Notas iniciais
Se alguém ainda estiver acompanhando eu posto os três últimos capítulos.

Ally realmente achava que as meninas tivessem uma espécie de quartel-general. Ela não estava esperando a fortaleza da solidão do Superman, mas uma usina abandonada era meio decadente.

– É aqui que vocês, garotas, treinam? – Ally perguntou.

– Sim, mi casa es su casa. — Skylar saiu da van.

Ally encarou Regan, com cara de nojo.

– O quê? É temporário. Até uma de nós ficar rica e descolar um lugar melhor, é o que temos. Bem, é isso ou a garagem da casa de Bonnie.

Regan saiu da van e Ally foi logo atrás dela.

Marissa e Bonnie estavam do lado de fora. Elas correram e se aproximaram.

– Você veio por vontade própria? – Marissa perguntou.

– Sim. – Ally sorriu. – A propósito, de quem foi a ideia brilhante de me sequestrar?

– Ally, nós não temos tempo para jogar conversa fora. – Bonnie realmente não estava de brincadeira. – Você pode ou não nos ajudar? Depois podemos conversar.

– Eu acho que posso ajudar. – Ally pegou o Grimório de dentro da bolsa. – Isso pertenceu a minha avó e está cheio de feitiços, poções e outras coisas que eu não sei o que significam.

As meninas estavam fascinadas, encantadas com a visão do livro nas mãos de Ally. Era um Grimório genuíno e havia pertencido a uma bruxa poderosíssima.

– Eu posso tocar? – Marissa estava quase babando.

– Depois. – Ally também não estava mais para brincadeira. – Agora nós temos muito o que fazer. – Ela abriu o Grimório. – Ontem à noite eu comecei a lê-lo e acho que sei qual é o feitiço certo. Aqui, feitiço de localização. É disso que precisamos, certo?

Skylar e Marissa sorriram.

Ally sentou-se pela primeira vez no círculo. Os cinco elementos estavam enfim juntos, o pentagrama estava completo.

O feitiço de localização era simples e praticamente infalível. Ally só precisaria de um mapa da cidade; um objeto que pertencesse à pessoa desaparecida, nesse caso, algo que pertencesse a Jake ou a Ashlee; e, por fim, terra.

Felizmente, as meninas tinham tudo isso em mãos.

Ally estava nervosa. Aquele seria, de fato, o primeiro feitiço que ela invocava. E não foi algo para o qual ela se preparou a vida toda: o fato de ser uma bruxa simplesmente explodiu na cara dela.

– Certo. Lá vou eu – dando uma última olhada no Grimório, Ally pegou um punhado de terra, fechou os olhos e começou a invocar o feitiço. – Aliquis abisset invenit dominum illius.

Algo aconteceu.

A areia formou um caminho ao longo do mapa, que de fato estava mesmo levando a algum lugar. Ally só não sabia aonde era.

– Ahn, eu não sei onde fica esse lugar.

Aonde quer que fosse, era afastado de Mystic Village.

– Espera. – Regan se inclinou para cima do mapa. – Eu sei onde é – respondeu, tocando com o indicador no local sugerido. – É a igreja abandonada, que fica fora dos limites de Mystic Village.

Sem pestanejar, as meninas se levantaram e correram para fora da usina. Exceto Ally, que continuou sentada. Marissa foi a primeira a sentir a falta dela, por isso voltou para saber o que estava acontecendo.

– Qual é o problema? – Marissa se ajoelhou ao lado de Ally.

– Eu não sei o que fazer. Quero dizer, eu sei o que fazer, eu só estou...

– Assustada? Pois é, eu também.

– Mesmo? – Isso ajudava.

Marissa sorriu.

– Ally, eu estou assustada na maior parte do tempo. Tudo isso soa como loucura, eu sei, e talvez não faça muito sentido agora, mas toda essa loucura é necessária. – Marissa tocou no ombro de Ally. – Além do mais você está conosco e, se tem uma coisa em que nosso grupo é bom, é em defender umas às outras quando for preciso.

Ally sorriu. Marissa ajudou-a a guardar o Grimório e o mapa dentro da bolsa.

– A propósito, por que você levou o Grimório pra escola?

– Sinceramente? Eu nem sei, acho que estou ficando louca.

– Bem, se você acha, então significa que está fazendo tudo certo.

As meninas sorriram e depois saíram da usina. Bonnie, Skylar e Regan estavam sentadas no banco da frente na van; Ally e Marissa entraram pela porta traseira.

