Jornada

7 Parte 7


Já subimos rampas, ladeiras, escadas. Uma curta viagem em trilhos que sobem. Pegamos mais de um elevador. Percorremos ruas estreitas com transeuntes apressadíssimos e só a mão pequenina e firme impediu que eu me perdesse, minha diminuta ligação com aquela silhueta singrando um mar de roupas circulando na penumbra. Sou rebocado sem protestar, oferecendo-me apenas para segurar a cesta de doces acima dos chapéus furiosos.

As palavras que nos guiam desta vez são: “Vou levar vossa senhoria a um lugar onde as coisas estão ao contrário.”

Sinto as construções se avolumarem ao nosso redor, restituindo a atmosfera saturada e claustrofóbica que constitui a identidade daquela cidade em meu imaginário. Percebo que não vou aguentar muito mais tempo ali, com todos os seus estímulos. Não sei se a escuridão acima dos prédios se deve ao cair da noite ou a algum tipo de obstrução. O pisca-pisca que não cessa é cansativo.

Paramos diante de uma portaria que não me diz muita coisa. Um homem jovem e alongado guarda a entrada. Tão logo nos destacamos na multidão, em seu rosto se desenham várias expressões que mal posso acompanhar. Mais pressinto que vejo alguma consternação, uma vaga curiosidade dirigida a mim, um mínimo de exasperação. Nenhuma surpresa.

Algumas breves palavras que não consigo ouvir. Ele some lá dentro.

“Foi meu avô que conseguiu esse emprego para ele.” É minha única informação.

Ele retorna para nos buscar, com um pouco de pressa. Estamos em um saguão bonito e seco de decoração. Seguimos por um corredor amplo onde desembocam algumas portas quase sempre fechadas, até sairmos em outro saguão maior, com umas poucas pessoas diante de um grande número de portas de elevadores. Nunca havia visto tantos assim em um único prédio.

Em pouco tempo um deles chega, engolindo a maioria das pessoas que aguardava ali. Restamos poucos. Aguardamos minutos antes de algum outro chegar. Minutos que se alongam, enquanto não sei o que nos aguarda, e sequer tenho o que ver. Naquele espaço vazio, de paredes nuas e portas que não se abrem.

Tento me distrair com o pequeno grupo de pessoas que ficou. Não estão todos juntos. Falam pouco, baixo e discretamente. Falta qualquer coisa excepcional que cative muito minha atenção. Um senhor me lembra alguém que vi no trem que me conduziu a esta cidade, mas não chego a descobrir por que enquanto ele avança rumo ao elevador que chega, junto com o restante do grupo. Todos menos nós. Mesmo havendo espaço de sobra, pelo que consigo ver. As portas metálicas se fecham.

O guardião que nos acompanha está cada vez mais inquieto por ter deixado seu posto por tanto tempo. Seu silêncio é eloquente como uma reprimenda.

“Pode ir. Prometo que não vamos sair daqui até o elevador chegar.”

“Acabou de chegar um...” começo a dizer, enquanto um grupo desembarca no salão, mas um gesto lança à inutilidade minhas palavras.

“Esse não serve. Esse vai para os outros andares.”

“...”

“...”

“...mas não é isso o que todos os elevadores fazem?”

“...”

“...”

Uma risada tão alta que atrai de volta a última pessoa que deixara o saguão e já seguia pelo corredor.

“Você vai entender.”

E é isso.

Mesmo quando criança, fui poucas vezes deixado de lado por não entender alguma coisa. É um prazer enorme para uma criança fazer isso com um adulto.

O guardião finalmente aceita sua dispensa, e encaminha-se de volta para a entrada. A criança que me acompanha, sentindo-se magnânima, cede mais um pouco de informação para o pobre turista sob sua proteção.

“São só aqueles cinco que nos interessam.” Diz, apontando os da direita (em nada diferentes dos outros), incluindo aquele por onde entrou o primeiro grupo, mais numeroso.

Novos minutos de espera.

Um deles chega, despejando quatro pessoas, três com visível nível de embriaguez, uma delas incapaz de avançar em linha reta até o corredor. Entramos rapidamente.

De fato, o elevador é espaçoso, e logo entendo sua razão de ser. Pelos botões (ou falta deles), noto que ele só para no último andar. Sua estrutura é transparente e projetada para fora do prédio, fazendo dele o panorâmico ideal; a visão só é obstruída em parte se algum outro elevador cruzar seu caminho. Todo o seu funcionamento é para proporcionar um breve passeio vertical.

Ou não tão breve assim. Com o botão apertado, seu deslocamento é lento e silencioso. Vamos nos elevando aos poucos, acompanhando as luzes dos prédios próximos.

