Jovens
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Lá estava eu, desamparada, arrastando a minha mala pesada pelas ruas calmas e desertas, a única informação que eu tinha era um bilhete em minhas mãos que dizia: “Rua 8, casa 3”. Eu já estava começando a ficar cansada enquanto revirava a minha cabeça de um lado para o outro em busca de alguma sinalização. O Sol caia sobre os meus olhos, me cansando mais ainda, então eu disse para mim mesma: “Se eu ficar aqui parada não vou chegar a lugar algum!”
E continuei seguindo, observando o lugar calmo, quando notei uma movimentação estranha vinda do fim de uma rua, uma única casa barulhenta, com pessoas na porta, ao me aproximar me dei conta de que era uma festa.
Tinham dois rapazes em frente a casa encostados em um carro vermelho. Agora de perto podia perceber o quanto a casa era realmente barulhenta, podia ouvir gritos vindos lá de dentro, parecia estar cheia. Os dois me observavam cochichando algo um pro outro. Cheguei bem perto, arrastando a minha mala, então disse:
- Olá, vocês sabem onde mora uma garota chamada Nina? — Agora estava observando melhor os dois, eles tinham praticamente a mesma altura, o da direita me olhava com um olhar de indiferença, como se estivesse pensando em outra coisa, era um olhar cansado, ele tinha a pele pálida, olhos negros e pequenos, e um cabelo negro, passando por pouco da altura do ombro, jogado completamente para trás. Ele tinha um pequeno brinco em cada orelha e estava de braços cruzados, dava para ver que ele era bem magro sobre a roupa que ele estava usando.
Enquanto ele me olhava com esse olhar cansado e indiferente, o da esquerda me olhava com um sorriso simpático. Apoiado sobre os braços, encostados no carro. Ele era loiro, tinha o cabelo bagunçado e tinha a pele rosada, com intensos olhos azuis que demonstravam uma felicidade natural. O da esquerda, com a mesma expressão distante me respondeu:
- Uma loira? — Eu confirmei movimentando a cabeça e então ele continuou -
Ela mora bem no inicio daquela... — Ele foi interrompido por uma voz feminina vinda de dentro da casa:
- SAAAAAAAM! VEM LOGO! — Então, seguindo a direção da voz, eu consegui ver, pelo grande portão aberto, uma garota emburrada, de olhos azul-piscina, brilhantes, nos observando de dentro da casa. Ele inclinou um pouco seu pescoço com a expressão inalterável, respondendo
- Já estou indo Esther... — Então ele seguiu para dentro da casa enquanto o outro rapaz, com um sorriso no rosto, me respondia:
– Ela mora bem no inicio daquela rua, é uma casa branca e azul, não tem como errar. — Então eu tentei retribuir o sorriso e disse
- Obrigada... — Me senti aliviada, a preocupação de passar a tarde inteira procurando a casa de Nina havia sumido, então me dei conta de que ele seria provavelmente meu novo vizinho e eu precisava ser mais sociável agora do que nunca, me distrair e conhecer gente nova, então eu disse :
— Eu sou July, estou me mudando pra cá eu acho... — Dei uma leve risada, tentando ser simpática, me sentindo um pouco patética, enquanto aqueles profundos olhos azuis estavam sob mim.
Ele me respondeu:
- Ah, prazer, meu nome é Davy. — Disse ele com um sorriso radiante.
- Mais tarde você pode dar uma passada aqui na nossa festa? — Continuou ele, então eu respondi:
- Sim, seria ótimo — sem saber como puxar assunto. Então eu me virei para seguir meu caminho enquanto pensava sobre a festa, desatenta, e então eu só consegui ver um ombro em frente ao meu rosto, e senti um impacto me jogar para trás, eu literalmente caí no chão.
Quando eu abri os olhos, vi um rapaz sob a luz do Sol, que dava contraste de luz e sombras nele, fazia uma expressão de preocupação olhando para mim, o rapaz estendeu a mão perguntando:
- Está tudo bem com você? — eu a segurei para me levantar assentindo com a cabeça novamente, então ficando de frente para ele, o observei melhor. Ele tinha grandes olhos castanho-médios alaranjados, era bronzeado e tinha o cabelo castanho, senti alguma coisa naquele momento, alguma coisa estranha, porém boa, como se o tempo ali tivesse parado enquanto nos observávamos.
Então voltei a si e me virei seguindo o meu caminho, pensando comigo mesma "Eu deveria ter falado algo... Eu poderia, mas não sabia o que fazer...” Tentei parar de pensar nisso pra me concentrar em outro problema, — Casa 3...Casa 3... Inicio da rua — Então eu notei uma casa enorme, branca e azul, com centenas de flores a frente, de diversos tipos e cores, dava-se para ver pelas janelas da frente que ainda haviam flores lá dentro.
