Jornal aberto, café,leite e sangue:Guerra de Perto
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Um mês antes
Pietro começa seu dia como sempre, acordar, se vestir e tomar café lendo o jornal. Ler o jornal era essencial para todos os revolucionários, afinal, sem o conteúdo da primeira página não entram na sede. A desta manhã era “Marechal Assunção libera três militares acusados de traição”, lendo toda a reportagem vê que é mais um daqueles artigos pra encher o povo de lorotas, os fazendo acreditar que o governo estava com o controle de tudo, mas não estava. Pietro sabia disso.
Eram exatamente 08h00min da manhã quando ele sai de casa em direção à sede, caminha pelas ruas que começaram a encher de gente, todas elas com um cansaço visível no rosto, mas continua sem olhar para ninguém. Pietro era um dos forasteiros daquela vila pobre e maltratada. Ele anda até um beco sinuoso e se aconchega mais em suas roupas, está um pouco frio, mas ele continua até que chega à rua larga e distanciada da massa de pessoas do centro. Localiza a casa antiga que é a sede, abre o portão e bate na porta.
– Quem é?- Disse uma voz, Conceição.
– DPF- Pietro responde, esse era o sistema padrão de identificação, falando as iniciais de trás pra frente e dizendo a senha do dia que era a matéria principal do jornal- Marechal Assunção libera três militares acusados de traição.
Ela abre a porta e deixa-o entrar, Pietro vê que Heitor e Verônica, outros participantes daquela sede da revolução, já estão conversando sobre algo e se junta a eles.
– Bom dia pessoal-Pietro cumprimenta-os.
– Bom dia Pietro- Ecoam os cumprimentos dos dois.
Ele senta-se à mesa e se junta à conversa dos dois, algo sobre a noite anterior. Heitor, Verônica, Thomás e Conceição são os moradores daqui, portanto têm sempre uma história sobre o almoço ou a conversa do dia anterior. Mas Pietro não faz parte da vida comum, está aqui por um objetivo: Vingança.
De repente Conceição desce com Thomás, o único cadeirante da sede e logo atrás vem Tabata, a jornalista política. Eles se juntam a todos na mesa e Conceição toma seu lugar como líder, começa a falar num tom autoritário.
– Bem pessoal, sem demoras quero que conheçam Rovena Gusmão, a mulher que junto comigo lidera essa revolução- Diz Conceição sem rodeios.
Uma mulher de aparência igualmente jovem surge da sala ao lado e vem ao encontro dos outros. Ela tem aquele mesmo ar de superioridade que Conceição exala, não se sabe como essas duas almas poderosas conseguem se acertar.
– Bom dia. Como Conceição já disse, meu nome é Rovena Gusmão. Eu sou a líder estratégica de todas as sedes. E como esta é a sede que até hoje deu mais resultados resolvi vir ajudar diretamente daqui — Cumprimenta Rovena.
Pietro sempre soube que havia outra líder, mas não sabia que era ela. Conceição havia deixado claro que ela era a líder combatente e que a líder estratégica era outra pessoa e agora ele sabia que Rovena era essa outra líder e entendeu como a revolução estava dando tão certo.
–Bom, devem estar se perguntando por que eu apareci só agora, depois de tantos anos. Mas eu tive que me manter exilada na Bolívia durante os anos que comandei a estratégia. Porque quando comecei fui descuidada e eles acabaram me descobrindo, mas hoje estou de volta e junto com vocês- Diz Rovena.
– Bem vinda Rovena- Fala Tabata- Mas por queescolheu a gente? Está certo que você já disse que fomos os que mais avançamos, mas ainda assim não somos jovens em demasia?
– Tabata, entendo você, mas olhe bem! Somos todos muito jovens, inclusive eu. E acho que essa é a maior arma dessa sede e da revolução toda, a juventude, os ideias que vem com os jovens. O poder de mudar. — Fala Rovena.
Tabata se surpreende por Rovena saber o nome dela, mas segundos depois Rovena explica, como se lesse seus pensamentos.
– Ah, sei o nome de todos vocês, Conceição me manteve informada durante todo o tempo, sempre levei mais fé nessa sede. Mas não conheço a história de nenhum de vocês, cada um pode contar? – Fala Rovena
– Rovena tem razão, cada um poderia contar, moramos juntos durante anos e nem ao menos sabemos de onde cada um vem- Fala Conceição- Além do que, agora as coisas estão mais quentes nunca se sabe se amanhã eu serei apenas memórias de vocês e vice-versa.
– Eu começo então- Diz Pietro- Bom, meu nome é Fernando Pietro Dias e eu entrei aqui porque quando eu era mais jovem morava com minha namorada, numa noite estávamos dormindo juntos quando ouvimos um barulho de vidro quebrando, corri pra tentar fechar a porta do quarto ao menos para ela fugir, nós sabíamos que eram os militares. Naquele tempo era comum eles entrarem nas casas e estuprarem as mulheres e não foi diferente com minha namorada.
