Jovens - Interativa
24 Capítulo 24 - Crescer
Notas iniciais
Jovens – Interativa / Capítulo 24 — Crescer
— Olha o correio minhas belezuras! – Logan balançou as cartas na mão, era curioso que tivesse tantas cartas. Tudo bem que estavam perto do Natal, mas ainda assim, era varias. Genevieve permaneceu com o olhar preso no livro que lia, a mão mexendo distraidamente o café frio.
Logan jogou num canto as que eram de Dae, separando depois as suas, quando colocou as de Lena sobre a mesa Gê finalmente ergueu o olhar, notando uma das cartas abertas.
— Essa não é da Lena?
— É.
— E você abriu mesmo assim? – Ergueu uma sobrancelha, sem estar totalmente surpresa.
— Foi.
A garota suspirou enquanto ele abria o lixo para jogar as propagandas fora.
— Ser o irmão dela não te da o direito de abrir a correspondência dela.
— Quem disse? – Ele franziu o cenho, o olhar ainda preso aos folhetos.
— Eu disse. O que era afinal?
— Ser amiga dela não te da o direito de saber o que vem na correspondência dela. – Encarou-a com o olhar cínico enquanto ela o fuzilava em resposta – Carta pra você – E jogou a ultima a sua frente.
— Pra mim?
— Está escrito Genevieve Cotterill ai, conhece alguma?
— Acordou com o pé esquerdo? A culpa não é minha – Respondeu seca enquanto abria o envelope em descaso, esperando que fosse qualquer tipo de propaganda enganosa. E para a sua surpresa não era, um convite, logo no inicio o símbolo que lhe era tão familiar aos olhos seguido de seu significado. “ Força Aérea dos Estados Unidos, Departamento de defesa”
— Meu Deus – A cadeira em que estava foi para o chão com o movimento rápido que fez para levantar, cobrindo a boca, empalidecendo. Logan ergueu os olhos surpreso.
— O que foi?
Ela ergueu a mão para que não falasse, lendo em total desespero.
— Meu Deus
— Diga de uma vez antes que eu tenha um ataque.
— Eu consegui o estagio – murmurou mais para si mesma do que para respondê-lo – Eu consegui.
Logan se aproximou de forma invasiva.
— Estágio?
— Na mais bela Força Aérea que já existiu?
Logan estava surpreso, confuso, mas surpreso. Feliz também, só um pouco decepcionado, mas contente, mas além de tudo estava perdido. O relógio estava correndo era verdade, quisesse ele ou não o tempo estava passando rápido e logo ele também deveria largar a vagabundagem e correr atrás de estágios e trabalhos na área em que cursava.
O que o obrigaria a se afastar das pessoas que mais amava para poder ter um futuro decente, só que até ali não imaginara que o choque da realidade chegaria tão forte, com tamanha presença.
Queria ser o primeiro a arrumar as próprias coisas e se mandar porque ficar e ver cada um se despedir aos poucos seria demais pra si mesmo. Seria bem mais simples se ele fosse, e a lembrança que tivesse de toda sua turma reunida era deles reunidos.
Ficava internamente contente por Genevieve, por suas conquistas e por ela ser bem mais responsável do que ele, mas não era como se soubesse lidar com a ideia de deixar de ver a moça de cabelos coloridos todas as manhãs.
Eram só amigos era verdade, e o melhor amigo dela era o ex namorado de sua irmã mais nova, mas a tinha em tamanha consideração dentro do peito que soube o quão egoísta era por querer que ela ficasse ao invés de ir.
Genevieve abriu o maior dos sorrisos, incrivelmente contagioso e verdadeiro mas se desfez com a mesma facilidade, e seus olhos piscaram arregalados.
— Eu não posso fazer isso, eu não posso, eu nem tenho certeza se é isso mesmo que eu quero, como eu poderia-
— Gê – Logan ergueu as mãos no ar abismado – Você ama aviões e toda essa ideia de voar, é o que você é.
— Talvez eu não devesse – Ela segurou o papel com força entre os dedos, vincos se formando na pobre folha enquanto caminhava para trás – Meus pais eles-
Um trovão a interrompeu e seus olhos encheram d’água.
Logan sentiu o desespero tomar posse de si mesmo também, atordoado com a situação toda. Genevieve não era de se deixar levar por lagrimas, ela não gostava de comentar sobre os pais, e agora duvidava sobre o próprio sonho de duvida.
— Genevieve – Ele a segurou pelos ombros – Olhe pra mim pelo amor de Deus.
~*~
Andrew voltou a se revirar, inquieto pelas queimaduras. Não que fossem elas a causa do seu sofrimento, a abstinência estava o consumindo, e era apenas os machucados que o mantinham preso a cama.
Conhecia a irmã para saber que a essa altura ela já teria feito uma limpa na casa, e certamente se livrado de tudo. Fechou os olhos com força quando girou sobre os lençóis outra vez, a falta da droga o consumia, e o tédio constante fazia seu cérebro pensar demais.
Tinha sido seco e preciso com Michelle, disso se lembrava bem, e como se já não se doesse fisicamente, os sentimentos o atormentavam. Confessava ter ficado surpreso que a garota por fora se comportara tão bem as palavras grosseiras que ele soltara.
Ainda que seus olhos tivessem ficado cheios, nem uma gota se quer escorreu, mas conseguira ir até o final nas frases duras pela presença constante da irmã do outro lado da porta.
Pensou em como teria sido egoísta de sua parte afundar Michelle em toda aquela sujeira, ele e Laura já tinham problemas demais a lidar e dividir, e Michelle não era obrigada a passar por todo aquele sufoco com ele. Vê-lo naquele estado.
O barulho de panelas na cozinha foi suspeito, porque sabia que Laura não cozinhava e não se arriscaria no fogão, e fechou os olhos em desprezo ao som da água da pia, certamente levando toda a droga ralo a baixo.