Cheguei à rápida conclusão de que era uma loja de flores, então entrei acanhadamente, procurando por algo, eu não me lembrava de ouvir ninguém falar sobre uma loja de flores. Seria a casa errada? Ele poderia ter confundido com uma outra Nina... Eu não sei nem se estou próxima da rua 8, a ultima vez em que eu estive aqui eu tinha 8 anos, só via meus parentes daqui quando eles iam nos visitar.
Eu percebi então uma garota encostada sobre o balcão, ela fazia uma expressão de tédio, até que seus olhos me encontraram, então ela mudou completamente a sua face para uma expressão alegre, seus olhos azuis brilhavam e então ela veio correndo em minha direção para me abraçar. Soltei a mala para abraçá-la, foi um abraço longo e apertado, me lembrei o quanto ela era mais alta que eu. Então ela se afastou um pouco para me observar, ainda com os braços em mim ela olhou direto nos meus olhos.
– July, que saudades de você! — Eu sorri, olhando a empolgação nos olhos dela
- Também estou morrendo de saudades, você cresceu ainda mais! — Sua expressão de repente mudou, ficou mais pesada, mais séria, me dei conta de que minha mãe falava isso pra ela toda vez que a via. Era quase como um ritual de boas-vindas. Então senti minha expressão cair também e me dei conta de como o clima parecia mais pesado, era inevitável.
Ela respirou fundo
- Olha July, eu imagino como você deve estar se sentindo, foi muito difícil quando eu perdi o meu pai também, mas eu te prometo que aqui você vai ser muito feliz com a gente — Ela voltou a sorrir. Eu forcei um sorriso também, que logo se tornou real, aqui eu começaria uma vida nova, não posso me prender de mais ao passado, já que isso não vai me ajudar em nada. Até porque aqui parece ser um bom lugar para se viver, calmo, com vizinhos que se conhecem e se juntam para festejar, pelo menos é o que parece ser...
- Não tem problemas, estou disposta a seguir em frente — Eu disse com um sorriso fraco. Ela me puxou pelo braço e então fomos para o segundo andar, ela me levou direto pro quarto de sua mãe, que ao me ver, teve praticamente a mesma atitude que Nina.
Não pude deixar de notar no quanto ela parecia bem, mesmo com a idade dela, seu corpo era enxuto, ela não era gorda, mas era mais “cheinha” e seus seios eram enormes, era uma mulher muito atraente, sem dúvidas, seus olhos cor de mel repousaram sobre mim
- Nossa! como você está linda, pode ir desfazer a sua mala... — Ela parecia ocupada com alguns papéis, contas talvez.
Eu e Nina fomos para seu quarto, que já estava preparado para me receber com duas camas. Isso vai ser meio estranho pra mim, porque eu nunca tive nenhum irmão ou irmã, nunca precisei dividir as minhas coisas com ninguém, mas elas estão me recebendo tão bem e o quarto parece ser tão grande que acredito que não terá nenhum problema, só espero que eu não seja um incomodo para Nina, pois se pra mim já é estranho, pra ela que é dona do quarto deve ser mais ainda. Mas ela não parece estar mal, na verdade, sinto empolgação vinda dos olhos dela.
- Nina, só espero que você não se incomode em dividir o seu quarto comigo... — Disse num tom baixo, não pude evitar.
- Pare de besteira, é um quarto grande e eu fico mais tempo fora dele do que dentro. -Ela se aproximou, colocando a mão nos meus ombros
- Temos a companhia uma da outra, isso não pode ser ruim — Disse ela com um sorriso.
— Onde eu coloco as minhas coisas? — perguntei sem hesitar.
- Ah, depois a gente arruma isso... — Ela colocou as mãos na cintura como se estivesse cansada, então ela suspirou.
- Meu turno já acabou, agora preciso apresentar você pro pessoal. — As pontas dos lábios dela se ergueram lentamente.
- Sem nem arrumar as minhas coisas? — Perguntei, encolhida, sentada na cama.
Ela se espreguiçou, tirando a avental de trabalho que ela estava usando. — Sim, vamos tomar uma banho e nos arrumar rápido para a festa! -
Já estava anoitecendo quando estávamos indo pra a festa, Nina estava linda, usando botas negras, meia arrastão, uma bermuda jeans curta e uma jaqueta de couro aberta com um top por dentro, seu lindo cabelo loiro estava solto, indo até a linha da cintura, ela era como uma modelo pronta pra uma passarela, me sentia invisível perto dela, mesmo antes de chegar à festa.
