Jornada

9 Parte 9


Encontro a manhã com avidez. Meu mais novo laço não estava disponível durante o dia, então me faço entender por gestos enquanto peço orientações para o local do câmbio. Os trajetos são irregulares, mesmo quando curtos, o que os torna difíceis. Consigo, depois de explorar a cidade mais do que o necessário, o que não é ruim; minha riqueza é pouco valorizada aqui. Retorno, pago somente a diária devida, apesar de alguma insistência para que eu fique.

O dia está nublado, e é em meio a um mar opaco e pálido que vou atrás do prédio central da instituição, fácil de identificar como achei que seria, branco, modesto, magnânimo. Ao ser avistado, em pouco tempo tenho diante de mim a mesma senhora que veio em meu socorro na estação, com a mesma expressão satisfeita e acolhedora.

“Tinha certeza de que viria.” Sua mão tocou a minha. “Como tinha certeza de que ia querer partir em pouco tempo. Bom, não cabe a mim insistir, mesmo lamentando. Gostaria de trabalhar conosco hoje?”

“Foi por isso que vim.” Tento soar simpático e solícito.

“Venha comigo. Vou acompanhá-lo para ajudar.”

Seguimos por um corredor até um grande salão, onde muitos funcionários empacotam e etiquetam diversos volumes. Percebo que é o serviço de correspondência e entregas da cidade.

“Nós nos encarregamos pessoalmente de embalar e lacrar o que será enviado. Poderia começar com este serviço? Percebo que tem mãos jeitosas. Podemos procurar outra coisa, se preferir.”

“Aqui está ótimo.”

Evito o excesso de diálogo. Sou instruído a embalar as encomendas com cuidado, acomodá-las na menor caixa necessária, lacrá-la, e transportar as caixas até o responsável pelos endereços. Aos poucos, sou solicitado para outras pequenas tarefas, interagindo com imitações, dedos apontando e algumas risadas. Minha anfitriã não só supervisiona, como também participa, escrevendo em caixas, pegando material para embalagem, solicitando o que falta. À hora do almoço, já estou suado de tanta atividade, satisfeito daquela manhã produtiva junto a pessoas cheias de energia. Pausa. Não consigo fugir. Por isso começo a falar antes que só possa ouvir.

“Já aconteceu de... alguém cair na água?”

“Claro. Principalmente crianças.”

“As que caíram disseram alguma coisa a respeito do outro lado?”

A pergunta sem dúvida não é nova. “O outro lado não está na água ou sob a superfície. O lago sagrado, sobre o qual nossa cidade foi construída segundo a profecia recebida por nossos ancestrais, é apenas a superfície onde o outro lado se revela. É como uma janela, não uma porta.” O ar que assume é didático, doce, de infinita paciência. “Quem tenta chegar lá pelo Lago encontra apenas água, e muitas vezes, a morte. Poucos que afundam retornam à superfície.”

Sua frase me soa mais ameaçadora do que as águas jamais parecerão.

“Porém... alguns retornam.”

“Sim. Alguns retornam.” Um suspiro quase imperceptível.

“O outro lado também tem um lago...”

“Claro.”

“... de onde podem ver esse lado.”

“Naturalmente.”

“Mas e se não for? Assim como nós o vemos, e se de lá um terceiro mundo for visto?”

“Isto seria um engano. Desta forma, como saber quantos mundos há? Poderiam chegar ao infinito...”

“E isso seria ruim?”

“Abominável.” Essa palavra dura não combina com a figura amável que tenho diante de mim. “Não. O número correto, para todo equilíbrio, é três.”

“Três?”

“Sim. Bem como temos esse pobre mundo, do qual vemos apenas o reflexo, abaixo de nós, há também um outro acima. Um mundo que realmente vale a pena.”

Não é uma ideia que me seja estranha. “Certo. E é possível chegar até ele? Talvez... após a morte?”

“Após a morte? Não, não! De que adiantaria? Nada se pode fazer depois de morto. Não, seria preciso descobrir um jeito de passar para lá e fazer a troca.”

Meu silêncio incita-a a continuar.

“Nada é possível entre os mundos sem que haja uma troca. Seria preciso que seu reflexo de lá aceitasse vir para esse mundo, para que você se alçasse e tomasse seu lugar. Os reflexos de lá, quando despertos, temem nosso mundo, pois sabem que aspiramos sua posição. Assim como tememos nossos reflexos, que querem vir para cá.”