Sabia que se tivesse contado a situação para Michelle ela acabaria escolhendo ajuda-lo, porque ela era melhor do que ele em vários aspectos e isso só parecia fazer as coisas piorarem, se tivesse contato, era até capaz de que ela estivesse com Laura agora, de frente a pia vendo sua maldição se esvair na água corrente.
~*~
— Você está me deixando preocupada, entende? Você tem bebido muito mais do que o costume, e agora nem faz mais conta de esconder, é como se quisesse que as pessoas soubessem.
— Eu não ligo se elas souberem – Israel ralhou de volta – Eu não preciso da opinião de nenhuma delas pra viver.
— Você está se matando aos poucos Israel, será que você não pode me ouvir uma única vez? – Helena passou as mãos no cabelo de forma exasperada.
— Uma única vez? – Israel socou o estofado onde estava sentado – Eu estou sempre escutando as baboseiras que você tem pra dizer, é você quem precisa me escutar!
— Não tenho como adivinhar seus problemas droga! – Helena bateu um dos pés no chão com força – Você fica sempre calado, e prefere encher a cara e passar mal a me contar o que está acontecendo.
Israel revirou os olhos, dominado pela raiva, a dor no estomago sendo totalmente ignorada com toda a gritaria.
Seu apartamento estava mais do que vazio, e as contas do mês estavam começando a ganhar destaque na prateleira no hall de entrada, dividia o apartamento com meninas pela organização e sossego, não passava muito tempo no apartamento e quando passava elas não estavam presente então o acordo de bem estar estava sempre em dia.
Porém o acidente levara uma de suas residentes, e consequentemente as outras acabaram trancando matricula e se mudando de vez até que estivesse só de vez. Podiam gritar o resto do dia, não havia ninguém a ser incomodado.
— Não é como se eu não tivesse tentado! – Gesticulava sem necessidade – Todas as vezes que eu tentei conversar sobre Laura com você eu fui metralhado. Eu escuto seus choros quanto a Raymond mesmo nossos santos não batendo, e nem por isso eu julgo todas as suas ações!
Helena bufou mais do que irritada.
— Isso tudo é por causa da Laura?
Israel revirou os olhos.
— Sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa – Murmurou para si mesmo.
— Está bem Israel – Helena ergueu as mãos em rendição, o rosto ainda vermelho pela raiva, jogando-se sobre o sofá de dois a frente do outro onde Israel estava – É por ela que você quer começar então beleza, eu prometo ficar quieta e não critica-la.
Israel afundou a cabeça por entre as mãos, as dores definitivamente, o consumindo.
— Eu não sei por onde começar.
— Tente pela parte depois que você saiu do meu apartamento antes do baile.
Deus, Israel achava que sua cabeça ia explodir, parecia que tinha sido a tanto tempo atrás e ainda assim parecia tão perto. Estar perto de Laura era estranho, conversar com ela também, e talvez fosse culpa de nunca ter sido muito adepto aos sentimentos de forma esclarecedora.
— Talvez um pouco antes – Helena amarrou os cabelos quando o silêncio permaneceu – Quem sabe pela parte onde você a beijou na faculdade. Por que aconteceu?
— Não sei – Israel coçou os olhos, sentindo o cansaço pesar os ombros – Ela só me contou uns lances sobre a ela, e a família dela, tudo muito desprezível.
— Alguma coisa que eu possa saber? – Helena cruzou os braços sobre o peito.
— Não. – Negou veemente antes de cobrir o rosto com ambas as mãos – Eu a beijei porque a quis, porque ela passou por coisas demais, e eu sei o que é ser menosprezado pela maioria.
Helena se remexeu, mas manteve-se calada.
— E talvez tenha sido por isso que eu estava tão agitado na festa de Genevieve, e mais ainda com a ideia de convida-la pro Baile.
— Mas você conseguiu, você passou lá e a convidou.
— Ela estava chorando. – Israel ergueu o corpo pela primeira vez – Parece que sempre que eu e ela nos esbarramos ela está chorando, e em todas as vezes isso me consome como se um buraco negro se abrisse no meu peito – Ele ficou de pé, agora definitivamente tagarelando – E não é como se existisse algum tipo de manual sobre como reagir a pessoas chorando. E qualquer um que vê Laura concentrada nas aulas, ou andando pra lá e pra cá jamais diria que ela pode ser tão frágil. – Voltou a bagunçar os cabelos – Eu nunca tive vontade de ajudar ninguém, você sabe disso, mas eu não consigo parar de me preocupar com o que raios está acontecendo naquele apartamento. Eu fiquei sóbrio na maior parte da noite da festa enquanto ela com certeza bebeu bastante, e estava tudo dando tão certo que-
— Você gosta dela – Helena o interrompeu pela primeira vez, mas não havia surpresa em sua expressão.
— Nunca.
Helena fechou os olhos em um suspiro.
— Você gosta dela. Não sei se ela também gosta de você, mas você com certeza gosta dela. Você se preocupa, fica sentado ai pensando se ela está bem ou o que poderia ter acontecido, a gente não se preocupa com os problemas alheios, a gente se preocupa porque gosta.
Israel negou com veracidade outra vez, caminhando até a cozinha, revirando os armários vazios.
— Você está delirando – Gritou do outro cômodo.
— Israel – Helena se colocou de pé, indo atrás do amigo – Vocês conversaram aquela noite toda, e num único comentário sobre ela você ficou todo estressado e defendeu seu lado como se defendesse a honra dela na era medieval, então vocês simplesmente foram embora juntos, depois de chegarem juntos e ficarem juntos do inicio ao fim. Laura normalmente não ficaria com um cara só numa festa, aposto até que ela não ficaria com nenhum.
