Jovens Bruxas: O Quinto Elemento
10 Capítulo 10
A primeira coisa que Ashlee Turco sentiu após acordar foi o gosto metálico de sangue na boca. Os braços e as pernas dela estavam doendo. Conforme Ashlee piscava, a visão dela ia se ajustando ao ambiente.
Ashlee estava amarrada na cama, cada mão e cada pé estavam imobilizados. Ela tentou levantar a cabeça, mas todo o seu corpo estava dolorido. Exceto pela cama, o quarto estava completamente vazio.
– OLÁ? – Ashlee gritou. – Tem alguém aí? Oi!
As lembranças ainda eram um borrão na cabeça da garota. Ela havia matado aula naquele dia para se encontrar com Javier, o fotógrafo profissional de moda. Ela havia ido até o estúdio dele, no lado leste de cidade. Javier tratou Ashlee muito bem, ele ficava dizendo como ela era provavelmente a garota mais bonita da cidade. Ele dizia que o destino dela era brilhar nas capas de revista e Ashlee acreditou cegamente em tudo o que ele disse.
Ashlee ainda se lembrava de ter dito que estava com sede, no meio da sessão de fotos. Atencioso como era, Javier ofereceu uma água tônica, que ela aceitou e bebeu de bom grado. No minuto seguinte, Ashlee já estava se sentindo tonta e sua visão ficou embaçada. Ela tropeçou e em seguida apagou.
A porta do quarto foi aberta e Javier entrou no cômodo. Ele era alto, loiro e bonito. O medo e o terror deixaram o corpo de Ashlee trêmulo.
– Javier, por favor, deixe-me ir embora. – Ashlee começou a suplicar. – Certo, eu já entendi, não devo confiar em estranhos. Eu já aprendi a lição, agora me deixe ir.
Javier sorriu.
– POR FAVOR! – Ashlee estava chorando.
– Eu fico feliz que você tenha confiado em mim, doce Ashlee. Eu precisava da sua confiança.
– Não me toque! Não faça nada comigo.
– Ah. – Javier fez cara de pouco caso. – Não se preocupe, criança, eu não pretendo violar o seu corpo. Não é para isso que eu estou aqui.
– O que você quer? Você quer dinheiro? Eu posso conseguir. Meus pais, eles têm muito dinheiro.
– Eu não quero o seu dinheiro. O dinheiro dos mundanos não tem valor algum de onde eu venho. Eu estou aqui para pegar outra coisa que você tem de especial. – Javier afastou o cabelo loiro, que cobria a testa de Ashlee. A garota estava fria e suada. – Por isso, relaxe, sim?
Javier saiu do quarto e voltou trazendo consigo um frasco de vidro. Ele tirou a tampa e se ajoelhou no chão, ao lado da cama.
– O que você quer de mim?
– Olhe nos fundos dos meus olhos, minha querida, você verá a verdade. – Javier segurou o rosto de Ashlee entre as duas mãos. – Vitalis.
Os olhos de Javier começaram a brilhar como dois faróis de carro. Ashlee sentiu-se fraca, tonta e novamente com sede.
– Vitalis. — Javier disse mais uma vez.
E então começou: a energia vital de Ashlee estava sendo sugada de seu corpo. Para Javier, a garota era apenas uma fonte de recursos, uma fonte que logo estaria esgotada.
Quando acabou, Javier guardou a energia vital de Ashlee dentro do frasco de vidro.
Para Ashlee, tudo o que restava era uma viagem só de ida para a terra da escuridão, onde tudo se perdia para sempre.
~
No dia seguinte, Ally acordou assustada, com frio, suada e tonta. Parecia que operários estavam construindo um prédio dentro da cabeça dela.
Arrastando-se até o banheiro, ela tomou duas aspirinas e encarou o próprio reflexo no espelho da pia. Ally estava branca feito vela, os olhos estavam fundos e os lábios ressecados. Para piorar, o ombro dela estava inchado e muito mais dolorido do que na noite anterior. A mordida avermelhada lembrava carne crua e ela nem sequer conseguia tocar o próprio ombro sem se arquear de dor.
