Jornada Para Erebor
58 Hora de angústia
Notas iniciais
Após transferirem Anna para uma tenda menor, os elfos a examinaram mais uma vez. O tal curador deles assegurou a Bilbo que Anna vivia e tinha chances de se recuperar, pois não estava piorando. O hobbit tentou animar os demais, mas Thorin não confiava em elfos e não era naquele momento que iria começar.
As garantias dos elfos ficavam ainda mais difíceis de acreditar quando ele via Anna, tão pequena e pálida, numa cama feita para alguém obviamente muito maior. Thorin estava de joelhos, sem sequer se incomodar em arrumar uma cadeira. Ele não se separava da mão pequena e fria entre as suas.
Nem todos da companhia estavam dentro da tenda. Balin atendia aos assuntos de Estado, outros faziam guarda do lado de fora da tenda. Bilbo estava perdido, o pobre hobbit. De vez em quando ele tentava consolar Thorin, mas sabia que o anão estava além de consolo.
Thranduil entrou no local, acompanhado pelo elfo altivo que era seu filho Legolas. Eles se dirigiram primeiro ao elfo curandeiro, depois foram até a cama.
— Thorin, filho de Thráin — chamou Thranduil formalmente —, se nos permitir, vamos tentar um novo tratamento em Lady Anna.
Thorin assentiu e ergueu-se, afastando-se da cama. Thranduil e o curandeiro passaram a se ocupar de Anna, e Legolas ficou ao lado de Thorin e Bilbo.
— Por que tratam dela? — indagou o anão. — Pensei que não a considerassem como amiga. Parecem preocupados com a saúde dela.
Legolas respondeu, sem encará-lo:
— Lady Anna prestou um grande serviço ao Reino de Mirkwood. Temos uma dívida com ela.
Thorin o encarou, de maneira suspeita. Bem que seu avô dizia que era mais fácil arrancar rubis da rocha do que arrancar uma resposta direta de um elfo. Legolas acrescentou:
— Tive a impressão de que seu povo não conseguia apreciar totalmente o presente que Lady Anna representa. Fico feliz de ter me equivocado.
Thorin ergueu uma sobrancelha e mordeu uma resposta ácida. De todos, ele era o último que poderia emitir juízos de valor sobre outras pessoas, depois do modo como tratara Anna. Ter que ouvir isso de um elfo e não poder responder não era nada fácil para o anão orgulhoso.
Então Thorin se deu conta de Bilbo. O pobre hobbit parecia transtornado, ainda em choque.
— Mestre Baggins, eu... — Thorin começou. — Eu tenho muito a me retratar, meu bom ladrão.
O hobbit deu de ombros.
— Anna estava certa. Você estava doente, fora de si. Não sabia o que fazia.
— Fui muito injusto com você. Com vocês dois — retificou. — Preciso que me perdoem.
— Você sempre terá minha amizade, Thorin Oakenshield. Mas eu só... Eu não...
Bilbo interrompeu-se, desconfortável, como se estivesse em dificuldade de respirar. Thorin chegou perto dele.
— Bilbo? Você está bem?
Bilbo o encarou, engasgado:
— Thorin… Ela… — Ele pigarreou, tentando conter as lágrimas. — Ela é minha família, agora.
— Nossa família — corrigiu Thorin. — Nossa pequena.
Os dois se entreolharam, trocando sorrisos apreensivos. Bilbo respirou ruidosamente, tentando manter o otimismo. Mas então Thranduil voltou para perto deles.
— Ela está estável agora. Mas isso não é garantia nem para ela nem para a criança — disse o rei elfo severamente. — Ela deve permanecer dormindo, e isso será bom. Por favor, chame imediatamente se isso não se confirmar.
— Rei Thranduil, eu agradeço — disse Thorin, e ele se surpreendeu por falar de coração e com sinceridade, sem ressentimento.
Bilbo também balbuciou seus agradecimentos, e os elfos reais se foram, após reverências graciosas. A noite ia alta, mas Thorin sabia que não iria dormir, não iria comer e não iria se afastar de Anna. Ele estaria ao lado dela, fosse para vê-la morrer ou para vê-la acordar.