Nina me fez usar uma blusa roxa simples, uma calça preta bem colada que eu achei um tanto desconfortável e duas pulseiras e touca dourados, tudo que eu usava era dela nesse momento, a blusa e a calça para destacar a cor do meu cabelo, negro com diversos camadas finas pintadas de roxo e as pulseiras para destacar os meus olhos cor de mel, mas ainda assim eu me sentia apagada perto dela.
Chegamos à festa, já não tinha mais ninguém na porta, que estava completamente aberta. Mas o lugar era tão calmo que isso não parecia nem um pouco preocupante, até me dava um pouco mais de empolgação.
Entramos sem problemas e o som da música foi invadindo minha cabeça e os meus pensamentos, era muito alta. Fomos passando pelo corredor lateral, que dava direto aos fundos da casa, ignorando algumas pessoas que estavam por ai. Era simplesmente enorme e tinha muita gente, todos bem jovens, com média de 15 a 25 anos aparentemente. Era um clima legal, as pessoas estavam bebendo e se divertindo, tinha uma piscina enorme onde eu via os jovens se beijando, conversando e rindo.
Eu fui me chegando com Nina e ela acenou para algumas pessoas próximas que foram se aproximando. Vinha um casal falar conosco, não me concentrei neles enquanto vinham na nossa direção porque estava observando o garoto que tinha esbarrado em mim mais cedo mergulhando na piscina. Pensei comigo mesma “Ele ainda está aqui” e então Nina me fez voltar ao que estava acontecendo ali.
– Esses são Tate e Windy — Tate era um cara sério, que parecia ter uma expressão vazia e gélida por natureza. Era forte, alto e bem pálido, apesar de ter um rosto muito bonito. Windy tinha um olhar simpático, ela parecia o tipo de garota elétrica, tinha a pele clara, olhos verdes e seu cabelo curto é um tom de ruivo que chegava quase a ser roxo, ela era muito bonita. Nina mal pode terminar de falar que Windy já a atropelou com suas palavras
- É um prazer conhecer a prima de que Nina vem falado tanto ultimamente — Ela me deu um abraço íntimo, como se já nos conhecessemos.
- O prazer é meu — Falei sem saber qual atitude tomar, então me apresentei
- Eu sou July — e sorri, Tate deu um sorriso meio fraco, porém sincero e estendeu a mão
- Não se assuste, Wendy se joga desse jeito mas é uma ótima pessoa — Nina deu uma risadinha, Windy parecia simplesmente não ter ouvido, então eu apertei a mão de Tate, o cumprimentando.
– Tudo bem, gosto de pessoas assim. — Respondi. Windy então abriu um sorriso radiante
- Que bom, você vai gostar muito daqui — confesso que fiquei um pouco assustada, mas que mal tem. Eu estava sorrindo quando de repente eu senti alguma coisa úmida tocar meu ombro, me virei lentamente e vi ele, o garoto de olhos alaranjados que me jogou no chão hoje mais cedo.
Ele estava sorrindo para mim, fiquei totalmente sem ação, olhei para Nina em busca de alguma ideia de como agir, mas ela estava com o olhar perdido em algo distante, ela estava sorrindo e acenando para alguém, ela gritou um nome "NIIIIICK!" e saiu dispara para longe.
Tate e Windy continuam ali, nos observando. Só agora me dei conta de que os três me observaram olhar em volta, devem estar achando que tem alguma coisa errada comigo, mas se bem que tem, é o que eu estou deixando a entender, preciva tomar uma atitude.
– Tá tudo bem com você? — perguntou o garoto com uma expressão confusa, eu respondi
- Tudo ótimo, ninguém me derrubou até agora — Dei uma risada sem graça, foi uma péssima piada. Tate permanecia sério e Windy ainda estava sorrindo, mesmo sem ter algum motivo aparente
- Vocês já se conhecem? Que legal, acho que você faz o tipo do Scott! — Disse ela, carismaticamente, dando um tapinha em meu ombro, foi um comentário meio maldoso, me desconcertou, mas parecia ter sido inocente da parte dela.
Tate agora, que permanecia sério soltou uma risada, Windy e Scott riram juntos, eu acabei rindo também, meio sem graça, mas consegui me sentir confortável, em seguida, me voltei para Scott
- Desculpe ter te derrubado mais cedo, como eu faço pra ficar bem com você? — perguntou ele. Isso me deixou mais tranquila, ele queria apenas ser legal comigo. Aqueles olhos alaranjados eram tão tranquilizantes que o nervosismo acabou passando. Observei Tate e Windy saindo lentamente de mãos dadas, fazendo comentários baixos um pro outro.
