Judith
2 Capítulo 2 – A primeira primavera
Notas iniciais
I'm a believer
"Então eu vi o rosto dela
E agora eu acredito
Nenhum traço
De dúvida na minha mente
Eu estou apaixonado
Uuuuuuuuuh
Eu acredito, não poderia deixá-la
Mesmo se tentasse."
Oliver Queen
Geralmente costumo acordar de ótimo bom humor, o meu despertador é a prova viva disso. Todo dia pela manhã ele desperta ao som de I’m Believer que já é o suficiente para que minha cabeça comece a balançar no ritmo da melodia antes mesmo que eu abra os olhos. Os raios de sol que escapam pelas persianas me avisam que lá fora deve está fazendo um belo início de manhã, ou seja, do que poderia reclamar? Sou um cara sortudo pra caramba.
Eu me levanto ainda sonolento, espreguiçando as costas, bocejando e dando àquela leve coçada no abdômen. Do meu lado esquerdo há um corpo feminino coberto pelos lençóis, ela se mexe de um lado para o outro incomodada, mas decido ignorá-la porque estou ocupado demais fazendo alguns passinhos de dança acompanhando a música. Tarde demais, a mãozinha delicada da morena aperta com força o botão desligar do despertador, acabando com o meu barato.
— Quem acorda em uma manhã de domingo escutando Shrek?
Ela cobre a cabeça com o travesseiro.
Qual o problema com Shrek? É a minha animação preferida, Judith adora quando assistimos, mas confesso que me divirto mais do que ela, porque na maioria das vezes a pequena sempre acaba dormindo no meio do filme. E se Clarissa está assim com I’m Believer, mal pode esperar pela próxima, Livin la vida loca.
— Clarissa... Não seja mau humorada.
— Do que me chamou? — a mulher de olhos castanhos se livra do travesseiro o arremessando bem no meu rosto.
— Do que eu te chamei? — revido a pergunta. Eu a chamei de ‘Clarissa’, não sou nenhum doente mental, mas pelo jeito que os seus olhinhos castanhos claros estão espremidos, Clarissa não deve ser o seu nome. No dicionário de transas casuais errar o nome da garota pela manhã não é algo positivo.
— Me chamou de Clarissa! — a mão pesada dela acerta meu bíceps. Ai! Merda! Que dedinhos pesados são esses? Pelo amor de Cristo.
— Clara! É Clara, não é?
— Eu sabia que não deveria ter acreditado no seu papo furado! Por que todo homem consegue estragar tudo? Depois de uma noite incrível?
Obrigado pelo Noite incrível, ajudará muito no meu desempenho nas próximas vezes.
— Carla?
— Carla? — a morena de corpo esculpido veste a calça jeans espumando pela boca. Sua mão esbarra no funko da mulher maravilha sobre a estante e arremessa o mesmo na minha direção, mas consigo desviar antes que ele volte a acertar o meu rosto.
— É Camila, Oliver. CA-MI-LA! — ela soletra bem lentamente para que eu possa absorver a informação.
Camila? Ah, eu estava chegando lá, não é para tanto.
Mulheres, por que tão impacientes?
— Camila. Isso. Eu estava testando você.
— Cara de pau... — ao vestir a camiseta, a morena passa pela porta do quarto como um foguete, deixando um rastro de fogo pelo chão. Eu até tento segurar ela pelo braço, mas Camila escapa como um peixe molhado.
— Não precisa ser assim, a gente pode tomar o café da manhã e esquecer que esse pequeno erro aconteceu.
— Você deve fazer isso com todas! — Camila calça os sapatos com dificuldade e quando se levanta para seguir até a porta, tromba com Thea. — Quem é você?
— Ninguém que você precise saber. — Thea revira os olhos. Ela costuma fazer isso quando vê uma das garotas que passo a noite logo pela manhã, minha irmãzinha não consegue esconder quando estou sendo um verdadeiro cuzão.
— Minha irmã. Ela é minha irmã!
— É, eu não tive muita sorte. Talvez, um dia, a ciência nos deixe escolher as características dos nossos irmãos, principalmente as qualidades. — Thea me dirige um sorrisinho forçado enquanto prepara o café sobre a bancada.
— Quer saber? Estou pouco me lixando. — ela pega a bolsa no sofá, a coloca no ombro bufando como uma leoa raivosa e se preparando para sair, estaciona ao lado da porta. — Você é um bosta.
Bosta? Pesado.
— Camila...
A porta bate bem na minha cara.
Clarissa? Clara? Carla? Oras, é quase Camila.
