Da janela do novo quarto, Ally viu um esquilo atravessar o jardim e subir em uma árvore. Aquilo era demais, ela nunca havia visto um esquilo antes, pelo menos não de perto. Ally estava acostumada a viver em grandes cidades, então Mystic Village seria uma espécie de aventura para ela.

— Ally, você pode descer aqui um minuto? – A Sra. Wilson estava parada ao pé da escada quando Ally desceu.

— O quê? Eu não quebrei nada, eu juro.

— Engraçadinha! Eu preciso da sua ajuda. Quero mudar a geladeira de lugar, mas ela é muito pesada e eu não consigo arrastá-la sozinha.

— Certo.

Ally e a Sra. Wilson foram até a cozinha.

— Onde você quer que ela fique?

— Ali, no canto esquerdo. O que você acha?

Ally deu de ombros.

— Sei lá. Para mim parece bom onde está, mas você é quem sabe.

A Sra. Wilson não tinha certeza se era uma boa ideia mudar a geladeira de lugar, isto de fato nem era o problema. Desde que voltou para a casa onde havia crescido, a Sra. Wilson sentia-se como se a mãe estivesse mais viva do que antes. Mesmo depois de morta, ela ainda conseguia sentir a presença da mãe na casa e isso a aterrorizava.

— Aqui está bom? – Ally chamou a atenção da mãe.

Quando a Sra. Wilson se virou para responder, ela levou um susto. Enquanto estava perdida em pensamentos, Ally moveu a geladeira de um canto da cozinha até o outro lado. O pior é que Ally nem sequer pareceu achar difícil. Oh, não! A Sra. Wilson pensou: vai acontecer de novo.

— Como você fez isso? – A Sra. Wilson estava preocupada. – Seus braços não estão doendo?

— Na verdade não, essa geladeira nem é tão pesada assim. Como sempre, mãe, você estava exagerando. Você precisa que eu faça mais alguma coisa?

— Sim – a Sra. Wilson continuava impressionada, na verdade mais assustada do que impressionada. – Tem uma caixa com antigos pertences da sua avó na sala. Você pode guardá-la no sótão?

— Sim.

— Obrigada, querida.

Quando Ally saiu da cozinha, a Sra. Wilson tentou mover a geladeira um centímetro sequer. Mas tudo o que ela conseguiu foi sentir dor nos braços e um pouco de tontura, devido à força desnecessária que estava utilizando.

O sótão estava abarrotado de caixas, pois a Sra. Wilson estava jogando caixas lá dentro desde as últimas dezesseis horas. Ally deixou a caixa em cima de uma mesinha que a mãe havia descartado ali, no início da manhã. Como já era de se esperar, Ally resolveu bisbilhotar. Ela resolveu começar vendo o que havia debaixo de um pano branco. Depois de se livrar do tecido, Ally ficou intrigada ao dar de cara com um baú antigo.

Ally se ajoelhou e abriu o baú, quando uma fina camada de poeira subiu, fazendo-a tossir. Depois que o pó se dissipou, Ally pôde investigar melhor o interior do baú. Ela encontrou algumas fotos antigas da avó: umas de quando ela era adolescente, outras em uma fase mais adulta. Ela até encontrou uma série de fotos tiradas no dia do casamento dos avós.

Duas fotos chamaram a atenção de Ally. Em uma delas, a avó estava segurando um bebê rechonchudo e sorridente. A foto parecia ser a mais recente de todas. Pela qualidade do papel, Ally concluiu que a avó havia restaurado aquela foto antes de morrer.

A outra foto era de uma menina loira. A garota estava usando um vestido rosa e o sorriso estampado no rosto dela era genuíno. Ally leu o que estava escrito no verso da foto: Ally Wilson, 3 anos. No fundo, Ally sabia o tempo todo que ela era a garota da foto. Ela tinha uma vaga lembrança de ter usado um vestido cor de rosa na infância.

Ally resolveu não guardar as fotos de volta no baú, pois elas não mereciam ficar escondidas em um lugar escuro e empoeirado. Seria melhor guardá-las em um álbum de fotos. Talvez a Sra. Wilson não se importasse.

