Jovens - Interativa

22 Capítulo 22 - Primeiro dia, férias de inverno


Notas iniciais
Olha só quem voltou com mais um fresquinho que acabou de sair do forno?

Jovens – Interativa / Capítulo 22 – Primeiro dia, férias de inverno

Cris bufou irritada, tinha que ser seu irmão pra conseguir problemas antes mesmo à metade do primeiro ano na universidade. Só a ideia já a deixava irada. Tinham levado semanas para convencer os pais a deixarem estudar ali e morarem sozinhos com os amigos sem ninguém na cola, e Jell sabia colocar tudo a perder.

Bastavam três advertências da diretora e ele estava fora, Jell conseguira cometer dois erros graves em uma única noite, bebidas clandestinas no baile, brigas.

Revirou os olhos só de lembrar, seu irmão nocauteado indo direto para o chão, e quando a diretora quisera culpar Israel também Jell assumiu toda culpa, dizendo que ele que havia provocado.

Revirou os olhos outra vez, seu irmão sabia desempenhar bem seu papel de trouxa às vezes.

Estava esperando por ele na entrada da faculdade, de maneira nenhuma entraria ali estando de férias. Keira tinha entrado de algum modo que Cris não conseguiu entender, ela se sentia culpada por Jell estar levando a bronca toda então fora até ali com ela atrás de noticias.

Mesmo com a cabeça latejando e os olhos fundos pelo cansaço e pela ressaca. Cris admitia que estivesse até um pouco surpreendida com a preocupação da outra.

Viu Israel estacionar a moto do outro lado da rua, tirar o capacete e prender com alguma coisa, não parecia estar de ressaca, e logo pensou que talvez ele vivesse sempre de ressaca pela cara fechada.

Encararam-se enquanto ele atravessava a rua e tudo o que Cris fez foi cruzar os braços e se apoiar as costas no muro ao lado do portão.

– Boa tarde – A voz dele veio seca na direção dela, como se dissesse por dizer, nem mesmo por respeito.

Controlou-se para não revirar os olhos outra vez. Não fez questão de responder e apenas observou enquanto ele entrava e sumia depois da recepção.

Tomara que já tenha pelo menos duas advertências, pensou.

~*~

– O que está fazendo aqui? – Jell franziu o cenho completamente confuso quando saiu da sala de diretora e Keira passou por ele como um furacão.

– Com licença diretora – Ela bateu na porta segundos depois de já ter entrado, ignorando-o completamente – Mas-.

– Fico feliz que tenha vindo aqui Srta. Lee, eu precisava falar com-.

– Hey –Jell voltou a invadir a sala – Tínhamos combinado que-

A diretora pigarreou e eles se encararam brevemente antes de se calarem. O estado de Keira era horrível, o cabelo desgrenhado e o rosto cansado eram mais do que visíveis, e Jell riu internamente. As roupas de Cris tinham ficado um pouco largas, mas ainda eram chamativas de mais.

Como Cris gostava de ser.

– Senhor Killer, nós já terminamos por hoje, minha conversa com a Senhorita Lee diz respeito apenas a nós duas.

Jell sentiu como se levasse um tapa na cara, o nariz ainda estava dolorido e se incomodou só com a ideia que lhe passou pela cabeça.

– Desculpe, eu vou esperar lá fora – E assim o fez, saindo cabisbaixo e fechando a porta logo em seguida.

Keira abriu a boca para falar, mas foi interrompida.

– Sente-se meu bem – Ela o fez – Está se sentindo bem?

Keira lançou o melhor sorriso que conseguiu, e voltou a sentir que não obteve sucesso.

– Já tive dias melhores.

– Sei que chegou acompanhada do senhor Killer no baile ontem, e que foi ele quem levou as bebidas e induziu os amigos dele a ajudarem a servir.

Keira abriu a boca outra vez, nenhum som saiu. Fora até ali para defendê-lo e acabara sobrando para ela.

Muito inteligente da sua parte Keira.

– Mas Jell me contou que ele a obrigou ir com ele, e que você não apoiou a entrada das bebidas, então não vou puni-la também.

Keira suspirou em alivio.

– No entanto, eu não posso deixar passar em branco para nenhum dos dois, principalmente para a senhorita que está a aqui há mais tempo que ele e sabia dos riscos. Ele também admitiu ter provocado o senhor Callen, apesar deste ter partido para a agressão primeiro.

