Jornada Para Erebor
44 Nunca cutuque um dragão adormecido
Notas iniciais
Assim que saíram do túnel, Anna e Bilbo foram recebidos com agitação pelos anões. Ela caiu no chão, exausta, e Bilbo gritou:
— Óin, um unguento!
Thorin quis saber:
— Por Mahal, o que aconteceu?
Anna respondeu:
— Smaug colocou o focinho no túnel. As queimaduras são superficiais.
Bofur indagou:
— O que aconteceu?
— O dragão estava me esperando — respondeu Bilbo. — Não está nada satisfeito por eu ter levado a taça, posso garantir.
Fíli arregalou os olhos:
— Ele falou com o senhor, Mestre Baggins?
— Sim, se você quer dizer que ele se vangloriou. Smaug não acredita que seja capaz de ser derrotado, mas eu vi no lado esquerdo de seu peito um local vulnerável.
Balin ficou animado:
— Essa pode ser nossa saída para derrotá-lo.
Dwalin acompanhava o relato de Bilbo, mas estava de olho no tratamento que Óin dava a Anna, comentando:
— Verme maldito. Fez um estrago grande no cabelo de Dona Anna.
Houve lamentos generalizados, e Anna indagou, tentando tocar:
— Meu cabelo?
Dori aproximou-se e examinou os suaves cachos, dizendo, desanimado:
— Os fios estão tão ressecados que estão se desfazendo, pequena. Que desgraça...
Kíli estava curioso:
— Como o nosso ladrão escapou da fúria de Smaug com bem menos danos?
Anna disse:
— Acho que eu estava mais atrás dele. Não fui rápida o bastante para fugir da fera.
A voz de Thorin soou grave e definitiva ao se dirigir diretamente a Anna:
— Você não vai novamente àquele túnel. Eu a proíbo.
Anna garantiu, trêmula:
— Não será necessário proibir. Eu não quero chegar perto daquele monstro de novo. Aquele dragão não está para brincadeiras.
Dwalin perguntou a Bilbo:
— Conte-nos mais! O que aconteceu?
Bilbo relatou o que conversaram, e como tentou enganá-lo. Os anões até gostaram dos títulos que ele arranjou, mas naquele momento Bilbo começava a se arrepender do que dissera.
— Smaug sabe que viemos da Cidade do Lago, ou que tivemos ajuda de lá. Temo que ele vá se vingar deles. Oh, como eu gostaria de não ter mencionado barris!
Dori tentou consolá-lo:
— Não havia jeito de evitar. Isso acontece quando se lida com um dragão esperto como Smaug.
Bilbo estava apavorado:
— Vocês não têm noção! Ele sabe que estamos aqui, devorou seis pôneis e está disposto a nos caçar por toda montanha! Agora que ele sabe onde fica o túnel, vai tentar nos pegar aqui fora.
Thorin decidiu:
— Já que ele é muito grande para passar pelo túnel, é lá que devemos nos refugiar. Bombur, Glóin, Nori: comecem a recolher tudo que puderem para dentro, especialmente provisões. Não sabemos quanto tempo teremos que ficar por lá. Óin, como Anna está?
O velho anão respondeu:
— Meio nervosa, eu diria, como era de se esperar. Mas as queimaduras foram superficiais.
Anna reclamou:
— Eu estou bem! Só um pouco... chamuscada.
Thorin a abraçou:
— Oh, minha pequena. Você é minha joia mais preciosa. Eu só quero protegê-la.
Anna tremia quando disse:
— Acredite, Thorin: vou fazer o impossível para evitar que Smaug me queime de novo.
Thorin beijou o topo da cabeça dela. Anna fechou os olhos, desejando congelar a sensação de segurança e aconchego que ele proporcionava naquele momento.
Afinal, podia ser a última vez que ficavam assim.
Anna tentou dispersar os pensamentos ruins, mas Bilbo continuava agitado e nervoso. Ele chegou a se irritar com um velho tordo que estava pousado numa pedra próxima:
— Maldito pássaro! Parece que está escutando tudo que falamos.
