Julieta e Aurélio - Sintomas da Paixão
14 Capítulo 14 - A dança
Notas iniciais
— É um risco a se correr. Permita-me – esticou seu braço, com um brilho nos olhos
— Vamos – sorriu ao ser guiada pela sala
Aurélio se sentia como um jovem inexperiente e apaixonado ao ter a garota dos seus sonhos nos braços. Julieta estava cansada de brigar e seguir na direção oposta ao que seu coração verdadeiramente queria, fora vencida pelo cansaço.
Ficou mais próxima dele, ambos desfrutando do calor que seus corpos emitiam. Ele sorriu ao perceber seu movimento, Julieta derrapava nos vestígios de uma possível entrega, devido a alegria, acabava ficando afoito e errou os passos.
— Desculpe
— Eu falei que não iria dá certo – ele nunca a viu tão zombeteira
Quantas faces tem Julieta Sampaio? – pensou vagamente
— Acho que estamos enferrujados, só isso. Nós podemos sair em companhias, dançando pelo mundo – ela riu, um som que Aurélio queria escutar por toda a vida
— Essa companhia estaria falida antes mesmo de começar – ele também riu naquele clima agradável que tinha se formado
— Seja mais otimista
— Não tem como, olha isso – apontou para os pés – Deixa eu ver se mudando a música, algo melhora
— Tudo bem
— Talvez tenha que trocar o disco
Acabou por colocar em uma música mais lenta e suave, tentou mudar, mas fora impedida por ele.
— Essa é perfeita
O pai de Ema a puxa para mais perto. Deixando os rostos a centímetros, Julieta se viu quase fechando os olhos, ter fantasiado com ele na rua só piorava as coisas, deixavam suas emoções mais expostas, embora Aurélio tenha fingido não perceber, optou por deixar as bochechas coladas umas nas outras e a conduziu de maneira firme na postura, ainda mantendo a leveza dos pés.
A empresária não queria mais nada além de ficar aqui, se pudesse pararia o tempo. Pensava no quanto os dois tinham em comum, se perguntou o que seria da sua vida caso seus destinos houvesse se cruzado na juventude.
Para o filho do barão apesar de estar feliz, era torturante não poder amar Julieta como gostaria, sentia medo de a qualquer momento ela se afastar e ir embora, depois de tantas vezes, o que seria mais uma? Estava velho para tamanho sofrimento.
Afastou esses pensamentos, precisava desfrutar daquele calor, do seu cheiro, da macieza da sua pele, de simplesmente estarem próximos. No seu íntimo imaginava Julieta correspondendo ao amor dele sem reservas. No entanto algum segredo, ela escondia, tinha certeza
A música já havia acabado. Eles continuavam a se mover no ritmo sem se importarem, cada um com os olhos fechados imersos nos pensamentos. Julieta virou um pouco seu rosto, o nariz tocando onde alguns pelinhos da barba despontavam, Aurélio suspirou, o mínimo resquício de controle se foi quando ela trouxe suas mãos para os lábios dela
— Ah... Julieta! Eu te amo – as palavras saíram de maneira espontânea
Nunca pensou ver os olhos dele tão expressivos, sabia da sua sinceridade, o coração estava inundado em uma felicidade sem igual, só conseguia sorrir. As pequenas mãos fizeram carinho no rosto do homem apaixonado. Um estado de encantamento golpeava-os.
— Eu o amo também – ele mal podia acreditar que aquilo era real
Ambos partiram para um beijo na tentativa de aliviar a alegria dos corações transbordando de amor. Ele só conseguia sorrir bobamente entre os beijos
— Hoje é o segundo dia mais feliz da minha vida. O primeiro fora o nascimento de Ema.
— Eu pensava que morreria sem saber o que era amar e você apareceu, bagunçando toda minha vida
— Repete que me ama
— Eu te amo, Aurélio Cavalcante
— Eu é quem te amo, Julieta Sampaio – ela adorava seu verdadeiro nome sendo pronunciado por sua boca.
Ele a suspende e rodopia.
— Vou cair – a beija
— Jamais eu deixaria isso acontecer contigo. Aceita namorar comigo?
Julieta o abraça
— Eu aceito – seus olhos lacrimejavam
— Eu fiz alguma coisa?
— Não, é só que – se afastou tentando guardar as emoções – Aurélio, tem coisas do meu passado que...
