— Diz pra mim de novo: por que nós vamos visitar Ally? – Skylar questionou pela segunda vez. Marissa havia convencido Skylar de que as duas deveriam dar uma passada na casa de Ally para ver como ela estava.

– Ally não me pareceu estar bem hoje na escola, talvez esteja doente. Eu só quero verificar. – Marissa tocou a companhia.

Quando Ally abriu a porta, Marissa teve a confirmação que precisava: ela estava pálida, suada e mal conseguia manter os olhos abertos. Antes que Skylar pudesse dizer oi, Ally já estava desmaiando ao pé da porta. Marissa a segurou antes que ela desabasse no chão.

– Merda! – Skylar ajudou a manter Ally em pé.

– O que é isso? – Marissa perguntou.

A blusa de Ally estava manchada de sangue. Rápida como sempre, Skylar rasgou o tecido e ficou boquiaberta quando encarou o machucado no ombro da garota.

– Isso é...

– Mordida de Goblin? – Marissa a interrompeu. – Pode apostar que sim.

~

Onika Woodard era uma bruxa pacata, que levava uma vida pacata. Ela já havia presenciado combates entre bruxas, criaturas mágicas e demônios. Mas, como era esperta e, acima de tudo, preservava a própria vida, ela sempre conseguia ficar por cima da carne seca.

Infelizmente, a calmaria de Onika estava prestes a acabar. E não era preciso ser vidente para imaginar o porquê.

Skylar e Regan entraram com tudo na loja de Onika, trazendo uma Ally desmaiada e babona. Bonnie e Marissa vieram logo atrás.

– Desculpe, mas a loja está... – Onika estava de costas para as meninas. Quando as encarou, deixou o espanador cair no chão.

– Por favor, nos ajude. – Marissa estava quase implorando.

– Nós sabemos que a senhora sabe mais do que aparenta. – Bonnie completou, antes que a mulher dissesse não.

– Levem-na lá pra trás.

E enquanto as meninas corriam para o fundo da loja, Onika se preocupou em verificar se não havia alguém lá fora. Cinco jovens bruxas poderiam muito bem atrair atenção indesejada. Depois de verificar o local, ela fechou a loja e foi encontrar as garotas.

Assim que as meninas deitaram Ally em cima de uma mesa, ela começou a ter uma convulsão. Regan estava mantendo-a deitada de lado.

– O que aconteceu? – Onika perguntou.

– Ela foi mordida por um Goblin.

– Como isso...

– Você pode ajudá-la ou não? – Regan gritou. – Depois conversamos.

– Deite-a. Deixe-me ver o machucado.

O ferimento de Ally já estava fedendo. Ela havia sido mordida em cheio no ombro por um Goblin adulto. Era um milagre que ela ainda estivesse viva.

Onika foi até a estante cheia de pequenos frascos de vidro e escolheu um. O líquido era incolor e o cheiro do produto faria qualquer um lacrimejar.

– Segure-a com força, ruiva.

Regan fez o que Onika pediu.

– Eu sugiro que vocês façam o mesmo. – Onika disse às outras garotas. – Do contrário, isso vai acabar pior do que começou.

Bonnie e Marissa estavam agarradas nas pernas de Ally, enquanto Skylar segurava a cabeça dela.

– Certo. A dor que ela está prestes a sentir é inimaginável, muito maior do que a causada pela mordida. Mas isso irá ajudar, eu posso assegurar.

– Faça. – Skylar disse.

Sem hesitar, Onika derramou o líquido incolor em cima do ombro de Ally. Naquele momento a garota começou a se debater e a gritar. Os olhos dela estavam abertos, mas, para Skylar, ela não parecia muito consciente do que estava acontecendo.

O líquido, em contato com a ferida, começou a borbulhar. Ally revirou os olhos.

– O que está acontecendo? – Regan perguntou.

– O remédio está fazendo efeito. Logo ela vai se acalmar.

E então, do nada, Ally parou de se debater.

– O que aconteceu? – Bonnie perguntou. – Ela vai morrer?

– É claro que ela vai morrer, nenhuma de nós é imortal. – Onika forçou e abriu os olhos de Ally para verificar as pupilas. Ela estava bem. – Mas essa garota não vai morrer hoje.

Onika foi até uma escrivaninha velha e agarrou um pote de plástico. Ela tirou de lá folhas de arruda. De outro pote de plástico ela pegou folhas de eucalipto e, de outro, folhas de mirra. Ela colocou as folhas dentro de um pilão de mármore e depois adicionou óleo de argan. Por fim, ela adicionou algumas pétalas de angélica, para proteção. Onika utilizou o socador para preparar o remédio.

Quando ela estava prestes a derramar a mistura em cima do ombro de Ally, Regan a interrompeu com mais uma pergunta.

– Espere. Para que serve isso?

– Isso irá ajudar no processo de cura – enfadada, Onika encarou Regan. – Agora, faça-me um favor e fique de boca fechada.

Ally já não estava mais se debatendo.

– Agora, alguém pode me dizer o que diabos aconteceu? Por que uma de vocês foi mordida por um Goblin?

Marissa abriu a boca.