Nada escapa dessa mulher.

– Então tanto a senhorita quando ele farão a limpeza das salas nas próximas duas semanas junto com o senhor Killer, e ele quem levou a advertência, sendo somente uma por ter sido sincero e explicado como as coisas aconteceram, de fato.

Keira piscou um pouco atordoada, o sol estava se pondo, mas tudo ainda parecia iluminado demais. A sala da diretora era estreita, tinha uma prateleira de livros embutida na parede logo atrás dela, e a mesinha de escritório. A janela imensa tinha olhos diretos para o jardim da ala leste, o que era curioso porque quase ninguém andava por ali, então a sala dela ficava totalmente a mercê da luz do dia.

Aquele lugar deveria ferver em dias ensolarados.

– Tem algo que queria me dizer?

– Não – Gaguejou e se colocou de pé com dificuldade – A senhora já explicou tudo então, eu já posso ir?

– Claro.

Keira abriu a porta devagar, e a figura impaciente de Jell parou de andar e a encarou apreensivo. Por que ele parecia bem quando ela mal conseguia ficar com os olhos abertos? Não se lembrava de ter bebido tanto.

Ele abriu a boca pra falar, mas foi interrompido pela virada rápida que Israel deu no fim do corredor, encarando a ambos ele chegou a passos largos até a sala da diretora.

– Tudo bem? – Ele levou uma mão ao ombro de Keira, que ficou meio surpresa por ele esboçar qualquer tipo de emoção.

– Tudo.

Ele concordou e encarou Jell.

– Desculpe pelo nariz, eu me exaltei.

Segunda surpresa do dia, Israel tinha acabado de pedir desculpas?

Jell concordou com a cabeça, não sorriu, mas desviou o olhar, como se sentisse que o pedido de perdão fosse tão falso quando a preocupação com Keira, então Israel pediu licença e se fechou na sala da diretora.

Keira quis que o chão se abrisse aos seus pés, Jell perguntaria o que ela veio fazer ali, e o que ela diria? “Limpar sua barra”? Ele certamente ia achar que ela já estava caidinha de amores por ele e nunca mais sairia do seu pé.

– Vamos? – Ele soltou um suspiro cansado e ela concordou com a cabeça.

– Cris está lá fora.

– Há quanto tempo?

– Viemos juntas.

– Ela vai me matar – Grunhiu.

O silêncio voltou a reinar entre os dois, e Keira não soube se isso era bom ou ruim.

Ele parecia muito mais falante ontem à noite.

Cris bufou quanto avistou os dois, abrindo os braços como se fosse abraça-los e levando as mãos para trás da cabeça segundos depois, como se preparasse para absorver a bomba.

– Quantas?

– Uma – Jell deu de ombros – Mas Keira, Israel e eu vamos ter que limpar todas as salas nas próximas duas semanas.

Cris revirou os olhos e deixou os braços caírem.

– Você poderia ser mais cauteloso na próxima vez não?

– Não vai ter próxima vez – Keira cruzou os braços respondendo antes dele. Ele sorriu largamente, jogando um dos braços por cima dos ombros dela enquanto caminhavam na direção do carro.

– Sempre tem próximas vezes meu bem, é pra esse tipo de coisa que eu vivo.

Por que agora perto da irmã dele ele voltara a se comportar cafajestemente?

– Não escute as baboseiras que ele fala – Cris sentou no banco do motorista – é só dar umas apertadas na costela dele que ele para.

Jell recuou o corpo quase que instintivamente.

– Ela não faria isso.

Keira sentiu que deveria ter feito.

– Veremos – Ela destrancou as outras portas do carro, e Jell impediu que Keira entrasse.

– Eu ainda estou aqui.

– Eu vim com o meu carro – Ele a ignorou e sorriu para a irmã enquanto o vidro do passageiro abaixava – Ela vai comigo.

Keira quis retrucar, mas Cris foi mais rápida, dando de ombros ela deu a partida no carro.

– Não demorem muito, Cass vai fazer a janta do milagre hoje.