Disso Israel também tinha certeza enquanto apoiava as mãos na pia vazia, Laura deixara claro sua repugnância a homens e a todo resto.
— Eu tenho coisas mais importantes pra fazer do que ficar gostando de alguém.
— Não acho isso ruim – Helena se apoiou no batente da porta, novamente neutra – Posso não gostar dela, mas fico feliz que ela tenha sido capaz de despertar alguma coisa dentro de você. Prefiro que esteja se preocupando com alguém de que goste mesmo, do que enchendo a cara por causa dos seus problemas, ao invés de resolvê-los.
Israel não podia se sentir mais atingido. Helena e ele eram amigos a cinco anos era verdade, mas colocar sentimentos para fora era algo que nunca tinha feito, admitir sentir algo ou alguma coisa era algo que jamais fazia. Helena sempre soube, nunca insistira. Algum fator o destino bizarro os tornara amigos, e esse mesmo fator os mantivera unidos ainda que tudo a volta conspirasse contra.
Ele não se entendia com o irmão dela, que certamente o odiava, Keira que um dia fora sua arqui-inimiga o respeitava deixando Helena paranoica, Helena não aprovava as pessoas que Israel dificilmente se aproximava e vice versa, Israel não considerava ninguém bom o suficiente para merecer amizade ou o coração de Helena e vice versa, e ainda assim eram apenas amigos.
Ainda assim nenhum amor ou paixão doentia surgiu em cinco anos, apenas uma preocupação frequente e bem mascarada. E agora que esperava ser repreendido por suas ações, esperava gritos de como sentimentos vindo deles soavam ridículos tinha sido tão bem recebido que se sentia um tolo.
Um tolo por não ter tentado antes.
— Você devia convida-la pra sair – Helena deu de ombros – Vocês podiam ir no cinema, ou dar uma volta no parque. Ela não vai dizer o que sente até confiar em você, e pra confiar você tem que se aproximar, mesmo que por enquanto só como amigo, depois mais pra frente você tenta alguma coisa, quem sabe.
~*~
— Está tudo perfeito Cass – Kaike deu tapinhas camaradas no ombro da amiga.
— Obrigada – A garota sorriu depois de dois saltinhos de felicidade – Foi difícil mas consegui.
— Que horas o pessoal começa a chegar?
Cassandra deu de ombros.
— Talvez perto das seis da tarde, disse que poderiam chegar um pouco depois se quisessem, vai ter musica e comida de qualquer maneira.
Ah sim, a festa na praia, inicialmente criada por Criss, e depois desenvolvida por Cass estava finalmente pronta. Não sendo uma festa comum, mas uma festa de ano novo. Já tinha algumas semanas que todos haviam entrado em férias, o natal dividira os amigos para que passassem com as famílias, fossem elas muito amigas ou não.
Mas o ano novo era liberado para se passar com os amigos certo? E tudo estava tão perfeito que Cass poderia comemorar sozinha se quisesse. Conseguira uma banda ao vivo, que tocava musicas gostosas de dançar e se manter presente, e o palco improvisado tinha seu charme.
A barraquinha de praia, que estava ali desde sempre se disponibilizou a ficar aberta até mais tarde para atender a clientela, mas ainda assim Cass fez sua parte com o abastecimento de bebidas. Espalhou as cadeiras entre os coqueiros, bem iluminados com a serie de lâmpadas que demorara a encontrar e pendurar.
— Então as coisas estão dando certo entre você e Mek? – Kaike cruzou os braços fortes, o sorriso perverso nos lábios.
Cass averiguou o lugar todo antes de lhe socar o ombro.
— Não precisamos tocar nesse assunto agora, não hoje, pelo amor.
— Está bem – Kaike ergueu as mãos em rendição – Vou encher a cara antes de te importunar de novo, mas você tem que admitir que, passou boa parte do tempo ignorando as investidas do Merak por mero medo do que podia dar, e foi só eu apostar com você que estão vivendo essa lua de mel.
— Por favor Kaike – Cass cobriu o rosto com as mãos quando a buzina de um carro surgiu e logo estacionou – Não é como se eu já não me corroesse o suficiente pra você ficar me lembrando!
— Quer dizer que somos os primeiros? – Josh tinha seu costumeiro sorriso travesso no rosto quando desceu os poucos degraus que separavam a calçada da areia, de bermuda e camisa branca, os braços abertos – Fico contente em sabe que pelo menos, sobra mais pra gente.
Tinha Michelle, Onix e Brandon no encalço.
Kaike franziu o cenho.
— Você já reparou em como Keira e Josh são parecidos?
— Você está falando no jeito de ser ou na aparência?
Kaike tinha a expressão seria.
— Não conheço muito a personalidade dela, mas ouso dizer os dois.
~*~
Raymond não sabia o que o tinha feito colocar as sandálias para a festa de ano novo na praia, e agora encara-las sentado no chão parecia seu verdadeiro tormento e ainda assim melhor distração.
O mundo todo estava uma loucura. Genevieve ia passar pouco mais de um mês fora por conta do estágio na força aérea.
Genevieve.
Ela não estava nervosa quando contou a noticia no telefone, o que o surpreendeu, mas quando admitiu que quase jogara tudo ralo a baixo e Logan a impedira trazendo-a de volta a realidade ficou internamente satisfeito.
E quem dera que seu único problema fosse sua melhor amiga passando definitivamente dias fora, o problema do dinheiro com os pais o atormentava ao ponto de que fosse impossível dormir sossegado.
Não tinha solução quanto a isso, não terminaria a faculdade, porque se engatasse no novo ano na empresa as coisas seriam mais fáceis de lidar. Ainda que soubesse que Helena também tinha uma boa renda estável, jamais a obrigaria a coisa do tipo.
