Notas iniciais
Heyy Esse capítulo ficou meio chato, foi só mais para começar uma apresentação da Cornélia e dar continuidade à parte do Joseph. A ação ainda não começou hehe Bom, espero que gostem, eu não pude revisar direito ainda, então qualquer erro aí me avisem por favor Boa leitura~

A temperatura estava um tanto baixa demais para um dia de primavera em Arensen, e o chão gélido fazia doer a pele fina e bronzeada da jovem nele deitada. Alguns fios castanho avermelhados escapavam de sua trança, que descansava sobre o piso de pedras bege, contrastando com ele. O feno sobre o qual se deitava não a impedia de entrar em contato com o chão frio e os cobertores não eram suficientes para manter sua temperatura — já não sabia se era pelo clima peculiar daquele dia ou por estar tão magra que não havia sequer um mínimo deposito de gordura para mantê-la. Apesar de todas os inconvenientes ela ainda assim descansava feliz naquele antigo e abandonado armazém, aproveitando os últimos momentos de sono que tinha antes dos raios de sol invadirem o local pelo buraco no telhado.

No silêncio da aurora uma mulher de idade abriu lenta e silenciosamente a porta do armazém. Ela já tinha certa idade, e as rugas cobriam-lhe o rosto, de maneira a fazê-la parecer ainda mais doce e gentil do que já mostrava o seu olhar. Suas vestes eram escuras, vestes de uma freira, e os olhos azuis tão límpidos e serenos como duas lagoas. A senhora, de nome Lúcia, deu alguns passos silenciosos para dentro do armazém e, ao contemplar a jovem dormindo, deixou uma cesta com alguns pães dormidos ao lado dela, acompanhado de uma pequena jarra com água, como de costume. Voltou para próximo da porta, dando um pequeno sorriso para a garota que descansava antes de se retirar.

Demorou quase uma hora até a morena acordar, e logo que o fez percebeu a cesta de pães ao seu lado, sorrindo com gratidão. Pegou um pão e fitou-o com os olhos cor de café por alguns instantes, como que se deliciando apenas por observa-lo. Lambeu os lábios ressecados e logo abocanhou o alimento contente. Era muito grata à irmã que lhe acolhera, salvando-a do apedrejamento em meio a rua. Queria demonstrar sua gratidão, mas não havia como, não possuía nada – nem dinheiro, nem bens, nem força física, nada. Por isso sabia, deveria deixar o local logo, mesmo sendo o máximo de conforto que encontrara em meses, talvez anos – perdera um pouco a noção do tempo. Porém, só a ideia de vagar pelas ruas, de estar novamente sujeita a ser violentada e agredida novamente, já a amedrontava o suficiente para cada dia adiar a ida.

Levantou e se espreguiçou assim que o sol invadiu o local, levando um pouco do frio com ele. Subiu em algumas caixas no canto da sala a fim de observar a paisagem já que não seria uma boa ideia sair do armazém – isso por que poucas freiras sabiam de sua presença ali, e algumas delas não eram nada tolerantes. Colocou a cabeça próxima a janela esperando ver pouca movimentação no local como era todas as manhãs, porém, vira – e ouvira — exatamente o contrário. Várias pessoas se reuniam ao redor da Igreja para algo que a jovem ainda não descobrira o motivo. Queria ver o que acontecia, mas sabia que não era uma boa ideia sair dali. De repente um pensamento lhe ocorreu: E se a Lúcia estiver em perigo? Não sabia exatamente por que ela estaria, o que ameaçaria uma freira, achou a ideia realmente ridícula depois que veio a sua mente, mas ainda assim não se aquietava. Tinha um mal pressentimento, multidões sempre lhe traziam essa sensação, e isso não a deixava sossegar.

Lutou algum tempo contra a ansiedade e aflição que sentia, mas por fim cedeu a eles. Enrolou-se em um pedaço de pano velho que encontrara no local e deixou o depósito, esgueirando-se até próximo à multidão, mas não o bastante para ser vista. Achou melhor não avançar mais e ali ficou a ouvir as vozes do grupo.

– ... não podem permitir isso! – escutou uma mulher falar.

– Acalmem-se, acalmem-se, a madre já está vindo – reconheceu a voz de Lúcia, fazendo seu coração afligir-se.

