Jornada Para Erebor
35 Disputa entre três
Notas iniciais
No salão, enquanto era alvo da disputa das três moças crentes que ela era um rapazote, Anna estava tão angustiada que pensou em ir para debaixo da mesa e trocar de pele ali mesmo, na frente de todos. Tinha quase certeza que ninguém notaria, muito menos as três harpias brigando por uma coisa que não podiam ter.
Não havia sinal de que a disputa estivesse perto de uma solução. Anna já estava tonta. As vozes delas estavam cada vez mais agudas, falando quase ao mesmo tempo. Anna já não sabia quem era quem, ou quem dizia o quê.
Elas discutiam, falando rapidamente:
— Por que você não vai servir mesas? Não é para isso que está aqui?
— E você? Por que não vai ver se eu estou lá na ponte?
— Não está vendo que o rapaz está acompanhado?
— Eu é que pergunto isso a você.
— Sua invejosa, teve que se meter!
Anna tentava dizer:
— Er... Olhem, quem sabe... Por favor... Talvez eu...
Uma voz profunda e imperiosa se ergueu acima delas.
— Boa noite, senhoras.
As três imediatamente se calaram, voltando-se para Thorin, que as encarava com uma expressão severa como só ele sabia fazer.
— Meu senhor...!
Anna sentiu um alívio no coração. Mas Thorin se dirigiu a ela, ríspido:
— Anni, não atrapalhe as moças! Deixe que elas façam o trabalho delas antes que os clientes reclamem! — Anna arregalou os olhos e nem abriu a boca antes de Thorin continuar: — E você é novo demais para ficar sozinho. Onde está seu tio? Por que ele não está com você?
Anna gaguejou:
— E-eu... E-ele...
Thorin nem a deixou responder e olhou para as moças.
— Está tudo bem aqui? Os rapazes querem mais cerveja. Deve haver um motivo para deixarem meus guerreiros com sede.
— Não, senhor.
As três saíram, desapontadas e apressadas, e Thorin decidiu, rosnando:
— Vamos embora. Você já festou demais por hoje, menino.
— Mas...
Sem chance para responder, Anna foi levada pela mão para fora do salão. Thorin parecia furioso, e Anna estava confusa. Eles andavam até a casa, e o líder da companhia ia a passos furiosos, pisando duro. Thorin estava bufando, mas Anna queria se desculpar, mesmo sabendo que nada fizera de errado.
Anna indagou:
— Está bravo comigo?
— Não! — gritou ele. — Estou bravo com elas! Como se atrevem?
— Bom, elas não podiam saber. Eu já estava ficando sem desculpas. Você apareceu bem na hora. Obrigada.
Thorin ainda estava alterado:
— E onde estava Bilbo? Ele deveria estar com você.
— Por favor, não brigue com Bilbo. Ele está se divertindo, e ele merece muito essa diversão.
Os dois chegaram a casa, e Thorin indagou, mais calmo:
— Comeu alguma coisa? Está com fome?
— Não para as duas perguntas.
Ele franziu o cenho, enquanto Anna se sentava à mesa grande perto da lareira. Thorin lembrou:
— Óin disse que você tem que se alimentar bem. Eu lhe prepararei alguma coisa.
— Não precisa, não tenho fome, Thorin. Agradeço a oferta – e a preocupação.
— Não deve agradecer. Cortesia com uma dama é dever de todo anão.
Rindo, Anna lembrou:
— Essa dama é um adolescente!
— Ainda assim — insistiu Thorin, sério. — Tenho recebido reclamações pelo jeito como a tratei.
— Reclamações? — repetiu Anna. — Por quê?
— Você não faz ideia do tratamento que os anões dão às mulheres. Embora você não seja uma anã, é minha mulher, e venho sendo lembrado de meus deveres.
Anna enrubesceu, envergonhada.
— Que exagero, Thorin, você não tem dever nenhum. Não temos nada formalizado, nem-
Thorin a interrompeu:
— Só falta eu pedir sua mão formalmente a Bilbo. Aí seremos compromissados.