E tudo aquilo era tão desanimador, Genevieve que o tinha despertado da vida de fanfarrão para buscar algo que realmente quisesse fazer da vida, e depois de um ano com as coisas dando certo, o mundo o trouxera de volta a tona e nada do que tinha sonhado ia se tornar verdade.
— Bebe alguma coisa antes que você acabe afundando todo mundo com você vai – Dae tinha duas latinhas na mão, e uma estava estendida.
— Valeu – Raymond aceitou mais pela educação, Dae e ele não eram se quer amigos, se conheciam pelas pouquíssimas amizades em comum, estava tão evidente assim que tinha mil problemas acumulados pro ano novo?
— Por que está sentado aqui todo triste, quando a galera animada esta lá em cima? – Dae se sentou ao seu lado, bermuda azul, chinelo, camisa verde com estampa de surf.
— Estou com uns problemas sem solução. Nada fora do normal – O estalar da latinha foi gracioso junto as ondas frequentes do mar.
Dae sorriu.
— Tem uma porção de dias no calendário pra ficar sentado triste pensando em problemas sem solução na areia da praia, sobe, fica lá com a gente até sua turma chegar.
Raymond riu.
— Minha turma.
— Bom, vocês está sempre com Helena, Logan, Israel, Genevieve, não?
Ah sim, incrivelmente sim. Importunava Helena, Logan o odiava e Israel se quer o olhava nos olhos e agora Genevieve ia embora.
E agora sentia que talvez Helena estivesse brava com ele não só pela provocação constante, mas sua falta de posicionamento quanto tudo aquilo, tinham terminado na primeira vez não só porque ele sabia ser ciumento mas porque não sabia assumir relacionamentos, e agora sentia que a história toda estava se repetindo.
— É complicado.
— De qualquer maneira – Dae se colocou de pé – Josh sabe contar piadas caso queira ouvir alguma.
~*~
— Eu a deixei em casa – Jell franziu o cenho, confuso consigo mesmo – Ela me pediu, não deixou eu esperar, o que é estranho, porque viríamos os dois pra cá de qualquer maneira.
— Você está começando a ficar grudento – Cris fez uma careta — Nunca te vi tanto tempo com a mesma garota, seria Keira minha futura cunhada?
Jell se mexeu inquieto na cadeira presa na areia.
— Não, não – Negou com o cenho franzido, mudando as mãos constantemente de lugar – Não sei quero dizer, não posso dizer que sim, é só que é complicado – Engoliu em seco – Talvez, mas não tenho certeza, acho que não, quem sabe se-
— Meu Deus Jell – Cris ergueu as mãos assustada – Foi só uma brincadeira, não perguntei a solução pra paz mundial. Por que você ficou tão histérico?
— Eu não sei está bem? As coisas estão diferentes agora. Eu só estava pegando no pé da Keira porque era divertido, e agora ela nem se incomoda mais, parece até que ela gosta de ficar perto de mim.
— E isso é ruim por quê? – Cris colocou as mãos na cintura, desistindo de mexer no celular para ouvir o irmão, a barulheira da banda e das pessoas não os interrompiam – Você fica pulando ai de saia em saia, e agora que uma deu certo vai arregar?
Jell revirou os olhos.
— Você tem um namorado, é fácil pra você lidar.
Cris suspirou.
— Kaike terminou comigo.
— O que? – Jell estreitou os olhos enquanto a irmã suspirava.
— Eu sei que soa estranho, mas ele disse que não voltaria comigo porque ia significar que nada mudou que eu ia continuar sendo chata e tudo mais, que se eu realmente queria que voltássemos teríamos que começar do zero.
— Isso é ridículo – Jellal se colocou de pé, a raiva lhe correndo as veias – Você quer que eu va lá socar a cara dele?
Cris negou com a cabeça, e Jell regalou os olhos surpreso.
— Eu também achei a ideia super ridícula no inicio, mas ele tem me dado espaço suficiente pra pensar que eu realmente tenho pegado um pouco pesado.
Jell voltou a se sentar.
— Mas você sempre foi assim.
— E ele sempre reclamou – Cris sorriu conformada – Mas só agora ele conseguiu me colocar nos trilhos.
Jell e Cris suspiraram ao mesmo tempo.
— Se você está de bem com tudo isso então o que posso fazer?
— Pode se declarar pra Keira – Cris voltou a ficar de pé.
Jell negou com firmeza outra vez. Não era de relacionamentos, muito menos os relacionamentos sérios. Certo, tinha ficado muito mais próximo de Keira do que o normal, assim como o fato dela ter se tornado amiga de seus amigos, o que era um contrato assinado de que ainda que quisesse se afastar, porque o medo o consumia, não se afastaria de verdade.
Como se Cris fosse capaz de ler seus pensamentos ela lhe deu um tapa na nuca, trazendo de volta a realidade.
— Pare de pensar besteiras, assumir gostar de alguém não é nenhum bicho de sete cabeças, é bem normal até, não tem com o que se preocupar.
— Não tenho com o que me preocupar? – Jell ficou de pé, exasperado – Você precisa sentir como o meu coração começa a bater incrivelmente mais rápido – Jell ergueu a mão feminina pressionando-a contra o peito – E como de repente o mundo inteiro roda até se tornar um borrão insignificante porque ela é a única coisa que meus olhos conseguem focar, eu me sinto doente!
Cris gargalhou alto e maleficamente.
— Doente de amor só se for.
— Santo Deus Cristal eu já te disse o quanto eu te odeio?
A garota riu outra vez, encarando algo ao fundo antes de sorrir largamente.
— Hoje não, mas talvez mais tarde, sua perdição chegou.
Jell rodou o corpo na pressa, e ainda que as expectativas fossem muitas, a parte consciente de si mesma conhecia Keira para saber que ela não iria até ele, e que era capaz até dela não fazer questão de sua presença. Partia sempre primeiro dele, chegar, surpreender, e rir.