— O que foi dessa vez? Errou o nome da moça de novo? — Thea gargalha enfiando uma colher de cereal goela à dentro. Minha irmãzinha é fã desses cereais, nos armários deve ter caixas dessa bomba de açúcar para até a próxima década.
— Como você sabe?
— Na semana passada você fez a mesma coisa.
— Agora o culpado sou eu? Vocês mulheres que são temperamentais demais! Uma noite dessas uma garota me chamou de Mário e eu nem me importei. — dou de ombros me sentando ao seu lado.
O cheiro do café massageia as minhas narinas, Thea é boa nisso, o que seria de mim sem a minha caçulinha e o seu maravilhoso café? Moramos juntos, todos juntos, meu pai também faz parte da nossa pequena família. Robert Queen é viúvo, mamãe faleceu há três anos por causa de um câncer e desde então passamos a morar juntos, um ajudando o outro sempre que necessário. Thea é residente do Hospital de Starling, ela estuda oncologia, acredito que seja pelo que aconteceu a mamãe, mas ela não gosta de tocar nesse assunto. Já o papai, o papai é produtor musical e, bom, eu o ajudo sempre que posso.
— Você não acha que está grandinho demais para viver como um garotão?
— E você não acha que está se metendo demais na minha vida?
— Só não venha chorar se alguma dessas meninas, temperamentais demais, decidir arrancar seu pintinho fora quando você voltar a errar o nome dela.
— Pintinho?
— Feri seu ego?
— Chega desse assunto... — jogo o guardanapo no rosto dela, não é legal falar sobre meu pau com a minha irmã mais nova em pleno café da manhã. Isso é um pouco estranho. — Você vai aparecer na festinha de um ano da Judith?
Os ombros de Thea caem em frustração.
Ela comprime os olhos ao mesmo tempo em que belisca com os dentes o lábio inferior rosado. Eu rio divertidamente, normalmente Thea faz isso quando se esquece de algum compromisso importante. E fala sério, Judith é o maior compromisso das nossas vidinhas medíocres.
— O aniversário da pequena é hoje?
— Tá brincando? É claro que é.
Ela volta a comprimir os olhos.
— Droga! Tenho um plantão essa noite.
— Pede para algum estagiário bastardo te render.
Thea gargalha ironicamente. — Acha que é fácil assim? Eu sou uma futura médica, Ollie. Tenho que mostrar serviço... Não é como fazer o que eu quero. Mas quando você tiver um trabalho de verdade, entenderá.
— Trabalho de verdade? Eu sou produtor musical!
— Não maninho, o papai que é produtor musical. Você só é o carinha que ajuda a gastar o dinheiro.
Minha irmã sempre com palavras tão doces, nada que eu já não esteja acostumado.
— Pesado...
— Palavras duras demais para serem ouvidas pela manhã?
— Digamos que sim.
Dou de ombros.
O que mais posso fazer se as mulheres andam tão insensíveis? Eu trabalho sim, dou duro com o coroa sempre que ele precisa. Só não sou um louco obsessivo pelo trabalho vinte e quatro horas por dia como Thea, afinal, isso não é saudável para nenhum ser humano que tenha nascido aqui nessa Terra. Nós precisamos de um tempinho para respirar, curtir a vida e, principalmente, a minha pequena Judith.
— Falar em papai... Sabe por onde ele anda?
— Transando com Donna.
— Smoak? — a boca de Thea se abre em um grande ‘O’ e o queixo cai rapidamente. Eu seguro uma risada gostosa, porque estragaria esse cenário incrível que é conseguir pegar ela pelas calças. Não é que meu pai tenha contado para mim, eu apenas peguei ele com Donna se atracando no estúdio um dia desses, pigarreei e fingi que não havia visto nada, e olha só, eu vi tudinho, até o que meus olhos não precisavam ter assistido. E a parte engraçada é que a primeira pessoa que veio na minha cabeça foi Felicity e sua grande cara de espanto, não igual a de Thea, uma bem pior... Bem pior mesmo.
— Palavras duras demais para serem ouvidas pela manhã? — revido a pergunta de forma irônica, roubando seu pote com cereais encharcados com leite fresco.
— É brincadeira?
Ela revira os olhos.
— Não é não! — falo com a boca cheia, jogando leite com cereais para todos os lados.
— Isso não vai dar certo...
— Não vai contar isso pra ninguém, hein.
Thea volta a revirar os olhos, bufando logo em seguida.
— Bom... Não sou eu a irmã que não consegue guardar segredos! — as mãos dela alcançam o a maleta de couro que arrasta para o hospital. As mãos passeiam pelo meu queixo sentindo a barba rala por fazer. — Dê um jeito nisso.
