Juiz das Marés
1 Capítulo 1 – O terrível monstro Juiz das Marés!
Já fazia dois longos meses que Alger Mares estava preso naquele maldito navio pesqueiro. O balanço incessante das ondas, o cheiro rançoso de peixe impregnado em cada fresta da madeira e, pior de tudo, as beliches estreitas e duras o faziam sentir que o próprio oceano o punia dia após dia.
"Não aguento mais… é como dormir em pedras molhadas." — pensou, enquanto empurrava um biscoito duro pela boca, o rosto carregado de descontentamento.
Na mesa ao lado, um pescador mais velho, de barba grisalha e dentes falhados, resmungava alto:
— Essa rota maldita só serve pra nos matar de tédio. Prefiro enfrentar tempestade do que mais uma semana comendo biscoito de pedra!
Outro, de olhos fundos e voz rouca, replicou:
— E você ainda reclama? Pelo menos aqui não tem concorrência. Pensa se tivéssemos que dividir os peixes?
Fez uma pausa, encarando o mar pela escotilha antes de concluir: — …ou pior. Se tivéssemos que encarar piratas. Ou monstros.
Alger apertou a caneca de metal entre as mãos. O café preto tremia com o balanço do navio, mas era o frio em sua espinha que o fazia sentir que algo não estava certo. Murmurou baixinho, apenas para si:
"Dois meses nesse mar… e silêncio absoluto. Nem piratas, nem monstros. É como se o próprio mar estivesse nos observando."
Estavam no Mar Loki, a leste da Ilha Avante, um território governado por piratas — e temido por quase todos os marinheiros.
A refeição da manhã era simples: café amargo e biscoitos duros. Não havia tempo para luxo. Assim que terminaram de comer, todos se levantaram, seguindo para preparar o equipamento.
As velas se abriram, os remos mergulharam nas águas salgadas, e o navio avançou rumo ao ponto de pesca. Ali começava o trabalho pesado.
O trabalho não dava trégua. As gigantescas redes de arrasto eram lançadas, puxadas de volta com guinchos manuais, enchendo o convés de cheiro sufocante de peixe, óleo e sal. O ciclo parecia interminável — até que a monotonia foi quebrada.
Ao fazer a curva para a próxima área de pesca, o navio se deparou com algo perturbador: um cemitério de embarcações. Carcaças boiavam entre as ondas, madeira e ferro retorcidos, mastros quebrados que lembravam cruzes enfiadas no mar.
— Por todos os deuses… o que aconteceu aqui? — perguntou um dos homens, a voz falhando.
Alger engoliu em seco antes de responder:
— Parece que houve uma batalha… de piratas.
O silêncio pesado foi rompido por um grito desesperado do imediato:
— MONSTRO! TEM UM MONSTRO ENTRE OS DESTROÇOS!
A tripulação correu em peso para a proa. O mar estalava contra a madeira, o vento silenciou por um instante — e então, uma voz grave, profunda como o fundo do oceano, ecoou:
— É PROIBIDO SAIR DESSA ÁREA!
A bordo, o pânico foi imediato. Alguns homens gritaram, outros correram para o refeitório, como se a madeira pudesse protegê-los. Alger, porém, ficou paralisado. Não era medo comum. Era como se a própria água tivesse falado dentro de sua cabeça.
O capitão, suando, hesitou por um instante. O silêncio da tripulação pesava mais que as ondas. Finalmente, forçou um grito:
— Virem a proa! Vamos sair daqui, rápido!
Alger cerrou os dentes. “Idiota… sera que ele ouviu?. O monstro sabe que vamos tentar fugir.”
E de fato, antes que as velas pudessem levar o navio adiante, a voz ecoou de novo, ainda mais cruel:
— OS INFRATORES SERÃO PUNIDOS!
Uma corrente brutal de água se ergueu e se enroscou no casco como serpentes vivas. O navio gemeu, prisioneiro. As madeiras rangeram, o convés tremeu, e o caos se espalhou como fogo em óleo.
Alguns pescadores pularam ao mar em desespero. Outros escalaram as velas, como se o alto pudesse protegê-los.
— O casco não vai aguentar! — gritou um homem, com olhos arregalados de puro terror.
O capitão rugiu para ser ouvido:
— Avisem os que estão lá embaixo! Saiam, pulem! Este navio não vai resistir!
Alger correu pelo convés, ajudando a soltar cordas, derrubando caixas, berrando para quem ainda hesitava:
— O navio vai afundar! Agarrem qualquer coisa que flutue e pulem agora!
Minutos depois, uma rachadura profunda se abriu na lateral. A água jorrou para dentro como se o mar tivesse cravado suas presas. O navio gemeu, morrendo.
Alger avistou uma boia caída entre os destroços. Sem pensar duas vezes, agarrou-a e saltou ao mar. A água gelada cortou sua pele como lâminas.
Logo a maioria já estava na água — alguns agarrados a boias, outros apenas lutando para não afundar. Então, a corrente colossal arrastou o navio por completo para o fundo, esmagando a madeira até nada restar.
A voz retornou, estrondosa, preenchendo o mar inteiro:
— PUNIÇÃO!
E o oceano respondeu. Uma força invisível se abateu sobre todos os sobreviventes, empurrando suas cabeças para baixo. O mar, que antes os sustentava, agora os traía. Homens engasgavam, braços batiam desesperados na superfície, mas era inútil.
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