Ela desceu os três degraus da calçada e sorriu enquanto cumprimentava a rodinha de Brandon, e acenava para Kaike que dividia o peso do preparo das bebidas com Merak, sob ordens de Cass na certa.
E para seu desespero ela realmente passou o olhar pela multidão, não só talvez a procura de conhecidos, mas quem sabe de um conhecido especifico? Jell quis que o chão abrisse debaixo de seus pés se ela o visse e fosse até ele.
Pois ela o viu, e agindo totalmente ao contrário do que era esperado de Keira Tanaka sorriu, ergueu o braço até que ficasse nas pontas do pé e acenou.
Onde ele tinha se metido?
— Ainda consegue me ver? – Cris gesticulou ao seu lado de forma exagerada.
Jell riu, mais pelo nervosismo em si.
— Eu te odeio Cris.
Cris gargalhou e acenou para que Keira se aproximasse.
— Pelo menos eu gosto da minha futura cunhada, deveria estar feliz por isso, sabe que eu não vou muito com a fuça das pessoas.
Jell fechou os olhos.
— Eu te odeio tanto Cris.
— É uma pena que ela não saiba ainda o quão louco nosso grupo é, ou com certeza ela teria tentado escapar de você antes.
— Cristal Killer – Jell girou os olhos claros para a irmã, a mesma perversidade – Sua alma ainda vai pagar.
Cris piscou.
— Desculpem o atraso – Keira parecia um pouco nervosa – É que eu não sou muito desses lances de praia, eu só tenho um biquíni e ele já tinha visto dias melhores.
— Se tivesse dito eu ou Cass emprestávamos um pra você – Cris acenou com naturalidade, se mostrando disposta a correr ao apartamento atrás de um.
— Não precisa – Keira recuperou a firmeza na voz – Acabou que consegui um com Genevieve, o vestido também foi ela que me emprestou – Keira encarou o vestido branco, simples, e com poucos detalhes.
Jell sentiu a expectativa das duas a espera de um elogio de sua parte e voltou a fechar os olhos.
— Não tenho –sentiu sua garganta fechar — palavras pra descrever.
E não tinha mesmo, ainda estava um pouco perdido, desorientado. Keira tinha definitivamente deixado de destrata-lo, Keira estava definitivamente sorrindo espontaneamente pra ele e não sabia como lidar com a ideia. Cantadas no calor do momento, e atitudes impensadas eram sua especialidade, mas precisar começar a pensar para agir era um pouco perturbador.
Não só por pensar em como Keira o veria, mas como ela o interpretaria, e em como ele não deveria magoa-la, porque Deus, Keira com certeza não era mulher de levar desaforo pra casa e muito menos a quem se devesse partir o coração.
Então de repente estava se sentindo no colegial outra vez, todo nervoso e tenso, sem encontrar as palavras certas e com medo de qualquer coisa que lhe escapasse a garganta.
— Não ligue pra ele – Cris resmungou em seguida – Ele está todo estranho desde que colocou os pés na água – Um verdadeiro balde água fria, pensou consigo mesmo — tenho medo de que seja contagioso, vamos nos unir aos outros, e deixe ele ai, quem sabe ele melhora.
Keira riu, um conforto aos ouvidos.
— Certo.
~*~
Helena suspirou com o barulho constante. Chegara atrasada sim, junto com Logan e Gê que estavam tomados por um clima estranho que não fora capaz de decifrar, passara dando um olá em todas as rodinhas e confessava estar surpresa com algumas coisas.
Keira tinha se dado bem na rodinha de Kaike, e a garota estava numa energia que Lena não via a tempos, sabia que tanto Israel como Laura não estavam presentes e tentou guardar isso dentro de si como algo bom, para os dois lados.
Brandon já estava alto quando chegou, o que significava que o riso era algo prometido na rodinha onde surpreendentemente Ray acabara se enturmando. E logo Lena percebeu como os “veteranos” tinham se resumido a pouquíssimos em todo aquele lugar.
O ano levara tantas pessoas embora que era incapaz de contar.
Deus, contando com Keira, Brandon e Israel mais a ela e o irmão todos os outros se resumiam a calouros e alunos de intercambio que agora definitivamente se tornavam veteranos com a virada de ano.
O tempo tinha corrido tanto assim?
Raymond a abraçou, pegando-a desprevenida Helena se resumiu em revirar os olhos.
— O que houve agora?
— Não posso abraçar você? Está com tanta raiva de mim assim? – Ele afastou o rosto para erguer as sobrancelhas.
— Você não é muito adepto a abraços em público.
Ele bufou voltando a esconder o rosto na curva de seu pescoço.
Raymond manteve os braços firme em torno da cintura de Helena, tinham quanto tempo? Uma hora antes da meia noite? Não tinha certeza, mas adorava que o tecido do vestido branco fosse delicado e fino ao ponto que pudesse sentir a pele quente debaixo dos dedos.
— O que estamos fazendo Raymond? – Ela ergueu uma sobrancelha em sua direção, tinha uma taça de champagne na mão, e tentava recuar o corpo ainda que não fosse possível.
— Estamos pra comemorar o ano novo – Revirou os olhos – O que parece pra você?
Ela suspirou enquanto encarava as pessoas animadas a sua volta. Seu corpo bateu contra a bancada de bebidas, abandonada pelo bartenders que também se uniam aos outros para a contagem regressiva.
Ela o obrigou a se afastar.
— Você está estranho, o que tem de errado?
Raymond a abraçou pela cintura, sentindo o gostoso toque do tecido fino que era o vestido dela, escondendo o rosto no pescoço queimado pelo sol, ela cheirava a frutas.
— Você podia tentar ser menos abusado não? – Ela tentou separar as mãos unidas em sua barriga, sem sucesso – Ou no mínimo mais discreto?
— Por que? – Sussurrou contra a pele quente sentindo-a estremecer.