– Pisa fundo, Sky. – Bonnie disse.

~

Quando Regan disse que a igreja abandonada era afastada da cidade, ela não estava brincando. O local parecia estar literalmente no meio do nada e o mato alto, ao redor da propriedade, dificultava a visão das meninas.

Todas desceram da van. Ally preferiu deixar a bolsa dentro do carro: alguma coisa dentro dela dizia que iria precisar das mãos livres mais cedo do que imaginava.

– O que nós fazemos agora? – Marissa perguntou.

– Bem, a areia no mapa indicou este lugar. Acho que temos que entrar. – Ally não tinha certeza, mas parecia ser o certo.

As meninas começaram a atravessar o mato alto, uma ao lado da outra. Ally e Marissa estavam andando juntas quando escutaram um crocitar. Em seguida, um vulto escuro voou em cima delas. Instintivamente, Ally e Marissa caíram para o lado.

– O que foi isso? – Marissa perguntou.

– Vocês estão bem? – Regan e Skylar vieram ajudá-las.

– Alguém anotou a placa daquela coisa? – Brincou Regan.

Ally começou a limpar a terra da calça, enquanto Marissa tirava mato do cabelo.

– Ah, meninas? – Bonnie estava parada, olhando para frente. – Vocês precisam ver isso.

Sem saberem o que estava acontecendo, uma a uma as meninas se dirigiram até onde Bonnie estava. Ally foi a última a se aproximar.

Havia duas árvores ao lado da igreja abandonada. Até aí tudo bem, mas, quando Ally ergueu a cabeça, teve que prender a respiração: ela se deu conta de que todos os galhos das duas árvores estavam lotados de corvos.

– Por que eu tenho a impressão de que isso não é uma coisa boa? – Skylar sussurrou.

– Porque não é. – Bonnie sussurrou de volta.

Ally continuava encarando os corvos, quando se deu conta de uma coisa. Uma pequena característica chamou a atenção dela.

– Esses bichos têm três olhos. – Ally não sabia por que, mas também resolveu sussurrar.

Depois desse comentário, as outras garotas foram mais atentas e constataram que Ally estava certa: todos os corvos tinham três olhos.

– Eu sei o que essas coisas são. – Marissa também sussurrou. – Eles não são apenas corvos, são também uma espécie de guardiões.

– Guardiões? – Regan perguntou.

– Guardiões, seguranças, chame-os do que quiser. – Marissa começou a explicar. – O caso é que o corvo de três olhos é utilizado para manter os outros longe daquilo que deve permanecer escondido. O terceiro olho funciona como uma câmera de segurança. Quem quer que os tenha invocado para cá, a essa altura já sabe que nós estamos aqui.

– E por que eles não estão nos atacando? – Bonnie perguntou.

Skylar sabia porquê.

– Porque até aqui nós ainda não representamos ameaça.

Mas aquilo estava prestes a mudar. Regan deu apenas um passo para frente e, com esse movimento, acabou pisando em cima de um graveto.

O barulho de centenas de corvos acima da cabeça das meninas era quase ensurdecedor. Os animais estavam voando em círculos ao redor delas.

Regan correu antes de as outras garotas, quando foi atacada por um pequeno grupo de corvos, que mergulharam no ar e voaram em sua direção.

Com os braços em chamas até os cotovelos, ela começou a atirar bolas de fogo contra os corvos. Mas ela sabia que aquilo não seria suficiente. Foi então que, concentrando-se um pouco mais, Regan começou a atirar jatos de fogo. Com aquilo ela conseguiu aniquilar uma quantidade maior de corvos.

Não muito longe de onde Regan estava, Marissa tentava se virar com o que sabia. Infelizmente, antes que ela conseguisse invocar um feitiço, um corvo a atingiu no braço, com o bico. Além de rasgar o suéter azul-marinho que ela estava usando, ainda machucou o braço dela.

Era oficial: Marissa estava irritada, ninguém tocava nos suéteres dela.

Enquanto mais corvos se aproximavam, Marissa começou a sugar o ar. Com os punhos cerrados, ela sabia muito bem o que estava prestes a fazer. Depois de absorver boa parte do ar em seus pulmões, ela soltou tudo de uma vez. Os corvos que voaram para cima dela foram atingidos por um sopro fortíssimo e algumas aves desistiram de atacá-la.

