Jornada Para Erebor
11 Pé na estrada
Notas iniciais
Se Anna achava que a busca por Erebor ia ser algum tipo de “road trip”, igual a um desses filmes tipo “pé na estrada”, ela estava muito enganada. Era bem verdade que agora ela estava no seu próprio pônei (junto com alguns potes de cozinha e provisões), tinha uma trouxa de roupas só suas e os presentes de Dona Edna. Ela descobriu depois que entre as roupas estava um pente rudimentar de madeira, e que uma das roupas era um vestido simples, com dois laços grandes.
Mas era uma vida dura. Primeiro porque assim que saíram da Curva do Rio, uma chuva incessante caiu durante dois dias inteiros, arrasando os ânimos da companhia inteira. Dormir ao relento já não era fácil, mas sem arranjar um lugar seco e sem poder fazer fogo era ainda pior.
Anna sempre era voluntária para ajudar Bombur com as refeições, já que Bilbo estava na escala da guarda noturna, coisa que ela não podia fazer. Além de não saber se defender, ela não tinha nem sabia usar qualquer tipo de arma que eles tinham: machados, alabardas, manguais, espadas, clavas, lanças... O Sr. Dwalin tinha tentado explicar algumas noções de defesa pessoal, mas ela logo notou que, se precisasse se defender, o melhor a fazer era tirar vantagem de seu corpo pequeno e ágil para fugir e se esquivar de golpes. Portanto, todos os dias de manhã ela se dedicava a um pouco de alongamento e tai chi chuan.
Aquilo atraiu as atenções.
Os anões ficaram muito interessados em saber que tipo de prática de guerra era aquela, e Anna teve que explicar que a maior parte dos exercícios era um método de condicionamento físico. Fora de forma, Anna precisava dos exercícios para aguentar a cavalgada e caminhada durante o dia e ter uma boa noite de sono.
A noite era a hora do dia mais temida. Ela não parava de ter pesadelos com orcs, e mesmo que não acordasse à noite, ela sentia Bilbo chegando perto dela, e o toque dele era capaz de fazer seu padrão de sono mudar para parar de gritar. Ela não sabia se ainda gritava à noite, mas quando acordava com os próprios gritos pedia mil desculpas.
Fora a chuva, os primeiros dias não foram tão ruins. Gandalf era sua melhor companhia, e Bilbo lhe dava conforto, sempre solícito e cavalheiro. A relação com Thorin não tinha melhorado (era um anão desconfiado, que sempre estava de olho nela quando achava que ela estava distraída), e embora ninguém a tratasse mal, ela sentia que era tratada de maneira diferente. Afinal, ela era considerada incapaz.
Anna se sentia muito insegura e assustada, em especial, com Thorin, que constantemente a vigiava. Ela se desesperava em se mostrar útil, apenas para evitar o olhar severo dele. Era um olhar que tinha uma parte de irritação, outra de pura frustração, como se Anna existisse apenas para tornar a jornada deles ainda mais difícil. Ela jamais tinha se sentido tão intimidada antes e lembrou-se dos chefes chatos com quem tinha trabalhado.
Quando o tempo melhorou, Anna manteve sua política de ser útil em tudo que pudesse, especialmente durante o preparo das refeições. Ajudou a recolher gravetos, ajudada por Bilbo. Depois, por pura curiosidade, ela abordou Óin bem na hora que ele se preparava para acender o fogo.
— Sr. Óin? — Ela se aproximou timidamente.
O anão se virou:
— Sim, menina?
— O senhor se incomoda de me mostrar como se acende o fogo?
Ele se espantou:
— Vocês não têm fogo lá na sua terra?
— Sim, mas usamos fósforos. Aqui vocês não têm isso, então provavelmente usam fricção de pedras ou madeira.
— Fó o quê?
Anna deu de ombros.
— Não é importante. Não quero atrapalhar.
Óin a olhou e algo nele pareceu inspirar compaixão. Ele suspirou, dizendo:
— Sente-se aqui. Deixe eu lhe mostrar. — Anna obedeceu, animada. — Começa com a escolha do local para a fogueira: de preferência, deve ser plano e seco. É bom cercar com pedras ou cavar um buraco no chão. Depois, temos que fazer o fogo. Precisamos de lenha, gravetos e algum matinho seco.
