Ally conseguiu convencer a Sra. Wilson a deixá-la sair, foi entediante ficar presa dentro de casa o dia todo. Ela até perdeu o primeiro dia de aula porque a mãe estava preocupada demais.

Era bom dar um passeio de carro pela cidade, conhecer as redondezas iria ajudar Ally quando ela tivesse que voltar a pé para casa. A cidade era pequena, por isso as opções de lugares para visitar eram bastante limitadas. Felizmente ela conseguiu chegar até o centro da cidade com facilidade. Ally até ficou feliz quando descobriu que ali perto ficava a Starbucks. Depois de pedir um copo de baunilha latte, ela fez questão de sentar do lado de fora e relaxar.

O momento só durou um segundo.

Ally não controlava as visões, também não pedia pra ver nada. Ela nem sequer sabia que estava vendo alguma coisa até sentir um leve desconforto na nuca. Quando isso acontecia, Ally sabia que passaria a ver as coisas sob um ponto de vista, digamos assim, mais privilegiado.

Ally viu um garoto. Ela não o conhecia, claro que não. Ele estava usando um capacete vermelho e segurava um taco de beisebol. Por isso, foi fácil concluir que, quem quer que fosse o garoto, ele estava naquele momento em um campo de beisebol. Ally viu mais: ela enxergou o garoto rebater a bola com o taco e sair correndo de uma base até a outra. Ela viu também que o cadarço de um dos sapatos estava desamarrado. Por isso, antes de chegar à terceira base, Ally viu o garoto cair. É normal os jogadores caírem no meio do campo, faz parte, mas Ally também viu que o garoto não sairia bem daquela partida: ele iria quebrar o braço.

Ouviu-se então um barulho, parecia uma torcida. Ally se levantou e investigou o local. Como ela já suspeitava, o campo de beisebol ficava há alguns metros de onde ela estava.

– Droga, eu só queria tomar um café.

Conforme Ally se aproximava do campo, ela se sentia menos preocupada. Não havia nenhum garoto de capacete vermelho jogando naquele momento, talvez ela não tivesse prestado atenção à visão. Quando ela diminuiu o passo e cogitou voltar para casa, viu o que não queria ter visto: o garoto do capacete vermelho estava sentado no banco de reservas. Quando Ally viu que ele estava sendo chamado para jogar, resolveu apressar o passo de novo.

Enquanto ela se aproximava, o garoto ia assumindo sua posição como rebatedor. Ally sabia que, após rebater a bola, o garoto sairia correndo até a próxima base. Ela não tinha muito tempo. Se ao menos tivesse pernas mais longas, correria mais rápido.

– Ei, você! – Felizmente Ally conseguiu se aproximar antes de o garoto rebater a bola. Ela o chamou, mas ele não a escutou.

– Garoto, você do capacete vermelho! – havia uma cerca de arame separando Ally e o garoto. Ele a havia escutado daquela vez: ele olhou para trás, encarou-a e franziu o semblante. – É, você. Vem aqui.

O garoto tirou o capacete e se aproximou, meio relutante. Ele estava achando que Ally o estava confundindo com outra pessoa, mas, em todo caso, a garota loira era bonita. Por isso, ele resolveu ver o que ela queria.

– Eu conheço você? – Ele perguntou.

– Ah, não. Oi, eu estava passando aqui perto agora e vi que você estava prestes a dar uma tacada. Ah, hum, eu então percebi que o seu cadarço está desamarrado. Você não percebeu, por isso eu resolvi alertá-lo antes que, você sabe, possa acontecer alguma coisa.

O garoto olhou para baixo e constatou que Ally estava certa.

– Que coisa, não? – O garoto estava meio constrangido. – Acho que sou meio avoado, obrigado por me avisar.

– Sem problemas, bom jogo – e após dizer isso Ally começou a se afastar.

Aquela não era a primeira visão de Ally, isso já havia acontecido antes. No ano passado, ela viu que uma professora iria escorregar e cair das escadas. Para que isso não acontecesse, Ally se disponibilizou a ajudar a mulher a carregar os livros depois da aula. Ally até convenceu a professora de que não era muito seguro subir e descer as escadas carregando tantos livros.

Não era normal uma garota de quinze anos ter visões do futuro, relacionadas com estranhos. Não era algo comum nem no mundo do Tim Burton, mas nada que estava relacionado a ela fazia muito sentido.

– Espere.

Ally olhou para trás e deu de cara com o garoto, ainda sem o capacete vermelho.

– Está tudo bem? – Essa não! Ally estava prestes a se preocupar. Será que o garoto havia desconfiado de alguma coisa?

– Sim. É só que você não me disse seu, hum, nome – o garoto parecia incrivelmente tímido. Por isso, Ally concluiu que perguntar o nome de uma garota desconhecida era um grande progresso pra ele.

– Ally, eu acabei de me mudar de Minneapolis.

– Oi, Ally de Minneapolis – o garoto sorriu. – Eu me chamo Finn, sou daqui mesmo.

Finn era um rapaz bonito, Ally precisou dar o braço a torcer: cabelo escuro, rosto delgado, olhos castanhos, lábios carnudos e bochechas rosadas. Ally imaginou que, se tivesse conhecido garotos parecidos com Finn em Minneapolis, não teria vindo para Mystic Village com tanta facilidade.

– Você vai estudar aqui por perto?

– Sim, no Mystic High. Você conhece?

– É onde eu estudo. – Finn sorriu e Ally concluiu naquele momento que gostava do sorriso dele.

– Bem, então parece que vamos nos ver de novo, não é?

– É o que parece. Sorte a minha.

Ally sorriu e se afastou. O que tinha acabado de acontecer? Ela nunca havia flertado com um garoto antes. Quando chegou até seu carro, Ally ficou meio triste. Se ela tivesse uma amiga, estaria conversando com ela sobre o garoto que acabara de conhecer. Como Ally não tinha, ela era obrigada a guardar aquela animação para si mesma. Conversar com a Sra. Wilson a respeito de garotos estava fora de cogitação.

Talvez ela arrumasse uma amiga em Mystic High. Com sorte, até duas. Ally não se importaria em falar sobre cabelos, A Culpa é das Estrelas, Zac Efron ou qualquer que fosse o assunto do momento.