Quando Ally entrou em casa, na noite anterior, a Sra. Wilson estava dormindo no sofá. Ela achava que nem em sonhos a mãe acreditaria, se ela contasse a respeito das criaturas que enfrentou; das coisas que viu as outras garotas fazerem; e do que ela mesma conseguiu fazer. Mas Ally estava enganada, a Sra. Wilson podia imaginar tudo aquilo.
Ally desligou a televisão, deixou a mãe em paz e subiu em silêncio até o quarto. Com muita dificuldade, por conta do ombro machucado, ela conseguiu se livrar das roupas rasgadas e sujas de sangue. Embaixo do chuveiro, Ally se sentou na banheira e abraçou as pernas. E então, pela primeira vez em sua vida, ela chorou. Chorou porque estava com medo e machucada, chorou porque se sentia uma aberração.
Após uma chuveirada, Ally sabia que tinha que dar uma jeito na própria aparência. Ela não podia ir pra escola parecendo um membro da família Cullen.
Com a ajuda de uma base, Ally pôde dar uma melhorada na palidez do rosto. Usando a sombra ideal, os olhos dela nem pareciam tão perdidos assim. Ela estava pronta. Ou, pelo menos, perto disso.
Nenhum creme ajudaria com o machucado no ombro, ela já estava usando dois curativos adesivos. A única coisa que ela podia fazer àquela altura era usar uma blusa que escondesse os ombros. E, felizmente, ela tinha muitas dessas no guarda-roupa.
A Sra. Wilson estava esperando a filha para tomar café na cozinha. Ela queria escutar sobre a noite anterior, mas, se dependesse de Ally, ela já teria esquecido tudo o que viu.
– Bom dia! – A Sra. Wilson sorriu.
Ally fingiu um sorriso, deixou a bolsa em cima da bancada e sentou à mesa. Quando ela encarou as próprias mãos, notou que estava tremendo.
– Você quer ovos com bacon? – A Sra. Wilson perguntou.
Ovos. Bacon. Só de pensar, o estômago de Ally deu uma cambalhota.
– Não, eu só quero café, não estou com fome. – Ally se serviu da bebida e observou a mãe, que estava encarando-a.
– Você parece diferente.
– Ah, é, hoje eu estou usando maquiagem. – Ally tocou as próprias bochechas. – Resolvi tentar algo diferente, você sempre dizia que eu deveria tentar. Então, está feliz?
– Não, não é isso. Eu não sei o que é, mas você parece diferente. – A Sra. Wilson optou por deixar a desconfiança de lado. – Então, como foi a festa?
– Ah, você sabe, normal, igual a todas as outras festas. – Exceto as criaturas demoníacas e o fato de Ally e outras garotas poderem fazer coisas impossíveis. Sim, foi uma festa normal.
Para disfarçar, Ally tomou um gole de café.
– No meu tempo, essas festas eram diferentes.
– Por que você dançava a Macarena?
– Engraçadinha.
Sorrir era fácil, não exigia muito de Ally. Na verdade, naquele momento, a única coisa que ela fazia e não sentia dor era sorrir.
~
Ally entrou cabisbaixa na escola, ela não queria que alguém a visse daquele jeito, com a aparência tão abatida. E, para piorar, o ombro estava latejando de novo.
Ela estava guardando alguns livros no armário quando notou um movimento atrás de si. Marissa havia chegado.
– Ei, o que aconteceu com você ontem à noite?
– Ah, pois é. – Ally engoliu em seco. – Eu fiquei super bêbada e liguei para a minha mãe vir me buscar, foi um horror. – Ela não queria ficar ali, não queria falar com Marissa, a garota que na noite anterior estava, literalmente, brincando com o ar. – Eu preciso ir, até mais.