Anna comentou:
— Eu tenho ajudado a recolher gravetos e mato seco, mas não consigo cortar lenha.
— Deixe meu irmão Glóin cortar lenha, pois ele é muito bom com um machado. — Óin tirou uma caixinha de metal do bolso e abriu, tirando três objetos. — Isso é uma pederneira. Essa pedra é para fazer faísca, mas para isso é preciso o metal. O fogo vem esfregando essa pedra e o metal, para pegar fogo num pedaço de pano. Com cuidado, deve usar o fogo do pano para pôr fogo no matinho seco. O mato seco vai dar fogo aos gravetos, que vão dar fogo à lenha.
— E precisa tudo isso de lenha? — Anna indagou. — Sempre vejo Bifur, Balin e Dwalin trazerem uma quantidade muito grande.
— É questão de proteção, mocinha — explicou Óin, paciente. — Se a lenha acabar no meio da noite e for preciso cortar, é um risco aos perigos: animais, orcs, você sabe. Você tem que sempre ter lenha suficiente, e isso depende do dia: se está frio, úmido, essas coisas. Além do mais, é preciso estar sempre de olho no fogo, por isso Bombur está encarregado da comida: não dá para fazer os dois ao mesmo tempo. Uma vez pronto o fogo, fazemos o apoio para a panela — esse tripé que você conhece, ou um tronco atravessado como espeto. Daí para frente, é com Bombur.
— Puxa... — disse Anna, admirada. — Nunca fui de acampar, e pensei que para fazer fogo só era preciso ter fósforos e álcool. Como sou boba!
Óin estava curioso:
— O que é esse fófo que você tanto fala?
— Fósforos — corrigiu Anna. — Na minha terra, tem umas caixinhas com uns palitinhos de madeira bem pequenos. Na ponta desses palitos, tem uma espécie de pederneira, que queima só um pouquinho, mas é o suficiente para acender um fogo, se tiver gás ou muito álcool. — Anna procurou explicar. — Já notou que se você colocar fogo no hidromel ou no vinho, ele pode pegar fogo?
— Verdade — concordou Óin.
— Então, na minha terra tem gente que usa álcool para ajudar o fogo a pegar mais rápido.
Óin incentivou:
— Tente usar a pederneira. Precisa bater a pedra para ela soltar faísca. Vamos, tente.
Meio sem jeito, Anna obedeceu, com incentivo dele. O metal era curvo, parecendo uma letra “D” maiúscula. Anna pôs os dedos ali para firmar e conseguiu produzir faísca, embora não conseguisse fazer o pedaço de juta pegar fogo. Ela até soltou um gritinho de alegria, como se fosse uma menina pequena com um brinquedo novo. Oin riu-se:
— Ho, ho, muito bom! Com prática, poderá tentar acender o fogo sozinha. Talvez até possa ter sua própria pederneira.
Anna parecia mesmo uma criança:
— Vou tentar treinar, Mestre Óin!
O velho anão sorriu para ela, genuinamente encantado que ela estivesse fascinada com algo tão prosaico como acender fogo.
Quando Anna se virou, notou que praticamente toda a Companhia estava parada, observando o diálogo entre Óin e ela. Anna imediatamente avermelhou-se, constrangida.
— Fiz algo errado? Desculpe, eu não conheço seus costumes.
Bilbo sorriu e tentou acalmá-la.
— Está tudo bem, Anna. É que este é um costume corriqueiro em nosso mundo. Até crianças sabem acender um fogo.
Kíli sorriu, mas estava achando muito engraçado:
— Dona Anna, isso é muito incomum!
Fíli concordou:
— É verdade. Nunca conhecemos ninguém como a senhora.
Dori disse:
— Deixem disso, garotos. Estão deixando Dona Anna desconfortável.
Nori se ofereceu:
— Se quiser, Dona Anna, posso fazer uma pederneira para a senhora na primeira oportunidade.
Anna ainda estava vermelha quando respondeu:
— Isso é muito gentil, Nori. Obrigada.
A animação foi cortada na raiz com a intervenção de Thorin, que lembrou, ríspido:
— Muito bom, e agora, se a novidade tiver terminado, vamos deixar Bombur fazer o jantar. O dia foi longo e estamos todos com fome.