“Aonde estamos indo?”

“Acima do céu. Mas curta o trajeto.”

Os transeuntes já são pontinhos negros a desaparecer aos poucos, e os veículos, pontinhos de luz em trajetos mais ou menos previsíveis. Os edifícios à nossa frente são superados em altura, revelando outros mais altos e mais distantes, distribuídos muito juntos sobre o terreno irregular...

Gradativamente, a paisagem se transforma diante de meus olhos. As formas das construções se fundem, amorfas, no escuro, nada restando delas além das janelas acesas, cada vez mais numerosas enquanto continuamos subindo, subindo muito além do que esperava.

Aquele espaço claustrofóbico e frenético como uma colmeia, com suas construções espremidas umas contra as outras, revela-se do alto um firmamento onde repousam constelações de luz elétrica, sempre mais e mais, ondulando indefinidamente.

“Esse prédio é um ponto turístico apenas por esses elevadores e pela cobertura. É possível ver a cidade inteira, e ela não é pequena.”

Continuo em silêncio enquanto nos elevamos acima do céu.

***

O vento nos atinge assim que a porta se abre para a cobertura. Muitos visitantes continuam lá. É difícil encontrarmos um lugar junto às grades para observarmos o entorno: é preciso esperar que alguém se canse da vista daquele lado e saia para nos lançarmos sobre a abertura deixada. Nunca há espaço para dois.

“Vai. Não vamos conseguir ir juntos. De qualquer jeito, já vi antes. Pelo menos um pouco. Sempre fico abaixo do nível das grades. Gosto mais do elevador do que daqui...” um dar de ombros risonho.

Pouco tempo depois, surge uma vaga. Lanço-me sobre ela. Mas logo fico agachado, de joelhos dobrados, fazendo o gesto com a mão para que se aproximasse.

“O que está fazendo?” me pergunta, depois de uma longa hesitação, fazendo com que fique um tempo estranho nesta posição.

“Mal posso me virar. Sobe aí.” Respondo com o rosto voltado para a grade.

“Como é?”

“Deixa a cesta atrás de mim e sobe nas minhas costas.”

Tento me curvar o máximo possível. Ainda a hesitação. Finalmente sinto o corpo se aproximar e a perna passar sobre o meu ombro. Ajudo segurando o tronco enquanto a outra passa. Levo algum tempo até encontrar um jeito de não machucar as orelhas. Finalmente me levanto, causando um “opa!”.

Outro olhar se acende junto com o meu.

***

Não posso dizer a ninguém da cidade, que não tenha visto a paisagem, que eles moram no céu estrelado. Talvez nem mesmo àqueles que viram a cena há algum tempo, e cuja vida apegada ao solo obliterou o deslumbramento da impressão na memória. Compreendo, porque tampouco eu me sentia no céu até então.

Pela luz de baixo, as cores de cima são roubadas precocemente. Não sei o que tece a obscuridade que forma a abóbada sobre nós: um crepúsculo de chumbo? Uma tempestade ensaiando? O céu estaria cristalino, e meus olhos é que estão velados pela luz da civilização, roubando as estrelas de cima ao me oferecer as da cidade? É arrogância dos mortais reivindicar dois mundos constelados?

Tudo o que penso ocupa uma porção mínima da minha consciência, engasgada que está com meu coração atravessado.

***

Aguardamos a chance para as outras grades. Os doces são vendidos aos poucos, mas continuamente. O encantamento não sacia todas as fomes, e ainda amacia as resistências. Os sorrisos surtem mais efeito. Faço-me covendedor oficial; consideram mais difícil dizer não diante de mim.

Quando conseguimos ver o quarto ângulo, a cesta está tão leve quanto possível. É com um olhar em silêncio que concordamos em descer.

Enquanto o elevador viaja, vemos a magia se desfazer, como uma pintura que cede ao removedor, devorada por obstáculos. A vista volta a ser constipada como antes, o que deixa ainda mais vívida nossa impressão mental.

Nosso silêncio nos acompanha até a calçada.

“O que fazer agora?”

“Fazer companhia até sua casa.”

“...”

“...”

“Queria mesmo que conhecesse meu avô.”

Pomo-nos a caminho.

“Aproveito para preparar alguma coisa salgada.”

***

Não presto atenção nesta parte do trajeto até a pequena residência que não me espera. É o que imaginava ver. Sou anunciado com naturalidade, e o mesmo sentimento me guia à presença do louvado ancião.

“Obrigado.” É a primeira palavra que ouço. “Bem vindo.” é a frase seguinte.

