Jornada Para Erebor

15 Primeiro a noite, depois a alvorada


Notas iniciais
Após muita reflexão, Thorin toma uma atitude surpreendente

Sim, a noite foi longa. Não demorou para Thorin Oakenshield ouvir os roncos dos companheiros. Felizmente, a noite estava quente, e ele pôde se dedicar a cuidar de Anna. E a pensar no quanto aquela pequena fazia seu sangue ferver.

Em toda sua vida, Thorin jamais tivera um pensamento daquele tipo. Não que ele rejeitasse a ideia de ter uma amante ou que jamais tivesse conhecido os prazeres sensuais. Mas ele geralmente estava ocupado demais, tentando construir uma vida melhor para seu povo, tentando guiar os anões de Erebor a uma vida de paz e prosperidade em Ered Luin. Thorin passara por tantas desventuras, guerras, fome, perdas. Como se permitir viver um amor?

Tinha sido preciso a vinda de uma criatura incomum como Anna para despertar tal sentimento no anão já na sua maturidade. Thorin estava longe de ser velho, pelos padrões de sua raça, mas anões bem mais jovens que ele já tinham família — como sua irmã. Ele nunca tivera qualquer desses sentimentos que agora ameaçavam virar sua vida pelo avesso.

Raça longeva, anões tinham memória profunda, como as rochas. Seus sentimentos eram duradouros e inabaláveis. Se Thorin entregasse seu coração a Anna, sabia que seria para o resto de sua vida.

Até falar com o hobbit, porém, Thorin Oakenshield acreditava não ter a menor chance de ser correspondido. Afinal, o que era ele? Um anão sem pátria, rei sem trono, sem reino, sem coroa ou esperança. Nada podia oferecer àquela criatura que foi se tornando tão especial em sua vida. Anna operara muitas transformações em Thorin, sem que ele sentisse.

Primeiro, ele precisou vencer a própria desconfiança. Thorin tinha uma ponta de remorso ao se lembrar de como se comportara em relação a Anna, assim que ela chegara. Vivia vigiando seus movimentos, acompanhando-a de longe, esperando um ato de traição, um movimento suspeito.

Naquele primeiro dia ela se afastou para tomar banho, e ele a seguiu, antes que o sol raiasse. Thorin sabia que devia dar à moça privacidade, mas por algum motivo não conseguiu desviar os olhos dela quando tirou as roupas e revelou suas formas.

Não, aquele não era o corpo de uma mulher anã, com curvas generosas, seios fartos e muita carne. Anna era toda pequena, delicada, pele macia, com curvas suaves e cabelo tão fino quanto pétalas de uma flor. Longilínea, como se quisesse ser ainda mais comprida. Estreita, com uma cintura suave mas decididamente feminina. Thorin lembrou que tivera uma reação bem embaraçosa em seu corpo, agindo como se fosse um adolescente!...

Talvez tivesse sido ali, naquele instante muito pouco cavalheiresco, que Thorin dissolvera todas as desconfianças em relação a ela. Ao vê-la cuidando das próprias feridas, o rei anão percebera que ela não era uma ameaça a eles ou à fortuna de seu povo.

Depois, quando Anna revelara ser de um tempo futuro, Thorin se surpreendera. Ela sabia nomes, sabia fatos! Mas parecia totalmente desacostumada às coisas mais elementares: não sabia montar e morria de medo de praticamente tudo, mas jamais se queixara. Era a primeira a despertar, sempre sorria (até de si mesma), sempre oferecia ajuda e era difícil vê-la irritada. Ela não tolerava injustiças e tratava todos da companhia com respeito e cortesia. E se ela era teimosa e geniosa, bem, ele era a última pessoa que podia reclamar disso.

A princípio, Thorin imaginou que Anna despertasse nele o mesmo sentimento de proteção que tinha pelos filhos da irmã. Mas Fíli e Kíli cresceram fortes e espertos, não queriam nem precisavam de proteção. Anna, e até Bilbo Baggins, porém, eram diminutos, chegando a ser frágeis. Thorin se comprometera a protegê-los assim que se uniram à companhia.

Contudo, Anna era realmente surpreendente. Apesar do que passara nas mãos da escória orc, ela parecia forte e tão determinada quanto as mais ousadas mulheres de seu povo. Era admirável.