“Menos a senhora, não é?”

Minha última resposta é bem baixa, de forma que apenas ela possa ouvir. Seu rosto primeiro expressa surpresa, depois se reabre no maior sorriso que já deu até então.

“Não estava enganada a seu respeito. Sabia que teria potencial e conhecimentos preciosos! Não veio aqui à toa, foi enviado! Esta é também sua jornada!”

“Quer continuar... subindo, como já fez antes?”

“É claro. Aqui ainda não está nem perto do que aspirava. Sei qual é meu lugar. O lugar que quero conquistar.” Apesar de o diálogo se seguir ainda bem baixo, o entusiasmo de minha anfitriã começa a chamar a atenção de alguns funcionários. Chego a pensar em vários jeitos de tentar me safar daquela situação: conseguiria dar um susto nela, considerando que sou ambidestro, dizendo que faço a troca quando quero? Tento minha sorte pulando na água? No fundo, não vejo motivos para desacreditá-la em suas crenças. Não faço questão de destruir visões de mundo e de si mesmo em prol da verdade... essa reconstrução cabe a cada um, no momento oportuno.

“Minha jornada, no momento, é horizontal. Não estou buscando forçar uma passagem, seja de ascensão ou queda. Elas sempre se mostram inevitáveis.” Dou de ombros, como se me desculpasse.

“Você não se importa com seu destino?”

“São tantas variáveis... que prefiro preparar meu espírito para qualquer das possibilidades. Quando eu souber o que aceitar e pelo que lutar em qualquer dos caminhos... já terei vencido.”

“Será que... seu reflexo é da mesma opinião?”

Sinto vontade de rir. “Foi por isso que passou a me tratar no singular? Por que perdeu a confiança nele?”

“Na verdade, ele está mais bem cuidado do que nunca. Talvez até queira ficar.”

Solto um suspiro, cansado do jogo. Começo a tirar minha roupa de capuz e então a roupa preta, que me foi dada, ficando com o torso nu. Todos param, escandalizados com este ser estranho, que parecia civilizado apesar de tudo, e que se animaliza bem diante deles. O que dizem seus dogmas sobre a nudez?

“Aceitem minha doação.” Digo da roupa preta, enquanto recoloco a outra. “É tudo usado mesmo.” Examino as expressões e giro os olhos. “Pode ter ficado um pelo. Prometo que sai com lavagem.”

Vou em direção à porta, à rua, onde o ar frio me atinge mais uma vez, causando enorme satisfação. Encontro meu caminho com placas ilustradas, e então pelo som inconfundível dos apitos. Enquanto subo os degraus da estação, ela também precipitada sobre as águas, percebo a figura encolhida de frio e um tanto tristonha que sobe a estação invertida sobre o precipício do céu. Paro para encará-la, buscando algum sinal. Realmente... quer ficar?

O olhar que me devolve é inquisidor, inquieto. Suspira. Seus lábios se abrem em um sorriso resignado e reconfortante, o olhar de quem não conseguiria ter moradia fixa nem no paraíso, que dirá em um hotel.

Continuamos nossas subidas. Lugar quase vazio, olhares um tanto turísticos, nenhum trem à vista. Um grupo me encara com desconfiança, até as sobrancelhas se erguerem em reconhecimento. Preferem manter alguma distância.

Vou até as indicações de destino e preço, procurando inutilmente decifrar o que dizem. Penso em apenas apontar alguma coisa em algum guichê e ir entregando dinheiro até que o atendente indique para parar ou me dê o troco; será que posso ao menos confiar que essa beatitude generalizada é capaz de me salvar na hora do dinheiro?

“Ajuda?”

A voz familiar faz com que me vire, e encontre o funcionário do hotel que me guiou pelos corredores, dividiu o jantar e o diálogo. Está um tanto surpreso, divertido, com roupas de viagem e uma mala de bom tamanho ao seu lado, de couro escuro e um tanto gasto.

“Vai viajar?”

“Partir.” Ele me diz, dando de ombros. “Depois da nossa conversa... pensei muito. É hora de... trocar.”

