Jornada para o amor.
16 Apenas um até logo.
Quando o carro parou em frente sua casa, Fernanda tentou manter a calma. Era preciso para o que iria enfrentar. Sandra foi recepcioná-la. A alegria dela era genuína. Aquilo era a única coisa que lhe trazia aconchego.
Fernanda foi ao encontro da amiga e a abraçou de maneira afetuosa. Foi difícil conter a emoção. A experiente mulher percebeu que algo havia acontecido.
— O que ele fez a você?
— Acabou Sandra, ele venceu!
Sandra tocou a face de Fernanda de modo gentil e disse:
— Eu não sei o que houve querida, mas tenho certeza que tudo irá se resolver.
Fernanda rapidamente relatou os acontecimentos e sua decisão sobre o que faria a partir de agora.
— E o Samuel? O que houve com ele?
— Não é justo ele perder o que conquistou por minha causa... Eu não sei o que o Lorenzo pode tentar fazer. As ameaças dele não podem ser ignoradas.
Sandra sentiu compaixão pelas coisas que Fernanda estava passando. Realmente Lorenzo havia se tornado uma pessoa completamente diferente da que ela tinha conhecido.
— Onde ele está?
— Na biblioteca.
— Eu irei vê-lo. Por favor, peça para subirem as minhas coisas.
Fernanda foi à biblioteca. Aquele era o local onde Lorenzo gostava de ficar. Por vezes, ele entrava ali e se esquecia do tempo. Esse foi um dos primeiros sinais que o casamento estava em declínio.
Ela tocou a porta e em seguida entrou. Ele estava sentado de frente para o jardim, na mão tinha um livro de literatura. Pelo menos, esse hábito não havia sido alterado.
Ao vê-la, Lorenzo sorriu triunfante. Isso era uma sinalização, que já sabia o motivo dela estar ali.
—Sabia que você faria a melhor opção.
Ele se aproximou e tocou a face de Fernanda, mas ela rapidamente afastou a mão dele.
— Eu voltei, mas saiba que eu não serei sua esposa! Já que você me quer ao seu lado, saiba que terá apenas minha presença. Afinal, foi isso que eu sempre fui. Uma figura para as festas sociais e para a sua família.
— Fernanda!
— Eu não vou ficar no mesmo quarto que você! — Ela continuou firme, apesar dele se demonstrar irritado com o que ouvia. — Nunca vou amá-lo como fiz no passado. Não espere aquela Fernanda, pois ela morreu!
Lorenzo apenas riu.
— Por enquanto isso serve, mas saiba que farei você mudar de ideia.
Ela sabia que ele usaria suas táticas. Lutaria até se livrar daquele casamento. Já não tendo mais nada a dizer, ela virou para sair, mas ele se antecipou impedindo-a de sair.
Fernanda olhou para ele e ficou apreensiva sobre o que significava aquilo.
— Não precisa fazer essa cara! — Lorenzo notou a inquietação dela. — Não vou te agarrar.
Ela puxou o braço se afastando dele.
— O que você quer?
— Já que você fez suas exigências, eu também faço as minhas... Não quero que você veja novamente aquele motorista! Mas se você insistir, eu posso fazer você mudar de ideia.
Ela o odiava por isso!
— Você pode fazer o que quiser para afastar o Samuel, mas saiba que meus sentimentos não irão mudar!
Lorenzo tinha consciência disso, mas isso não era motivo para aceitar a situação com passividade. Ele faria de tudo para afastá-la de Samuel, nem que para isso tivesse que usar meios escusos.
— Você não o verá mais! — Ele retrucou com agressividade, e pressionou Fernanda deixando-a totalmente imobilizada. Ela tentou se afastar das mãos que lhe prendiam, mas foi inútil.
— Não se preocupe, eu pretendo me afastar dele.
O sorriso de satisfação no rosto de Lorenzo foi evidente. Em seguida ele segurou o queixo de Fernanda pressionando e a beijou com força. O gesto em nada tinha romantismo, muito pelo contrário, ele demonstrava possessividade. Ao se afastar, ele deixou claro, que aquele aviso não estava sobre contestação.
***
Samuel organizava as malas para a viagem que faria no dia seguinte. Sim, esses trâmites eram necessários. Apesar de toda a burocracia, ele estava feliz e eufórico. Depois de fechar a mala, ele virou para Emir que dava sinais de sono. O garoto bocejou, mas fazia força para não dormir. Ele riu e pegou o filho no colo levando-o para o quarto, o menino reconheceu a cama e se espalhou descansando.
Ao retornar para a sala, ouviu o som de um veículo que estacionou em frente a sua casa. Curioso, ele olhou pela janela e viu que se tratava de Fernanda. Sentiu uma grande felicidade em vê-la. Sorrindo, ele abriu a porta para que ela entrasse.
Fernanda entrou na casa e Samuel a abraçou por traz. O gesto tomou-a de surpresa, mas foi bom sentir os braços fortes dele ao entorno de seu corpo. Ele fez com que ela virasse de frente para ele. Por alguns segundos eles ficaram apenas se olhando e Samuel sorriu para ela. O gesto foi tão singelo e atencioso. Em seguida ele a beijou.