Todos voltaram a ficar sério e se dispersaram. Anna ficou mais uma vez com a sensação de que Thorin a considerava um estorvo. Gandalf, que tinha ido até o córrego, voltou nesse momento, dizendo:
— Se alguém quiser tomar banho, é bom se apressar. A luz não vai durar muito.
Anna aproveitou para se levantar, dizendo:
— Boa ideia, Gandalf. Não precisam me esperar.
Saiu em busca de sua trouxinha de roupas, e Bofur lembrou:
— Não demore, ou não vai sobrar muita coisa!
Anna não se importava. Thorin parecia azedo, e o melhor era manter distância dele antes que ela tivesse que ouvir mais palavras ríspidas do líder da companhia.
A coisa piorou ainda mais quando, no dia seguinte, durante um trecho em que os pôneis pareciam nervosos, ela não conseguiu controlar o seu animal. Resultado: o pônei desembestou, o pote de comida que ele levava se espatifou numa pedra e parte das provisões se perdeu. Anna se agarrou às rédeas, tentando fazer a montaria parar, mas estava tão apavorada que não conseguiu evitar que o pônei se embrenhasse mata adentro.
— Socorro!
Thorin, Kíli, Fíli, Gandalf e Bofur dispararam com seus animais para tentar ajuda-la. Após alguns minutos de perseguição, eles cercaram o pônei, que se assustou tanto que subitamente estacou. Anna foi jogada para fora da sela.
— Ohhh!
Ela rolou numa colina abaixo, numa área próxima à encosta da montanha, sentindo a pele se ralando no chão irregular. Thorin foi o primeiro a chegar até ela. Anna tentava se levantar, envergonhada.
— Estou bem, estou bem. E o pônei?
Thorin ignorou a pergunta e apontou para as pernas dela, expostas pela calça curta que usava:
— Está sangrando. Os braços também. Óin tem um unguento.
Preocupada em não ser um fardo, especialmente para Thorin, ela disfarçou a dor, garantindo:
— Não foi nada. Vou lavar o ferimento e o sangramento vai parar.
— Deixe Óin dar uma olhada.
Anna ia responder quando os demais chegaram, correndo. Gandalf se ajoelhou:
— Machucou?
— Não foi nada — disse Anna.
— Ela sangra — redarguiu Thorin. — Não parece fundo, felizmente. Óin deve ter algum unguento.
— Não é nada, mesmo — ela repetiu, envergonhada.
Puxando o pônei, Bofur garantiu:
— Myrtle está bem, também. Só perdemos uma panela e um pouco de grão.
Kíli tentou ser otimista:
— Melhor do que perder um hobbit.
Thorin comentou, azedo:
— Esse hobbit está perdido desde antes de se juntar a nós. Nunca deveria ter vindo. Não é um de nós.
Aquilo doeu em Anna mais do que ela gostaria de admitir, mas ela nada respondeu. Gandalf repreendeu:
— Thorin…!
Ele ignorou também o mago e encarou Anna duramente, enquanto ela também o encarava, tentando controlar as lágrimas que tentavam escapar de seus olhos. Sem mais dizer, Thorin voltou para junto dos outros.
Anna foi para o lado oposto. Gandalf quis saber:
— Para onde vai?
— Para o rio! — respondeu ela, sem se virar, a passos duros, as lágrimas já caindo. — Preciso limpar o ferimento.
Cega pela dor da rejeição e pela vergonha, Anna não viu Gandalf indo furiosamente atrás de Thorin, ou Bilbo correndo atrás dela. Ela engoliu os soluços e rasgou um pedaço da manga da camisa para molhar e começar a lavar os arranhões. Havia lama e pedregulhos, devido à chuva dos dias anteriores. Ardia muito.
— Precisa de ajuda?
Anna encarou Bilbo, sem tempo de esconder as lágrimas. Ela deu de ombros.
— Está tudo sob controle.
— Não está, posso ver — disse ele, gentil, sentando-se ao lado dela. — Mas não leve Thorin tão a sério.