“Conte estórias a ele, vovô, enquanto preparo alguma coisa para nós.”

Não cabe a mim fazer cerimônia, que equivaleria a uma exigência. Cerimônia é o que cabe a meu anfitrião, aprumando-se em sua poltrona para falar, piscando os cílios brancos sobre as íris brancas.

Este senhor é cego. Se conseguiu suas estórias apenas nos livros que leu enquanto podia, ou se em sua mente essas palavras fermentaram para criar algo novo, mais espesso e inebriante, não me cabe descobrir. Sento-me sobre o tapete velho, grosso e deliciosamente confortável, e escuto. Escuto até estar perdido, perdido de tudo o que queira me perder sem sabê-lo. Sua voz é macia e rugosa como o tapete, a menos que queira fazer o mistério de quem decide até onde poderia (ou deveria) contar. Às vezes, alisa os punhos do paletó discretamente puído, acariciando o passado, pelo que imagino. Aquele deve ter sido seu antigo uniforme de trabalho.

A chegada da comida não interrompe a magia do momento. Agarrados a nossos pratos, o tapete e a poltrona são o limite do mundo tangível, abrigando os corpos que se alimentam enquanto as mentes vagueiam. Tento ouvir com todo o meu ser, para lembrar-me daquelas estórias: escrevê-las seria traí-las, ou trair seu contador. Quem ouve uma delas pode apenas escolher tornar-se o livro guardião; elas estariam mortas, sangrando a tinta, apunhaladas no papel.

E eu quero recontá-las. Quero espalhá-las, quero ouvi-las em minha voz, sempre vivas, e depois em outras vozes, mesmo que filtradas, mesmo que filhas de novos pais, mesmo que tingidas de outras cores. Elas devem viver do som e do eco.

As horas se adiantam sem mim.

“Obrigado por acompanhar minha neta.”

Aquela parece uma fala de algum personagem. Pensando bem, vejo que a frase anterior caberia bem como desfecho para o enredo que vínhamos ouvindo. Olho para o lado apenas para me certificar do que já adivinho: a forma infantil adormecida, exausta de todo um dia de trabalho. Comigo.

Corrigindo: o enredo que apenas eu vinha ouvindo.

“Eu é que sou grato por uma companhia e uma guia excelentes. E por me receberem em casa.”

***

Não sinto a partida, a viagem tardia até o hotel sob orientações precisas e cuidadosas do contador de estórias; desconheço os perigos que evitei ao seguir fielmente as instruções, imediatamente apagadas quando cheguei, esgotado, a meu destino; ignoro a subida, e quantas pessoas encontrei e cumprimentei no caminho – prefiro imaginar que fui gentil e grato a todos, exemplar. Sequer recordo quando vim parar nesta posição, sob a roupa de cama.

Tampouco me recordo daquilo que deixei sobre a mesa daquela moradia humilde, que abriga mundos inteiros.

***

Acordar foi como cair. Eu flutuava alguns centímetros acima do colchão sem o saber.

O teto, as paredes opacas, a iluminação oblíqua, as coisas ao meu redor são densas e intensamente reais. Não, não reais: sólidas. Tão sólidas que parecem um cenário montado minuciosamente, mas retocado às pressas.

Demoro um pouco mais até assumir consistência suficiente para transitar neste espaço. Até lá, estou abraçado na preguiça.

Providencio um rosto que possa vir a público e desço para o café da manhã. Há menos pessoas do que ontem. Pelo ângulo da luz e frescor das mesas, noto que desci mais cedo do que supunha.

Há pouca diferença na oferta de comida e repeti tudo o que meu coração quis. Pouco há para se ler nas pessoas além de sono ou pressa.

Quando saio, a funcionária que trouxe meu jantar secreto veio junto a mim.

“Se quiser que lavemos alguma peça de roupa do senhor, basta apenas deixá-la sobre a mesinha de sempre, e em poucos minutos passarei lá para recolhê-la.”

A mesinha de sempre. Já sou íntimo da pousada.

“Minha diária terminará antes que a roupa tenha tempo de secar.” Respondo.

“Nosso serviço de lavagem e secagem é rápido. E com certeza o senhor pode se demorar um pouco mais no quarto enquanto aguarda. Seu quarto não será pedido com qualquer urgência.” Sorriso amigável.

“Temo estar explorando a generosidade do dono.”

“Não se preocupe. Não ofereceria se não tivesse certeza de poder fazer.”

Minha última hesitação é uma piscadela. “Obrigado.”

Só depois de encerrado o diálogo, preocupo-me com o estado de minhas roupas, usadas na jornada do dia anterior, amarrotadas pela noite de sono. Despertei a compaixão da funcionária?