- Não sei, o que sugere? — Perguntei com um tom de desafio.
- Você bebe? — fiquei um tempo pensando, não tenho o costume de beber muito, mas por que não aceitar?
- Bebo — ele teve um sorris de satisfação — Vou pegar umas bebidas para nós -
Eu assenti com a cabeça e ele foi entrando na casa, logo em seguida vem Nina com um cara que lembrava muito Tate, a não ser pelo cabelo, com sua franja jogada de lado e seus olhos intensamente escuros, ele tinha uma expressão de curiosidade
- Esse é o Nick, meu namorado — Ela puxava ele pelo seu braço direito enquanto ele vinha com a mão esquerda me cumprimentar.
- Então você é a famosa prima da Nina? — Disse ele com um sorriso, ele fazia um tipo diferente, de cara sério, porém simpático, galanteador.
Eu apertei a mão dele
- Famosa? — me virei pra Nina, já meio assustada.
- O que você tem falado de mim? — perguntei com um sorriso
- Só o suficiente — Ela erguia uma das mãos, tirando-a do braço de Nick e colocando no seu peitoral.
- Prazer Nick, sou July — Nina tirava a sua jaqueta de couro e a entregava para Nick
- Vou dar um mergulho, aqui está ficando quente — nem tinha reparado nisso, mas era verdade, o lugar estava ficando mais quente, o que era muito sujestivo, mas eu não estava com roupas para piscina...
– Então vamos Nina — Eles se viraram indo em direção a lateral da piscina, onde tinha uma espécie de bancada. Então Scott voltou com duas latas da cerveja Duff em suas mãos, ele estendeu uma para mim e eu a peguei. Ficamos ali bebendo e conversando sobre a festa, fomos para mais perto da piscina por fazer menos barulho ali.
– E então, você veio visitar a cidade ou veio pra ficar? — Ele perguntou, ates de virar novamente a lata em sua boca.
— Vim pra ficar, aconteceu um acidente com a minha mãe, então eu vim morar com a minha tia. — A expressão dele caiu
- Ah... — Ele ficou sem reação.
- Relaxa, já to meio recuperada — forcei um sorriso.
- Você vai gostar daqui, é um lugar legal, a única coisa irritante são as fofocas de algumas pessoas, aqui todo mundo se conhece e todo mundo acaba sabendo da vida de todo mundo...- Ele parecia realmente irritado, provavelmente já passou por alguma experiencia ruim por conta disso.
Eu suspirei, odeio gente tomando conta da minha vida, mas isso acredito eu que tenha em qualquer lugar.
- Poxa, que chato... Mas tudo bem, não tenho nada a esconder de ninguém — ele sorriu
- Que bom, assim fica mais fácil de aturar essas coisas... — Ele foi interrompido por uma voz que tirou nossa atenção, um cara um tanto acima do peso, vinha rápido em minha direção segurando uma caixa de cerveja, ele estava completamente desorientado e ia acabar me derrubando, então me joguei rápido para trás me senti encostar em Scott, rapidamente seu corpo se afastou e eu senti em seguida os respingos de água caindo sobre a minha roupa.
Eu encolhi os ombros ao ouvir o som da água enquanto o cara gordo passava por mim, me virei lentamente e vi Sccott em meio a várias bolhas de baixo d’água. Eu arregalei os olhos e ele então se levantou, tirando o cabelo molhado dos olhos castanho-médios.
- Meus Deus, me desculpa — Ele ainda sacudia o cabelo com a mão de cabeça baixa.
- Parece que dessa vez fui eu que te derrubei. — A reação dele foi uma inesperada gargalhada.
- Sabia que você queria se vingar, vi isso nos seus olhos — disse ele rindo
– Claro que não, foi sem querer — tentei entrar na brincadeira, mas ainda me sentia culpada. Ele acenou para mim.
- Vem! Entra! A água tá ótima — Ele convidava. Passei a mão pela minha blusa automaticamente.
- Melhor não... — Eu queria entrar, mas eu não podia molhar a roupa da Nina, ela me emprestou com tão boa vontade, acabei de chegar, não faria nada que pudesse ser ruim para ela.
– Ah, então vou sair também, não vou conversar com você daqui de dentro... — ele juntou um pouco suas sobrancelhas, erguendo os braços para mim.
- Me ajuda a subir July... — Eu segurei as mãos dele, fazendo um leve impulso para trás, então senti um solavanco forte e quando me dei conta já estava de baixo d’água.
Notas finais
Obrigado por lerem. :)
Fale com o autor