Do outro lado de igreja, Bonnie também enfrentava os corvos que tentavam atacá-la. Uma pequena pedra, aos olhos de qualquer outra pessoa, era inofensiva. Mas, com as habilidades de Bonnie, este objeto podia ser tão perigoso quanto uma bala.

E, naquele momento, Bonnie parecia uma metralhadora carregada. Ela levitava pedras, pequenas e grandes, e as atirava contra os corvos. Ela raramente errava o alvo.

Skylar estava parada ao lado do poço de água. Ela já estava preparada, por isso, quando os corvos a atacaram, ao invés de utilizar a água do poço como contra-ataque, ela optou por proteger a si mesma. Manipulando a água, ela conseguiu criar um escudo e bloquear os ataques dos corvos.

Mas ela não deixaria apenas por isso. Skylar reutilizou a água do escudo e agora estava criando esferas d’água. Ela então começou a atirá-las contra os animais.

Ally também estava fazendo algo, ela estava escondida atrás de um grosso tronco de árvore. Ela não sabia o que fazer. Diferente das outras meninas, não tinha experiência e muito menos controle sobre seus poderes.

Foi então que ela escutou o grito de Marissa. A garota havia caído no chão e mesmo assim ainda continuava atacando os corvos. Ally fechou os olhos e tentou se lembrar de qualquer feitiço que tivesse lido no Grimório, qualquer um que pudesse ajudá-la e as amigas.

Ally conseguiu se lembrar de um feitiço que só poderia ser invocado pelo Espírito. Criando coragem, ela saiu de trás do tronco da árvore e caminhou até o local que podia ser muito bem descrito como um campo de batalha. Skylar e Bonnie enfrentavam os corvos de um lado, enquanto Regan e Marissa tentavam controlar a situação do outro. Por mais que elas se esforçassem, os corvos estavam determinados a não deixar que alguém entrasse na igreja.

Por conta da quantidade de corvos que voava acima das cabeças das meninas, o céu estava literalmente negro.

Ally ergueu os braços e depois abriu a boca. Ela só esperava que estivesse invocando o feitiço certo.

– Animam tuam ad me pertinet. Animus meus mihi et ego quid recipiat.

E então começou a chover. Mas não foi água que caiu de cima e sim os corpos sem vida dos corvos.

As meninas se reuniram ao lado dela. Nem a própria Ally estava acreditando no que acabara de fazer.

– Garota, você mandou bem. – Skylar podia enfim respirar com calma.

A porta da igreja estava lacrada. É claro que estava. Nada seria fácil e o que aparentava ser, nunca era.

Com um único chute Ally derrubou as portas da igreja e as meninas puderam enfim entrar.

O local estava sujo e empoeirado, mas, em suma, parecia apenas uma igreja abandonada. Os bancos ainda estavam lá e o altar também. Ally achou que alguma criatura iria atacar ali dentro, mas isso não aconteceu.

– Eu não entendo. – Regan disse.

– Bem-vinda ao clube. – Skylar respondeu, enquanto olhava ao redor. – Nós estamos mesmo no lugar certo?

– De acordo com o feitiço de localização, sim. Ashlee está aqui, em algum lugar, e muito provavelmente Jake também está.

Não havia outro cômodo naquele lugar.

Ally começou a investigar o local. Após alguns passos, ela escutou a madeira ranger debaixo dela. Foi então que teve a certeza de que estavam no lugar certo.

– Lá embaixo. – Ally disse.

– O quê? – Bonnie se aproximou e as outras garotas vieram em seguida.

– O feitiço nos trouxe ao lugar certo – por dentro, Ally estava contente por não ter invocado o feitiço errado. – Mas não é aqui em cima que devemos procurar.

As meninas entenderam o que ela estava querendo dizer.

– Afastem-se – disse Bonnie, determinada.

As meninas recuaram. Bonnie se concentrou, repetiu a palavra certa mentalmente e, em seguida, cheia de confiança, disse:

– Revelabit.

Até Bonnie teve que recuar quando a madeira do chão começou a sumir. Ao pé do altar apareceu um buraco.

As cinco garotas encararam a abertura, mas nenhuma conseguiu ver o final. Parecia um poço sem fim.

– Certo, quem vai primeiro? – Regan perguntou.

Skylar foi a primeira e Bonnie foi logo atrás dela. Marissa desceu em seguida e Regan e Ally foram juntas. Ally não sabia levitar ainda, por isso ela precisou de uma mãozinha. Mesmo a contragosto, Regan a ajudou.