Noto por sua expressão que essa troca não é sinônimo de retornar, mas de seguir. Sou cúmplice neste sentimento.

“Ajuda?” insiste.

“Aceito.” Respondo. “Mas ainda não sei onde.”

“Qualquer lugar?”

“Qualquer lugar.”

“Vamos juntos. Estou pensando. Talvez... casa dos meus tios. Posso sair antes.”

Concordo com a cabeça. Vamos juntos ao guichê, onde a transação se faz bem mais facilmente com sua presença e orientação. Despeço-me de quase todo o dinheiro que me resta, mas ele tenta me reconfortar. “Posso ajudar, se quiser.” Agradeço, mas declino.

Sentamo-nos para esperar o trem; desta vez, sequer sei o nome do meu destino, ou se irei até o ponto final. É uma expectativa diferente das outras. Tenho a convicção de que algo vai acontecer. Paira um pouco de silêncio.

“As notícias chegaram ao hotel. Mensagens. O que você fez na Central.” Ele comenta, e entendo finalmente seu ar um tanto divertido. “Estão... surpresos. Assombrados?” desta vez sou eu que rio.

“Está ofendido?”

“Não. Não sei se acredito o suficiente. Em qualquer coisa daqui. Aprendi o suficiente. Agora... partir.” Faz o gesto com as mãos. “Você não tem medo? Acho que... querem prender seu reflexo aqui.”

“Mesmo conseguindo, acho que ele ia adorar fazer uma bagunça.” Respondo, e sinto uma concordância em alguma parte de mim que não sei precisar. É a vez de ele rir. “Mas esqueci de... dar de novo.” Não encontro a palavra para ‘devolver’, enquanto tiro o lenço da bolsa, pela primeira vez lembrando-me dele.

“Fique com ele. Não vai fazer falta. Foi dado.” Ele me assegura. Depois de um momento de hesitação, coloco-o em volta do pescoço para me confortar, embora a temperatura esteja mais suportável dentro da estação, por onde alguns fios de sol aparecem. “Sabe... não tem mesmo medo? Se... conseguem.”

Percebo que sua hesitação é sincera. Não sei quanto tempo ficou na cidade e suas crenças se entrelaçaram à cultura local. Balanço a cabeça antes de responder.

“Não. Sou... ou somos... tão difíceis de controlar à força, que acho que seria um problema bem grande mantê-lo aqui. Se ele não é fiel nem a mim...” deixo o resto da frase no ar, o que a faz mais expressiva do que meu repertório um tanto falho de palavras e gestos.

Seu olhar passeia pela mala, pelos trilhos, e repousa nas mãos sobre o colo. “Você é corajoso.”

“Ou louco.” Acrescento. “O que está bem próximo.”

Ele olha para cima. “Acho que o louco não tem medo. Não sabe que precisa. O corajoso tem tanto medo quanto o covarde. Mas faz do mesmo jeito.”

Gosto de sua definição, e concordo com a cabeça, entusiasmado. Ainda me considero louco. Caímos em outro silêncio, que dura alguns minutos, longos, pacíficos. Outras pessoas chegam, compram suas passagens, e sentam-se em outro banco, não longe do nosso. Conversam baixa e animadamente, como quem confabula, soltando alguns risinhos. Percebo que já têm certa idade, o que confere um ar de sagacidade à cena, e não de imaturidade comumente atribuída a diálogos assim. É tão mais fácil ler capas do que livros!

Começo a sentir o sono cobrir meus membros, enfraquecer minhas pálpebras e os músculos do meu pescoço, quando a voz de meu novo futuro companheiro de viagem chega até mim.

“Acha mesmo que há outros de nós? Outros... eus em outros lugares? Não precisam ser reflexos...”

Seu tempo de silêncio foi muito melhor utilizado do que o meu; no entanto, para alguém que reflete tanto, percebo que está mais em paz do que os demais pensadores que já conheci. “Sim. De algum jeito, acredito que somos muitos. Ao mesmo tempo? Talvez. Em lugares diferentes? Possível. Dentro uns dos outros? Pode ser. Cada pessoa é muita coisa... para ser só uma pessoa.”

“Muita coisa.” Ele repete, em concordância.

“Disso eu tenho certeza. É preciso existir de várias formas.”