~*~

– Levanta daí – Brandon tirou Michelle do conforto do sofá à força. Night Fever do Bee Gees estava explodindo no rádio do apartamento. Michelle riu quando seu pé enroscou no tapete e tropeçou antes de tombar contra o amigo e ser girada, no que deveria ser ‘uma dança’.

–Uhuu! – Onix exclamou do canto em que estava sentada, o pacote de fini arreganhado e um dos tubetes na boca.

– Meu Deus – Logan jogou as chaves em algum lugar – O que está acontecendo aqui?

– Lena disse que não tinha problema – Dae saiu da cozinha com um pote repleto de jujubas – E estamos em processo de recuperação sabe?

Genevieve riu baixinho.

– Onde aquela maluca se enfiou?

– Ela esta trocando de roupa, se acalma ai que vai chegar mais gente – Ele ergueu a bacia – Jujuba?

Logan revirou os olhos, ignorando-o e caminhando até o próprio quarto. Genevieve encheu a mão de bom grado e fez o mesmo, indo atrás de Lena. Encontrou a amiga encarando o espelho com dois vestidos diferentes na frente do corpo.

– Uau, você parece bem melhor – Comentou assim que fechou a porta, levando uma das minhocas coloridas aos dentes.

– Minha cabeça ainda está doendo e meus pés estão doloridos, mas achei que seria melhor ficar de pé fingindo que estou perfeitamente bem do que me contorcer em dor na cama.

Genevieve concordou com a cabeça, Helena jogou o vestido azul na cadeira e vestiu o verde, tomara que caia, tinha um laço pequeno abaixo dos seios e nada mais.

– Parece que ficou até mais jovem – Comentou, levando outra minhoca a boca.

– Jovem renovada como alguém que se sente bem, ou jovem criança que está presa no Ensino Médio?

Genevieve quis rir.

– Fico com a primeira opção.

Helena suspirou aliviada, levando as mãos ao cabelo e começando a fazer um coque.

– Como foi o passeio? Logan chegou com você?

– Normal, ficou reclamando que adoraria ter ficado pra te perturbar, que era o mínimo do castigo que ele poderia te dar.

Helena revirou os olhos.

– Isso é o de praxe, quero saber de vocês dois.

Genevieve franziu o cenho.

– Como assim?

A porta do quarto abriu.

– Josh chegou com os refrigerantes – Onix estava ofegante, e depois de revezar olhares entre as duas recuou um pouco o corpo envergonhada – Eu interrompi alguma coisa?

– De jeito nenhum – Genevieve ficou de pé, levou duas minhocas de uma só vez a boca com o pensamento focado em mantê-la ocupada, teve a sensação de que Helena queria entrar em um assunto sério que ela se quer tinha pensado, e talvez se usasse a desculpa que estava comendo conseguiria fugir das perguntas. Travou os doces na bochecha – Convidou Ray? – Perguntou logo que alcançou a porta.

Helena encarou o chão antes de responder.

– Não, eu deveria?

– Claro que sim – Onix comentou sorrindo e Gê deu de ombros.

– Se você não convidar eu convido.

– Falou com Logan? – Lena apagou a luz do quarto e parou no corredor com as duas.

Gê deu de ombros outra vez.

– Eu falo depois que convidar.

~*~

Naquela tarde

– O que ele estava fazendo aqui? – Andrew fechou a porta com violência.

– O que te faz pensar que tem direito de me fazer alguma pergunta? Onde você estava?

– Aonde acha que eu estava? – Riu em desdém enquanto andava até o banheiro – Acho que pode estar um pouco óbvio não é?

Laura quis xinga-lo, quis bater nele, quis gritar até ficar rouca só com a ideia. Quando a voz da enfermeira soou pelo telefone do irmão na hora soube q tinha alguma coisa errada, e não precisou de tempo para saber atrás do que ele fora.

Lembrou-se dos que havia encontrado e escondido nas panelas debaixo da pia, tinha que sumir com aqueles o mais rápido possível.

– Você enlouqueceu? Deu sorte que ligaram pra mim e não para nossos pais? Você podia ter morrido!

– Qual é – Ele encarou o reflexo no espelho – São só algumas ataduras aqui e ali, vai passar.

– Vai passar Andrew? – Laura deu com a mão na porta do banheiro – São queimaduras, você pode pegar uma infecção!