– Sinto muito Pietro- Diz Verônica.
– Obrigado- Pietro responde a ela- Então, eles entraram e arrombaram a porta antes mesmo de qualquer reação, me amarraram eestupraram- na. Eu fiquei sem poder ajudá-la. Depois, bem, depois a mataram.
Todos ficam um tempo sem falar, mas ele conclui sua história.
–Então, vi que tinha que tomar uma atitude. Mais mulheres morreriam assim, e eu não queria esse destino para elas. Comecei a organizar protestos e marchas e organizar um grupo de pessoas, mas um dia houve uma emboscada e Conceição me trouxe para cá — Pietro começa a perceber que seus olhos estão marejados. Mas se esforça para permanecer firme.
– Bem, é mais uma coisa comum nesse sistema, não Rovena?- Fala Conceição e Rovena concorda com uma aceno de cabeça, ela parece bem tocada pela história.
– Posso contar a minha?- Fala Tabata — Bem, eu não fui torturada, não fui procurada e não sofri nenhuma perda para estar aqui. Mas eu sou escritora e publico contra a ditadura com pseudônimos masculinos. Recebi uma carta de uma GR, hoje entendo quem foi. Rovena me encontrou e me trouxe para cá, para eu ser mais útil e agradeço por isso.
– Na verdade Tabata, eu lia seus textos, mas sempre reparei numa feminilidade nos seus escritos, pesquisei e não tardei a encontrá-la. Golpe de sorte tê-la conosco- Fala Rovena.
Tabata cora em meio aos elogios de Rovena e resolve mudar o foco da conversa.
– Então Heitor, quer contar sua história?- Ela se vira para o menino que está à frente de Pietro.
–Ah, sim. Está bem- Ele começa- Eu sou Heitor Bianchini..
–Oh Meu Deus! Bianchini? Sério?- Fala Tabata, interrompendo Heitor- Mas é uma das famílias aristocratas mais famosas, mortos porque estavam perdendo dinheiro com o sistema, a família toda se matou... Mas como?
– Na verdade meu pai e minha mãe pouco se importavam com o lucro que tinham ou deixavam de ter, eram contra a ditadura e, sendo assim, foram mortos pelos militares- Ele mostrava um ar triste muito grande.
– Ele estava numa festa na noite do ocorrido e quando voltou pra casa viu um verdadeiro pandemônio. Achou uma carta da mãe escondida entre um painel de armas da família em que ela dizia que eram contra a ditadura e tal- Conclui Verônica, a pessoa que melhor conhece Heitor- Então ele ficou um tempo vagando pela rua quando bateu na porta aqui da sede e eu o recebi, escutei a história dele e desde então ele mora aqui e nos ajuda.
– Isso ai- Diz Heitor.
–Já que comecei a falar, continuarei, mas com a minha história- Diz Verônica- Bom, vocês já notaram que eu não sou igual a vocês, não sou “antiga” digamos assim, me visto diferente, tenho corte de cabelo diferente e isso foi motivo pra ser torturada. Eles me achavam um símbolo de revolução, por eu não seguir as normas morais impostas pelo sistema.
– Encontrei Verônica um dia quase moída num canto escuro da praça central. Ela estava bem machucada, mas eu a trouxe pra cá e cuidei dela. Ela era mais “exótica” antes de sofrer aquela surra forte, agora está mais comportada- Diz Conceição.
Rovena sorri como se já tivesse conhecido Verônica antes, no seu período “exótico”.
– Bem, Conceição tem razão, eu era mais livre antes, agora me comporto como uma componente dessa base. Comigo mais chamativa não daria muito certo. Mas me sinto bem aqui, como sou agora – Conclui Verônica.
Todos ficam um período em silêncio, cada um pensando em seus problemas, dilemas e no que o outro havia contado. Nesse tempo Conceição e Rovena, antes em pé, se acomodam em suas cadeiras.
Thomás “limpa a garganta” fazendo barulho para calar as mentes barulhentas e começa a falar:
– Bem, não falei sobre minha história. Eu fui estudante de direito e totalmente contra a ditadura e foi por isso que comecei com os cartazes, paredes pichadas e marchas de protesto. Mas foi num desses dias quando eu estava pintando cartazes que fui surpreendido pelos militares, eles me pegaram e me torturaram, agora sou cadeirante, como podem ver– Ele concluiu com um suspiro de desânimo.
– Bem, agora que nos conhecemos, devo dizer que eu escolhi cada um de vocês. Saibam que acredito no potencial de cada um e sei que juntos podemos acabar com eles- Rovena fala enquanto se levanta e olha para cada um — Bom, agora a primeira importante decisão.
Todos chegam mais perto, querendo saber qual seria sua próxima ação.
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