— Ele até tem razão — admitiu ela, ainda chorando. — Aqui não é o meu lugar. Mas não é como se eu tivesse pedido para vir cair num mundo desconhecido, centenas de anos atrás, no meio da saga para retomar Erebor e ainda com um dragão no meio!
Ela suspirou, nervosa. Bilbo tentou dizer, ajudando a limpar:
— Tente não pensar nisso. Vamos voltar. O ferimento já deve estar limpo o suficiente para Óin usar um unguento.
Voltaram para junto dos outros, e ficaram sabendo que eles acampariam ali aquela noite, pois o anoitecer não tardava. Gandalf tinha saído após uma discussão com Thorin, segundo Bofur, e não se sabia quando voltava.
Aquela circunstância agradava muito Anna. O sumiço de Gandalf parecia um sinal para ela colocar em ação o plano que tinha elaborado.
Anna estava com uma grande dor no coração, mas ajudou a preparar a refeição normalmente, sendo gentil com todos, como sempre. Após a refeição, Anna sentou-se ao lado de Glóin, que animadamente mostrou o medalhão com os retratos da mulher e do filho Gimli.
Na verdade, Anna mal escutava o animado anão. As duras palavras de Thorin haviam tocado num ponto fundamental, e ela precisava ter coragem suficiente para ser adulta e encarar a situação de maneira lógica e racional.
Com isso em mente, quando a noite já era alta e todos dormiam, Anna silenciosamente pegou a trouxinha com suas coisas, enrolou a manta de dormir e colocou às costas, ouvindo o ronco coletivo dos anões. Bilbo estava de guarda, então não estava ao lado dela. Era justamente o que ela queria.
Esgueirando-se entre os companheiros, ela procurou fazer o mínimo de barulho possível para atravessar o acampamento. Tinha quase conseguido, quando ouviu a voz de Bilbo, alarmada, a cochichar:
— Ei! Onde pensa que está indo?
Ela simplesmente pediu, em voz baixa:
— Volte para a guarda, Bilbo.
Ele notou:
— Por que está levando suas coisas? Para onde vai?
Anna disse, baixinho:
— Vou voltar para a Curva do Rio.
— O quê? Não, não! Não pode nos abandonar assim: você é parte do grupo!
Anna retrucou:
— Só que eu não sou. Não sou um de vocês. Não pertenço a esse grupo. Thorin disse isso, e ele tem razão. Nunca deveria ter vindo. Eu só vou atrasar vocês.
— Não! Não diga isso! — O pobre hobbit começou a se agitar. — Olhe, você está com saudades de sua casa, só isso. Eu sei como é. Também sinto falta de minha toca em Bag End.
— Não, você não entende. Nenhum de vocês me entende. Você tem sua toca quentinha, eles sonham em retomar a montanha. Eu não tenho nenhum lugar, nem ninguém. Meu lar nem existe! — Ela se espantou ao ver duas lágrimas caindo. — E eu posso estar ameaçando o sucesso da missão de todos vocês. É melhor eu ir embora.
Bilbo insistiu, mortificado:
— Anna, não! Por favor.
Ela disse:
— Thorin está certo: eu nunca deveria ter vindo. Estou totalmente perdida. Vou voltar para a Curva do Rio. Dona Edna vai me contratar como cozinheira, tenho certeza.
Bilbo indagou:
— Você não percebeu, não é?
— Percebi o quê?
— Thorin se preocupa com você. Ele quer protegê-la a todo custo.
Anna revirou os olhos.
— Ah, claro. É o dever do nobre príncipe. Então isso dá o direito a ele de humilhar todo mundo na sua frente?
— Por Eru, você não percebeu mesmo. — Bilbo estava rindo. — Ele está furioso consigo mesmo. Por isso está tão agressivo.
— Como é?
Bilbo respondeu:
— Anna, ele não sabe direito como agir com você. Não quer ser descortês, porque ele a trata como uma dama, mas você não faz o tipo de dama que ele conhece. Ele está determinado a não deixar que nada aconteça a você. Ele pediu a todos da companhia que sempre a protejam, todo o tempo. E ele disse sem rodeios que eu vou responder pessoalmente qualquer coisa que aconteça com você. Ele me designou como seu protetor pessoal.
— O quê?