Marissa abriu a boca para se despedir, mas Ally já havia apressado o passo.
– Aí está você. – Antes de entrar na sala, ela deu de cara com Skylar e Bonnie, no corredor. – Você está parecendo que tomou todas ontem à noite – disse Skylar.
– Bêbada de primeira viagem.
– Ally, você está bem? – Bonnie perguntou. – Você parece meio pálida. – Ela esticou o braço, para tocá-la no ombro, e Ally teve que desviar de maneira rude. – Desculpe.
– Eu ainda estou de ressaca, tchau.
Caminhando pelo corredor, Ally não encarava ninguém. Por isso, Finn, que estava de costas, quase passou despercebido. Mas ela conseguiu reconhecê-lo, ele estava guardando alguns livros dentro do armário. Ally chegou por trás e cobriu os olhos dele.
– Oi, você.
Finn se virou e, quando encarou Ally, sorriu educadamente.
– Oi. – Ele estava tão seco quanto o estado do Texas.
– Você está chateado. – Ally observou. É claro que estava. Beijar uma garota e depois vê-la sair correndo não era exatamente o que Finn definia como um movimento bem-sucedido.
– Estou? Ah, e antes que eu me esqueça, obrigado. Eu não entendi no começo, mas depois eu caí na real.
– Do que você está falando?
– O beijo. – Finn estava mesmo chateado. – Eu fiquei tentando encontrar um motivo pra explicar por que você não voltou pra cachoeira. Eu não estava com mau-hálito e nem fedendo, então eu percebi que você não gosta de mim. Por isso, me desculpe se eu interpretei errado os sinais.
– Não, não é nada disso. – Ally sentiu o ombro latejar com mais intensidade e fez cara de dor. – Finn, eu gosto de você. Gosto mesmo, acredite. É só que ontem foi uma noite muito confusa. Exceto a parte do beijo, foi o único momento naquela noite que pareceu real.
– Mesmo? – Finn não parecia mais tão chateado assim.
– Mesmo, mesmo. – Ally então se inclinou para frente e beijou Finn. Foi algo simples, mas ele logo fez questão de intensificar.
Por um momento, Ally nem sequer sentiu o ombro latejar.
~
Ally gostava de História e se dava bem com a professora desta matéria. Por isso, nada poderia dar errado, não naquela aula.
– O território da Grécia antiga pode ser dividido em três grandes partes – A professora Craven estava explicando. – Alguém pode me dizer quais são?
Ally levantou o braço que não doía. Ela sabia aquela resposta, era fácil.
– Certo, Ally. Quais são?
– A Grécia... É – era inútil, ela não conseguia se lembrar e, para piorar, já estava suando frio. – Grécia, hum, Grécia. – Ally desistiu e encarou a professora. – Me desculpe, me deu um branco.
– A primeira é a Grécia Continental, a região ao norte do golfo de Corinto, localizada no interior do continente europeu. – A professora Craven voltou a encarar Ally. – Você consegue me dizer quais são as outras duas regiões?
Poder ela com certeza poderia, mas não conseguiria. Naquele momento, Ally sentiu que estava prestes a vomitar, ela precisava sair imediatamente daquela sala.
– Eu não estou me sentindo bem, posso sair por um minuto?
A professora fez questão de tocar a testa de Ally.
– Deus! Ally, você está fria feito gelo, deixe-me arrumar uma dispensa pra você. – Ally não conseguia esperar. Enquanto a professora se virou para assinar o papel, ela cobriu a boca com a mão e saiu correndo da sala.
No banheiro, Ally esvaziou o estômago. Essa era a pior parte. Como ela não havia comido desde a noite anterior, meio que estava vomitando as próprias tripas.
Ela arrancou os curativos do ombro e ficou pasma ao constatar que o machucado estava muito mais avermelhado e inchado do que antes. Escorria pus dos pequenos furos causados pelos dentes da criatura demoníaca.