No espelho, estou mais sujo e amarrotado do que as roupas.

Decido lavá-las todas e a mim mesmo.

***

O breve instante em que cruzo, com uma passada e meia, a distância entre a porta de meu quarto e a mesinha de sempre, coberto apenas por uma toalha.

Quero sentir isso de novo da próxima vez que estiver nu na frente de alguém.

***

Promessa cumprida: desço as escadarias um pouco depois do horário previsto, sem consequências, com roupas limpas, elas e eu exalando cheiros parecidos de flores desconhecidas, imaginárias. Limpos e amaciados.

Já é hora de deixar aquele ninho de caos. Um de seus trens certamente me levará para meu novo destino. Algo diferente de mim guia minha escolha: o cansaço, a pressa alheia que começa a me contagiar, alguma intuição superior. Ou inferior. De todo modo, um nome me chama, ecoando em minha voz mental de maneira que soa bem, um belo arranjo de letras, longo o bastante para ser imponente de maneira prolixa, porém ainda pronunciável. Como a convivência comigo mesmo. O preço da passagem é o indício de que é uma terra distante o bastante para me sentir aliviado.

Pensei bem menos do que de hábito até já me ver no vagão. Ele tem um leito que confirma minhas suspeitas, e um cheiro que levanta muitas outras.

Com atraso, percebo que deveria ter providenciado algo para fazer neste trajeto. Também com atraso, percebo que esta ansiedade por ocupação não me pertence, e devolvo-a à cidade que me ofereceu tal peso, junto ao primeiro deslizar do veículo. A janela demora um pouco até ter mais a oferecer do que um complexo bailar de tonalidades de sombra e jatos de luz. É uma paisagem predominantemente vazia, um bálsamo a meus olhos constipados de tanta informação há algum tempo.

Meus dedos da mão direita acariciam a pedra do anel que fez morada no dedo médio da outra. Uma presença cada vez menos estranha e mais reconfortante. Começo a ficar aéreo, algo bastante comum quando preciso ignorar o tempo que passa ao meu redor e que ficaria preso em mim. Percebo apenas de maneira vaga que meus olhos acariciam o limite das terras visíveis, ondulações que começam em um tom de verde pouco saudável, que aos poucos se aprofunda, vestindo a terra com um punhado de vida tão belo quanto frágil. O terreno torna-se cada vez mais acidentado, até que os últimos morros estejam já azulados, impossivelmente distantes, recobertos com um verniz de céu.

Este também se revela aos poucos, desfazendo-se das nuvens pálidas para revelar um azul que quase esqueci. Os fortes ventos indicam uma limpeza completa... ou a chegada de uma tempestade para breve.

Sem baixar meu rosto, encontro o rosário de contas em minha bolsa, atrás das roupas. A ponta dos dedos acaricia a esfera macia e polida, delicadamente fresca. As palavras vêm junto com a respiração, uma musicalidade baixa que preenche a cabine, tênue como um incenso. Lábios que não se enganam, voz que dança suavemente um ritmo previsível e confortável, transformada no curto caminho até meus ouvidos, já que não a reconheço mais como minha.

Nunca compreendi de todo as palavras de um rosário; nenhum deles, nenhuma delas. São línguas perdidas que acreditavam piamente ser o eco dos seres sagrados, reencarnados em mundos perdidos que precisam ser salvos. Talvez sejam mesmo. Todas elas. Pelo pouco que entendo, escolho aquelas que falam de amor. De beleza, de paz, de comunhão. Deixo de lado as que sofrem catástrofes prometidas desde o primeiro erro, ou arrependimentos incuráveis que persistirão até o último.

Gosto destas palavras porque são aquelas que mais facilmente me preenchem, ou me esvaziam. Que logo me transportam, ou prontamente me despertam e fixam no presente. E isso porque acredito nelas, muito mais do que acredito no que elas dizem. Talvez até acredite mais em mim ao dizê-las.

Tempo suficiente me atravessou para que parássemos em outra estação e eu nela saltasse, ainda embebido de tudo o que recitei, cantando como se ninasse meu espírito. Há pouco tumulto, ou estou imune a ele. Compro provisões leves – quero conhecer o vagão restaurante – e um pequeno livro. Retorno sem pressa, mas percebo que prestei pouquíssima atenção nesta parada e, como forma de pedido de desculpas, pego o caderno para rascunhar a imagem que tenho de minha janela. Traço as colunas, o comércio visível, os guichês, o emaranhado metálico que cobre parte do teto, painéis, tudo de maneira rápida e tosca, reconhecível aos meus olhos. As aberturas, outros trens, bancos.