— Bilbo? Por que Bilbo?
Ele deu de ombros.
— Ele é considerado seu responsável, aos olhos da companhia. Balin insistiu muito nisso. E nos acompanhantes.
— Acompanhantes?
— Depois que o pedido for formalizado, não poderemos mais nos encontrar sem a presença de um acompanhante — questão de decoro e propriedade.
Anna não pôde evitar rir.
— Isso não é meio despropositado, considerando aquela noite em Rivendell?
Pela primeira vez, Anna viu Thorin ficar vermelho.
— Oh, bem. Aquilo foi um... arroubo do momento...
Anna pegou as mãos dele e interrompeu-o suavemente:
— Não estou reclamando. Mas Lindir estava certo que você iria me magoar.
Thorin se irritou:
— Aquele elfo? Agora sinto ainda mais raiva de mim mesmo: fazendo um elfo ter razão!...
Anna desviou o olhar, uma lembrança de Eldrin a angustiando de repente, doída demais para ela reprimir. Thorin a encarou, intrigado:
— Anna, o que foi? Eu a magoei? Desculpe.
Ela respondeu:
— Não, é que eu me angustio pelo amigo elfo que deixei ferido. Eldrin pode ter morrido, Thorin, e por minha causa. Gostaria tanto de saber o que houve com ele!
Foi a vez dele pegar as mãos dela. Anna viu suas mãos pequenas diante das dele. Thorin comentou:
— Você tem um coração muito especial, pequena. Posso ver que considera esse elfo como um grande amigo.
— Eu nunca vira lealdade assim antes de chegar aqui — confessou Anna. — Só encontrei pessoas de palavra em sua terra, em todas as raças. Não sei quando meu povo perdeu esses valores, mas eu choro por isso.
— Fico feliz que nossa terra tenha deixado impressões tão nobres, mesmo que eu tenha falhado de maneira tão vergonhosa.
Anna se impacientou:
— Thorin, quer parar de se punir por isso? Você já se desculpou, já até quis cortar a barba, então já passou: não se fala mais nisso.
Ele confessou:
— Não posso me perdoar. Espero compensá-la de alguma forma.
Antes de Thorin se separar dela e antes que sua coragem se evaporasse, Anna pôs seus dedos no queixo barbado de Thorin e puxou-o para seus lábios, beijando-o de repente. Thorin soltou um som curto de surpresa na garganta, rapidamente transformando-se num gemido de prazer quando Anna virou o rosto para beijá-lo profundamente, pondo as mãos nos ombros e peitos do anão. Agora era um beijo apaixonado, trazendo a impulsividade de Anna para se combinar ao desejo de Thorin. Anna parou de pensar, absorvendo o aroma e o gosto de Thorin, seu calor ao envolver seu corpo e os sons suaves que Thorin fazia quando Anna mordiscou seu lábio inferior, com um sorriso.
Um ruído suave da noite os interrompeu, mas eles se mantiveram juntinhos um do outro. Anna se deu conta que uma mão de Thorin estava em meio a seus cabelos curtos e levemente cacheados, enquanto a outra mão acariciava a cintura de Anna. Os dois se encararam naquele momento, trocando sorrisos suaves.
Anna tinha plena consciência de que suas bochechas estavam vermelhas (o corpo dela inteiro parecia aceso), mas desta vez ela sentiu prazer ao ver a cor nas maçãs do rosto de Thorin e o modo como os olhos dele pareciam semicerrados. O anão a olhava por baixo dos longos cílios e ele se inclinou para Anna, fazendo suas testas se tocarem. Anna passou a mão na vasta cabeleira de Thorin, encontrando a presilha de ouro, ainda sorrindo, apreciando a vista que era o rosto atraente de Thorin. Ele escorregou a mão pelo rosto dela e pôs o polegar no canto do lábio dela, Anna pareceu prender a respiração, achando aquele gesto singelo tão afetuoso.