— Portanto, se você sumir, Thorin vai me esfolar, e não estou dizendo isso de maneira figurada. Ele também pediu que eu não lhe dissesse nada, por isso agradeceria se não mencionasse.
Ela ainda estava ofendida:
— Thorin acha que eu preciso de uma babá, é isso?
— Bom, quando você coloca a coisa assim…
Anna certamente ia dizer mais sobre o caso, mas foi interrompida por um barulho alto, muito próximo, como se uma árvore tivesse caído. Bilbo fez sinal a ela para que se calasse e se escondesse, e Anna foi para trás de uma árvore.
Foi bem a tempo para ver uma sombra gigantesca cair sobre o acampamento onde os anões dormiam. Tudo foi muito rápido, na verdade.
A sombra transformou-se numa criatura de uns seis metros de altura, que entrou no acampamento. Anna gritou, mesmo escondida. Thorin ergueu-se de um salto, gritando:
— Acordem! Acordem!
A confusão estava formada, quando Anna viu a criatura gigantesca ser acompanhada por outros dois monstros iguais a eles, os anões tentando pegar as armas, gritando:
— Às armas! Troll! Troll! Du bekâr!
Kíli atirou flechas, Ori usou o estilingue para jogar pedras, Bilbo usou a espada para atingir os calcanhares deles. Anna continuava escondida atrás de uma árvore, petrificada de pavor, o coração acelerado.
O problema é que não demorou mais de cinco minutos para os trolls pegarem todos os anões (e Bilbo), um a um, e irem colocando em sacos, fechando-os com nós apertados. Escondida, despercebida, Anna estava abismada. Ela se lembrava dessa parte no livro, embora não tivesse sido exatamente dessa maneira.
Anna também lembrava que, na narrativa original, Bilbo não tinha sido capturado, mas agora, diante de seus olhos, o primeiro a ser posto num dos sacos tinha sido exatamente o pequeno hobbit. Como no livro, os três trolls acenderam uma grande fogueira e começaram a discutir a melhor maneira de preparar os anões para virar refeição.
— Podemos amassar um a um e fazer deles um tipo de pasta ou geleia — sugeriu um.
— Assado é melhor.
— Assado ontem, assado hoje — reclamou o outro, enfadado. — Por que não tentamos fazer uma torta de anões?
— Basta colocar um pouco de sálvia no assado — garantiu o cozinheiro.
Anna se lembrou subitamente da maneira como os anões tinham sido salvos de ir para o espeto dos três trolls. E achou que estava na hora de ajudar os amigos.
Com dificuldade, subiu numa árvore próxima, tendo cuidado de permanecer escondida. Então, quando achou seguro, tomou fôlego e gritou, disfarçando a voz:
— Anões no espeto, que desperdício! Com pele e tudo, que desperdício.
Um troll quis saber:
— Por que fala em desperdício, Tom?
— O quê?
— Você disse que os anões estão com pele, e isso é desperdício. Por quê? Precisa tirar a pele?
O troll estava confuso:
— Por que precisa tirar a pele?
— Para cozinhar os anões!
— Bom, se você insiste em tirar a pele para cozinhar os anões, vá em frente. Não há nada de errado com anões com pele e tudo.
Anna gritou de novo, disfarçando a voz:
— Podia ficar macio e delicioso! Sem pele, eles derretem na boca!
O troll cozinheiro pareceu gostar da ideia.
— Hum, anão macio é bom mesmo. Bem melhor do que assado. Boa ideia, Bert.
O outro troll discordou:
— Mas eu prefiro que eles estejam crocantes! Faz um barulhinho gostoso, e eles ficam suculentos!
De cima da árvore, Anna pôde localizar os primeiros indícios da aurora. Esse era o segredo para salvar a companhia: trolls não podiam ficar expostos à luz do dia, ou então viravam pedra. Ela só tinha que manter os anões vivos até o sol chegar.
Portanto, Anna insistiu em distrair os trolls e provocar a discórdia:
— Seu burro! Anões são muito duros. Se ficarem crocantes, eles podem quebrar os dentes!
— Quebrar dentes?
— Eu não quero ficar com dentes quebrados!
— Então tem que tirar as peles dos anões primeiro! — insistiu Anna. — E você já viu como estão cheirando? Vai precisar usar algo mais forte do que sálvia.
