Jornada Para Erebor

52 A negociação continua


Notas iniciais
Anna faz sua cartada decisiva

Anna sentiu o frio diminuir imensamente quando Bilbo entrou numa tenda e foi apresentado a Bard, que estava acompanhado por Thranduil, o rei de Mirkwood. Com extrema astúcia, Bilbo explicou aos dois o que o trazia ali: seu interesse em também obter uma parte do tesouro (pois isso tinha sido contratado), a percepção de que Thorin jamais daria uma moeda sequer a eles, e até a vinda de Dáin e seu exército (o que eles não sabiam). Em pouco tempo, Bilbo tinha preparado o terreno para fazer sua oferta. E ele a mostrou.

— É isto! — Bilbo tirou o embrulho com a Arkenstone e, como combinado, desembrulhou-a dos trapos, libertando o camundongo, que rapidamente correu para baixo de uma das cadeiras mais próximas.

Anna olhou o ambiente: era uma tenda grande e bem iluminada por lamparinas. Enquanto isso, Bilbo explicava:

— Essa é a Arkenstone, o Coração da Montanha e é também o coração de Thorin. Ele a valoriza mais do que um rio de ouro. Vou dá-la a vocês, para que ajude nas negociações.

Anna arriscou olhar para a cena: os dois dirigentes encaravam Bilbo, que mostrava a brilhante Arkenstone, os dois com olhares admirados. Bard indagou:

— Mas isso é seu para que possa dar?

— Bem, na verdade, como disse, eu tenho direito a uma parte do tesouro, conforme o contrato. Escolhi esta pedra como uma espécie de garantia, ao menos até que essa loucura toda termine.

Thranduil indagou, desconfiado:

— Por que está fazendo isso, Mestre Baggins? Qual é sua real motivação?

— A ideia foi minha — disse Anna, na forma humana, saindo de trás da cadeira. — Eu pedi a Bilbo que trouxesse a pedra.

Ao vê-la, o rei élfico gritou:

— Você!

Anna não esperava que Thranduil se movimentasse tão rápido. Em uma fração de segundo, ele atravessou a grande tenda e esbofeteou Anna com força. Não houve tempo para reagir ou impedir. Ela sentiu a força do golpe, mas se controlou para não gritar e não reagir. Bilbo, porém, deu um pulo, e Bard indignou-se:

— O que está fazendo?!

Anna ergueu uma mão e abaixou os olhos:

— Está tudo bem. Eu mereci.

Thranduil repetiu, rosando:

— Sim, mereceu. Você traiu a minha confiança e mentiu para mim. E agora está traindo o anão? Por que alguém deveria confiar em você?

Anna argumentou:

— Jamais lhe contei uma mentira, Majestade. Lamento ter feito um jogo de palavras, mas era necessário soltar Thorin e sua companhia. Era necessário libertar Erebor do jugo de Smaug. Um grande mal foi evitado com a morte do dragão. Agora é necessário evitar que outro mal se espalhe com um combate totalmente desnecessário.

Bard a encarou e observou, com curiosidade:

— Você é um enigma, pequena.

— Não tanto quanto pensa — garantiu Anna, dando de ombros. — Mas Bilbo e eu não temos muito tempo. Contudo, posso garantir que esta pedra é a chave para o coração de Thorin. Por ela, Thorin aceitará suas condições.

Thranduil alfinetou, malicioso:

— Então você não é mais o coração do rei de Erebor?

Anna tentou ignorar a provocação, mas não pôde esconder a dor em sua voz:

— Desde que voltou a Erebor, Thorin contraiu uma doença, a mesma que vitimou seu avô, Thrór, e seu pai, Thráin. Ele está obcecado com a Arkenstone e crê que a pedra possua algum tipo de validação sobrenatural para seu trono. Thorin está doente e fora de si. Vai levar todos nós à ruína, destruição e morte. Preciso salvá-lo.

Bard indagou:

— Se ele está louco desse jeito, você não teme a reação dele quando souber que você entregou a pedra a nós?

Anna fechou os olhos, deixando escapar uma lágrima ao responder, com sinceridade:

— Eu o amo. Farei de tudo para tentar salvá-lo, mesmo que isso me prejudique. Enquanto eu tiver ar nos meus pulmões, enquanto eu estiver viva, não medirei esforços para tentar salvá-lo dessa doença. Minha própria vida não tem importância.

Bilbo tentou dizer:

— Mas Anna!... Não é só sua vida em jogo!... E seu filho?

— Filho? — repetiram Thranduil e Bard.

Anna respondeu, pesadamente:

— Sim, eu carrego um filho de Thorin. Se nem minha gravidez conseguiu curar Thorin de sua loucuro, até mesmo o nosso filho estará em risco ao nascer. Se eu fizer isso, talvez eu o proteja também de seu próprio pai, louco e doente.

Um silêncio pesado se espalhou no ambiente. Uma voz diferente soou na tenda:

— Essas não são palavras que uma mãe deveria pronunciar quando espera um filho fruto de amor verdadeiro, corajosa Anna.

Reconhecendo a voz, ela arregalou os olhos e virou-se, surpresa:

Gandalf...! É você mesmo?

— Gandalf! — sorriu Bilbo.

O mago cinza mostrou-se à luz fraca da tenda e também trazia um sorriso, abrindo os braços:

— Olá, meu querido Bilbo. Vejo que cheguei bem na hora.

Bilbo correu a abraçá-lo:

— Oh, como fico feliz em vê-lo, Gandalf. Espero que agora toda essa loucura se ajeite de uma vez por todas.