— A barba? Claro! Judith é a única garota pela qual faço a barba.
— E, por favor, não use aquele boné velho de sempre. A camisa xadrez também, não faça isso.
— É perseguição?
— É. — depois de pegar as chaves do carro, Thea me joga um beijo pelo ar com um sorriso perfeito. Ela faz isso todas as vezes que nos despedimos e só vai embora quando eu o pego e guardo no lado esquerdo do peito. Somos fofos um com o outro, pode não parecer, mas somos irmãos que se amam mais do que tudo.
— Não deixa de ir! Judith até que gosta de você.
— Até que gosta? Ela me ama.
— Não mais do que a mim. — lanço um olhar convencido.
— É, talvez, você tenha razão.
Ela sai pela porta.
Talvez?
Não é talvez, é certeza mesmo.
~~~
Barry está fritando algumas salsichas para o nosso lanchinho de início de tarde enquanto as garotas enfeitam a mesa e enchem os balões coloridos lá dentro. Judith sorri para mim quando a levanto o mais alto que consigo, as mãozinhas pequenas seguram meu queixo com cuidado. Os olhos de Judith são os azuis mais claros que já vi, deve ter puxado os de Barry, mas eu sempre digo que ela não se parece nadinha com ele. Os poucos fios de cabelo são ruivos assim como eram os da avó, mas o formato do rosto não tem como negar, é igualzinho ao de Caitlin.
— Que cara é essa? Parece que não dormiu muito bem essa noite.
— Judith ainda não me deixa dormir. — Barry bufa revirando os pães na chapa. — Bem que você podia ficar com Judith no final da semana que vem, preciso levar Caitlin para jantar e transar com ela antes que volte a se tornar virgem.
Eu rio enquanto faço de Judith uma metralhadora, ela adora quando faço isso, a gargalhada que faz é impagável.
— Nada disso, eu não sei nem trocar uma frauda!
— Eu te ensino, sou mestre nessas coisas. — ele desliga a churrasqueira elétrica dando um bom gole na cerveja gelada. — É sério parceiro, Caitlin está me deixando beirar à loucura. Você sabe o que costumamos fazer nas sextas à noite?
— Sei lá.
— Palavras cruzadas!
Eu volto a rir.
Me racho de rir.
— Cara... Quem faz palavras cruzadas em plena sexta-feira à noite?
— Ela diz que está cansada demais para fazer qualquer outra coisa. — ele balbucia. — Desde que pegou essa vida dupla de ser mãe e trabalhar na Smoak Tech, as coisas ficaram pesadas para o lado dela.
— Ser mãe não é brincadeira, ainda mais quando se é uma mulher de negócios.
— Pois é.
— Mas vocês não têm uma babá?
— Claro que sim, mas aos finais de semana ela tem que ir para a casa dos filhos. — Barry suspira frustrado.
— Ela é gostosa?
— Tem cinquenta e quatro anos. Caitlin diz que escolheu a dedo, porque nem que eu me esforce vou conseguir me imaginar transando com a coroa.
Volto a rir.
Barry esboça um sorriso amarelo.
Os funcionários terminam de montar o pula-pula no jardim e as duas bilhas azuis de Judith brilham como se encontrassem o balde de outro no final do arco-íris.
— Vamos nessa! — coloco meu boné da Nocking Point Party para trás, me preparando para subir com Judith no imenso pula-pula. Estou a segurando pelas costas como um homem das cavernas, mas ela não se importa, pelo contrário, adora quando eu tiro meu dia para brincarmos. Porque sou um dos poucos que não me comunico como se estivesse falando com uma extraterreste, crianças são seres normais e merecem se divertir. Por exemplo, um dos meus esportes favoritos é quando a jogo para o alto e faço essas coisas que os garotos estão acostumados a fazer.
— Cara, ela acabou de mamar... Isso não é uma boa ideia.
Barry murmura.
— Qual é, não vamos dançar Single Ladies, só vão ser alguns pulinhos. — começo a pular segurando Judith no alto. Estamos rindo, nos divertindo, os dois dentinhos dela estão começando a aparecer pela gengiva, ela fica incrível quando sorri. Antes de ser convidado para ser padrinho de Judith não imaginava o quanto isso iria mudar a minha vida, eu nunca fui apegado a crianças e as achava umas pestinhas, mas minha vida virou de cabeça para baixo quando peguei a pequena nos braços pela primeira vez. E hoje ela é uma das minhas prioridades.