O segundo cômodo era úmido e escuro. Depois que desceram, Ally mal conseguiu ver Regan.

– Regan, você pode iluminar o local? – Marissa perguntou.

Como se a ponta do dedo fosse um palito de fósforo, Regan o acendeu. Felizmente, logo ela enxergou o porta-velas na parede ao lado. Regan começou a acender as velas e depois, com um sopro, apagou a chama na ponta do dedo.

Ally podia jurar que o cômodo subterrâneo também estava vazio. Mas, conforme Regan acendia as velas da parede, ela começava a enxergar os sacos de pano no chão.

Todas as meninas estavam encarando os objetos. Elas estavam intrigadas com relação ao conteúdo de cada saco.

Como sempre, Skylar seria a primeira a bisbilhotar.

– Sky, é mesmo uma boa ideia? – Bonnie perguntou.

– Nós já chegamos até aqui. Por que não? – Skylar deu de ombros. – Além do mais, quem está na chuva é pra se molhar.

Skylar se ajoelhou ao lado de um saco e começou a desamarrá-lo. O conteúdo fez Skylar gritar e cair para trás. Naquele momento, todas as garotas estavam encarando Amber Tobi, a garota de 16 anos que desapareceu em Colonial Heights. Acabeça dela estava para fora, o rosto da garota estava cinza e os olhos dela estavam arregalados.

– Ai meu Deus! – Marissa cobriu a boca. – Ela está morta?

Regan se aproximou e tocou o pescoço da garota com o dedo. Ela estava procurando a pulsação.

– Ela está viva!

– Você tem certeza? – Skylar perguntou.

– É claro que tenho. Eu assisto Grey's Anatomy, sei do que estou falando.

Não era preciso ser um gênio para adivinhar o conteúdo de cada saco naquela sala: os jovens desaparecidos estavam todos ali.

Ally não havia se mexido ainda, ela encarava tudo de longe, como uma boa expectadora. Quando resolveu olhar para trás, apesar da pouca iluminação no fundo da sala, ela notou que estava na frente de uma porta.

Sem chamar a atenção das outras garotas, Ally foi até a porta e a abriu. O segundo cômodo era menor do que o primeiro, onde ela, as amigas e os corpos dos adolescentes estavam. Era apenas um pequeno quarto.

E como na visão de Ally, Jake ainda estava deitado na cama.

– Bonnie. – Ally chamou a amiga. – Jake está aqui – depois ela entrou no quarto, para verificar o garoto.

A pele de Jake estava acinzentada e ele tinha os olhos arregalados.

– Ele está vivo? – Bonnie estava atrás de Ally.

– Eu não sei. – Ally estava sendo sincera.

– Ally, o que é aquilo?

Havia uma estante no quarto, mas Bonnie não estava se referindo a ela e sim aos dois potes de vidro que estavam lá. Ally se aproximou e ficou admirada com o conteúdo dos potes. Ela não sabia exatamente o que era, mas, o que quer que fosse, tinha um brilho lindo.

Regan também entrou no quarto.

– Nós já tiramos todos de dentro dos sacos, mas ninguém sabe o que aconteceu com eles. Porém, eu tenho quase certeza que isso – Regan apontou para Jake –, é obra de magia negra.

– Regan, me ajuda aqui.

Com a ajuda de Regan e Ally, Bonnie conseguiu tirar Jake de dentro daquele quartinho apertado. Elas o deixaram no chão, próximo aos outros adolescentes.

Ally voltou para o quarto e pegou os dois potes de vidro.

– Alguém sabe o que é isso?

– Não é possível! – Marissa exclamou.

– O quê? Você sabe o que essas coisas são? – Skylar perguntou.

– Que coisa! Nenhuma de vocês leu os livros que eu indiquei? – Marissa encarou as amigas, mas ela já sabia a verdade. – Bem, se vocês tivessem lido, como eu fiz, saberiam que o que tem dentro desses potes chama-se energia vital.

– Sério? – Skylar estava surpresa. – Eu achei que isso era uma lenda, igual ao Pé Grande.

Marissa revirou os olhos.

– Sky, o Pé Grande existe. Ele só não gosta que o chamem por esse nome.

– E agora, o que faremos? – Bonnie perguntou.

– Você encontrou mais potes como esses daí? – Marissa perguntou.

– Não. – Ally respondeu.

– Isso não faz sentido – sussurrou Marissa.