Os dois ficaram em silêncio muitos minutos, apreciando a companhia um do outro, ouvindo o som da cidade dos homens. Anna muitas vezes pensaria naquele momento como um dos mais perfeitos de toda a sua vida. Era um momento de paz, um que ela se sentia protegida, não se sentia mais sozinha, e tinha a certeza do amor de Thorin, da força desse amor e do quanto ela precisaria disso.
Foram interrompidos por uma batida à porta. Thorin e Anna se olharam, alarmados. A moça deduziu, ao ouvir as batidas, e cochichou:
— Não é ninguém da companhia.
Thorin ordenou:
— Vá para dentro.
Anna se ergueu, argumentando:
— Não mesmo. Eu sou o servo, eu devo atender a porta, não o rei.
Antes que Thorin pudesse impedi-la, ela foi até a porta e abriu-a. Um homem entrou na sala e ignorou Anna totalmente ao ver Thorin adiante.
— Mestre Thorin, com sua licença.
Era um humano alto, de roupas simples. Estava sozinho. Amadurecido para sua idade, notou Anna.
Thorin se ergueu para recebê-lo.
— Mestre Bard, faça favor de entrar. Este é nosso companheiro, Anni Bolger. Anni, Mestre Bard é o chefe da guarda da cidade.
Anna fez uma reverência.
— Prazer, senhor.
O homem encarou Anna curiosamente.
— Você é o rapazinho que meus homens prenderam há alguns dias?
— Sim, senhor. Eu me perdi do grupo.
Bard o encarou, curioso:
— Bem que me disseram que era pequeno, mas não me disseram que era tão pequeno, rapaz!
Anna imediatamente encarou o chão, e Thorin tentou desviar o assunto:
— Gostaria de tomar a boa cerveja da Cidade do Lago, Mestre Bard?
— Não tenho muito tempo, Mestre Thorin. Só achei que gostaria de saber que o rei elfo já está com espiões a observar os movimentos de sua companhia.
Anna evitou olhar Thorin, mas arregalou os olhos. Seria possível que Thranduil quisesse atacar a companhia ali?
Bard continuou:
— Mas acho que o rei élfico tem espiões muito ruins. Não só eles são facilmente identificáveis como também falam coisas sem sentido.
— Sem sentido?
— Sim, eles estão ansiosos atrás de um elfo que viaja com uma moça. — Anna empalideceu tanto que achou que fosse cair no chão. — Segundo eles, esse elfo e a moça faziam parte de sua companhia.
Bard riu-se, mas Thorin não o acompanhou. Ao invés disso, o anão rosnou:
— Mestre Bard, esses espiões não devem ser grande coisa, se ficam encharcados de vinho élfico falando esses absurdos. Não sabem o que perdem com a boa cerveja da cidade.
O chefe da guarda deu de ombros.
— De qualquer forma, achei que deveriam saber. Além disso, eu me ofereço para acompanhar seu grupo até a trilha para a montanha. Se vão para aqueles lados, é melhor irem de barco até a trilha, e eu conheço as águas.
Formalmente, Thorin assentiu e declarou:
— Tem meu agradecimento nos dois assuntos, Mestre Bard.
— Avise quando pretender partir, e eu farei os preparativos.
— Está bem.
Anna apressou-se em abrir a porta, e Bard sorriu para o rapazinho. Anna fechou a porta, esperou até os passos de Bard se afastarem. Depois ela suspirou e disse a Thorin:
— Agora Thranduil sabe de suas intenções de retomar a montanha.
Thorin deu de ombros.
— Era previsível que ele estivesse pelo menos desconfiado. Só queria me ouvir confessar.
— Acha que Thranduil vai tentar impedir você? — indagou Anna.
— Pensei nisso. Afinal, ele tem um exército e nós somos apenas 13 — ou 14. Mas penso que ele vai deixar o dragão Smaug fazer o serviço sujo de nos matar.
Anna estremeceu. Até então Smaug era apenas uma ideia, um personagem de livros. Agora ela via a montanha ali, bem pertinho, e sabia que o monstro estava lá, imenso e mortífero.