Sua boca se abre e se fecha sem dizer palavra. Ouvimos um som distante, que anuncia a aproximação de um trem, como um longo suspiro da paisagem. Lentamente, o som da máquina se torna perceptível, e o apito, reconhecível.

“É o nosso trem?” pergunto. Assentimento.

A grande máquina chega para nos acolher, todos erguendo-se antes que eu, em enorme presteza.

“Vamos!” meu companheiro me chama, erguendo a mala em um impulso, subindo os degraus para o vagão em um instante. Corro para segui-lo, um tanto confuso, e preciso me segurar para não perder o equilíbrio, pois o trem segue imediatamente, tão logo meu primeiro pé pousa no degrau metálico. A parada mal passou de uma breve desacelerada na estação, o que me faz compreender a pressa unânime. Recomponho-me, e acompanho os passos de meu colega para dentro de um vagão vazio, os bancos de ambos os lados completamente desertos. Nossos bilhetes só são verificados quando já estamos instalados.

“É sempre assim?” pergunto.

“Rápido? Ou vazio? Bom, ‘sim’ para os dois.” Ele responde, bem humorado. “Vai encher em outra cidade. Aqui é só passagem.”

Despeço-me da cidade espelhada no lago com mais simpatia do que aquela que me acolheu; cortamos a fina névoa que parece nunca abandoná-la em seus limites, e uma curva ao longo de um estreito bosque já é suficiente para apagar seus prédios baixos e brancos da paisagem visível.

Sentamo-nos um defronte ao outro, com nossos pertences ao lado, para o corredor, enquanto compartilhamos a mesma janela: vejo a paisagem que se afasta, e ele aquela que se aproxima. Já estarmos avançando deu-nos a ambos uma sensação de paz – a minha temperada com um pouco de curiosidade – e suspiramos quase ao mesmo tempo.

“O mesmo caminho. Mas não temos o mesmo destino.” Ele pensa em voz alta.

“A vida é assim, às vezes.”

“O que já encontrou nesse caminho?”

Sentindo no rosto uma expressão pensativa e confortável, começo a narrar minha viagem, um tanto de trás para frente, o melhor que posso. Narro as paradas e os trajetos, narro os lugares e as pessoas; há muito tempo não usava tantos verbos no passado.

Nesse retorno, chego até o campo verdejante onde tomei uma decisão importante... e passo por ele, contando como cheguei e de onde vim para fazer meu pouso...

“Desse jeito, vamos para antes do seu nascimento.” Ele me questiona, irônico.

“Ou antes dele?” respondo, provocador. Vejo que ele não se decide se acredita ou não em mim.

“E sua estória... conseguiu encontrá-la?”

“Aquela que quero contar... não. Ou não encontrei o jeito certo de contá-la.”

“Acha mesmo que ela está no caminho?”

“No caminho, ou em mim, enquanto mudo pelo caminho.”

Sinto alguma frustração por lidar com temas tão abstratos com uma língua limitada. Poderia dizer muito mais e explicar em detalhes se tivéssemos uma comunicação mais simples... Esse incômodo não atinge meu interlocutor, que parece bastante à vontade.

“Gosto de sua maneira de ver as coisas.”

“Agradeço.”

“Já deve ter escrito muitas coisas boas.”

Não sei o que responder. Sempre tenho dificuldade para julgar o que já está feito, e assim me agarro no presente. Sem conseguir, no entanto, ignorar a voz que me exige, ou me impulsiona a... que? O que fazer nesta canção sem palavras?

Devo trair algo de minha confusão através de meu rosto, porque sou distraído das elucubrações com sua risada curta, de simpatia.

“Não era intenção preocupar.” Ele garante, com um gesto da mão. “Posso dar um conselho?”

Ergo as sobrancelhas, surpreso. “Claro.”

Com meu assentimento, ele junta as mãos em concha diante da boca, sussurrando nelas algo em voz baixa, provavelmente em sua língua natal. Seus olhos, mantidos baixos, se reerguem para mim pouco antes de terminar o conselho, risonhos.

