não a obedecessem, porque seu extinto alertava-lhe de um certo perigo. Suas respirações estavam ofegantes e os corações bombeavam o sangue mais rapidamente – Por que uma mulher tão jovem, incrivelmente inteligente e bonita é tão irascível, dura... Nunca vi uma combinação tão irresistível
Foi o suficiente para ambos se olharem com um desejo que eles nem sabiam que existia e compartilharam um beijo, Julieta se entregou por um breve momento, logo caiu em si, mordendo o lábio de Aurélio, ocasionando o afastamento brusco.
— Está maluca?
— Isso é por sua insolência. Como ousa me tocar?
— A senhora queria tanto quanto eu. Não beijei sozinho
— Tanto que lhe mordi
— Está sangrando
— Bem feito. Fora daqui – gritava com imensa raiva
— Se acalme, por favor. Não foi minha intenção deixa-la assim
Ela ameaça jogar um vaso nele e com isso o pai de Ema sai dali completamente desnorteado. No fundo conseguiu penetrar na fachada da mulher indiferente.
— Esse homem me tira do sério
Ao mesmo tempo os dedos deles circularam os lábios, aquele momento estaria marcado na memória de cada um.
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