A aula de Literatura era sem dúvida a matéria mais chata do primeiro ano, pelo menos era o que Skylar achava. Sem contar que a professora Wildenberg tinha uma prosa tão maçante que, cinco minutos após a aula começar, metade dos alunos já estava cochilando. Skylar aproveitava aquela aula pra colocar o sono em dia.

— Como conteúdo programático deste mês nós vamos debater a obra Feira das Vaidades, do autor inglês William Makepeace Thackeray, lançada em 1847. Eu suponho que vocês tenham lido nas férias, estou certa? – A professora Wildenberg sempre iniciava as aulas com muito ânimo, mas a animação morria quando ela via a falta de vontade dos alunos. – Alguém leu Feira das Vaidades durante as férias?

Dos dezoito alunos presentes na sala, somente uma estudante levantou o braço para responder a pergunta. O que, claro, não era surpresa.

— Marissa, abaixa esse braço. – Skylar ralhou com a amiga quando ela tentou demonstrar entusiasmo pela obra.

— Desculpe, mas é um ótimo livro. Você não leu?

— Não e nem conseguiria, ele está servindo de apoio pro meu closet. – Skylar então abaixou os óculos escuros, forrou a carteira com uma jaqueta e descansou a cabeça.

— O que você está fazendo? Sky, você não pode dormir na sala!

— Observe-me.

Conforme a professora Wildenberg continuava falando a respeito do livro, os alunos iam se afundando no tédio. Ninguém, além de Marissa, estava escutando o que a professora tinha para dizer, ninguém parecia interessado: Skylar estava roncando baixinho na carteira ao lado; os rapazes do time de lacrosse estavam falando a respeito de um jogo que ainda iria acontecer; as líderes de torcida estavam falando sobre um esmalte.

— É verdade, Javier me disse que eu tenho jeito para modelo. Ele quer me fotografar na quarta à tarde. – Skylar ouviu uma garota atrás dela sussurrar para outra aluna. Tudo o que a outra garota disse foi “Jura?”

— Eu não estou surpresa, sabe? – A garota continuou. – Minha mãe foi Miss Mystic Village e minha avó estampou a capa de algumas revistas quando era mais nova. Acho que a beleza da família está no sangue.

E mais uma vez tudo o que a amiga da garota convencida disse foi “Jura?”

Marissa estava tentando se lembrar do nome da garota. Seria Cindy? Ou Phoebe? Marissa não era assim tão boa com nomes quanto era com Matemática. Se a garota se chamasse hipotenusa, não seria um problema para ela.

— Sky! – Marissa cutucou a amiga com a ponta do lápis.

— O quê? – Skylar deixou os óculos caírem. – A aula já acabou?

— Não, mas eu preciso da sua ajuda. Qual é o nome da garota que está atrás de mim?

Skylar fez cara de interrogação e em seguida olhou para trás.

É Ashlee. Por quê?

— Por nada. Obrigada, volte a dormir.

— É pra já – então Skylar ajeitou os óculos de novo e voltou a descansar a cabeça.

Marissa se inclinou um pouco para trás, a fim de continuar escutando a conversa da garota.

— Eu não quero me gabar nem nada – Ashlee estava claramente se gabando –, mas acho que daqui a dois anos, no máximo, eu estarei na capa da Vogue. Não se preocupe, nós vamos continuar sendo amigas quando eu me tornar uma supermodelo.

Marissa resolveu intervir antes que a amiga pouco interessada repetisse: “Jura?”

— Oi, Ashlee. Sabe, eu não pude deixar de escutar a sua conversa. Desculpe por isso, mas eu preciso dizer que você deve tomar muito cuidado. – Marissa havia conseguido captar a atenção das garotas. – Talvez esse tal de Javier nem seja um caça-talentos de verdade, pode ser que ele seja um charlatão aproveitador.

Ashlee emitiu um barulho direto do fundo da garganta, como se estivesse engasgada.

— Com licença, mas quem pediu a sua opinião, quatro-olhos?

— Perdedora – disse a amiga de Ashlee.

Marissa revirou os olhos enquanto as garotas caçoavam da sua boa vontade. Ela então viu o vidro de esmalte azul aberto em cima do livro de Química de Ashlee. Marissa não precisou mover um dedo, tudo o que ela fez foi desejar que o vidro de esmalte virasse em cima do livro e foi exatamente o que aconteceu. No segundo seguinte, Ashlee estava desesperada por ter que lidar com a ira do professor de Química na próxima aula.

Marissa era contra usar os poderes por conta de motivos banais. Se alguém a visse, ou uma das garotas, fazendo algo suspeito, seria o fim dos dias de paz. Mas até Marissa, que era a mais certinha do grupo, preferia ter que usar os poderes a ter que lidar com uma garota mimada.

Depois da escola, Marissa, Regan, Skylar e Bonnie não tinham o hábito de ir pra casa. Elas saíam com os carros do estacionamento da escola e seguiam para o lado sul de Mystic Village. Dirigiam por cerca de meia hora, até o ferro-velho da cidade. Lá, elas deixavam os carros e seguiam para dentro do estabelecimento. Quatro garotas de quinze e dezesseis anos não tinham o que fazer em um ferro-velho depois da escola. Elas pulariam a cerca e sairiam pelos fundos, adentrariam a floresta de Mystic Village e caminhariam por cerca de quinze minutos até a usina abandonada da cidade, que ficava literalmente no meio do nada. Lá as garotas poderiam treinar à vontade. O dia estava quente, por isto Regan poderia testar suas habilidades com o fogo. Marissa quase se considerava uma mestra do ar, mas ela ainda tinha muito que aprender. Bonnie era a filha da terra e era diretamente dela que recebia seus poderes. O riacho que passava ao lado da usina era pequeno, mas ajudava Skylar a tirar seu poder da água.

As quatro garotas representavam, cada uma, um dos quatro elementos: Fogo, Água, Ar e Terra.

Mas, infelizmente, o círculo ainda não estava completo. O Éter, ou Espírito, como era conhecido popularmente, ainda não estava integrado ao grupo das meninas.

O Espírito representava o quinto elemento, o guia de todos os outros. Era a fonte de energia, o substrato espiritual primordial, aquele que pode se diferenciar.