— Quer parar de me dizer como devo cozinhar minha comida, Tom?
— Mas eu não disse nada, Will!
O troll parecia magoado.
— Vocês poderiam ser mais agradecidos. Todos os dias eu trago boas comidas. Primeiro foram os fazendeiros, depois os carneiros, e os cavalos dos fazendeiros. Agora eu trago anões. E ainda tem os pôneis desses anões.
Um troll reclamou:
— Pôneis têm muito osso e pouca carne. Os anões estão mais saborosos.
Anna gritou:
— Está falando mal da minha comida de novo!
— Mas eu não disse nada!
— Nem eu — disse o outro toll, desconfiado. — Isso está estranho. Alguma coisa aqui não está certa.
Alarmada, Anna resolveu se calar, pois os três começaram a olhar em volta, percebendo alguma coisa errada. Um dos trolls abriu um saco e perguntou ao anão dentro do saco:
— Você viu alguma coisa estranha?
Kíli, esquentado, respondeu:
— Seu imbecil, eu estava dentro de um saco! Como posso ter visto alguma coisa com a cabeça coberta?
O troll considerou a resposta muito inteligente e fechou o saco, apesar dos protestos de Kíli. Anna sabia que, se insistisse em procurar, o troll acabaria por achá-la.
Era preciso ganhar mais tempo.
De cima da árvore, ela viu que estava próxima a um tipo de bolota, como uma noz ou avelã. Com cuidado, ela colheu a bolota e jogou ruidosamente o mais longe que pôde.
Felizmente, o barulho chamou a atenção dos trolls.
— O que foi isso?
— Tem alguém ali.
— Vão ver isso logo. A manhã não tarda. Eu não quero virar pedra.
Anna gelou ao ouvir aquilo. Ela esperava conseguir distraí-los tempo suficiente para o sol se levantar sem que eles percebessem.
Os dois trolls foram na direção do barulho. Anna olhou em volta, tentando descobrir uma nova maneira de distraí-los. Faltava tão pouco!...
Então ela viu um movimento furtivo entre as árvores. Esticando o pescoço para não revelar onde estava, ela detectou o chapéu pontudo do mago. Gandalf estava de volta.
Os dois trolls voltaram para junto do cozinheiro.
— Não tem nada ali.
— Vamos comer logo! Estou com fome!
Neste exato momento, Gandalf se mostrou, posicionado em cima de uma pedra, com o cajado erguido.
— Soltem os seus prisioneiros!
O troll apontou para ele.
— Quem é esse?
O cozinheiro se animou:
— Não sei, mas é carne de homem! Melhor do que de anão!
A voz de Gandalf se avolumou, quando ele pronunciou um encantamento — um que arrepiou Anna:
— A luz os levará a todos!
E fez o cajado quebrar a pedra, revelando o sol nascente diretamente nos trolls. Eles ainda tentaram se esconder, mas era tarde demais. Instantaneamente foram transformados em pedra. O mago olhou para cima, bem para onde ela estava.
— Muito esperto de sua parte, Anni Bolger — elogiou ele, sorrindo. — Gostaria de ajuda para descer?
Ela confessou, aliviada:
— Oh, Gandalf, você é uma visão e tanto para mim. Por favor, me ajude.
Anna passou para um galho mais baixo, e ele a ajudou a chegar até o chão. Ela correu para os sacos. Logo uns estavam abrindo os sacos dos outros, até que todos os anões estavam soltos e, aparentemente, bem.
Thorin comentou:
— Apareceu bem na hora, Gandalf. Por um minuto, pensei que fôssemos virar assado de troll com sálvia.
— Está agradecendo à pessoa errada, Thorin — corrigiu o mago. — Minha participação nesse episódio foi muito pequena. Nosso pequeno hobbit, Anni Bolger, foi o verdadeiro herói. Ele ganhou tempo, confundindo os trolls até que a luz do sol os transformasse em pedra. Muito esperto.
Todos os olhares se voltaram para ela. Os anões começaram a cochichar e a comentar o fato, principalmente por que Óin, irmão de Glóin, não ouvia bem e vivia perguntando o que estavam dizendo.