— Oliver, ela vai colocar tudo para fora e Caitlin vai me matar...
— Olha como ela está se divertindo!
Aumento a velocidade dos pulos.
E quando menos espero um jato branco voa no meu rosto, acertando parte da minha boca, camisa xadrez e boné. Barry começa a rir na hora, fazendo com que eu pare de pular. O que é esse cheiro? Isso não pode ter saído de Judith. É fedido.
— Eu avisei. — Barry dá de ombros.
— Caramba, o que colocaram na mamadeira dessa menina? Ela tá podre.
O cheiro de vômito está por todos os cantos.
Mas Judith continua rindo, deve ser da minha cara de paspalho. Eu também estaria rindo, vomitar nas pessoas enquanto elas pulam em um brinquedo de crianças realmente deve ser algo cômico, mas não tão cômico quando é a sua cara e boné preferido que estão sujos com esse líquido branco espesso com um cheiro de leite azedo que costumam chamar de vômito.
— Não olha para mim com essa cara, não vou te livrar dessa!
— Como assim? E o que eu vou fazer?
A danadinha agora está com os dedinhos na boca, me olhando duvidosa sobre a travessura que acabou de fazer. Mesmo fedida ela é adorável.
— Primeiro você deveria começar a rezar, porque assim que Caitlin ver Judith toda suja... Cabeças vão rolar!
— Isso não foi uma brincadeira, não é? — meus olhos arregalam, mas Barry apenas faz um não com a cabeça como quem sabe a fera que me aguarda.
— Não.
Respiro fundo ainda mantendo Judith bem longe do que me restou de limpo. Não vai ser tão ruim assim, essa pequena deve ter bilhões de vestidinhos com o mesmo modelo, as meninas sempre têm uma coleção dessas roupinhas com babados e lacinhos, não vai ser um mistério. Eu nunca entendi isso, mas por que as meninas não usam azul com frequência? Na minha concepção não existe essa palhaçada de cor de meninas e meninos, eu mesmo, adoro usar rosa quando posso.
— Oliver? — a voz de Barry me impede de continuar andando.
— Uma dica. As mulheres sempre têm razão, antes de Caitlin dizer qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, ela vai estar certa! Possivelmente isso salve a sua vida por hoje.
— Entendido. — dou aquela última olhada para Judith. — Me ajuda nessa, vai. — ela sorri. Simplesmente sorri.
Não importa, as meninas sempre vão se divertir quando os meninos se dão mal. A verdade é que elas são superiores, se desenvolvem primeiro, atingem a maturidade e uma inteligência tão rápido que nos deixa comendo poeira, enquanto nós meninos somos tão lentos quanto as lesmas. O processo aqui é de vagar, babamos mais, demoramos mais para adquirir inteligência, se é que um dia a alcançamos. E não adianta, está na nossa genética, uma prova disso é colocar um bebê que acabou de se alimentar para pular em uma pula-pula na velocidade de um raio.
Quando entro na cozinha carregando a bomba de vômito bem longe da minha roupa suja, Caitlin que parecia se divertir com Felicity paralisa de imediato me lançando aquele olhar fulminante pelo qual Barry tinha mencionado. O cara não estava brincando quando disse que Caitlin iria querer me matar, agora não tenho nenhuma dúvida de que isso realmente vai acontecer, porque Felicity também me dirige o mesmo olhar.
— O que você fez? — Caitlin pega Judith das minhas mãos e a menininha abre os bracinhos para a mãe.
— Vou acreditar que essa pergunta tenha sido feita para essa pequena máquina de vômito. — dou de ombros enquanto pego uma compressa molhada para tirar o excesso do líquido azedo. Uma das moças que fofocava com Felicity e Caitlin tampa as narinas.
— Será que você não consegue ficar se quer uma hora sem fazer besteiras? — a loira bufa ao perguntar.
— Só estávamos nos divertindo no pula-pula.
— Pula-pula? Você é um asno mesmo. — Felicity murmura.
— Own. — suspiro ironicamente fazendo um coração com as mãos. — Sempre tão delicada e amorosa! Merece um abraço de urso. — abro os braços ameaçando Felicity que arregala os olhos prontamente. É engraçado o quanto se assusta, porque no seu manual de como se lavar as mãos mais de cem vezes por dia, ser abraçada por um cara totalmente sujo de vômito é quase iniciar a Terceira Guerra Mundial.
— Sai daqui! — ela desvia dos meus braços abertos. Mas eu continuo fazendo uma barreira enquanto gargalho com o pânico instalado no rosto dela como se eu fosse o Abominável homem do vômito. — Eu não estou brincando, Oliver!