Céus, foi como encontrar o paraíso! Ela pensou.
Samuel se entregou totalmente naquele beijo. Era como se fosse o último suspiro de vida. Eles tinham uma conexão perfeita e juntos eles entregaram naquele momento.
Samuel se afastou e riu tomando fôlego.
—Veja o que você faz comigo... — Ele disse fitando-a nos olhos e sorriu. Quando ele tentou beijá-la novamente, Fernanda virou o rosto demonstrando que não o queria o mesmo.
Aquele gesto dela o confundiu.
— O que houve?
Fernanda virou de costa para ele. Ela sabia que se o encarasse, não seria capaz de dizer adeus. Ela viu uma mala e lembrou que ele iria viajar no outro dia. Não poderia mais evitar o assunto. Ela suspirou e virou de frente para Samuel. No rosto dele estava evidente sua ansiedade.
— Eu vim aqui dar a sua resposta...
Samuel sentiu-se esperançoso em ouvi-la, mas o olhar de Fernanda demonstrava certa insegurança.
— Eu me diverti muito ao seu lado, mas é hora de retornarmos à nossa realidade.
Samuel não acreditava nas palavras que ouvia. Elas pareciam tão vazias, e sem sentimentos.
— Eu não acredito...
Samuel estava disposto a provar, que as palavras dela eram diferentes de sua atitude. Ele se aproximou de Fernanda e tocou-a em ambas as faces. Fitando-a fixamente disse:
— Eu senti você nesse beijo... Eu senti você enquanto estivemos juntos.
Fernanda sabia que será difícil mentir. Ainda mais, quando seu corpo reagia ao toque dele. Era difícil esconder que ela não era indiferente a ele.
Fernanda lutou contra o desejo de beijá-lo e se afastou dele.
— Por favor, você acha mesmo que isso daria certo? Olhe para você e olhe para mim!
Aquelas palavras o atingiram com força! Nunca tinha pensado ouvir tais palavras da boca de Fernanda. Durante esse tempo, ela nunca havia feito qualquer menção à diferença social entre eles. Samuel conhecia a sua real situação financeira. Jamais poderia oferecer a vida a qual ela estava habituada. Afinal, ela era uma mulher muito rica. Já ele, era um simples imigrante que tentava mudar de vida.
— Você nunca pareceu se importar com isso.
— Verdade? Como você pode saber, afinal nos conhecemos a quanto tempo? Cinco meses? Quatro?
— Seis meses. — Samuel disse.
Fernanda assentiu, pois sabia exatamente quanto tempo era. Nunca esqueceria o primeiro dia em que o viu. Samuel tinha lhe chamando a atenção desde então.
— Tempo insuficiente para saber detalhes sobre mim...
Samuel sabia que aquele tempo não era suficiente para conhecer uma pessoa, mas naquele período tinha aprendido a conhecê-la. Fernanda era uma mulher transparente e muito fácil de relacionar. Aquela atitude era completamente contrária a sua personalidade. Ele custava a acreditar.
— Eu também decidi que vou retomar meu casamento com o Lorenzo.
Fernanda já tinha decidido e estava feito!
Samuel não imaginou que Fernanda pudesse ser uma mulher tão frívola. Mas como ela mesma havia dito, ele não a conhecia o suficiente para saber algo assim.
Fernanda olhou ao entorno. O semblante dela era sério e no seu olhar, não se lia nenhum sentimento, apenas um vago que a distanciava cada vez mais dele.
— Desejo sucesso a você! — ela caminhou em direção a porta, demonstrando que aquele era o final de sua visita.
Samuel não se convencia do que ela havia falado. Certamente algo tinha acontecido e ela não falava. Por isso, ele perguntou:
— E apenas por isso? Porque eu não posso lhe oferecer todo o luxo?
Como resposta ela ficou em silêncio. Fernanda não ousava dizer mais nada. Ela sabia que certamente se entregaria em sua mentira.
Como Fernanda não respondeu, Samuel continuou.
— O Emir sentirá sua falta... Não quer se despedir?
Ela virou de frente para ele e com seriedade falou:
— É melhor assim. Adeus Samuel. Seja feliz!
Fernanda desceu a escada em direção a rua. Ela sabia que seria a última vez, por isso antes de ir embora olhou para trás. Uma tristeza tomou conta dela e não pode mais conter as lágrimas. Minutos atrás se manteve firme, mas agora não tinha mais motivos para isso.
Ela entrou no carro e pediu ao motorista que partissem. Enquanto o veículo se distanciava, ela olhou para trás. Naquele momento estava perdendo a chance de começar novamente. Ela riu limpando o rosto. Como era boba. Porque não percebeu antes aquele sentimento? Porque não percebeu antes, que amava aquele simples motorista? A pessoa que havia lhe devolvido o sorriso e a esperança do amor.
Em casa, ela encontrou com Sandra que ao vê-la constatou que algo tinha acontecido. Antes que ela perguntasse, Fernanda a abraçou e deixou as emoções fluírem.
— Acabou... Acabou Sandra. — ela disse entre lágrimas.
A amável senhora apenas a abraçou. Era tudo o que poderia fazer naquele momento.
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