Ally teve que se segurar na pia para não cair no chão. Ela sentiu as pernas fraquejarem e depois arqueou, por conta da dor.
~
— Eu tenho uma novidade, adivinhem. – No recreio, Bonnie parecia uma garotinha que havia acabado de ganhar um ursinho de pelúcia.
– O que há com você? – Regan gostava de gente feliz tanto quanto gostava de olhar direto para o sol.
– Parece até que você encontrou o pote de ouro no fim do arco-íris. – Skylar comentou. – Não foi isso, ou foi?
– Não, nada disso. Na verdade, é muito melhor. Jake me convidou para jogar boliche hoje à noite, ênfase no me convidou.
– Bom pra você. – Marissa disse.
Essa não era a reação que Bonnie estava esperando.
– Por que essas caras murchas?
– Eu não sei. – Regan assumiu a postura de sempre. – Talvez porque ontem nós fomos atacadas por um batalhão de Goblins. Mas você sabe, afinal você também estava lá.
– Eu não entendo. Por que diabos aquelas criaturas nos atacaram? – Skylar perguntou.
– Você conhece os Goblins, aquelas coisinhas adoram brincar. – Bonnie puxou uma cadeira e se sentou.
– Algo que me diz que ontem eles não estavam de brincadeira. – Marissa estava mais séria do que o normal.
– Por que você acha isso?
– Ninguém naquela festa, além de nós quatro, viu os Goblins. – Marissa começou a explicar. – E vocês sabem que aquelas criaturas só são vistas quando querem. Por isso eu digo e repito: nós éramos o alvo.
– Faz sentido. – Skylar balbuciou.
– Se isso for mesmo verdade, então significa que alguém sabe a respeito de nós. E pior, significa que esse alguém está atrás de nós.
– Quem poderia ser? – Bonnie perguntou.
– Vocês já escutaram a novidade? – Regan quase caiu da cadeira quando uma garota do nono ano apareceu ao seu lado.
– Do que você está falando, sua doida?
– Ashlee Turco desapareceu. – Ela disse rápido. – E tem mais: ela não foi a única. Há um mês os jornais locais estão noticiando o misterioso desaparecimento de diversos outros adolescentes. Estranho, não é?
– Quando Ashlee foi vista pela última vez? – Marissa perguntou.
– Hoje, quando ela saiu de casa e disse para a mãe que estava indo pra escola. Mas aí, do nada, ela desapareceu na metade do caminho. – A garota então encarou Skylar. – Seu cabelo é azul ou verde?
~
Ally arrastou as outras aulas com a barriga. Ela fingia prestar atenção, quando na verdade estava se concentrando na dor. Felizmente, nenhum professor percebeu isso.
No estacionamento, ela estava prestes a entrar no SUV da Sra. Wilson quando viu as meninas reunidas, mas elas não a estavam vendo. Marissa, Bonnie, Regan e Skylar estavam no fim do estacionamento, conversando ao lado de um carro.
Ally ficou ali, encarando-as sem chamar atenção. Ela era boa nisso, o que era patético. No fundo, ela esperava que as garotas fizessem alguma “demonstração” no estacionamento.
Mas as garotas não eram burras, Ally sabia disso.
– O que você está fazendo? – Finn apareceu.
– Eu? Nada! – Ally disfarçou. – O que você está fazendo?
– Eu vim aqui me oferecer para levar você para casa. No seu carro, claro. – Ally sorriu do jeito de Finn. – Regan não liberou o carro pra mim hoje. Por isso, não pense em mim como o garoto que não tem carro, mas como o seu chofer particular.
Finn era um garoto divertido. Ele também parecia ser muito genuíno, mas, acima de tudo, ele parecia ser zona livre de drama. Então, nem tudo estava perdido.
Ainda achando engraçado (apesar da contínua dor no ombro), Ally entregou a Finn a chave do carro e permitiu que ele a levasse até em casa.
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