— Só vai ser um abraço quentinho.
— Não ouse...
Felicity pega uma faca encima da bancada, a apontando para mim. Agora é um sorriso dominador que surge dos seus lábios. Mesmo que a faca seja de plástico e sem ponta é melhor que eu pare com essa brincadeira antes que ela arrume uma forma de cometer um assassinato com essa super faca.
— Ok, sem abraços. Sem abraços.
— Qual é o problema de vocês? — Caitlin nos interrompe, fazendo com que voltemos à atenção a ela em sincronia.
— Você está certa. Eu sou o errado aqui. — pronto, foi isso que Barry me mandou fazer. É a minha chance.
— O que é que você disse? — Felicity me dirige um olhar de surpresa.
Caitlin revira os olhos. — Barry deve ter dito para ele falar isso. Bem típico.
Como ela sabe?
Mulheres não têm só sexto sentido, elas também têm bolas de cristal.
Bizarro.
— Não sei do que está falando. — me faço de desentendido.
— Oliver fique quietinho antes que eu acabe com você! — ela suspira enquanto analisa o vestidinho de Judith. — Como imaginei, vou precisar trocar essa roupa.
— Não precisa... Daqui a pouco ela vai voltar a se sujar.
— Falou o sabichão. — Felicity murmura.
— É... — sou interrompido por Caitlin.
— Vocês dois não comecem de novo! Eu vou trocar essa pestinha antes que eu mude de ideia sobre preservar a vida do padrinho mais sem noção que existe. Felicity, ajude Oliver com uma roupa limpa ou ninguém vai aguentar esse cheiro.
— Eu? — Felicity pergunta com indignação.
— É claro! Na última vez que Oliver foi procurar por uma camisa no closet de Barry, fez uma bagunça que me obrigou a perder a noite inteira.
— Não foi assim. — desconverso.
— Mas é que... — Felicity tenta negar, mas é interrompida.
— Ou você prefere tocar essas limpas mãozinhas em vômito? — Caitlin lança um olhar desafiador e Felicity engole a seco.
— Inferno! — a loira começa a me empurrar para as escadas, ela está resmungando como uma velha coroca.
— Eu vooooooou! Eu vooooooou! Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou! Pararatimbum, pararatimbum, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou! — estou cantarolando a música dos Sete anões enquanto subimos as escadas, a cara de Felicity é de quem está querendo cometer um suicídio ou um assassinato, o fogo que sai pelas ventas seria capaz de colocar essa casa abaixo.
A verdade é que faço tudo isso de propósito, porque Felicity pegou uma implicância comigo desde que a deixei plantada uma hora para aquele jantar armado por Barry e Caitlin. Onde os dois estavam com a cabeça para acharem que eu e a loira hipocondríaca daríamos certo? Tudo bem, quando a vi naquele vestido vermelho sangue colado na silhueta perdi um pouco o fôlego, mas foi ela abrir a boca para eu entender que dali não sairia nada. Absolutamente nada. Nadinha. Só que o mundo dá voltas e Judith voltou a nos unir, Barry é o meu melhor amigo, é claro que iria me convidar para ser o padrinho da pequena, o outro lado da moeda aconteceu com Felicity, a loira é a chefe e melhor amiga de Caitlin, obviamente seria escolhida para madrinha ao meu lado. De uma forma meio tosca de explicar, somos quase como a água e o óleo, não nos misturamos. Mas eu até que me acostumei com o jeitinho de Felicity, podemos não nos dar bem, porém, tudo tem um porém, ela é linda, principalmente irritada. E a beleza dela faz com que eu consiga abstrair todo o restante do seu transtorno obsessivo compulsivo.
— Você poderia, por favor, calar a boca só por um minuto? — depois que entramos na suíte a mão forte de Felicity empurra a porta. Os passos batem no chão até chegarem no closet e ao abri-lo ouço um suspiro sair dos seus pulmões e da água para o vinho surge um sorriso encantador de Felicity. Adivinhem quem conseguiu essa divindade? Sim, as camisas de Barry estão passadas e separadas pela cor, os olhinhos azuis da loira estão brilhando.
— Sim senhora! — é inacreditável como me divirto com ela, cada implicância me arranca risadas. Não que eu conseguiria conviver com essa mulher por vinte e quatro horas, não daria. Felicity me deixaria louco. Mas nada que umas doses homeopáticas de humor para deixar o dia mais interessante.
Enquanto ela procura por uma camisa no closet, eu trato de começar a arrancar a roupa suja com o vômito e parece que nada aqui vai me servir além das calças.