— Calma, Bilbo, meu amigo — disse Gandalf. — Ainda é muito cedo para se dizer que há jeito para toda essa loucura. E você, Anna, parece ter mudado muito desde que nos separamos.

Anna o abraçou, soluçando:

— Gostaria de poder lhe dizer o quanto. Mas...

Ele deu tapinhas em suas costas:

— Calma. Tudo indica que estamos chegando ao fim de nossa jornada, mas ainda há muito por acontecer. Devemos nos manter fortes e confiantes.

— Sim, Gandalf — disse ela, enxugando as lágrimas com as mãos. — Agora, porém, Bilbo e eu precisamos voltar antes que sintam nossa falta.

Bard arregalou os olhos:

— Não pode falar sério! Querem voltar? Sabem o que vai acontecer a vocês se voltarem para lá e Thorin descobrir o que fizeram?

Anna garantiu:

— Nada vai acontecer a Bilbo. Isso tudo foi ideia minha. Eu é que devo sofrer as consequências.

Thranduil ofereceu:

— Podemos negociar também a sua segurança, como termos de diálogo.

Anna sorriu para o elfo:

— Mais uma vez, Majestade, o senhor me honra com sua gentileza. Não sei se sou merecedora, depois de tudo que se passou entre nós. De qualquer forma, preciso encarar meus amigos, se é que poderá sobrar alguma amizade entre nós. Bilbo, se você quiser ficar, posso voltar sozinha.

O hobbit negou peremptoriamente:

— De jeito nenhum! Bard tem razão: temo pela reação de Thorin. Quem sabe se eu estiver lá, ele consiga se controlar.

Anna não tinha muita esperança nisso, mas aceitou ir com ele. Os dois saíram pela escuridão, até se afastar o suficiente do acampamento dos dois exércitos. Quando estavam a uma distância segura, Anna trocou de peles e se tornou um camundongo. Bilbo novamente a pôs no bolso e assim voltaram para a Montanha Solitária.

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Era cedo de manhã quando uma trombeta soou, acordando Anna para o dia mais difícil de toda a sua vida. Às pressas, ela se juntou aos demais no Grande Salão de Thrór, onde já chegara a notícia de que emissários traziam novidades para negociar.

Aquilo animou Thorin:

— Dáin está perto; devem ter visto seus guerreiros! Sabia que isso mudaria seus ânimos. Diga para virem desarmados e em um grupo pequeno e eu os ouvirei.

Anna notou que os demais pareceram animados e ela teve vontade de chorar. Malditos hormônios!

Só ao meio-dia viram as bandeiras da Floresta e do Lago se aproximarem. Era um grupo de 20 pessoas, cujas armas ficaram depositadas no caminho.

Assim como Anna, os anões viram que o grupo era liderado por Bard e rei élfico, Thranduil, atrás dos quais estava um velho de capa e capuz, trazendo uma caixa de metal.

Bard saudou:

— Salve, Thorin! Sua decisão continua a mesma?

— Não mudo de ideia com o passar de uns poucos dias — respondeu Thorin, azedo. — Se foi isso que vieram perguntar, perderam seu tempo.

— Então não há nada que o faça mudar de ideia? — insistiu o homem sombrio.

— Não tenho interesse em nada que vocês têm a oferecer.

— E que tal a Arkenstone?

O velho abriu o cofre e de lá tirou a pedra brilhante. Mesmo no sol alto do meio-dia, a gema reluzia como um reflexo do luar, claro e luminoso. Anna admitiu que era mesmo fascinante e muito bonita.

Ao ver aquilo, os anões emudeceram de espanto e choque. Thorin ficou boquiaberto por um bom tempo, sem tirar os olhos da pedra. Mas em seguida, ele se recompôs, dizendo, sem conseguir esconder a fúria:

— Essa pedra era de meu pai e, por direito, é minha. Estava na montanha, pois o dragão não a teria entregado de jeito nenhum. Como a conseguiram?

Bard garantiu:

— Não a roubamos, se é isso que está pensando. E queremos devolvê-la, se estiver disposto a nos dar o que pedimos.

Cada vez mais enfurecido, Thorin indagou:

— Como a conseguiram?!

Bilbo se precipitou em responder:

— Eu a entreguei a eles!

— Você! — Num movimento rápido, Thorin o pegou pelos ombros, erguendo-o do chão e sacudindo-o como um boneco de pano. — Você, seu ladrão miserável e traidor! Hobbit traiçoeiro!

Anna se precipitou contra Thorin:

— Não! Thorin, solte-o! Deixe-o ir!

Thorin não prestou atenção a ela. Bilbo disse, apavorado:

— Pode dar a eles minha parte do tesouro! Use-a para pagar pela pedra!

Thorin rosnou:

— Pois é o que vou fazer, seu desgraçado! Você me traiu, Bilbo Baggins! Queria que Gandalf pudesse vê-lo agora! Ver que se tornou num ladrão verdadeiro, um do tipo insidioso e traiçoeiro!

— Pois seu desejo foi atendido, Thorin Oakenshield! — disse o velho, tirando o capuz e revelando-se como o mago Gandalf. — E por favor, se não gosta de meu ladrão, não o machuque! Ponha-o no chão!

Anna implorou, já em lágrimas:

— Thorin, por favor, solte Bilbo! É tudo minha culpa! A ideia foi minha! Foi minha ideia de dar a eles a pedra de seu pai!

Pela segunda vez, fez-se silêncio. Thorin soltou Bilbo e voltou-se para Anna.

Estava lívido. Seu rosto era um misto de choque, raiva e mágoa.

— Pequena...?