— Deixe-o em paz! — disse Thorin. — Há muitos séculos os tordos habitam a Montanha Solitária. Esse pode ser o último de uma raça mágica de tordos mágicos, mansos e pacíficos, da época de meu pai e meu avô.
— Mas isso faz mais de cem anos! — lembrou Anna.
Balin interveio:
— Eles viviam muito, menina. Os homens de Valle usavam esses pássaros para se comunicar com os homens do Lago. Não sei se hoje ainda resta algum homem que saiba a língua dos tordos.
Anna indagou:
— Erebor não usava tordos também?
Balin respondeu:
— Não, eram usados corvos, que falavam língua comum. Talvez os corvos de hoje não falem mais.
Ori disse:
— Não vimos nenhum corvo falante quando estivemos no Morro do Corvo, e é lá que eles ficam.
Nervoso, Bilbo observou:
— Sejam tordos ou corvos, se quiserem levar novidades para os homens, elas não serão boas. Smaug sabe que tivemos ajuda dos homens. Não creio que vá deixar de atacar a Cidade do Lago.
— Mestre Bard tinha razão: ele temia que o dragão se voltasse contra a cidade — comentou Anna. — Seria bom se pudéssemos dar algum tipo de aviso para eles.
Dwalin disse, sombrio:
— Não daria tempo, pequena. Dragões atacam de maneira rápida e devastadora. Nada sobrevive à sua fúria.
Balin disse:
— Por isso é que, na minha opinião, Mestre Baggins prestou um excelente serviço. Descobriu muita coisa e voltou vivo, o que não se pode dizer de todos que já lidaram com um dragão.
— Balin tem razão — concordou Bofur. — Nosso ladrão ajudou muito nossa busca!
Thorin ajuntou:
— Já fez por merecer o seu um quatorze avos do tesouro.
Bilbo disse:
— Smaug tentou me assustar, dizendo que vocês iriam me enganar sobre a minha parte no tesouro, e anões enganam os outros.
Houve grande comoção e Glóin observou:
— Verme amaldiçoado! Que Mahal se vingue por ter difamado o bom nome de nossa raça!
Insultos generalizados contra Smaug foram trocados pelos membros da companhia. Depois passaram a falar sobre o tesouro: as pedras preciosas, as peças de ouro, as joias e a excelência da arte.
Anna mal os ouvia, ainda sob o impacto das palavras do dragão. O plano que ela tinha não mudaria porque ela estava grávida, mas o resto todo, sim.
A parca esperança que Anna alimentava de retornar a seu mundo se evaporara. Na hipótese de os acontecimentos seguirem os fatos descritos no livro, com a morte de Thorin, Kíli e Fíli, Anna tinha planos de implorar a Gandalf ou até a Saruman para arranjar um meio de a devolver a seu mundo. Mas não agora. Agora ela carregava o último descendente da linha de Durin. Como ela poderia deixar a Terra Média agora?
Estranho que pela primeira vez a completa dimensão de seu aperto a tivesse atingido como em nenhum momento naqueles meses todos em que estava naquele lugar. Antes Anna inconscientemente acreditava que tudo aquilo era um pouco mais do que um sonho vívido e bizarro, um do qual ela acordaria mais cedo ou mais tarde. Eventualmente ela estaria de volta a sua casa, em seu mundo. Até podia ver a cena: ela, ao lado de sua mãe e seu gatinho, compartilhando com a amiga Angela o sonho louco que tivera, e todas estariam rindo, no sofá da sala.
Naquele momento, porém, Anna se deu conta que nunca veria aquela cena. Nunca mais veria Angela, ou seu gato Billy.
Ou sua mãe, que jamais saberia sobre seu neto.
Aquela era sua terra dali para frente. Era ali que teria de viver e morrer, como mãe, consorte... ou viúva.
Até aquele momento, Anna tinha decidido que sua vida estava ligada à de seu amor. Se ela tivesse que dar sua vida para que Thorin vivesse, ela faria isso. Se ela testemunhasse a morte de Thorin em batalha, ela adotaria uma postura kamikaze e vingaria sua morte.