— Bom... — ela se vira com uma camisa social azul, mas quando me vê abrindo o zíper da calça jeans os seus olhos voltam a arregalar. — O que está fazendo?
— Trocando de roupa?
— Sim, mas, você, é... — seus olhos se fecham e eu volto a cair na gargalhada. — Faz isso de propósito!
— Qual é gatinha, só vou me trocar, mas se pensa que vou vestir essa camisa... Está bem louca.
— Não me chame de gatinha. — Felicity deixa de cobrir os olhos para me apontar o dedo indicador. Bravinha como sempre.
— Tudo bem. — abro o zíper da jeans e é aí que a loira volta a resmungar.
— Pare bem aí, eu não sou obrigada a ver... — ela balbucia tão lentamente que parece buscar por alguma palavra que faça sentido. — A ver tudo isso! — os olhos dela se quebram quando passeiam pelo meu peito e abdômen, já é o bastante para que eu continue rindo.
Eu paro como uma estátua, levantando meus braços para o alto.
Felicity continua. — E isso não é um simples azul. É azul turquesa.
Por que as mulheres não ficam em só um setor de cores? Por que não existe só o azul? Chega dessas variações de azul bebê, azul marinho, azul turquesa, isso é tudo uma besteira. Azul é azul, pronto.
— Não vou vestir essas roupas de coxinha do Barry.
— Esqueci que você é o descolado.
— É, você costuma esquecer.
Ela suspira me jogando a camisa.
— Vista isso!
Assim que a loira se prepara para sair, a puxo tão rápido pela cintura que o seu corpo pequeno volta com tudo para o meu como um ioiô. Nos impactando. Felicity volta a abrir bem os olhos, colando as duas palmas das mãos no meu peito, eu estou com aquele sorriso que ela intitula sabor morango nos lábios justamente para irritá-la mais um pouquinho, e quando ela inicia movimentos para sair, colo nossos lábios rapidamente. O bastante para que a mulher de gênio forte comece a se debater feito uma barata encurralada.
— O que foi isso? Você nunca mais... — suas palavras atropelam umas as outras. — Nunca mais faça isso de novo ou eu acabo com a sua raça! — ela está tão séria, não há toque se quer de humor ali, mas eu a ignoro.
— Felicity...
— Preciso sair daqui antes que eu cometa uma loucura! — a mão dela puxa com toda a força a maçaneta da porta e, para a nossa surpresa, a mesma sai na sua mão. — Ah não... Isso não pode está acontecendo. Definitivamente isso não está acontecendo.
— Merda.
— Isso é culpa sua. Tudo é sempre sua culpa.
— Caramba, você não vai parar de reclamar?
— Estamos presos aqui, como deseja que eu fique ao menos normal?
— Me dá isso aqui. — pego a maçaneta da porta, tentando coloca-la no lugar, mas é impossível. A parte que gira para abrir a porta caiu do outro lado e só alguém de fora conseguiria abrir para nos tirar daqui. — Parece que vamos ter que esperar alguém vir nos salvar.
— Eu e você? Aqui dentro? Nem mais um segundo. Vou começar a gritar até que alguém me tire daqui.
Felicity dá um passo em direção às janelas, mas eu volto a puxar seu pulso levando suas costas de volta para a superfície da porta. Agora nossas respirações fortes se encontram, o cheiro do seu hálito é de frutas vermelhas, acho que é do gloss que está nos lábios. Eu já estive várias vezes próximo de Felicity, mas não tão próximo como agora pouco quando roubei um selinho para implicar, e bom, estamos praticamente colados de novo.
— Para de ser histérica.
— Me largue. Agora.
— Não.
Dou de ombros.
Meu peito duro encosta na altura do busto de Felicity voltando a pressiona-la contra porta. Minha cabeça pende para baixo e tão rápido como da última vez os meus lábios encontram os dela que paralisam. Desta vez é diferente, porque eu quero aprofundar o beijo – eu não sei onde quero chegar fazendo isso, talvez seja para tirar ela do eixo só mais uma vez, vai ser engraçado –, e Felicity volta a se debater, mas eu continuo até que as suas mãos cansem, descansando nos meus ombros. Os lábios são tão macios e gostosos que eu poderia derreter aqui, mas eles ainda estão tímidos então decido continuar somente passeando com os meus por ali aguardando que ela permita. A boca entreabre, me surpreendendo, e nossas línguas também se encontram, se conhecem, se abraçam. Mas tudo acaba tão rápido como começou, porque as mãos de Felicity nutrem força para me empurrar.