– Pensei que estava fazendo teatro maninha, e não medicina – Comentou irônico, arrancando a blusa encardida que usava e exibindo as gases manchadas de sangue. Puxou o saquinho q tinha em mãos e marchou em direção à cozinha.

– Por Deus Andrew, como conseguiu isso?

– Eu tinha dinheiro na minha carteira dentro do criado mudo do lado da cama – Ele fungou arreganhando os armários.

Laura sentiu suas pernas tremerem.

Ele não sabe onde está não vai achar.

– Aposto que já revistou a casa inteira não foi? – Ele puxou um cartão de credito escondido entre as latas de conserva, e jogou a fruteira em cima da mesa direto no chão. – Quantos encontrou?

Ele fungou outra vez, puxando a cadeira e colocando os ingredientes sobre a mesa.

Laura quis morrer, não se sentia preparada para passar por aquilo.

– Você não vai fazer isso na minha frente.

A cocaína caiu sobre a mesa como açúcar, e ele riu enquanto separava os filetes.

– Quer ver como eu faço maninha? – Ele estava completamente alterado – Quer que eu mostre pra você, posso te ensinar?

Laura fechou o punho com força, ele não faria isso, não ali, não assim, não com ela. Viu o suor de a ansiedade escorrer pelo rosto dele.

Fez isso durante a madrugada inteira não foi?

– Não! – Ela passou o braço pela mesa com velocidade e força o suficiente para levar tudo ao chão – Não Andrew! Não!

Ele encarou a droga se espalhar e sumir ao olho nu pelo chão, e Laura soube que tinha ido longe demais, longe demais para quem estava sozinha.

Você não precisa fazer isso.

Andrew se levantou devagar de um modo assustador, Laura viu seus olhos embaçarem em uma velocidade incrível as lagrimas transbordando livremente sem a permissão dela.

Odiava chorar.

Cambaleou para trás enquanto ele avançava na direção dela, o olhar carregado de ódio, malicia loucura. Sentiu que a fuga acabou quando suas costas encontraram a parede fria, e ele fez o mesmo a sua frente.

– Por que fez isso? – Ele cerrou o maxilar.

– Por favor, Andrew – Sussurrou, as lagrimas caiam pelo queixo, pingando no saiote do vestido.

Ela viu os olhos dele brilharem, e depois escurecerem, como se saísse de um transe, caiu para trás, os olhos fechados com força, o grito preso na garganta.

– Andrew? – Ela se ajoelhou ao lado do irmão, e ele girou quando ela tentou toca-lo – O efeito da anestesia passou? São as queimaduras? Andrew a droga pode piorar tudo!

Ele se contorceu no chão outra vez.

– Está doendo, dói, dói tudo.

Laura se sentia exasperada, não conseguia ver parte do corpo que pudesse segurar para ajuda-lo a se levantar, tinha que leva-lo para o hospital, e saberiam que ele era um viciado.

E se soubessem, acabaria com tudo.

Não podia tira-lo dali, ninguém poderia saber o que se passava, criou coragem e puxou-o pelo braço, sabendo que não era forte o suficiente para levanta-lo.

Você não precisa fazer isso

Andrew abafou outro grito, e as lagrimas voltaram a tona.

– Ajude-me Andrew, por favor, pelo menos até o seu quarto. Está aqui pertinho, vamos dar um jeito nisso.

Teve sensação de que levou horas para chegar até a cama, encontrar uma posição em que ele sentisse menos dor era praticamente impossível, colocou-o de bruços e esperou que apagasse, porque ele logo acabaria apagando.

Desfez-se do vestido, mas não tomou banho ou colocou alguma roupa confortável. Ela tinha outras prioridades. Podia contar nos dedos às vezes em que pegara em uma vassoura, e nenhuma delas fora realmente para varrer um chão.

Pois varreu a casa inteira milhares de vezes, como se quisesse esconder algum crime. E outras milhares de vezes que passou panos com diferentes produtos de limpeza. Voltou a fazer uma limpa no apartamento, encontrando outros dois tubos.

Juntou-os aqueles que já havia encontrado, colocou todos dentro de uma sacola e escondeu no fundo de sua bolsa. Pensaria o que fazer com eles depois.

Seu sofrimento maior foi quando chegou à cozinha, seu estomago roncava e tinha q dar algo para a versão Andrew consciente antes que ele começasse a precisar de mais e pirasse outra vez.