Anna enrubesceu. Bilbo chegou perto e indagou:
— Isso é verdade? Eu ouvi a discussão entre os trolls. Era você?
Ela deu de ombros:
— Trolls são muito burros, pelo que sei. Confundi-los não foi tão difícil. Só o que eu precisava fazer era ganhar tempo até o sol nascer.
Gandalf lembrou:
— Mas nenhum de vocês pensou nisso.
Bofur gritou:
— Nosso menor hobbit acaba de salvar a gente, pessoal! Três hurras!
Eles gritaram, deixando Anna ainda mais constrangida, mas pelo menos ela estava alegre. Ela tinha feito algo pela companhia, o que era muito importante.
Thorin chegou perto dela.
— Em nome de toda a companhia, agradeço pelo que fez. — Ele a interrompeu antes que ela tentasse protestar, e disse suavemente: — Ainda assim, gostaria de pedir que jamais tente fugir de novo.
Anna arregalou os olhos. Ele sabia!
— Você... ouviu?
Thorin assentiu, contrito e solene:
— Lamento pela dor que minhas palavras lhe causaram, pequena. Se quiser partir, é livre para ir, mas toda a companhia ficará triste sem você.
Anna enrubesceu, dizendo:
— Estou envergonhada. Mas agradeço suas palavras, Thorin Oakenshield. E não deixarei a companhia, a menos que me peça.
Gandalf sorriu com o diálogo, e Anna olhou em volta, encarando os monstros de pedra com um arrepio. Ela sussurrou, de olho no gigante:
— Nunca tinha visto um desses...
Gandalf ponderou:
— Trolls não andam de dia e estão longe das montanhas. De onde podem ter vindo?
Thorin sugeriu:
— Deve haver uma caverna por aqui. Como a que encontramos Anna.
Ela estremeceu, as lembranças ocorrendo subitamente na cabeça. Foi numa caverna de troll que Azog a prendera e a machucara. Ela não teve certeza se Thorin percebeu sua reação, mas ele ordenou:
— Bilbo, você e Anna vão inspecionar os pôneis. Ori, vá com eles. Dwalin, verifique o perímetro. Leve Bifur e Bofur com você. Kíli, Fíli, venham comigo.
O grupo se dispersou em direções diferentes. Ori acompanhou Bilbo e Anna.
— Muito obrigado pelo que fez com os trolls, Anni! — disse o jovem Ori, com admiração. — Não sabia que hobbits eram tão espertos!
Anna brincou:
— Acho que é mal de família. Nós, Baggins, somos espertos, não somos, tio?
Bilbo a encarou, sorrindo, e Ori percebeu a brincadeira. Eles foram até os pôneis, que continuavam assustados. Acalmar os pôneis também fez bem a Anna.
O grupo ficou naquele local algumas horas, tempo para preparar um desjejum enquanto os outros procuravam a caverna de trolls.
E acharam. Desta vez, além de armas élficas, eles voltaram com um barril de cerveja. A descoberta foi recebida ruidosamente.
— A cerveja ainda está boa — garantiu Fíli. — Não foi feita por aqueles trolls.
— Não há como saber de onde roubaram — disse Gandalf. — Mas a caverna foi ocupada recentemente. Quase não cheirava.
Kíli deduziu:
— Então eles andaram atacando elfos também. Havia armas de elfos e orcs.
Anna repetiu, baixinho:
— Orcs?
Thorin decidiu:
— Levantamos acampamento logo depois de comer. Dwalin, você conhece essas partes, você diz o caminho.
Gandalf sugeriu:
— Não estamos longe do Vale Oculto.
Thorin fechou a cara.
— Já disse que não chego nem perto daquele lugar.
Anna sentiu o clima pesando, e resolveu ficar calada. Obviamente, seja lá o que fosse aquilo, já havia sido alvo de discussões anteriores entre Gandalf e Thorin.
Apesar disso, a refeição foi prazerosa e descontraída, e os anões não se cansavam de comentar a façanha do pequeno hobbit. Anna estava mais do que surpresa com a reação de todos, e Bilbo divertiu-se com a reação dela.
O dia estava bem avançado quando eles retomaram a marcha rumo às Montanhas Sombrias.
Palavras em Khuzdul:
Du bekâr = às armas
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