Pequena era ela, mas cheia de recursos. Thorin cada vez mais pensava nela com admiração, e recrutara os serviços do ladrão para ajudá-la.

Seria impossível dizer quando essa admiração virou afeição e, finalmente, desejo. Com seu temperamento destrambelhado, porém, Thorin quase a fizera deixar a companhia. Ele ficara tão assustado quando ela se machucara ao cair do pônei que gritara com ela. Ele viu a dor nos olhos claros como mel, e seu coração doeu por magoar tal criatura. Depois o mago gritara com ele, e os abandonara. Thorin ficou com a impressão que em vez de liderar aquela companhia, ele só piorava as coisas, desajeitado e inábil.

Naquela noite, Anna tentara fugir sem falar com ninguém. Felizmente Bilbo a confrontara. Ele ouvira todo o diálogo entre Bilbo e Anna. E a culpa era toda dele. Ela se sentira rejeitada, por isso quis ir embora. Naquela mesma noite, poucas horas depois de se sentir rejeitada, ela salvara a vida de toda a companhia, ao enganar três trolls da montanha.

E agora, isso. Anna se atirara contra um warg no mínimo três vezes maior que ela, para salvar sua vida. Thorin Oakenshield tinha muitas dívidas acumuladas em relação a ela.

A admiração de Thorin só crescia, bem como a feroz necessidade de protegê-la. Era como uma dor, mas era doce. O anão ainda estava confuso com todos esses sentimentos.

— Thorin.

Ele se virou, e viu os jovens Kíli e Fíli com expressões preocupadas.

— Como ela está? — quis saber Kíli.

— Ainda vai demorar a melhorar — respondeu ele. — Voltem a dormir.

— Não consigo dormir — disse Kíli. — Eu fico revendo o que aconteceu na minha mente, ainda sem acreditar.

Fíli concordou:

— Eu queria ter visto. Ela se jogou contra um warg? Ela é tão miúda!...

Thorin disse:

— Essa pequena é uma grande adição à companhia. Devemos todos honrá-la pelas repetidas demonstrações de lealdade.

Kíli lembrou:

— E você tinha dúvidas sobre ela. — Fíli deu-lhe uma cotovelada e Kíli reclamou. — Ai! Por que você fez isso?

Thorin disse:

— Deixe, Fíli. Kíli tem razão. Eu nunca estive tão errado na minha vida.

— Ela lembra minha mãe.

— É! — concordou Kíli. — As duas gostam de gritar com você, tio.

Os dois rapazes sorriram, brincalhões. Thorin se permitiu um sorriso, concordando.

— Acho que Dís ia gostar dela.

— Nós também gostamos dela — garantiu Fíli, encarando Thorin. — Gostamos muito dela.

Thorin os encarou, tentando identificar o que queriam dizer com aquelas palavras. Mas se o rei sob a montanha pensou em fazer alguma pergunta a esse respeito, ficou na intenção, porque um barulho suave o distraiu.

— Thorin... — Era a moça, ainda inconsciente, lutando contra inimigos invisíveis. — Thorin...! Não...

Thorin chegou perto, pondo a mão na testa seca e quente. Fíli constatou:

— Ela delira.

Thorin umedeceu um pano com água fresca e colocou na testa dela. — A febre não parece ceder. Ajudem-me.

Com ajuda dos dois, Thorin tentou fazê-la beber um pouco de água. Também tentaram acordá-la. Mas Anna estava agitada e angustiada.

— Thorin, ela treme de frio — disse Kíli, angustiado. — O que vamos fazer?

Anna gemia, cada vez mais inquieta.

— Não... Orcs...! Thorin...! Cuidado...!

Bilbo levantou-se, já acostumado ao sono agitado de Anna. Ele indagou:

— Como ela está?

— Muito mal e piorando. — Kíli estava angustiado. — Devemos chamar Gandalf?

Fíli notou:

— Ela parece presa num pesadelo.

Bilbo comentou:

— Ela tem pesadelos o tempo todo. Mas tente abraçá-la para aquecê-la. Thorin, seu casaco também ajuda. Cuidado com os machucados.