Os olhos assustados.
O peito inflando as pressas.
Que merda! Será que fui longe demais?
— Nunca mais, Oliver... Quando uma mulher diz não, é NÃO!
Ela engole a seco de novo.
Eu engulo a seco também.
— Eu passei dos limites Felicity, foi mal. Mas também não é para tanto! Foi só uma brincadeira.
E realmente foi só uma brincadeira.
Beijar Felicity com qualquer outro intuito não faz parte dos meus planos. Não mais.
Não tem nenhuma chance.
— Foi mal? Foi péssimo! Agora vou ter que escovar meus dentes umas centenas de vezes!
— Péssimo? Não pareceu tão péssimo assim.
Pisco para ela enquanto cruzo os braços.
— Cala a boca. — as mãos nervosas de Felicity se preparam para iniciar uma carnificina quando Caitlin empurra a porta. A frase “Salvo pelo Gongo” nunca fez tanto sentido.
— Estou atrapalhando alguma coisa aqui? — o seu olhar é brincalhão.
— Sim. Estávamos quase chegando lá. — brinco.
— Arrrrgh! — Felicity bufa. — Eu preciso de ar. De todo o ar do planeta!
Ela sai empurrando a amiga como um furacão.
— Felicity! — Caitlin a grita, mas é ignorada. — O que você fez?
— Nada.
— Ah coitadinho... — o tom de voz é irônico. — Vista essa camisa e desça!
— Seu pedido é uma ordem.
Pisco para Caitlin e ela me responde com o dedo do meio.
Eu adoro Caitlin, ela é fantástica.
~~~
Festinhas de criança são sempre a mesma coisa, há grupinhos de mulheres grávidas que supostamente conversam sobre como deve ser a vida de ‘mamãe de primeira viagem’ ou só devem ficar falando mal dos homens mesmo. Há aqueles pais que correm atrás dos filhos para que eles não ralem os joelhos enquanto a mãe respira um pouco novos ares. E, bom, existe o meu grupo onde eu tenho uma cerveja gelada e Judith no meu colo, agora limpa e com o cheiro da colônia de bebês que dei a ela – eu amo esse cheiro -, e estamos desfilando pelo jardim quando me deparo com meu pai e Donna Smoak se pegando em um canto coberto por arbustos.
Sabe quando sua visão fica panorâmica o bastante para conseguir assistir toda a cena que está para acontecer? Sim, porque enquanto meu pai e a mamãe Smoak se pegam como se ninguém estivesse prestes a pegá-los no pulo, Felicity se encaminha na mesma direção.
— Ferrou. — sussurro para Judith que, claro, não entende nadinha. Mas minhas pernas se adiantam indo para o mesmo lugar.
Tarde demais.
— Mãe? — Felicity faz uma pausa silenciosa. — OH-MEU-DEUS! Isso não vai sair da minha cabeça... — sua voz é de surpresa e ao mesmo tempo de repulsa.
— Desculpa querida! — a mãe da loira, a loirona, morde o lábio inferior como alguém que acabou de ser pega no flagra. Os lábios estão com o batom borrado, mas eu continuo apenas assistindo. — É, eu gostaria que conhecesse meu namorado, Robert.
— Queen? — ela pergunta incerta.
— Sim, prazer. — o coroa um pouco envergonhado estende a mão, Felicity decide apertar em um cumprimento só por educação, mas minha gargalhada faz com que todos desviem a atenção para mim.
— Ah não... — Felicity resmunga.
— Podem continuar o show, finjam que eu e Judith não estamos aqui.
— Oliver! — meu pai me repreende.
— Logo ele, mamãe? — Felicity sussurra.
Donna Smoak pigarreia, ajeita o decote do seu vestido tubinho rosa choque de uma noite em Las Vegas em plena tarde de Starling City e joga as madeixas loiras para trás. Eu estava ansioso para conhecer Donna, ela não é daqui, mora há anos em Las Vegas, mas parece que decidiu tirar umas férias e, bom, vai ser engraçada essa convivência.
— Então você é o famoso rapagão? Felicity fala muito de você. — a voz dela é sensual. Será que Felicity é adotada? Porque além do cabelo loiro, não consigo enxergar nenhuma semelhança.
— Mal. Muito mal! — Felicity cospe as palavras enquanto volta a cutucar Donna.
Eu rio de novo.
Como é mesmo aquele ditado?
Ah sim: Falem mal, mas falem de mim.
— É muito bom vê-la de novo, senhora Smoak! — pisco para a loirona que suspira.