— Por uma simples questão de princípios. – Não precisava estar a frente dela para saber que revirou os olhos.
— Meus pais não estão aqui, e nem os seus.
Ela suspirou, talvez dando-se por derrotada.
— Você não tem corações pra quebrar hoje?
Ele riu.
— Acho que esqueci de marcar na minha agenda.
Ela suspirou outra vez.
— Quais são seus planos pro ano novo?
Ele sorriu, erguendo o rosto, recebendo a diferença súbita de temperatura do quente para o frio, afrouxando o aperto dando a ela a oportunidade de se virar, pra que visse a expressão de deleite em seu rosto. Ela franziu o cenho assustada.
— Você está alegre demais, encontrou uma solução para sua falência?
— Não.
— Então porque está sorrindo assim?
Ele deu de ombros, e irritada voltou a lhe dar as costas, mas antes que pudesse realmente se afastar ele já tinha voltado a se enroscar em sua cintura.
— Estava pensando – O rosto apoiado em seu ombro, enquanto ela insistia em tentar se soltar – Se não querer namorar comigo.
Ela parou de se mexer, dez segundos de choque antes de rir.
— Você só pode estar me tirando, certo? Raymond já passamos por isso ok, não deu certo na primeira vez e não vai dar agora. E eu não vou me casar com você.
— Não – Resmungou, escondendo o rosto em sua nuca através do cabelo – As coisas são diferentes, e não estou te pedindo em casamento, não seja tão dramática.
— Sabe que eu não estou sendo dramática – Helena vasculhou o lugar a volta com o olhar, nada além de olhares desconhecidos – E a minha resposta é não.
Ele bufou, e Helena teve uma breve esperança de que ele a soltaria, enganada, tudo o que fez foi se afastar um pouco para gira-la nos braços. Arfando enquanto voltava a esconder o rosto em seu pescoço, fazendo-a estremecer.
— Da onde tirou essa ideia maluca agora? É quase ano novo, não quer pular sete ondas com Genevieve?
Ele demorou a responder, e Helena voltou a se mexer.
— Não – Parecia completamente anestesiado enquanto respirava fundo em sua clavícula – Quero beijar minha namorada na virada do ano.
— Você bebeu?
— Ainda não. Isso importa?
— Importa, você já está falando besteira sóbrio.
— Não é besteira – Agora ele estava realmente sério, arqueando o corpo para trás, voltando para a posição normal, ainda que Helena não tivesse condições de se soltar. Helena engoliu em seco.
— Certo, isso ta começando a ficar um pouco estranho.
— Qual é – Ray balançou a cabeça conformado – Ano novo Helen, novas oportunidades, novos erros.
— Esse vai ser meu último semestre – A determinação em seus olhos outro dia o teria assustado – E você ainda só está começando.
— Não foi um problema antes, não precisa ser agora.
Helena suspirou de forma pesada, passando olhar a volta.
— Hipoteticamente falando, nesse namoro não tem intenções de pegar o dinheiro dos meus pais.
— Hipoteticamente falando, nesse namoro eu gosto de você.
Helena sabia que estar com os olhos arregalados com certeza não era a melhor reação, e sabia que se fosse atrás da opinião de alguém, como Israel ou Logan certamente desaprovariam, que talvez só Genevieve ou Keira a encorajariam a arriscar.
E não era de todo mal, que ainda gostava de Raymond era um segredo guardado numa caixinha bem trancada nos fundos do fundo do seu ser. A contagem regressiva era um lembrete de que deveria ser rápida, de que o pedido tinha prazo de validade, e que Raymond Goddard não era de voltar atrás ou repetir algo mais de uma vez.
E ainda que permanecessem abraçados ele lhe deu espaço quando resolveu encarar a evidente animação dos outros que pulavam e comemoravam segundos antes.
Dois, um.
O beijo que lhe deu o pegou de surpresa.
Ele realmente não fazia ideia do que teria respondido.
Ficou internamente contente por isso, e o sorriso de satisfação dele foi arquivado na memória numa pasta importante, o aperto definitivamente se tornou mais firme até que os lábios se separassem com a correria atrás dos fogos de artifio.
— Feliz ano novo princesa.
Helena revirou os olhos.
— Feliz ano novo Steel.
~*~
— Eu posso sentar aqui? – Cris indicou a cadeira livre, entre tantas outras, a única ao lado de onde Kaike descansava. Ele encarou o assento branco antes de concordar num sorriso. – Eu entendi o que quis dizer. – Seu tom era desanimador – Sobre eu ser ciumenta demais, e pegar demais no seu pé, desculpe.
Kaike abriu a boca para responder, mas ela negou antes que o fizesse.
— Se você acha que começar do inicio é a solução tudo bem eu entendo, mas não vou desfazer do meu orgulho pra te chamar pra sair.
Kaike sorriu e foi novamente interrompido.
— Mas se me dizer que é a única solução então vai ter que se conformar com sermos só amigos. Não sei você, mas eu posso aprender a conviver com isso. As vezes eu acho que não, mas ai lembro que não nascemos grudados.
O sorriso de Kaike se tornou maior e Cris tentou engolir aquilo como algo bom.
— Então o que vai ser?
Tinha conseguido dizer tudo, Cris pensou, e sentia uma pontada de orgulho de si mesma, ainda que sentisse seu coração bater no rosto. Kaike forçou o movimento da cadeira na areia, tornando-as coladas uma a outra, e a beijando antes que fosse capaz de pensar no que fazer.
Kaike era sempre assim, pensou consigo mesma, esse sonho de consumo duas vezes maior do que ela, de cabelos loiros e sorriso sincero no rosto. Ele não fazia joguinhos ou desperdiçava tempo com o que sabia que não daria certo ou não valia a pena.
O destino o trouxera como um presente, que ela jamais iria se desfazer.