Abriu o Google no celular, ainda lhe restava um pouco de dignidade, não chegaria perto de um fogão tão cedo. Encomendou a comida e olhou a volta a procura do que fazer.

Não encontrou e se sentiu um trapo, como se só então tomasse conta do estado em que estava. A água gelada pareceu um completo alivio, como se levasse todas as impurezas da noite e do dia agitados, como se não tivesse problemas nenhum. Quis prolongar a sensação por mais tempo, mas tinha que ficar alerta para o cara da entrega.

Colocou uma das camisas de Star Wars do irmão e uma calça de moletom desbotada, ligou a TV no mínimo e encarou o vazio.

Israel parecera incrivelmente afetado quando ela pedira para que ele fosse embora.

Abraçou a si mesma, sentindo os pés gelarem. Não via motivos para Israel ficar zangado, o assunto era com ela e o irmão, e não tinha nada que ligasse a ele. Não poderia envolvê-lo em aquilo tudo, era um problema de família, que tinha pensado estar resolvido, mas estava apenas adormecido.

Lembrou-se da versão simpática de Israel no baile, que gaguejava algumas vezes quando tinha que falar sobre si mesmo e como preferia dez vezes mais quando era ela quem tagarelava. Comparou com o Israel indiferente que saíra de sua casa à tarde. Pareciam pessoas completamente diferentes.

A campainha tocou, e ela se levantou para abrir.

~*~

– Meu Deus Cass – Kaike comentou enquanto lambia os dedos – Você me surpreende todas às vezes.

– Não sou eu, é o estomago de vocês que estava precisando de uma comida caseira, nada de lanches ou comida japonesa.

– Então meu estomago agradece – Ele voltou a lamber os dedos.

Cris fez uma careta.

– Isso é nojento.

– Você que é cheia das frescuras Cris – Mek abraçou Cass por trás, a boca cheia de batatas – É normal chupar os dedos quando estão melados de algo bom.

– Com certeza – Jell mergulhou um dos dedos no molho barbecue – Eu adoro chupar meus dedos.

Keira riu.

Kaike revirou os olhos.

– Vai começar.

– Eu estou falando sério – Retrucou sorridente, levando o dedo inteiro na boca – E você Keira?

Jell sorriu ainda com o dedo indicador entre os dentes, a garota ao seu lado riu outra vez cobrindo as bochechas com as mãos.

– Eu o quê? – Ela tentou disfarçar o vermelhidão no rosto.

– Você gosta de chupar dedos?

– Jell eu nunca consigo me conformar sobre como você consegue ser incrivelmente pervertido às vezes – Kaike empurrou o prato vazio um pouco para frente, apoiando os cotovelos na mesa – E pra variar acaba envolvendo qualquer um nas suas taradices.

– O que foi que eu fiz? – Levou a mão ao peito indignado, Merak começou a ajudar Cass a tirar a mesa – Eu fiz uma pergunta inocente, eu nem disse nada demais-.

– Ah não tudo bem – Keira balançou a cabeça como se já esperasse e levou o dedo ao molho barbecue. O queixo de Cris caiu – Eu adoro chupar dedos. – E levou o dedo lambuzado a boca sorrindo.

– Nossa – Merak chacoalhou a cabeça surpreso – Vocês querem um momento a sós com o molho?

Kaike explodiu em risadas, o sorriso de Jell não parecia ter a capacidade de diminuir.

– Meu Deus parece que você acertou dessa vez não? – Cass riu batendo no ombro de Keira e Jell e por trás e fazendo caretas para que os outros saíssem. Cris e Kaike se levantaram num salto – Então a louça é toda de vocês.

– Com certeza – Merak praticamente correu até a sala.

– Isso não é justo – Jell ficou de pé – Kaike foi quem comeu mais.

– Vocês foram os últimos a chegar – Cris sorriu perversa – Eu avisei.

– Não tem problema – Keira não parecia consciente dos esquemas que rolavam entre os amigos – Contanto que eu não faça tudo sozinha.

A luz brilhou sobre a cabeça de Jell.

– Claro que não meu bem — Ele apressou-se parando ao lado dela na pia, todos os outros ligados na TV na sala – Deixa-la na mão de jeito nenhum.