– O quê, Marissa? – Regan perguntou. – O que não faz sentido?

– Temos cinco corpos aqui, sem energia vital, e só dois potes com esta energia. Isto não é bom, significa que...

– Três deles já estão mortos. – Ally completou o pensamento da amiga.

Bonnie cobriu a boca com a mão. Ela queria gritar, mas antes disso ela queria ajudar Jake. Se ela conseguisse ajudá-lo, depois poderia gritar em paz.

– Certo, o que nós vamos fazer agora? – Skylar perguntou.

– Devolver a energia vital para o corpo que a pertence é fácil. – Marissa pegou um dos potes da mão de Ally. – Tirá-la do corpo é que é difícil. Eu me pergunto como...

– Marissa, nós não temos tempo pra isso. – Bonnie interrompeu a amiga. – Como fazemos para devolver a energia vital ao corpo?

Marissa revirou os olhos.

– Basta abrir o pote.

E foi o que Ally fez. Uma vez livre, a energia vital dançou ao redor das garotas feito uma água viva no mar.

Bonnie observou atenta quando a energia passou perto de Jake. Mas, para a infelicidade dela, o brilho seguiu em frente. Aquela energia pertencia a Jacob Mays, o garoto de 16 anos que desapareceu após o treino de basquete. Quando o brilho entrou na boca de Jacob, as esperanças de Bonnie começaram a diminuir.

As meninas se entreolharam. Marissa estava segurando o segundo e último pote contendo energia vital.

– Você pode abrir, Marissa – disse Bonnie. – Eu prefiro saber a verdade do que viver com a incerteza.

E então Marissa destampou o pote.

A segunda energia vital era mais brilhante e, de alguma maneira, até mais animada do que a primeira. O brilho dançou ao redor de cada garota e até provocou arrepios em Bonnie.

Regan sentia-se aliviada por ela, depois que viu a energia vital entrar na boca de Jake. Ela enfim conseguiu respirar sem sentir um peso nos ombros.

Isso significava que

Ashlee Turco,

Corey Brennan,

E Melissa Salling estavam mortos.

Marissa ajudou Ally a levar Jake e Jacob para cima. Os outros três jovens continuariam lá embaixo, mas isso seria temporário. O plano era sair daquela igreja o mais rápido possível e ligar para a polícia em seguida.

Mas, naquele momento, as meninas não contavam com o inesperado.

Estavam parados na entrada da igreja um homem alto e loiro: Javier, o fotógrafo que enganou Ashlee e Corey; e outro homem, que estava usando um terno de tweed: o professor Wiles.

– O que você está fazendo aqui? – Regan estava falando com o professor Wiles. Por um momento, ela sequer achou estranho o fato de o professor de Biologia estar ali. Ela só ficou irritada porque não gostava dele.

– Bem, eu vejo que vocês, garotas, encontraram o nosso esconderijo – disse o professor Wiles.

– Eu odeio gente bisbilhoteira – comentou Javier.

– Não façam nenhuma besteira – aconselhou o professor Wiles. – Recuem, para o bem de vocês, e nos entreguem esses garotos.

– O negócio é o seguinte, professor: nós não vamos entregar coisa alguma e é melhor vocês dois recuarem. – Skylar tinha atitude.

– Eu odeio quando bruxas se acham melhores do que os outros. Na verdade, eu odeio bruxas no geral – disse Javier.

– Então, nesse caso, nós temos um problema. – Regan deu um passo à frente.

O professor Wiles e Javier avançaram na direção das garotas.

As meninas ficaram na horizontal, cada uma mostrando a palma da mão, como se estivessem dizendo “pare”. Mas não era isso. A telecinese é uma habilidade complexa e requer um pouco de experiência de quem a pratica. Nenhuma das garotas tinha essa experiência, mas, juntas, e com os pensamentos sincronizados, elas conseguiam se virar muito bem.

Wiles e Javier foram jogados porta afora.

– Eu adoro quando isso funciona – comentou Regan.

As meninas correram para a entrada da igreja e inspecionaram o local. Não havia sinal de Javier ou do professor Wiles.

– Para aonde eles foram? – Marissa perguntou.

Regan percebeu um movimento dentro do mato. Sem pensar duas vezes ela se preparou e em seguida jogou uma bola de fogo.

Skylar viu o que a amiga fez, mas ainda assim ela tinha dúvidas.

– Será que...