— O que está fazendo? – O afastou com os olhos arregalados.
— Beijando minha namorada.
— Agora somos namorados? – Todo o êxtase se transformou em nervoso.
— Eu sabia que você não ia assumir estar errada até que eu tomasse uma ação drástica, a fachada de terminar foi um pouco pesada eu sei, mas em qualquer outra circunstância você não me ouviria. Eu não a faria me convidar pra sair, ia ser demais pra você, não me arriscaria a perdê-la assim.
Cris fechou os olhos, sem saber se o matava ou o beijava.
— Eu odeio tanto você.
O riso de Kaike foi um abraço na alma.
— Claro que odeia.
— Nossa Kaike – Cris coçou os olhos, a respiração pesada – Mais tanto.
~*~
— Preciso confessar que tenho medo de fogos de artifício – Logan tinha os olhos presos ao céu escuro.
Genevieve ergueu o olhar surpresa.
— Você está falando sério?
Logan respirou fundo quando o primeiro zunido surgiu.
— Super sério. São bombas explodindo acima das nossas cabeças, soltando faíscas coloridas que em muitos casos são pedras que podem cair em nossas cabeças e causar machucados sérios, como as pessoas podem achar bonito?
Gê gargalhou com vontade.
— Que graça.
Logan fechou os olhos quando os fogos começaram a explodir no céu.
— Isso é tão terrível.
Genevieve girou o milésimo shot garganta a baixo, já não queimava, mas com certeza estava começando a ficar cada vez mais leve, um claro sinal de que deveria parar.
— Ah Logan, você não existe.
— Rá – Logan se mexeu gloriosamente, puxando uma das cadeiras para se sentar – Tão bem existo que tenho várias maneiras de provar.
— Ah é mesmo? – Gê cruzou os braços, uma sobrancelha erguida – Prove.
O corpo de Logan parou a meio caminho. Não era como se ele estivesse muito perto da sanidade a essa altura do campeonato.
— Genevieve Cotterill não me desafie – Logan endireitou a coluna devagar, ameaçadoramente, como um leão a espreita – Você pode gostar demais do que vai descobrir e eu não me responsabilizarei.
Gê revirou os olhos.
— Rá – Deu de ombros sorrindo – Eu rio na cara do perigo.
Riram juntos com certeza, num breve momento de puro estase e conforto, e a aproximação de Logan fora tão sutil que Genevieve não percebera ter sido cercada até que tivesse definitivamente apoiada num dos coqueiros iluminados.
— Ah não – Negou com um sorriso de ponta a ponta – Isso não vai acontecer.
— O que? – Logan fez uma careta – Eu nem fiz nada ainda – Apoiou uma das mãos sobre a cabeça de cabelos vermelhos.
— Exatamente, e o ainda vai permanecer assim – Gê apoiou as mãos sobre seu peito, apesar do sexto sentido, um pouco falho pelo álcool, ainda ser capaz de alerta-la de que nada daquilo funcionaria.
A convicção nos olhos de Logan era clara, e ela cometera o erro de desafia-lo e não lhe restava muita escapatória. Gritar por socorro seria um pouco exagerado de sua parte, e a gentileza com certeza não funcionaria.
— Você está pensando demais – Logan balançou a cabeça – Não consigo me concentrar.
Gê riu com o nervosismo.
— Certo, me desculpe.
Logan ergueu as sobrancelhas surpreso.
— Você realmente cosiderou?
Gê estreitou os olhos confusa.
— Bom, na verdade não, mas eu estou um pouco alta então-
Logan negou com a cabeça.
— Seu melhor amigo pode querer fazer minha cabeça.
— Eu sei mas foi você quem começou, não achei que esse fosse um empecilho pra você.
— Calma – Logan afastou o corpo, as mãos erguidas e abertas. – Quer dizer que nem sempre fomos só amigos?
Gê franziu o cenho, definitivamente.
— Somos tão lerdos assim?
— Acredito que sim.
Gê virou outro shot, e numa atitude impensada Logan voltou a se aproximar demais e Genevieve correu a direção contrária.
— O que está fazendo? – O desespero ainda tomava posse dentro de si.
— Bom – Logan abriu os braços como se fosse óbvio – É ano novo.
Entraram num jogo de gato e rato, que apesar dos risos nervosos tinha muito mais fundamento do que podiam imaginar. Os coqueiros eram poucos era verdade, e correr na areia fofa era pior ainda, mas o álcool na veia os deixavam lentos, então a brincadeira durou aé que o fôlego desaparecesse de vez e isso os obrigasse parar.
— Mas o que vocês estão fazendo? – Raymond cruzou os braços sobre o peito, revezando olhares entre o sorriso preso ao rosto de Logan e a evidente desorientação da melhor amiga.
— Nós não estávamos fazendo nada, na verdade eu não estava, na verdade ele só queria – Gê se conteve num suspiro, a gagueira incomum a deixando ainda mais nervosa.
Genevieve não era mulher de ficar nervosa e desconcertada ao ponto de gaguejar e Raymond ergueu as sobrancelhas surpreso, ainda em silêncio. E como se seguisse a mesma linha de pensamento do amigo Gê bufou de forma pesada.
— Por que está olhando pra mim desse jeito? – Agora estava com raiva, e a voz voltara a seu tom firme – Não é como se eu estivesse cometendo o maior dos pecados está bem?
Raymond sorriu.
— Eu não disse nada.
— Então tira esse sorriso sacana da cara – Ela jogou o copo plástico em sua direção, que não voou longe – Eu não to inventando nenhuma festa de aniversário.
Os olhos de Ray saltaram, a respiração falhou porque a figura que até então estava desinteressada atrás dele se moveu de forma suspeita e Helena fechou a cara.
— Inventar festa de aniversário? – Seu olhar correu de Genevieve a Raymond – O que isso quer dizer?