Os três juntos conseguiram fazer Thorin se enfiar embaixo das cobertas com Anna, que aos poucos foi se acalmando nos braços do líder da expedição, sob muitos cobertores. Eventualmente, ela ainda balbuciava algumas palavras desconexas, que eles não conseguiam distinguir. Mas o nome de Thorin estava sempre em seus lábios.

Com gestos, Thorin assegurou a Bilbo, Fíli e Kíli que tudo estava sob controle. Os três voltaram a dormir, e Thorin não pôde evitar pensar que ele estava novamente com Anna em seus braços. Ele sentiu que queria muito ficar com ela assim, de preferência pelo resto dos seus dias.

Thorin lembrou que Bilbo insinuara haver chance de seu desejo se tornar realidade. Seria possível? Poderia ele se dar ao luxo de ter esperança? Thorin era velho demais para se iludir com promessas de amor, mas Anna o atraía como nenhuma outra mulher, anã ou não.

Com os pensamentos fixos nela, Thorin ajeitou a cabeça dela junto a seu peito, os braços a envolvê-la, e permitiu-se um sono leve durante algum tempo.

Mal imaginava ele que naquele exato momento, os pesadelos de Anna com trolls, orcs e wargs tinham sido substituídos por sonhos com uma ensolarada floresta de pinheiros.

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Quando o dia raiou, Thorin percebeu que a febre baixara e Anna suava. Deixou-a por um instante e chamou Óin, que saudou a notícia com otimismo. Segundo o curandeiro, isso era indicação que a febre cedera.

Realmente, Thorin notou que ela tinha acordado, e parecia mais consciente. Anna o encarava, ainda confusa.

— Thorin...?

— Bom-dia, Anna. — Ele a saudou. — Sente-se melhor?

— Acho que sim. Eu... Estou confusa. Que houve comigo?

— Febre muito alta e um ferimento que ninguém notou. Mas você está bem melhor agora.

Ela olhou em volta:

— Onde estamos?

— Rivendell. Gandalf e Óin cuidaram de você.

— E o resto da companhia?

— Estão todos bem. Descansando, como você deveria. Tem fome?

Ela fez uma careta.

— Na verdade, não.

— Mestre Óin não vai gostar de ouvir você falando assim. Devia se animar a tomar ao menos a sopa.

Anna se sentou com cuidado e ele lhe passou a tigela. Ela fez uma careta de dor e ele se ofereceu:

— Precisa de ajuda?

— Estou bem, obrigada. — Ela enrubesceu. — Não queria estar dando todo esse trabalho.

— Não se preocupe com isso. Você salvou minha vida – de novo.

Anna ficou decididamente vermelha. Thorin achou aquilo adorável.

— Desculpe ter gritado com você — disse ele. — Confesso ter ficado nervoso, e temo que meu temperamento tenha se revelado grosseiro com quem menos merecia. Você tem a minha gratidão.

De cabeça baixa, Anna deu de ombros.

— Você me salvou da morte certa antes e algo ainda pior. Só fiz o que achei certo.

Thorin garantiu:

— A companhia ficou impressionada. Kíli até agora tem dificuldade em acreditar no que viu.

Ela indagou:

— Você falou com Bilbo? Por favor, fale com ele. Quando você o trata mal, ele fica muito magoado.

Thorin sentiu uma ponta de ciúmes, mas disse apenas:

— Não se preocupe, eu já esclareci tudo com Bilbo. — Ele a encarou, o coração pesado. — Você gosta muito dele, não?

— Sim, é verdade. — Anna riu. — Ficamos tão ligados que comecei a pensar nele como meu tio de verdade.

Thorin sentiu o coração mais leve e repetiu:

— Ah. Um tio, então.

— É, como um parente querido, sabe? — Então ela se deu conta do que queria dizer, enrubescendo. — Oh, você queria dizer que eu... e Bilbo? Oh, não, não, nada disso.

"Mahal, ela está tão vermelha como uma flor das montanhas. E igualmente deslumbrante", pensou Thorin, embevecido.

Anna continuava:

— É tudo inocente. Eu jamais poderia...!

Num impulso, Thorin perguntou:

— Por que não poderia?

Ela parecia escandalizada.

— Thorin, uma coisa assim seria abusar de sua hospitalidade. Além disso, não seria correto. Seria inapropriado.