Escutou mais alguns gritos indignados e reclamações até a porta da Igreja se abrir. Pelo silêncio feito julgou que era a madre que entrava na cena.

– O que está acontecendo aqui? Não sabem que este é solo de Deus? Não façam confusão em um lugar como este – disse a voz firme e amedrontadora da senhora, mas o grupo não se acanhou.

– Se este é um solo de Deus por que acolhem uma bruxa? – gritou a mulher que ouvira da primeira vez.

Sentiu seu coração palpitar, e logo em seguida apertar-se até parecer que iria explodir. Certamente se referiam a ela.

– A bruxa deve ser queimada – ouviu um homem falar, seguido de várias vozes concordando.

Estava cada vez mais tensa e assustada, sentiu vontade de sair correndo dali, mas não queria deixar Lúcia assim, e se ela fosse acusada de abrigar uma bruxa, o que aconteceria com ela?

– Silêncio! Não abrigamos bruxa alguma nesta Igreja – disse a madre, firme.

– Eu vi a irmã levando a bruxa para os fundos da Igreja! – gritou um jovem apontando para Lúcia.

Houve um minuto de silêncio, a madre encarou a irmã acusada com rigidez. A outra não respondeu nada, apenas desviou o olhar.

– Não chegou ao meu conhecimento a presença de qualquer bruxa neste solo sagrado, mas se insistem no assunto devemos procurar por essa herege para que seja devidamente punida.

A jovem sentiu um frio percorrer a espinha ao som das palavras da madre. Não era o tipo de pessoa que se abalava facilmente, mas bruxaria era algo sério, algo que levou sua mãe. Ficou atordoada, não ouvia mais nada da conversa, estava com medo, e não só por Lúcia, mas também por sua própria vida. Quando voltou a si já havia uma multidão vindo em sua direção. Escondeu-se nas sombras da Igreja e viu o grupo passar em direção ao armazém, agitado.

Assim que passaram foi deu alguns passos de costas para onde eles haviam acabado de vir e nisso esbarrou em alguém. Lúcia.

– O que está fazendo aqui? Deixe, não responda, não há tempo. Achei que fossem encontra-la – disse a senhora abraçando-a aliviada – Rápido, vá logo, eles descobriram, se continuar aqui pode acabar morta – continuou, ajeitando o pano em volta da jovem como uma capa, cobrindo-lhe também a cabeça.

– Lúcia... Muito obrigada por tudo, sinto muito pelos problemas que lhe causei – disse ela sorrindo, um sorriso doce, mas com profunda tristeza no olhar.

– Não se preocupe com isso, fico feliz de ter conseguido salvá-la uma vez, mas agora está por si mesma novamente – disse ela triste – Agora vá logo antes que descubram, e leve isto com você – lhe entregou um terço de madeira, enfeitado com pequenas e delicadas pedras, semelhante a pérolas.

– Eu não posso aceitar...

– É um presente, fique. E lembre-se, Deus está com todos – deu um sorriso sereno – Adeus, Cornélia.

– Adeus irmã – disse se virando antes que a outra visse as lágrimas que rolavam por seu rosto.

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Joseph aguardava tranquilo no grande salão, enquanto observava algumas das tapeçarias que ornamentavam as altas paredes. Analisava o urso, símbolo do brasão da família Weirich, quando ouviu a porta do cômodo se abrir, por ela entrando um homem alto, de cabelos castanhos com alguns fios grisalhos e olhos azuis. Suas roupas e modo como andava e falava – de forma serena e superior – deixavam claro o seu status social. Se tratava do Conde Edmond Weirich, detentor de grande parte das terras do Oeste de Arvilla e muito bem relacionado com a nobreza de Morfhind, sendo que sua filha se casou com Klaus Vogt, um dos auxiliares do monarca deste reino, encarregado da parte militar.

– Joseph, quanto tempo não o vejo! – disse o homem, já o entregando uma taça com vinho.

Para sua sorte, o jovem conhecia Edmond desde criança, e seu pai mantinha negócios com ele há anos, formando uma relação amigável entre eles.

– Conde Weirich, está tão bem quanto da última vez que nos vimos – respondeu Joseph com o sorriso

– Como se pudesse lembrar, era apenas um jovenzinho com metade da altura atual. – riu animado tomando um gole do vinho – Sente-se – apontou para sofá atrás do rapaz.