Após algumas horas, Bilbo ajeitou-se num canto da tenda, deitando-se sobre cobertores, mas sem poder dormir. Na verdade, ele queria dar privacidade a Thorin, que se mantinha ajoelhado na cama de Anna, segurando a pequena mão dela, encarando o rosto que amava.
Em voz baixa, Thorin dirigiu-se a ela:
— Parece cruel que você não possa me ouvir, minha pequena. Porque eu deveria tê-la ouvido antes. — Thorin sentia a garganta se fechar e usou o polegar para desenhar círculos na mão de Anna. — Eu não entendia por que você me traíra. Só agora entendo que você foi a única a permanecer forte a meu lado. Você viu a doença trazida pelo ouro. Eu entregaria tudo, a montanha e meu trono para ter você de volta.
Thorin abaixou a cabeça, vendo a verdade em suas palavras. Ele perderia o ouro. Já perdera seu pai, seu irmão e um cunhado. Mas se ele perdesse Anna...
— Por favor, Anna, abra os olhos. — Ele segurou a mão dela entre as suas, suplicando. — Volte para mim, âzyungâl. Se você morrer... Eu morrerei também. Mas isso é mais do que eu mereço: ter meu descanso a seu lado no salão de meus antepassados. Eu morreria feliz só para poder vê-la sorrir mais uma vez, ghivashel.
Thorin sempre tentou expressar a Anna como ela era preciosa para ele. Mas a emoção daquele momento era demais. E se Anna nunca acordasse? E se ela morresse carregando seu filho não nascido, pensando que Thorin a odiava? E se ela jamais ouvisse aquelas palavras que ele agora pronunciava?
— Você não a merece, Thorin Oakenshield.
A voz solene de Gandalf soou atrás dele, como um mau agouro. O mago prosseguiu, severo:
— Você poderia viver mais mil anos só para reparar seus erros e ainda assim não seria digno dessa pequena.
— Eu sei disso — rosnou Thorin, encarando-o com raiva dupla: raiva de si mesmo por tudo que tinha feito, e raiva de Gandalf, por estar coberto de razão. — Sei que não mereço, mas pode fazer algo por ela?
Gandalf suspirou, e Thorin finalmente reparou que o mago cinzento também não tinha saído ileso da batalha: seu braço estava numa tipoia. O maia explicou:
— Chamei pelo espírito de Anna o mais alto que pude. O resto depende dela.
Thorin também suspirou:
— Entendo. E os elfos? Podem ajudar?
— A magia dos elfos pode conseguir feitos extraordinários. Ainda não vimos tudo que Thranduil pode fazer. Não perca as esperanças.
Thorin se sentiu cansado:
— Talvez seja isso que eu mereça: vê-la finalmente morrer para salvar uma vida. E saber que eu poderia ter evitado.
— Sim, você poderia ter evitado — disse Gandalf, olhando Thorin com atenção. — Mas não adianta pensar muito nisso agora. Você tem seus próprios ferimentos para cuidar.
— Que os curandeiros venham até mim aqui — disse ele, olhando Anna. — Não sairei daqui até ela acordar ou... até a morte a levar.
Thorin deu as costas a Gandalf, acariciando os cabelos de sua amada. O mago franziu o cenho:
— Você sabe que tem deveres a cumprir, Rei Sob a Montanha?
Thorin não se deu ao trabalho de encará-lo:
— Então que arranjem outro candidato. Claramente, eu não sou o mais digno.
— Isso é o que veremos — disse Gandalf, saindo da tenda dramaticamente sem esconder sua contrariedade.
Thorin procurou pensar em Anna e não em magos intrometidos e encrenqueiros. Do seu canto da tenda, Bilbo observou:
— Não lhe dê ouvidos. É um bruxo irritante que gosta de se meter nos assuntos dos outros.
Thorin concordou em silêncio. E voltou a se ocupar de Anna.
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Aparentemente, Gandalf não era o único a se irritar com a ausência de Thorin. Bilbo tentava agir como área de contenção, mas nem sempre funcionava. Os membros da companhia sempre indagavam por Anna e espiavam Thorin.
A manhã ia alta quando Balin entrou com Bard na tenda.