— Shiuu. Quando você sentir vontade de me contar, estarei ao seu lado te apoiando, eu vou respeitar seu momento, Julieta. Uma virtude ou não, sou paciente. Seja o que for, eu te amo e te admiro por tudo. A única coisa que eu te peço é: não me afaste da sua vida – com os dedos ele secou as lágrimas dela
— Eu... eu estava tão acostumada a lutar contra os homens e você fez cair todas as minhas defesas, obrigada por seu apoio. Demorei muito a reconhecer esse sentimento, não quero perder, é só que eu... por vezes não sei demonstrar
— Meu coração entende e aceita o que vier do seu, é isso que importa. Após se abraçarem, ficaram ali no sofá se olhando, trocando carinhos e beijos
*
Ao ler uma enorme papelada, pensamentos daquela noite a desconcentravam. Ela estava namorando, um sorriso brotou nos lábios e uma falta de ficar com Aurélio também. Mesmo tendo mil motivos para fugir do amor deles, haviam outros mil que insistiam para ela seguir a diante. Charlotte a apoiou em tudo e incentivou Julieta a se abrir para o amor.
— Atrapalho?
Levou as mãos a boca, tentando esconder a surpresa
— Que susto! Não, eu só estou terminando esses papeis.
— A viagem demorou mais que o previsto. Tudo correu bem. Posso ajuda-la?
— Podemos tentar.
Ele se agachou próximo a ela para olhar os papeis, só que enquanto Julieta explicava, ao olha-la perdeu todo o foco. Só conseguia admira-la, sentia aquele perfume e via o quanto era sortudo. Sentia vontade de beija-la e abraça-la
— Aurélio está me... ouvindo? – não podendo mais se segurar, atacou seu pescoço. Cheirava-o e beijava-o – Eu preciso mesmo terminar com isso
Com certa relutância parou seu ataque, os dois estavam com os rostos próximos e Julieta deslizou seus dedos pelo rosto dele. Susana os interrompeu com um pigarro
— Me chamou, Julieta?
— Está atrasada, mas sim, quero que você envie um telegrama para Lorde Williamson.
— Para quando?
— Já
— Como quiser
Susana estava incrédula ao notar o quanto houve avanços na relação de Julieta e Aurélio. Ela estava perdendo seu espaço. Ao se sentir ameaçada, iria pensar em algo para separa-los. Aquilo fora longe demais.
— Pronto
Se levantou da cadeira sendo sendo puxada logo em seguida para os braços de Aurélio que finalmente capturou seus lábios num beijo cheio de paixão, Julieta correspondia com intensidade igual.
— Quero sair com você
— Para onde?
— É surpresa. Vamos cavalgando
— Faz tempo que não cavalgo
— Não tem problema, podemos ir...
— Por favor, eu quero.
Ela foi no Soberano enquanto Aurélio foi no seu companheiro de todas as horas, Zeus.
— Como é boa essa sensação de andar na garupa do cavalo
— Não sabia dessa sua alegria
— Eu amo cavalos, são os bichos mais generosos e leais que temos
— É verdade, eu vou voltar a cavalgar, não devia ter deixado nunca.
— Eu nunca te vi tão animada
— É ele – alisou o animal
— Vamos uma corrida?
— Aceito
Os dois seguiam animados. Julieta estava se sentindo tão livre, como nunca. Nem se lembrava a última vez que cavalgou. As presilhas do cabelo caíram, mas ela não se importou em tê-los soltos, preocupou-se em aproveitar o momento.
— Você venceu por eu estar destreinada
— Zeus é um exímio corredor, não me deixa na mão nunca – de repente ele parou para observa-la. Guardando a imagem do seu rosto feliz, iluminado pelo por do sol com o vento bagunçando seus cabelos
— O que foi?
— Estava te admirando, você é muito linda e fica ainda mais quando sorrir, Julieta
Ficara sem graça, mas sua voz e seu olhar lhe davam a certeza de que aquele homem estava sendo sincero. Acreditava piamente no que ele falava
— Obrigada... Bom esse é o lugar?
— Sim... – ainda estava sob o efeito daquela imagem – Aqui é o ponto mais alto do Vale, vemos o por do sol e podemos gritar a vontade, já que fazem ecos. Vem?
Ela sabia de agora em diante que não poderia recusar mais nenhum convite desse homem.
Fale com o autor