Joseph sentou no sofá provando da bebida oferecida por seu anfitrião.

– Então, o que o traz aqui Joseph? Seu pai enviou-o no lugar dele para fazer negócios?

– Na verdade não senhor, vim por conta própria.

O rapaz fez uma pausa e Edmond ergueu uma sobrancelha, inclinando-se um pouco para frente curioso.

– Me parece algo importante então, diga-me o que quer – o nobre mudou o tom da voz antes um tanto animada para um mais formal e sério, como fazia quando tratava de negócios.

Apesar de perceber a mudança, Joseph não hesitou, e permaneceu calmo como de costume.

– Em poucos dias partirei para Morfhind

– Morfhind? Interessante... e o que o rapaz vai fazer lá?

– Planejo entrar no exército, mas temo não conseguir nenhum posto digno por não possuir um título de nobreza.

Acharia estranho Joseph optar por ingressar no exército de outro reino que não o seu próprio, se não soubesse que a força militar de Morfhind era muito superior à de Arvilla — e a da maior parte dos reinos — que era composta principalmente por mercenários, contratados em tempos de guerra. O homem deu um breve sorriso compreendendo o pedido do jovem.

– Então quer que eu lhe consiga algo?

Por um momento ficaram silêncio, Joseph apenas lançando lhe um olhar afirmativo.

– Certo, verei o que posso fazer por você. Mandarei uma mensagem para o Duque Vogt, mas não creio que consiga algo além de capitão da cavalaria.

– Agradeço muito seu apoio Conde – curvou a cabeça em respeito ao homem.

– Mandarei a mensagem hoje, você não deve demorar a partir – deu uma golada do vinho — Ouvi dizer que o exército estará encerrando o recrutamento em alguns dias, e seria bom que já estivesse lá quando começassem o treinamento dos novos soldados.

– Sim senhor, partirei dentro de dois dias, já está tudo acertado.

O nobre exibiu um belo e satisfeito sorriso. Conhecera Joseph quando este ainda era criança, e sempre tivera certo apreço pelo rapaz, gostava da maneira como ele sabia os passos certos a se seguir, ele sempre traçava a rota certa, que o levava ao sucesso no final. Tinha até certa inveja dessa habilidade do garoto. Ainda assim, estava realmente contente em ajuda-lo.

– Muito bem, agora devemos comemorar sua partida! – Edmond levantou-se, deixando a taça vazia sobre a mesa à sua frente – Javier!

O homem de cabelos grisalhos que aguardava ao lado da porta aproximou-se do nobre.

– Sim, Conde?

– Traga as jovens Reinville.

O servo se retirou, voltando alguns minutos depois acompanhado de três belas moças. As três sorriam sedutoras, cada uma com um belo vestido provavelmente dado pelo nobre. Joseph as encarava, admirando a beleza das jovens.

– Chegaram hoje de Reinville – o homem disse satisfeito com a expressão do rapaz – Escolha uma, a que desejar.

A mulher do meio, dona de longos cabelos castanho claros e ondulados, e olhos escuros e profundos como duas ônix, encara o rapaz intensamente. Não desviava o olhar, tinha um sorriso suave na boca. Joseph a encarava de volta, mas demonstrar qualquer expressão. Após alguns segundos o rapaz interrompeu a intensa troca de olhares e voltou-se para o anfitrião.

– São todas realmente muito belas, mas infelizmente não posso ficar. Ainda tenho coisas a fazer antes de partir para Morfhind – ele sorriu educadamente para o Conde, levantando-se em seguida.

– Tem certeza disso? – o homem lançou lhe um olhar surpreso.

– Sim senhor, desculpe-me o incomodo e obrigado, mais uma vez, por sua ajuda. Estou de saída agora – inclinou o corpo levemente fazendo uma reverência e se dirigiu à porta, onde Javier aguardava com a capa do jovem em mãos.

– Faça uma boa viagem rapaz – sorriu ainda admirado, vendo Joseph fazer um comprimento com a cabeça e retribuir o sorriso antes de se retirar.

O nobre voltou a olhar para as três mulheres, um tanto decepcionadas, e soltou uma breve risada.

– Talvez você ainda seja uma criança, Joseph.