— Minhas desculpas, Thorin, mas Mestre Bard insistiu em falar com você – e visitar a consorte.
Com voz cansada, Thorin sequer se virou para ele antes de observar:
— Espero que não tenha vindo discutir a divisão de ouro agora. Dificilmente é o momento apropriado.
O homem grave disse:
— Não é isso, Thorin. Eu sei que o acordo será honrado. Por isso vim pessoalmente lhe trazer o tesouro de sua família.
O arqueiro que acertara Smaug abriu seu casaco esfarrapado e sujo. Thorin se virou e sentiu o estômago revirar ao ver o brilho multifacetado da Arkenstone.
O Rei Sob a Montanha teve a certeza que a gema magnífica não lhe evocava mais o sentimento de orgulho de sua juventude, o fascínio de outrora. Tudo que Thorin via ali era uma rocha brilhante.
Exatamente como Anna dissera.
E era a mesma maldita rocha que tirara Anna dele quando ele deveria tê-la protegido. Num único dia, sua vida tinha sido virada de cabeça para baixo. A Arkenstone era inútil: uma pedra fria e sem vida, incapaz de trazer o rubor de volta às faces de Anna.
— Tire esse pedregulho amaldiçoado das minhas vistas — rosnou Thorin baixinho. — Não quero pôr os olhos nisso nunca mais. Pode ficar com isso, ou jogar no lago ou no meio da floresta de Mirkwood. Para mim, isso é lixo. — Thorin notou que Bard o encarava, espantado. — Balin e os demais vão se assegurar que todos recebam sua parte, como foi combinado.
— Como queira, meu Rei — disse Balin, levando Bard para fora. O velho anão sabia que Thorin não aguentaria muito mais antes de começar a estourar com os outros. Balin conhecia Thorin há anos e nunca tinha visto estas reações no rei orgulhoso. A pequena o afetava de um jeito como nenhuma perda anterior.
Infelizmente, porém, havia uma conspiração para não deixar Thorin em paz. Primeiro, seu espírito se perturbara terrivelmente com as notícias dos curadores.
Thranduil alertara que fizera tudo a seu alcance. Mas os dias estavam passando e as chances de Anna e o bebê diminuíam. Se ela não reagisse logo, seu corpo começaria a se enfraquecer por causa do bebê. E se tentassem retirar a criança, era quase certo que perdessem os dois.
Thorin sentiu seu coração se quebrando.
Horas mais tarde, uma discussão na porta da tenda envolvia Bilbo e uma voz que Thorin não reconheceu imediatamente. Foi quando o invasor praticamente atropelou Bilbo que Thorin reconheceu quem interrompia sua vigília.
Dáin.
— Então é aqui que eu o encontro, primo? — disse o anão das Colinas de Ferro. — Ocioso, enquanto sua companhia distribui toda a riqueza de Erebor?
Thorin não mordeu a isca e replicou calmamente:
— Balin é meu representante. Confio no julgamento dele.
— Tem ideia do quanto ele está dividindo?
— Você é que não tem ideia do quanto Erebor tem. Você quer uma parte do tesouro, primo? — Thorin começou a sentir sua parca paciência se esgotar. — Um tesouro, aliás, que você não ajudou a recuperar. Na verdade, se bem me lembro, você se recusou a ajudar quando pedi para vir na expedição.
Dáin explodiu:
— Estão dando um parte para os elfos!
— Sim, porque estaríamos todos mortos sem eles! — Thorin tinha os dentes cerrados e isso nunca era um bom sinal. — Talvez, se nossa relação com os elfos fosse outra... Quem sabe nada disso teria acontecido... E minha ghivashel... — Thorin engasgou, o olhar voltado para Anna.
Dáin o encarou com desprezo:
— Então é isso que realmente acontece? Thorin Oakenshield chora feito uma velha carpideira por uma reles concubina enquanto seu reino é saqueado por estrangeiros e traidores?
De repente, Thorin ficou cego de raiva e viu vermelho. Em segundos, antes que ele mesmo se desse conta, sua adaga estava na sua mão, apontada para a garganta de Dáin.