– Não, você está errada. – Skylar interrompeu a amiga. – Ally não é uma de nós. Quero dizer, ela é uma garota, mas não é uma de nós.

– Sim, ela é. – Bonnie falou.

– O quê?

– Ally é neta Beth Cooley. – Regan falou.

Até Marissa, que era inteligente, estava meio confusa naquele momento.

– Espere, o que você está dizendo?

– Dai-me paciência! – Onika não tinha calma com bruxas de primeira viagem. – Como é possível que todas vocês sejam cegas? Essa garota é o Espírito! Vocês quatro trouxeram o Espirito até mim e nem se deram conta disso.

As meninas se entreolharam e Ally gemeu na mesa.

– Como isso é possível? – Marissa perguntou. – Como não percebemos logo no início?

– Bonnie percebeu. – Regan disse.

– Depois do incidente com a maçã, eu fiquei me perguntando. E se... Nós todas estávamos lá quando a fruta apodreceu. Nós quatro não havíamos feito aquilo, só sobrava Ally. – Bonnie encarou as amigas. – Dois mais dois são quatro.

– Foi por isso que você me mandou verificar o arquivo dela, não foi? – Regan perguntou. – Se eu descobrisse de quem ela era neta, eu acabaria caindo na real.

– Deu certo.

– Parabéns. – Onika se aproximou. – Pelo menos uma de vocês não é perda de tempo. Agora, alguém pode me explicar o que aconteceu com os Goblins?

– Nós estávamos em uma festa ontem à noite e eles nos atacaram do nada. – Regan explicou.

– Do nada?

– Foi! – Marissa estava apreensiva.

– Como eram os Goblins?

– Você sabe, eles tinham a aparência de sempre.

– Qual o tipo?

– O tipo que nem mesmo você namoraria. – Regan estava de mau- humor.

– O que eu quero saber é: os Goblins de ontem à noite tinham alguma característica fora do comum?

As meninas começaram a repensar sobre a última noite.

– Eles tinham olhos vermelhos. – Bonnie se manifestou. – Eu li um pouco a respeito deles e sei que Goblins geralmente têm olhos azuis.

– Como eu pensei. – Onika sussurrou e depois deu as costas para as garotas. Ela se aproximou de Ally novamente.

– O quê? – Skylar estava parada ao lado dela. – O que você está pensando?

– Os Goblins que atacaram vocês ontem à noite foram enfeitiçados para fazer isso. Eles estavam seguindo ordens. – Onika analisou a expressão de cada garota. – Goblins são criaturas pacíficas. Brincalhonas, porém pacificas. Eles não costumam atacar assim, do nada, a menos que se sintam ameaçados. E, até onde eu sei, eles não têm olhos vermelhos, a não ser que estejam agindo sob algum feitiço. Nesse caso, é muito provável que seja o feitiço de obediência.

Em cima da mesa, Ally gemeu de novo.

– Ela precisa ser hidratada. – Onika se afastou e pegou água com um copo dentro de um pote. – Ruiva, levante a cabeça dela.

Regan fez o que Onika pediu.

Ally bebeu toda a água e depois voltou a descansar.

– Quem poderia ter mandando aqueles Goblins atrás de nós? – Marissa perguntou a ninguém em especial. Qualquer resposta serviria.

Onika tinha suas suspeitas. Na verdade, eram mais do que suspeitas.

– Você sabe quem foi? – Skylar perguntou a Onika.

– Agora não – a mulher desviou o olhar.

– Você sabe...

– AGORA NÃO! – Disse, com veemência. – Eu preciso que vocês cinco estejam prontas pra escutar o que eu tenho para dizer. E, no momento, nenhuma de vocês está.

~

Ally não conhecia a sensação de ser atropelada por um caminhão, mas ela tinha acabado de viver uma experiência um tanto quanto familiar.

Quando ela abriu os olhos, estava enxergando tudo turvo. Sentiu a cabeça latejar e uma leve ardência no ombro. Se comparado a antes, o ombro dela estava quase ótimo.

– Eu não entendo – escutou alguém dizer. – Por que você não nos diz a verdade, de uma vez por todas? – Era Marissa quem estava falando.

Marissa estava ali... Mas, onde era “ali”?

Ally olhou ao redor e viu uma porção de coisas estranhas: uma estante cheia de pequenos frascos de vidro, alguns cheios e outros vazios. Mais uma estante, esta cheia de livros, uma escrivaninha velha e um... um caldeirão no canto da sala.

– Nós precisamos saber! – Ally reconheceu a voz de Bonnie.

Ally apoiou-se nos cotovelos e levantou a cabeça.

– Ei, vocês. – Ela chamou a atenção das meninas.

E foi então que ela percebeu o cabelo vermelho de Regan e o pouco chamativo cabelo azul de Skylar. Todas estavam ali e isso incluía também uma mulher de estatura média, cabelo escuro cacheado e olhar debochado. Ally nunca havia visto aquela mulher antes.

– Como você está se sentindo? – Marissa perguntou.

– Bem-vinda de volta. – Skylar sorriu.

De volta? Mas Ally não estivera sempre ali?

– Garota, que susto você deu na gente! – Bonnie se aproximou.