Keira revirou os olhos.

– Será que sobrou molho? – Jell abriu a geladeira enquanto ela ensaboava os pratos – Porque seria muito interessante se-

– Se você começasse a secar os pratos pra poder guardar.

– Claro, claro – Meneou a cabeça e puxou o molho ao fundo da prateleira – Eu só estava curioso pra-

– Saber como eles ficam depois de secos dentro do armário?

Jell deixou os ombros caírem, fechando a geladeira e colocando o pote pequeno de molho de lado, pegou o guardanapo e abriu o armário acima.

– Você está mandona.

– É porque eu tenho que limpar uma porção de salas nas próximas semanas.

– Eu disse pra você parar de beber. – Deu de ombros – Estava rindo que nem uma louca.

Jell recebeu um aperto na costela e recuou o corpo assustado. Keira riu e ele a encarou perplexo. Ela tinha feito mesmo aquilo?

– Por que fez isso?

– Pra você parar de falar besteira – Deu de ombros sem olha-lo – Estou de ‘’serviço comunitário’’- ela fez as aspas com as mãos ensaboadas – Porque não te dedurei e não por ter bebido.

Jell a encarou e ela permaneceu focada na louça. Estava melhor do que à tarde, o rosto tinha mais cor e tinha penteado o cabelo em um rabo de cavalo perfeito, estava com uma das camisas de Merak porque eles tinham o mesmo numero, apesar de que ainda era larga nos ombros. A calça ainda era de Cass, mas os pés descalços estavam brancos de gelados.

Quis perguntar o que ela ainda fazia ali. Não tinha pedido para que ficasse ou que fosse atrás dele na faculdade. Ela poderia ter facilmente pego as próprias coisas e voltado para casa e resolvido ignora-lo nas próximas duas semanas.

Não precisava ter colaborado nas brincadeiras sacanas dele ou até mesmo fazer parte delas. Ela tinha passado mais tempos com seus amigos do que as outras garotas que trouxera e isso o deixava meio pasmo, porque ele não tinha nada com Keira ainda.

Ainda.

A palavra pareceu um berro na mente dele, olhou para os talheres limpos e molhados a sua frente e se perguntou quando foi a ultima vez que ajudou a lavar a louça. Ele sempre arrumava uma escapatória e dessa vez nem precisaram argumentar contra ele.

– Algo me diz que ficar olhando pros garfos não vai seca-los mais rápido – Ela cantarolou enquanto lhe lançava uma tonelada de facas – Não sabia que o beslicão o manteria mesmo quieto, pode falar alguma coisa se quiser, está começando a fazer com que eu me sinta invasiva.

– Desculpe – A palavra atropelou todas as outras que tinha vontade de dizer, tudo estava indo perfeitamente bem para que ele estragasse tudo – Eu fiquei pensativo.

– Isso é um problema? – Ela sorriu e piscou entre ele e a torneira.

Por que não olha pra mim?

– Acho que não.

Ela riu.

– Você acha?

O coração dele pareceu bater duas vezes mais forte no peito, como se quisesse mostrar que ainda estava ali trabalhando. Ela fechou a torneira e encarou os talheres que faltavam.

– A maioria das coisas que faço são por impulso – Comentou baixinho, só para ter certeza que a TV estava mais alta que a conversa deles.

– Não diga – Ela ironizou puxando o guardanapo das mãos deles e secando habilidosamente os que faltavam. Jell deu espaço para que ela terminasse e franziu o cenho.

Quis beija-la, e depois guarda-la num potinho e esconder no meio da sua gaveta de bugigangas ao lado da cama e esperar que ninguém a encontrasse, porque queria ela só pra ele.

Ela deu uma risada sem graça, e teve medo que ela pudesse ter escutado seus pensamentos.

– Você está estranho – Ela puxou o pote de molho e mergulhou dois dedos – Como faço pra ligar você de novo?

A frase lhe causou arrepios.

Meu Deus que mulher é essa?

Ela levou os dedos à boca, sem se dar conta o quão sensual estava sendo e como sua cabeça estava um completo caos. Ela sorriu envergonhada e ele pensou em lugar melhor para escondê-la, porque covinhas se formaram nos cantos de suas bochechas e Jell simplesmente não soube o que fazer.