— Você não sabe nada sobre ela para falar assim — rosnou Thorin. — E eu sugiro que se retrate pelo modo como trata minha khebabinh, a mãe de meu filho e futura rainha de Erebor.
Dáin estava prestes a responder quando todo som foi engolido por um guincho ensurdecedor, capaz de arrepiar os guerreiros mais experientes. Uma sombra gigantesca cruzou a tenda e uma lufada poderosa de vento sacudiu a lona. Da abertura da tenda, Bilbo entrou, excitado:
— Uma Águia Gigante! E ela traz alguém!
Thorin, Dáin e Bilbo correram para fora bem a tempo de observar a ave majestosa aterrissar no meio do campo, com dois passageiros. Gandalf correu a receber os recém-chegados. Dois elfos pularam do dorso da imensa ave.
— Gwaihir, grande senhor! — saudou Gandalf, com uma reverência. — Lord Elrond! Que surpresa, mellonen!
A majestosa ave saudou o mago:
— Gandalf, amigo sem penas, tivemos notícias perturbadoras. Lord Elrond pediu que eu o trouxesse o quanto antes.
— O que aconteceu? — indagou Gandalf.
Lord Elrond explicou:
— Há tempos Galadriel vem recebendo sinais sobre essa batalha pela montanha. Agora Gwaihir obteve confirmação por Beorn que Anna está muito doente. Isso se confirma?
— Sim, ela foi vítima de orcs — respondeu o mago de maneira sombria. — Thranduil tem cuidado dela, mas a situação não parece boa.
Gwaihir observou:
— Chegamos a tempo. Thorin Oakenshield — virou-se a águia —, Rei Sob a Montanha, como parceiro de Anna, permite que tentemos salvá-la?
Thorin curvou-se:
— Nobre Gwaihir, rei de todas as Águias de Manwë, por esse serviço, eu lhe ofereço todo o ouro de Erebor.
Dáin Ironfoot ficou vermelho ao ouvir aquilo. Ignorando o anão das Colinas de Ferro, Elrond cumprimentou o rei de Erenbor:
— Salve, Thorin, filho de Thráin. Guarde seu ouro. Pois o verdadeiro tesouro é aquele que viemos salvar. Vejo que Mestre Baggins terá muito o que contar no Shire, e talvez esta seja mais uma boa história. Mas antes deixem-me apresentar meu bom amigo Eldrin, que insistiu em vir.
Bilbo soltou um som de reconhecimento, e Thorin franziu o cenho:
— É o mesmo Eldrin que ajudou Anna em Mirkwood?
O elfo curvou-se:
— Tive a honra de ajudar Lady Anna, senhor. Ela salvou minha vida na floresta.
— Anna chorou muito sua morte — informou Thorin. — Vai gostar de saber que sobreviveu.
O senhor de Rivendell comentou:
— Devemos nos certificar, então, que ela saiba. Levem-me até ela.
Elrond, Gandalf e Thorin entraram na tenda. Logo em seguida, Thranduil chegou, atraído pela notícia de que elfos de Rivendell estavam no campo. Do lado de fora da tenda, Dáin deteve Bilbo:
— Essa Anna... É alguma princesa?
— Não, por que pergunta?
O senhor das Colinas de Ferro estava intrigado.
— Vejo quatro reis e um Istari preocupados com ela. Isso não aconteceria se ela fosse uma reles plebeia, como você.
Bilbo fechou a cara e respondeu, furioso:
— Acontece, Mestre Dáin, que eu sou um Baggins. Mais que isso: considero Anna minha sobrinha. Com sua licença!
O hobbit livrou-se do líder anão e entrou na tenda, a tempo de ver uma intensa troca de palavras em Sindarin, e parecia que todos falavam ao mesmo tempo naquela linguagem fluida e musical. Então Bilbo se lembrou de uma palavra, esquecida em sua mente.
— Alguém aqui conhece staselas?
Fez-se silêncio súbito e todos se voltaram para o pequeno hobbit.
Palavras em Sindarin
mellonen = meu amigo
Palavras em Khuzdul:
khebabinh = forjada
âzyungâl = amada
ghivashel = tesouro de todos os tesouros
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