“Para quando precisar de um conselho. Qualquer hora.” Ele me estende as mãos que aninham o conselho. Hesito por um momento, antes de alcançar minha bolsa e dela tirar meu caderno. Ele está um pouco embolado com meu rosário de contas, de forma que os pego juntos, e elas ainda estão em meus dedos quando abro a capa à procura de uma página em branco, passando por aquela em que guardei minha flor. Acho uma disponível e, com um gesto, incentivo-o a depositar ali o conselho, o que faz com bastante delicadeza. Um pequeno sobressalto do trem faz com que algo dele respingue de leve em meus dedos e no rosário. Meditarei em seu conselho.

“Sou grato.” Agradeço com os lábios e com os olhos, antes de fechar carinhosamente as páginas. Ele está satisfeito.

Sei que não me pediu nada em troca, mas me sinto tentado a oferecer alguma coisa; ofereço então uma canção, que habitará o vagão vazio sem invadir mais ninguém. O tipo de canção que cantarolo sozinho, com as mãos mais ocupadas do que a cabeça, ou quando os pensamentos não estão saudáveis, e precisam de uma brisa fresca a arejá-los; menos pretensiosa do que o silêncio e fácil de guardar, se meu companheiro de viagem quiser fazê-lo.

As últimas palavras se desprendem de minha boca e ainda se assentam sobre os últimos bancos vazios quando o apito do trem ressoa, avisando que nos aproximamos da próxima estação. Sua velocidade diminui, enquanto trocamos olhares novamente.

“Obrigado.” É sua vez de dizer. Não precisa de explicações. Seu pé para de balançar no ritmo que me acompanhava.

Vejo pelas janelas do outro lado que meu companheiro de viagem estava certo, e que um grande número de pessoas quer se tornar um grande número de passageiros. Desta vez o veículo para, permitindo que as pessoas subam em uma longa fila, acomodando-se nos bancos, trazendo suas expectativas, saudades, arrependimentos e bagagens. Os mais inseguros e envolvidos nas despedidas demoram-se para subir por último. Nossos bancos não são ocupados – temos alguma autoridade por sermos os pioneiros naquele território?

Nosso silêncio se preenche de conversas baixas, despedidas pelas janelas, o apito do trem. Quase todos os lugares estão ocupados. Ninguém se dá conta da música que divide com eles o espaço. Quando olho meu companheiro, seus dedos batucam no apoio da janela, no ritmo que lhe deixei.

A viagem segue serena.

Quase nenhum movimento na parada seguinte; o serviço do trem nos oferece um agradável lanche de biscoitos e bebida quente, e o chá dá uma sensação de conforto nos dedos, que o desfrutam mais que minha língua. Nova cidade se aproxima.

Então você aparece.

Vejo sua silhueta inconfundível, inacreditável, de pé nesta estação, junto ao embarque. Mala pequena, roupa confortável. Não espera por minha chegada, e a ideia de que parta sem mim parece intolerável.

De forma inconsciente, agarro minhas coisas, enquanto o trem termina a frenagem. Meu companheiro reconhece os sinais.

“Então é você que desce primeiro.” Ele me sorri, e consigo notá-lo. “Boa viagem.” Ele me deseja, como se me liberasse da escolha que já fiz, e apenas não percebo.

“Boa chegada.” Desejo-lhe. Apertamos as mãos e me precipito a descer, atraindo alguns olhares. Estou no chão antes que me dê conta. Nossos olhares se cruzam. Vejo sua surpresa e até alguma satisfação.

Você me sorri.

E neste momento, eu entendo. Entendo que a voz que me impulsionava não clamava apenas por mim, que era incapaz de compreendê-la porque nem tudo o que me dizia me era dirigido. Entendo que a canção sem palavras que me habita é dirigida a outros ouvidos, e que os meus foram treinados a receber uma canção vinda de fora, com seus mil, dois mil sentimentos. Compreendo que meu infinito cresce para se derramar em outro peito, florescendo diante de outros olhos; mas por mais que crescesse, sempre haveria espaço para a beleza sem fim de uma alma afim. Que existo em silêncio, em angústia, em mantras, em prece, em música, em imagens, para ser lido por alguém como você, e amado, talvez, nunca totalmente compreendido. Dou-me conta de que esta estória que busco, ainda que infinitamente minha, é irremediavelmente nossa. E que ela nada pode por mim... mas contá-la é a única coisa que faz com que eu seja eu. Escrevê-la é tudo o que sei, e só posso pará-la quando eu não mais for.

“Olá.”

É assim que começa minha jornada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!