No fundo do baú, Ally encontrou um livro com acabamento em prata nos cantos e na lombada, mas a capa era de veludo. Havia um brasão de metal colado na capa, era uma estrela. Quando abriu o livro, ela ficou surpresa: todas as páginas estavam em branco, não havia nada escrito em lugar nenhum. Por um momento ela até cogitou guardar o livro de volta no fundo do baú, mas achou melhor levá-lo junto com as fotos.

O terceiro item que Ally tirou do fundo do baú foi um pequeno porta-joias redondo. Dentro dele havia apenas uma única joia: um colar cuja corrente era de metal e um pingente em formato de estrela. O brasão preso na capa do livro era idêntico ao pingente do colar.

Ally não sabia ainda, mas a estrela era um pentagrama, um símbolo com muita profundidade mágica e grande significado simbólico.

O porta-joias foi a única coisa que Ally devolveu para o fundo do baú. Após cobri-lo de volta com o pano, ela desceu do sótão levando consigo fotos antigas da avó, um livro em branco e um colar com um pingente de pentagrama.

Ela não precisava fazer aquilo, não naquele momento, mas a dúvida a estava corroendo. Tinham acontecido tantas coisas nos últimos dois meses e Ally sabia de quase nada, ela não iria permitir que a mãe continuasse lhe dando respostas vagas. Ally deixou no segundo degrau na escada tudo o que encontrou no sótão. Ela então resolveu ir até a cozinha, tirar satisfação por conta própria.

A Sra. Wilson estava sentada, tomando café enquanto lia o jornal.

— Mãe? – Ally se aproximou.

— Oi – respondeu, após deixar o jornal de lado. – Você demorou, querida, eu estava quase mandando uma equipe de resgate atrás de você. – A Sra. Wilson riu da própria piada. Ela foi a única.

— Por que você nunca mencionou que a minha avó estava viva?

Lentamente, como quem não queria nada, a Sra. Wilson pousou a caneca no balcão enquanto encarava Ally. Naquele momento ela não parecia estar tão feliz quanto antes, parecia até que Ally havia entrado em um território tóxico.

— Ally, acredite, é melhor deixar esse assunto de lado, pelo menos por agora.

— Por quê? – Ally não aceitaria mais incertezas como respostas. – Por que nós não podemos falar a respeito da minha avó, da sua mãe? O que aconteceu entre vocês? Ela era assim tão ruim? Porque do contrário eu não entendo como alguém privaria uma avó do direito de conhecer a própria neta.

— Você não sabe do que está falando. Minha mãe, ela era... diferente.

— E daí? Qual é o problema? Nós todos somos diferentes. Se a vovó era ou não uma pessoa normal isso não importa, não agora, não mais. O que eu não entendo é por que você nunca disse que ela estava viva, você me fez pensar todos esses anos que éramos só nós duas.

— Por que você quer falar disso agora?

— Por que não?! – Ally estava desesperada. – Nós estamos na casa dela, o sofá que está na sala pertencia a ela, essa caneca que você está usando era dela! Ela arrumou cuidadosamente cada canto dessa casa. Eu não a conheço, graças a você, mas, se eu a conhecesse, diria que tudo aqui nessa casa se parece com ela.

— Ally, acho que é melhor você subir e se acalmar. Quando for a hora certa, nós iremos conversar. – A Sra. Wilson perdeu a vontade de tomar café, se levantou e levou a caneca até a pia.

— Não dê as costas pra mim. – Ally estava sentindo alguma coisa queimar dentro de si, era uma espécie de formigamento. – Responda-me!

— Eu não... – A Sra. Wilson começou a responder. Porém, naquele mesmo instante a torneira começou a tremer, parecia que a água que corria pelos canos estava lutando para se libertar. Antes que Ally ou a Sra. Wilson pudesse dizer mais alguma coisa, a torneira foi arrancada abruptamente. A água começou a jorrar do cano quebrado na parede e a Sra. Wilson gritou. Tudo o que Ally fez foi dar as costas e sair caminhando da cozinha, como se nada tivesse acontecido, enquanto a mãe lutava para desligar o registro da água.

Ally pegou o que havia deixado na escada e subiu até seu novo quarto.