Raymond sentiu a garganta fechar.
— Está me dizendo que Gê não fez aniversário? Que era tudo invenção – Ela fechou os olhos com força – Você mentiu pra mim?
— Você faz parecer mais ruim do que realmente é – Ray ergueu as mãos no ar, como se tentasse dissipar o clima ruim – Eu posso explicar-
— Você pode explicar? – Helena ergueu a voz, o rosto vermelho — Ah pelo amor de Deus – Se afastou, brusca – Pra você inventar outra história mirabolante? Já sei, porque você não liga pro meu pai e então os dois criam a próxima vencedora do Oscar, vocês podem até fazer um filme.
Raymond fechou os olhos e Gê deu um passo a frente.
— Helena-
— Eu não quero ouvir mais nada, eu vou voltar pra casa.
~*~
Laura encarou a porta, tentando imaginar que tipo de ser humano resolveria passar trote aquela hora.
Em plena noite de ano novo, pensou consigo mesma, as pessoas deveriam estar se divertindo de modo mais saudável do que perturbar o sossego dos outros. No entanto, manteve-se encolhida no sofá, o som da televisão estava baixo porque finalmente Andrew parara de se remexer no quarto.
Duas batidas insistentes outra vez.
Laura se ergueu não muito satisfeita, estava com o pijama cor de rosa que o irmão dera, o que significava que certamente não estava apresentável. Parou a mão sobre a maçaneta, tentando decidir o quão tola seria se crianças corressem pelo corredor.
Não estava ouvindo o som de risadas. Respirou fundo e quando a porta abriu Israel ergueu as sacolas que tinha em uma das mãos.
— Feliz ano novo.
Laura franziu o cenho, atordoada demais pra entender o que se passava. E voltou a fechar a porta.
Israel aqui? Encarou o relógio na parede, que denunciava que o novo ano tinha chego a pouco mais de uma hora. Pensou em todos os lugares que ele poderia estar, na festa na praia de Kaike e cia, no apartamento de Helena e seus amigos, sozinho na própria casa, na rua enchendo a cara.
Pensou em como tinha o colocado para fora na última vez em que se viram, em como tinha sido rude quando ele só lhe oferecera apoio.
Seu coração disparou no peito. Israel está aqui na noite de ano novo?
Duas batidas na porta e ela voltou a se assustar.
— Gostei do pijama – Ele comentou, o silêncio do corredor e do lado de dentro do apartamento o fazia parecer muito mais próximo do que realmente estava – Se esse for o problema.
Laura encarou a infantilidade da roupa cor de rosa e voltou a abrir a porta.
— O que está fazendo aqui?
Ele fechou os olhos, estava surpreendentemente calmo.
— Eu trouxe uva, e vinho.
Laura piscou surpresa.
— Vinho não é fraco demais pra você?
Ele piscou sem se surpreender, encarando a porta do elevador antes de voltar a olhar para figura loira.
— Não é pra mim.
Laura deu espaço pra ele passar, ainda que não soubesse o porquê, ele acenou em agradecimento, caminhando até a cozinha como um conhecido, desfazendo as coisas da sacola como se morasse ali a mais tempo do que ela.
— Andrew está dormindo – Justificou, ainda que não soubesse o porquê.
— Eu imaginei – Ele também encarou o relógio, os ponteiros ecoando pelo cômodo – Por isso resolvi passar um pouco mais tarde, achei que ele ficaria acordado pra vocês comemorarem e depois teria de ir dormir por conta das feridas.
Laura sentiu seu peito apertar enquanto se aproximava, o vendo a procura de taças nos armários que ela não alcançava. Por que ele estava ali? Ele tinha mesmo planejado ir até ali ao ponto de pensar em como faria para não topar coma figura enraivecida e bagunçada de Andrew só para ficar na presença dela?
Ele encontrou as taças, e colocou apenas uma sobre a ilha da cozinha. Enchendo-a como a etiqueta mandava, e em seguida segurando a caixa de uvas em uma mão e a taça na outra.
— O que vamos assistir?
Laura encarou o sofá, e em como ele parecia subitamente pequeno. Passou as mãos nos cabelos rebeldes, estava descabelada?
— Eu não sei.
Ele deu de ombros e se acomodou no sofá.
— Não posso trocar os canais, estou com as mãos ocupadas – Ele manteve os olhos presos a tela da TV.
Laura encarou o ambiente a volta. Talvez estivesse sonhando, ou teria entrado num universo paralelo? O universo paralelo com toda certeza, Andrew não tinha acordado com toda aquela barulheira e dormia tão sereno que poderia até duvidar da veracidade da ideia dele estar se drogando e cheio de queimaduras pelo corpo. Nesse universo paralelo Andrew era alguém saudável, dormindo tranquilamente numa madrugada de ano novo, e ela era só uma garota acordada até tarde esperando o namorado por conta do irmão ciumento.
Namorado? Suas pernas tremeram.
Não, com toda certeza não eram namorados, não eram amigos, eram conhecidos com problemas igualmente graves. Caminhou contra seus próprios instintos, segurando a taça que deveria ser sua e observando silenciosamente enquanto ele se esticava para pegar o controle na mesinha de centro.
Sendo ele logicamente mais pesado do que Laura e seu corpo de modelo, seu peso pena deslizou sobre o estofado e agora estavam definitivamente grudados.
Laura sorveu um gole grande pra se acalmar. Ele abandonou a caixa de uvas no colo para segurar o controle, passando os canais distraidamente enquanto o outro braço se encarregava de rodar os ombros da loira.
— Você faz tudo isso parecer fácil demais – Laura murmurou, erguendo as pernas e abraçando os joelhos com o braço livre.
Israel apoiou uma perna sobre a outra num suspiro.
— Porque incrivelmente está sendo.
Fale com o autor