Mais uma vez, Anna se sentiu pequena, impotente e deslocada. O que ela sabia sobre dragões? E sobre qualquer coisa?
Ela quase se assustou quando os braços de Thorin a envolveram.
— Que foi, minha pequena?
Anna não se negou o aconchego do abraço, abraçando-o e afundando o rosto no peito dele enquanto suspirava:
— Fiquei com medo, só isso. Sou uma boba e tenho medo de tudo. Já devia saber disso.
Thorin beijou o alto da cabeça dela, prometendo:
— Eu a protegerei. Nenhum mal chegará até você enquanto eu viver.
Anna ficou tão profundamente agradecida por essas palavras que ergueu a cabeça para encará-lo. Os olhos azuis a fitavam, profundos e brilhantes à luz das tochas. Encarou barba cerrada, o bigode e deixou o cheiro de pinho e fumaça invadir seus sentidos. Sentira dor quase física de tantas saudades disso em Rivendell, em Mirkwood. Era o que seu coração pedia para aquelas noites solitárias.
Era o que seu coração pedia para o resto de sua vida.
Anna deixou os dedos dele acariciarem suas faces, sorvendo o toque com gosto. Ele a encarava, embevecido:
— Por Mahal, como me senti perdido sem você — sussurrou ele. — Se eu a tivesse perdido...
— Lá vem você com essa culpa de novo — interrompeu Anna. — Pare com isso e só me abrace.
Thorin sorriu daquele jeito que fazia Anna se derreter e inclinou-se para capturar os lábios dela. Anna ergueu-se na ponta dos pés para aprofundar o beijo, sentindo a barba áspera no rosto, os longos cabelos dele caindo suavemente em seus ombros. O beijo só terminou quando os dois precisaram de ar, com a respiração pesada e os lábios inchados. A voz de Thorin estava ainda mais grave e profunda quando comentou:
— Minha pequena continua fogosa...
Anna sorriu, envergonhada.
— Senti sua falta, meu rei. Foram muitas e longas as noites em que desejei estar a seu lado. Por isso estou tão feliz de estar aqui.
— Você nunca mais estará sozinha. Muito menos depois que eu fizer o pedido a Bilbo e precisarmos estar sempre com um acompanhante.
Anna o encarou, erguendo uma sobrancelha:
— Ficaremos sempre com um acompanhante?
— Isso mesmo.
— Não poderemos ficar sozinhos? — Anna franziu o cenho.
— Exato — confirmou.
— E então depois disso não poderemos mais... namorar?
O rei anão deu um sorrisinho sardônico:
— Se por namorar você quer dizer aquela noite em Rivendell, então não. Não até o casamento, pelo menos.
— Você quer esperar até lá?
Thorin franziu o cenho:
— Não é uma perspectiva que me agrade, mas eu pensei que você...
Ela o interrompeu:
— Pensou errado. — Anna puxou-o pela mão. —Vamos, estamos perdendo tempo.
Thorin demorou uns segundos até entender a que ela se referia, mas depois jogou a cabeça para trás e riu como Anna jamais tinha visto: uma gargalhada rica, profunda e irrepreensível.
— Ah, pequena, você nunca cansa de me surpreender!...
Anna tentava puxá-lo, impaciente:
— Você vem ou não?
Ele riu alto:
— Miúda insaciável!
Thorin usaria essa palavra mais vezes durante a noite, quando Anna provou várias vezes (e de diferentes maneiras) ter sentido saudades dele. Por sua vez, o rei de Erebor também não se acanhou em demonstrar a satisfação por poder matar as saudades de sua escolhida.
Após se entregarem à demonstração física de seu amor, os dois permaneceram nos braços um do outro, numa intimidade rara e preciosa, devido à presença da companhia. A reunião prazerosa estendeu-se até as primeiras horas da manhã, quando tiveram que se separar ao ouvirem Bilbo e os anões cambalearem de volta para o descanso, após a noite de farra na Cidade do Lago.
Fale com o autor