Ele mergulhou dois dedos no potinho.

– Você não vai pra sua casa agora vai?

Ela ergueu as sobrancelhas surpresa pela pergunta repentina.

– Bom, eu meio que deveria não é? Perturbei vocês um dia inteiro, e sem contar alguns detalhes como roupas e tal.

– Ninguém liga – As palavras voltaram a se atropelar – Contando que você continue bem humorada.

Ela hesitou em voltar a pegar o molho com os dedos.

– Não sei...

– Por favor – Ele inclinou a cabeça e sorriu – Eu ia adorar.

Ela revirou os olhos.

– Como se eu fosse ficar aqui unicamente por sua causa.

– Mas é – Passou a mão pela camisa se gabando – Você só tem olhos pra mim aqui dentro.

Ela estendeu o potinho praticamente vazio, uma das sobrancelhas erguidas como se perguntasse se aquele papo era mesmo sério. Ele segurou o potinho, mas a segurou pelo braço com a mão livre quando ela ameaçou passar por ele sem dar uma resposta definitiva.

– Você não disse nada.

Ele esfregou os dedos pela pele macia dela, gelada por causa da água. Ela suspirou, como se recebesse algum tipo de anestesia.

– Se seu ego diminuir um pouco eu posso pensar no seu caso.

Ela sorriu divertida e passou o dedo pela borda do pote, ele abriu a boca no segundo seguinte, o lado da mente pervertido sendo um dos únicos funcionando em perfeito estado. Ela riu logo em seguida, esticando o dedo para que ele abocanhasse e ele assim o fez, fazendo a rir encabulada outra vez.

– Estou indo pra minha cama pombinhos – Cris colocou a cabeça para dentro da cozinha e estreitou os olhos – E só para constar, vocês são nojentos.

Os dois riram e Cris desapareceu, Keira recuou a mão e Jell a soltou, largou o potinho vazio sobre a mesa e apagou a luz.

~*~

Raymond tinha sido praticamente abandonado. Michelle e Onix tiraram Josh e Brandon das camas e todos saíram, fora convidado, mas resolvera ficar por ali mesmo, a cabeça com um turbilhão de pensamentos.

Escutou baterem na porta, e ficou curioso na ideia de quem poderia ser, não falava com Genevieve desde noite passada e Helen não tinha dado sequer sinal de vida. Chegou mais rápido a porta do que o comum, abrindo-a com certa esperança, e quando avistou o casal a sua frente a fechou de imediato.

A alegria se esvaindo do seu corpo. Fechou os olhos, encostando a cabeça na porta.

Não. Isso só pode ser um sonho, um pesadelo.

– Você não está sonhando Raymond – A voz grossa e masculina soou do outro lado como se pudesse ler seus pensamentos – E não foi assim que criamos você, batendo a porta na cara dos outros.

– Tecnicamente vocês não me criaram – Resmungou e voltou a abrir a porta, sorrindo falsamente. – O que estão fazendo aqui?

Sua mãe lhe beijou o rosto enquanto seu pai praticamente invadia o lugar.

– É bom te ver também meu bem – Ela comentou cheia das frescuras fazendo com que revirasse os olhos e batesse a porta. Seu pai pigarreou com a zona que a sala estava.

Tinha chinelos de garotas e camisetas masculinas penduradas na sacada.

Amaldiçoou internamente seus pais por serem tão detalhistas, dividia o apartamento com outras quatro pessoas, ele esperava mesmo que aquele lugar estivesse brilhando?

É claro que esperava, era seu pai no final das contas.

– Como você deixou bem claro seu desgosto se viéssemos pra cá pegamos o primeiro voo hoje de manhã para ter certeza que não estava usando drogas.

Raymond puxou uma cadeira para a mãe sentar.

– Não estou usando drogas.

– Que ótimo, já podemos ir agora Jane?

– Menos Tristan – Sua mãe se acomodou como uma verdadeira negociadora – Como vai à faculdade?

– Vai bem – Franziu o cenho, aquilo tudo parecia alguma espécie de teatro muito bem orquestrado. Via seus pais uma vez em cada três ou quatro anos, e ter uma conversa pacifica assim era completamente fora do comum.

Eram seus pais era verdade, mas os laços afetivos quase não existiam.