Mas aí apareceu Smaug e tudo mudou. Pois agora Anna tinha algo mais em que pensar. Não era apenas a sua vida em jogo.
De início Anna pensou que Smaug só falara em gravidez para desestabilizá-la, forçá-la a cometer um erro. Mas seu instinto dizia que o maldito dragão estava certo. Ela tinha mesmo engravidado, mas não sabia dizer se for a em Rivendell ou Cidade do Lago. As probabilidades maiores eram que tivesse sido na cidade dos homens, ou ela certamente teria apresentado sintomas antes.
Como Smaug tinha feito aquilo? Será que, a exemplo dos golfinhos, dragões também tinham um sistema de ultrassom ou coisa semelhante em seu corpo?
Mas aquilo pouco importava agora. A verdade era que agora a situação mudara, e Anna tinha decisões a tomar.
Ainda que o pior acontecesse (e para Anna, o pior era a morte de Thorin), ela não mais poderia segui-lo para a eternidade. Agora ela carregava o fruto de seu amor, o filho de Thorin. E Anna queria aquele filho, pois era um pedacinho de Thorin, a prova da paixão dos dois. Ela tinha que viver. Prometeu a si mesma de tudo fazer para preservar o filho de Thorin.
— Dona Anna? — A voz preocupada de Kíli a arrancou de seus pensamentos sombrio. — Está se sentindo bem?
Anna encarou o rosto jovem do arqueiro, notando que a tarde caía e a noite se anunciava. Ela respondeu:
— Na verdade, Kíli, estou com um terrível pressentimento. Smaug vai nos atacar, posso sentir isso.
Bilbo ajuntou:
— Acho que Anna tem razão. Devíamos ir agora mesmo para o túnel. A noite não tarda. É quando Smaug sai para caçar.
— Caçar? — repetiu Ori. — Caçar o quê?
Balin respondeu, sombrio:
— Nós, rapaz. Ele virá atrás de nós.
Thorin completou:
— E vai tentar atacar de surpresa. Vamos, todos para o túnel. Passaremos a noite lá dentro.
Rapidamente, todos passaram pela entrada (que era estreita) enquanto o sol sumia atrás das árvores. Quando todos estavam devidamente contados, Dwalin suspirou:
— Pronto! Agora estamos seguros, se o velho Smaug resolver atacar.
Eles iam concordando, quando Anna insistiu, com uma voz angustiada:
— Não! Não estamos seguros. Devemos fechar essa porta.
— Mas é nossa única saída!
— Ficaremos presos!
Bilbo reforçou:
— Vocês se lembram da última vez que ele atacou? Quase morremos queimados! E isso que ele não fazia ideia de onde estávamos. Agora ele sabe e vai tentar nos destruir esmagando todo esse lado da montanha!
— Por favor — insistiu Anna, angustiada. — Fechem a porta! Thorin, por favor!
Kíli fez um apelo:
— Ouçam minha futura tia! Ela sabe o que diz.
Sem palavras, Thorin se ergueu e foi até a porta semicerrada. Com um chute, afastou a pedra que servia de calço e a porta mágica se fechou completamente, deixando-os na escuridão.
Estavam presos na montanha.
Ficaram em silêncio, no escuro, um sentimento de clausura descendo sobre eles como um cobertor sufocante e opressivo.
Não houve muito tempo para se sentirem enclausurados. Mal tinham começado a avançar pelo túnel, foram sacudidos por um grande estrondo vindo da encosta da montanha, como se um martelo monstruoso tivesse golpeado a face oeste. As paredes racharam, pedras se soltaram do teto sobre as cabeças deles, e um rugido ensurdecedor não deixava dúvidas sobre o que estava acontecendo. A porta mágica virou um monte de escombros.
No meio da confusão, Anna procurou o hobbit e gritou em seu ouvido:
— Agora, Bilbo!
O hobbit então gritou:
— Corram!
E lá se foram todos correndo túnel abaixo, enquanto Smaug se dedicava a deixar toda aquela face da montanha reduzida a cascalho.
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