— Espera aí, vocês se conhecem? — Felicity pergunta rapidamente.
— Só de vista, minha querida. — Donna responde a filha, mas não desvia os olhos de mim. Geralmente estou acostumado com as mulheres dando encima, mas confesso que o olhar da mamãe Smoak está conseguindo me deixar um pouquinho tímido.
— Quando nos vimos pela primeira vez, ela estava ocupada demais se agarrando com o coroa no estúdio. — dou de ombros.
— Oliver! — meu pai me dá uma daquelas suas bofetadas na ponta da orelha. Caramba, isso dói, sempre fico com elas latejando o restante do dia.
— Como é que é? — Felicity volta a perguntar boquiaberta.
— Olá família! Espero não ter me atrasado muito... — Thea trava as palavras assim que nos avista. — Merda.
Felicity ri sarcasticamente. — Não acredito que você estava sabendo disso tudo, Thea!
— Digamos que eu tenha descoberto hoje mais cedo. — minha irmã trata logo de se reportar. Felicity e ela tem certa amizade, uma amizade de meninas que quando não estão com a cabeça enfiada no trabalho saem para fazer compras, pintar as unhas e falar mal de mim. Falar mal de mim talvez seja o programa preferido delas.
— Querida, você não me disse que ele era um pedaço de mau caminho. — a loirona sussurra para Felicity, mas consigo escutar todas as mínimas palavras que já são o bastante para que eu ruborize. Qual é? Isso é um pouco desconfortável.
— Mamãe... — ela comprime os olhos ao murmurar.
— Eu acho que cheguei em uma péssima hora! — Thea meneia a cabeça.
— Sim. — meu pai abre a boca e suspira.
— Acho que vou ter que bater minha cabeça bem forte em alguma coisa de aço para me esquecer de tudo isso! — Felicity sussurra.
— Donna, eu devo te chamar de ‘madrasta’, ‘mamãe’ ou ‘sogra’? — sorrio me gabando.
— Eu devo ter feito algo bem, bem, bem errado na minha outra vida, porque aguentar você é um castigo. — Felicity faz o mesmo sorrisinho forçado que Thea fez pela manhã.
— Meninos! — Caitlin e Barry surgem com animação. — Vamos cortar o bolo e cantar parabéns para a nossa garotinha?
— Ainda bem que vocês chegaram! — Felicity toma Judith dos meus braços e a pequena vai sem ao menos reclamar um pouquinho. Traidora.
— Hey, ela estava comigo! — começo a seguir Felicity.
— Sua cota já acabou. — ela me deixa para trás com perspicácia.
Nos juntamos ao redor do bolo.
Cantando aquele ‘Parabéns para você’ de praxe enquanto que Judith se encontra nos braços dos pais babões.
Todos nós felizes, acima de qualquer farpa, porque estamos celebrando o primeiro aninho de muitos que virão da nossa pequena bebê.
— Agora precisamos da foto do dindo e dinda! — Caitlin grita animada.
Sério?
Contanto que Felicity não queira me fuzilar durante a foto, até que não vai ser tão ruim.
— Vamos acabar logo com isso. — sussurro.
— Ela vai ficar no meu colo! — Felicity faz aquele olhar de quem manda.
— Não vai não.
— Você ficou com ela o dia todo, Oliver.
— Repete? — passo um dedo no glacê do bolo sem que Felicity perceba. Todos estão esperando para que possamos decidir, Caitlin incrivelmente ainda mantém a paciência diante da nossa pequena discussão.
— Você ficou com ela o dia t-o-d-o, Oliver. Quer que eu desenhe também?
— Só se você experimentar o bolo. — passo o glacê na sua bochecha e ela abre a boca não acreditando no que eu fiz.
— Você não fez isso... — por mais que ela esteja irritada, há um sorrisinho ali na ponta dos lábios, um resquício de quem achou graça.
— Fiz. — dou aquela piscadela de novo.
A danada pega o glacê e suja a ponta do meu nariz.
Agora ela quem está rindo.
E eu também.
— Vamos tirar logo essa bendita foto! — Caitlin volta a gritar, nos interrompendo.
— Quero que todos digam: Oliver é um cuzão! — Barry brinca.
Eu, com meu nariz repleto de glacê de baunilha, abraço Felicity que sorri quando Judith lambe seu rosto sujo com o doce.
Olho para as duas apreciando o que vejo.
Todos gritam juntos: ”Oliver é um cuzão.”
E o flash capta a melhor parte da foto, a parte que mostra que acima de toda a implicância, temos algo em comum.
Judith.
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