Regan não sabia o que dizer. Ela não sabia ser agradável igual às amigas, por isso recorreu para o velho e bom:

– E aí?

– Quem é você? – Ally estava curiosa a respeito da mulher.

– Meu nome é Onika Woodard. Está tudo bem, Ally, você está bem. As suas amigas trouxeram você aqui a tempo.

– Aqui? Onde eu estou?

– Na minha loja. – Onika sabia qual era a preocupação da garota. – Não se preocupe, você não saiu de Mystic Village.

Ally sentou-se na mesa. Foi então que, pela primeira vez, ela notou que a blusa que usava estava rasgada. O machucado estava exposto, mas, impressionantemente, não estava mais inchado. Ainda estava um pouco dolorido, mas Ally sequer sentiu o incômodo.

– Do que você se lembra? – Marissa perguntou.

– Ah. – Ally buscou nas lembranças. – De abrir a porta para você e Skylar e depois me sentir tonta. Então, tudo ficou preto.

– Você desmaiou. – Skylar disse. – A sua mãe não estava em casa, daí trouxemos você para cá. Nós vimos o machucado no seu ombro.

– Você é médica? – Ally perguntou a Onika. – Ou curandeira? Não sei, alguma coisa do tipo?

– Alguma coisa do tipo.

Marissa se aproximou. Ela queria perguntar algo, mas tinha medo de que aquele não fosse o momento certo. Bem, certo ou não, era o momento.

– O que aconteceu ontem à noite?

– Finn e eu estávamos próximos à cachoeira quando eu vi uma daquelas criaturas. – Ally começou a explicar. – No início eu não tinha certeza do que estava vendo, eu até achei que estava delirando. Mas aí eu vi um deles entrar na casa e resolvi ir atrás. Eu o segui até o porão e lá dentro eu fui atacada por não sei quantos daqueles monstros.

– Aquelas coisas eram Goblins— disse Bonnie.

– Certo, hum, Goblins.— O nome até que fazia jus às criaturas. – Eu consegui derrotar alguns deles. Quando escapei do porão, eu vi Bonnie e Marissa saindo pela porta dos fundos. Eu tentei segui-las e foi quando um deles me atacou por trás e me mordeu.

As meninas se entreolharam.

– O que mais você viu? – Skylar teve coragem de perguntar.

Ally respirou fundo.

– Eu vi vocês, garotas, fazerem coisas.— As meninas se entreolharam. Elas não tinham coragem de perguntar, por isso Ally continuou. – Eu vi os punhos de Regan em chamas; vi Skylar brincar com a água, como se fosse sólida; eu vi Marissa controlar o vento e vi também Bonnie levantar as pedras, sem precisar tocar nelas. Por isso, por favor, alguém pode me dizer que eu estava delirando?

Ninguém disse nada.

– Droga, vocês podem mesmo fazer essas coisas, não é? – Ally sorriu amargamente. – Eu não estou delirando.

– Garota, você não sabe da missa a metade. – Skylar era uma garota orgulhosa.

– O que vocês são? – Ally encarou as amigas.

– Bruxas. – Marissa respondeu. – Onika também é.

– Se eu tivesse que apostar, eu teria dito que vocês eram meta-humanas. Mas, quer saber? Bruxas é melhor.

Ally tinha uma amargura na voz que impressionava até Onika. Ela havia conhecido pessoas céticas ao longo dos anos, mas Ally era um caso especial.

– Tá bom, garota, pode parar com o sarcasmo. Sabe por quê?

– Regan, não. – Marissa tentou interrompê-la.

– Você também é uma bruxa. Você é igualzinha a nós.

– A tinta barata, que você usa para tingir os seus cabelos, infeccionou o seu cérebro? Eu não sou uma bruxa!

– Não é? E como você explica as coisas que acontecem quando você está por perto? Como, por exemplo, aquários explodindo na cara de professores e a super força que você tem? Quer saber? Eu tenho certeza que foi você quem congelou o tempo naquele dia, na aula de Biologia. – Regan se aproximava mais e mais. – Eu sei como é, Ally, eu vivo isso todos os dias. Eu só preciso pensar no que eu quero, me concentrar um pouco e voilá! A cadeira cai no chão, a energia é desligada misteriosamente. Eu sei que você sabe como isso funciona. Por isso, garota, pare com a negação e aceite o fato de que VOCÊ É UMA BRUXA!

– EU NÃO SOU UMA BRUXA!

E então aconteceu uma explosão de vidro. A janela atrás de Ally se estilhaçou e a sala ficou cheia de pedaços de vidro. Felizmente, ninguém se machucara.

– E você estava dizendo o quê? – Regan continuava sarcástica como sempre.

Ally se levantou e passou pelas meninas, sem demonstrar simpatia ou agradecimento.

– Aonde você vai? – Skylar perguntou.

– Eu vou dar o fora daqui.

Ally passou pela porta e depois sumiu.

– A gente não deveria impedi-la ou algo do tipo?

– Não. – Onika respondeu. – Ela ainda não está pronta. Além do mais, não se pode forçar alguém a fazer alguma coisa que se não quer.