– Por que a pergunta?

– Eu não posso me interessar pelo o que meu filho está fazendo?

– Não – Ele e seu pai disseram ao mesmo tempo. Todos ali se entreolharam e sua mãe acabou por suspirar.

– Muito bem, só viemos anunciar que acabou a brincadeira.

– Brincadeira? – Cruzou os braços se apoiando no sofá. Seu pai bufou.

– Pode trancar a matricula, seu tempo de vagabundagem terminou. – E se jogou na poltrona de Brandon.

Raymond sentiu como se levasse um tapa na cara, um não, dois.

– O quê?

– Não acha mesmo que depois de ter torrado todo o dinheiro que te temos até agora você sairia na boa não?

Sua mãe ficou de pé.

– O que seu pai está querendo dizer é que está na hora de você assumir os negócios. Não podemos deixar todo o império que seu pai e eu construímos na mão de qualquer executivo louco para encher a carteira.

Raymond deixou os ombros caírem, incrédulo.

– Eu estou fazendo Relações Internacionais, acabo de terminar o primeiro semestre, e daqui a quatro anos vou ser um exímio diplomata, não um vendedor de carros. – Sua mãe abriu a boca para responder, mas ele continuou – E não venha usar sua psicologia de vendedora pra cima de mim, porque não vai funcionar.

– Você sabia que corria esse risco – Seu pai comentou em descaso – E ainda assim resolveu entrar na faculdade.

Raymond quis responder grosseiramente, mas foi interrompido pelo toque do celular. Sacou-o do bolso com rapidez, e agradeceu aos deuses quando viu a identificação na tela.

– Com licença – E deslizou o dedo para atender.

– Oi, pode falar?

– Posso – Caminhou até a cozinha e colocou uma panela d’água para encher.

– Estávamos fazendo uma noite do doce aqui, você quer vir?

– Eu estou meio ocupado agora.

Sentiu que ela desanimou do outro lado e foi tão rápido que poderia jurar que nada acontecera.

– Está bem então é-

– Pode me fazer um favor?

– Claro.

– Você poderia passar aqui?

– Eu acabei de convidar você pra vir aqui e você recusa pedindo pra que eu-

– É importante, preciso que salve a minha pele.

Sua mãe entrou na cozinha, fechando a torneira e cruzando os braços a sua frente.

– Como assim?

– Sabe aquele imprevisto que tive ontem antes de sairmos?

– Porque está falando estranho?

– Ele voltou a se repetir, não posso ir ai agora.

– Como assim? Seus pais estão com você?

– Claro! – Passou a mão pela nuca – Ajude-o tenho certeza que ele ficara agradecido.

– Está falando de você mesmo na terceira pessoa?

– Tenho certeza.

– Vou ver o que posso fazer então.

– Está bem, nos vemos amanhã então.

E desligou.

– Quem era ao telefone?

– Ninguém importante.

Ela ergueu as sobrancelhas desconfiada.

– Espero que não seja aquela garota, Genevieve, foi ela quem enfiou na sua cabeça essas caraminholas de escolher o que fazer da vida.

Raymond revirou os olhos.

– Por favor, não mãe, Gê é uma grande amiga minha, não posso deixar que fale mal dela.

~*~

– Que isso – Genevieve exclamou quando voltou a entrar na sala – Esse lugar está fedendo açúcar.

– Não é uma beleza? – Brandon exclamou energético, enquanto ajudava Josh a escolher a próxima playlist.

– Desculpe – Logan se sentou no sofá,a cara fechada – Eu prefiro salgado.

Helena colocou um casaco às pressas, calçando uma sandália toda atrapalhada.

– Aonde vai? – Logan esticou o braço pelo sofá. E pelo cara que ela fez Gê soube que ia acabar se metendo em confusão. Voltou a olhar para frente, aqueles dois já tinham problemas demais para acabar se metendo.

– Vou dar uma volta, já volto.

– Há essa hora?

– Sai do meu pé Logan – Ela bufou antes de pegar as chaves e sair. Logan abriu a boca para praguejar, mas apenas suspirou. Olhou para os amigos à volta, todos em silêncio.

– Que música vocês vão colocar agora? – Genevieve puxou o celular da mão de Josh tentando quebrar o clima pesado – Estão demorando demais.