Duas figuras pularam de dentro do mato e atacaram as garotas. Para Marissa, aqueles movimentos seriam impossíveis para qualquer ser humano. A menos que...

– Eles não são humanos! – Marissa gritou.

Sempre atenta, Bonnie sabia exatamente o que fazer.

– Ostende.

O efeito do feitiço foi instantâneo. Wiles e Javier começaram a se contorcer no chão, como se estivessem sentindo uma dor imensa. O que Ally viu em seguida jamais seria esquecido.

A pele do professor de Biologia começou a cair. O mesmo estava acontecendo com a pele de Javier: a carne por baixo da pele falsa era rosada e cheia de erupções.

No lugar de cabelo, os dois homens tinham agora um pelagem branca. Seus rostos eram enrugados, as orelhas haviam derretido feito um boneco de neve. Garras pontudas surgiram no lugar das unhas e, quando um deles abriu a boca, as meninas tiveram um vislumbre de dentes afiados.

Marissa sabia exatamente o que eles eram.

– Eles são demônios!

Isso era um problema, pois nenhuma das garotas sabia ao certo como derrotar um demônio. Até aquele momento, Regan sequer havia pensando em enfrentar um deles pessoalmente.

Uma das criaturas atirou um raio laser pelos olhos. Ally quase foi atingida, felizmente ela foi suficientemente rápida para desviar a tempo.

Marissa levitou um pedaço de madeira e acertou o demônio em cheio, na parte de trás da cabeça.

– Alguém sabe como derrotar essas coisas? – Skylar perguntou. Em seguida, ela começou a atirar esferas d’água contra a segunda criatura. Normalmente aquilo causaria o efeito esperado, mas aquele demônio estava apenas ficando molhado. Aquilo não era bom.

– Is é an máistir saor in aisce. Tá an saol máistir. — disse uma das criaturas.

– Não xinga a minha mãe, não! – Em seguida, Regan e Bonnie trabalharam juntas: enquanto Bonnie atirava pedras contra uma criatura, acertando-a na cabeça, barriga e pernas, Regan começou a atirar bolas de fogo contra o outro demônio.

Foi então que Ally se lembrou de algo que leu na noite anterior, no Grimório. Ela se lembrava de ter visto um feitiço de banimento, mas não se lembrava de como invocá-lo. Para isso ela precisaria do Grimório e ele estava dentro da van.

– Meninas, eu sei como acabar com essas coisas, mas eu preciso do Grimório. Vocês podem me dar cobertura?

– Vai! – Regan gritou.

Quando Ally foi, uma das criaturas se pôs a correr atrás dela. Vendo que o demônio estava prestes a alcançar a amiga, Marissa utilizou o ar para puxar a criatura para trás, dificultando a corrida.

A outra coisa pulou em cima de Bonnie, derrubando-a no chão. Por mais que o demônio fosse só pele e osso, ele também era incrivelmente pesado.

– Volare! — Bonnie gritou.

Ele foi arrancado de cima de Bonnie e arremessado contra uma árvore.

Ally correu pelo mato e continuou, até se aproximar da van. Ela abriu a porta, agarrou a bolsa e tirou de lá o Grimório, começando a procurar o feitiço de página em página. Cada segundo parecia uma hora e, por um momento, ela até achou que estivesse enganada. Quando chegou à metade do livro, ela finalmente encontrou o feitiço.

Ally pronunciou as palavras mentalmente, aquilo deveria funcionar.

Ela agarrou o Grimório e correu de volta para a igreja. Regan estava atirando bolas de fogo em uma das criaturas, que havia subido no telhado.

– Eu preciso da ajuda de vocês – disse Ally.

As outras garotas correram até onde ela estava. Enquanto isso, os dois demônios começaram a se aproximar.

– Tudo bem. Agora.

Juntas, elas leram o feitiço.

– Sed non est de hoc mundo umbratili criatura, exire hinc.

Nada aconteceu.

Elas tentaram de novo, dessa vez mais concentradas e com mais ênfase nas palavras.

– SED NON EST DE HOC MUNDO UMBRATILI CRIATURA, EXIRE HINC!

Os demônios começaram a emanar um brilho de seus corpos. As garotas tiveram que estreitar os olhos, por conta da intensidade da luz. Logo não se via mais nenhuma das criaturas. Quando o brilho acabou, eles haviam sumido.

– Eu aposto que vocês não esperavam por isso! – Regan falou, como se os demônios ainda estivessem ali.

As outras garotas sorriram.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.