Thorin notou que Anna estava cada vez mais envergonhada. Normalmente ele já teria mudado de assunto, mas ele achava aquilo tão adorável que insistiu:

— Não sabia que Mestre Baggins tinha compromissos anteriores. Ou você.

— Não, eu não tenho. Ou Bilbo, até onde eu saiba. E você?

— Também não sei se Bilbo tem algum compromisso, como falei.

— Não, eu quis saber se você tem algum compromisso.

Thorin a encarou, o coração traiçoeiro acelerando-se ao ver o sorriso nervoso no rosto dela, que ela desesperadamente tentava disfarçar. "Ela é tão adorável", pensou ele.

— Não tenho nenhum compromisso — limitou-se a dizer.

— Verdade? — espantou-se ela. — Difícil acreditar que nenhuma princesa anã tenha sido prometida a você.

O comentário inocente provocou um sorriso nervoso em Thorin:

— É verdade. Não tenho compromisso – a menos que você queira um.

Anna o encarou, confusa:

— Como? Não entendi.

— Só terei um compromisso se você quiser ter um compromisso.

Ela ainda parecia não ter compreendido.

— Engraçado, acho que continuo sem entender.

Thorin teve que respirar fundo antes de ser bem claro:

— Perdoe-me. Estou tentando mostrar, de uma maneira desajeitada, admito, meu interesse em cortejar você.

Se antes Anna estava vermelha, agora ela parecia escarlate! Num reflexo, ela abaixou a cabeça e pôs a tigela da sopa de lado.

— Oh— Oh. Puxa, eu... Nossa!...

Thorin sentiu um pouco do coração se quebrar. Anna parecia tão surpresa, talvez Bilbo tivesse sido otimista demais. Estava claro que ela não pensava nele dessa maneira.

Um clima embaraçoso começava a se formar. Thorin tentou disfarçar a decepção e a dor de seu coração.

— Vejo que eu lhe trouxe desconforto. Por favor, perdoe-me se eu a desagradei. Não falaremos mais sobre isso jamais.

Ela se apressou em dizer:

— Não, por favor! Quero dizer, só estou surpresa, eu não quis dizer que me ofendi... Desculpe, eu não sou boa nessas coisas.

— Confesso minha inabilidade também.

— Mas fico honrada com suas palavras. Elas não me trouxeram desconforto. Nem me desagradaram. Pelo contrário. — Ela sorriu, tímida. — Só que eu não sei direito o que dizer.

O peso no coração de Thorin aliviou, e ele achou melhor uma solução intermediária:

— De qualquer forma, talvez seja melhor mesmo deixar esse assunto para uma hora mais conveniente, quando estiver melhor. Combinado?

Ela abriu um sorriso que parecia iluminar todo o ambiente.

— Combinado. Obrigada.

Thorin apenas meneou a cabeça, e uma voz aliviada se ouviu atrás deles:

— Por Eru, você acordou! Que bom! Como se sente?

Anna se iluminou ainda mais com a alegria de ver o hobbit.

— Muito melhor, Bilbo, obrigada.

— Todos vão ficar muito felizes quando voltarem do desjejum — garantiu o hobbit. — Ficamos muito preocupados.

— São muito gentis. Thorin me trouxe sopa.

— E vejo que tomou tudo. Muito bem!

Foi a vez de Gandalf se juntar ao grupo.

— Bom-dia a todos — saudou o mago. — Vejo que nossa amiga está bem melhor. Excelente! Lord Elrond ficará satisfeito.

Anna lamentou, mortificada:

— Estou dando trabalho a alguém importante como ele!

— Não pense nisso — disse Gandalf. — Lord Elrond e seu remédio foram fundamentais na sua recuperação, e ele fez com prazer, garanto. Agora é melhor ver esses curativos.

Thorin se ergueu, dizendo:

— Melhor ver como andam os pôneis.

— Não vá longe — pediu Gandalf. — Elrond passará o dia reforçando as fronteiras, mas gostaria que estivesse presente ao jantar.

A perspectiva de jantar com elfos quase foi suficiente para azedar o dia de Thorin.

Mas ele se lembrou da conversa com Anna e preferiu se concentrar naquilo.