Meu trem parte no momento em que começo a traçar a primeira pessoa. Como era mesmo seu chapéu? Aquela roupa longa era um sobretudo, um vestido, uma capa, um manto?... Impossível desenhar aquilo de que não me lembro nada. Minha estação, tão acolhedora na página, nunca receberá uma visita. A menos que eu crie ali.

Para que não fique só, crio quatro.

Mudo a página. Antes que aquelas pessoas vejam seu passado, seu presente e seu futuro umas das outras e, sobretudo, de mim. Começo a rascunhar algo da paisagem, antes que a vontade de criar seja mais forte.

Na estação seguinte, não pretendo saltar, e começo a retratar apenas as pessoas, flutuando sobre a ausência do cenário. Nenhuma delas fica sequer parecida com a original e isso é um grande alívio. Partimos bem mais rápido.

É como a viagem prossegue. Rabiscos que retratam trechos da viagem, uma autobiografia em imagens, um autorretrato de memórias. Algumas estações me atraem para fora, sob um céu cada vez mais escuro. Ao longe, posso divisar cidades que vão perdendo seus contornos, que reconquistam através de luzes fugazes e civilizadas. Uma parada parece se dar literalmente no meio de coisa alguma: grama que se perde no breu, cortada por uma única estrada de terra engolida pelas trevas noturnas, ao som de insetos que nunca ouvi antes. Um grande número de pessoas desce e aguarda, ao lado de uma volumosa bagagem. Todo o espaço iluminado está ocupado. Nada acontece. Estou para perguntar alguma coisa quando noto, muito distante, uma estrela vindo baixo demais, no horizonte. Ela oscila, a princípio quase invisível, até ganhar mais força... se multiplicar. É algo que se aproxima pela estrada de terra. Ninguém está surpreso.

Sou obrigado a embarcar no trem antes de saber se todas aquelas vidas estariam sendo buscadas pelas luzes, que começavam a fazer um ruído mecânico.

O vagão restaurante recebe algumas visitas minhas. Comida cautelosa, genérica, na aparência, no gosto e no preço. Três pessoas estão lá em todas as vezes em que chego, sem falta, conversando com pessoas diferentes, ou antes monologando, ou fazendo perguntas. Um tipo de solidão de cura difícil e tratamento equivocado.

Como forma de escapar, sento em mesas já ocupadas. Há alguma desconfiança após a saudação, sem grande compreensão mútua, um silêncio seguro e gratificante impera em seguida. Duas figuras salvam uma a outra de diálogos perturbadores.

Também leio o livro que comprei, primeiro com alguma expectativa, depois com certo desinteresse... finalmente com uma fome extraordinária, uma vontade incontrolável de descobrir se o enredo melhorava minimamente. Antecipo a tortura das últimas cinco páginas, por demais exíguas para salvar minhas esperanças. Faço para a contracapa uma expressão que espero nunca ter obrigado alguém a ver.

Lá fora está muito escuro para que a paisagem aplaque meu apetite, depois de uma narrativa que serviu de modesta entrada. Tamborilo a capa com os dedos, nem mesmo meus pensamentos me bastando. Tantas respostas faltando! Sobretudo, tantas perguntas! Quão plano é um mundo ficcional que mal desperta alguma curiosidade insolúvel? Quando até mesmo os “se...?” parecem supérfluos, e um abanar da mão é a panaceia de qualquer hipótese?

Agarro na bolsa algo para escrever e começo... o quê? Não sei. Escrevo desde a primeira página, nas margens disponíveis, todas elas. Minha letra percorre esses espaços silenciosos para tentar semear a curiosidade, e tornar significativo aquele silêncio. Continuo a narrativa de onde foi abandonada, órfã, antes da biografia autoral; estudo acontecimentos, obrigo outros, dou voz a personagens silenciados e até àqueles que nunca esperavam falar, surpreendidos em seus lugares confortáveis de pano de fundo. Dou vida a outros para povoar alguns espaços desertos, solidifico construções, disponho-as nas cidades, dou-lhes cor, textura, tamanho, profundidade. Finalmente aqueles seres contemplam alguma paisagem, fosse bela ou aterradora. Invento o clima, coisa inédita. Audacioso, faço nascer o amor onde não se esperava. Escrevo, escrevo furiosamente, noite adentro, preenchendo folhas em seus pontos proibidos e vulneráveis. Que deliciosas vítimas são as últimas e primeiras páginas de um capítulo!

Caio exausto, de lado, quando uma suave nesga solar acaricia minha têmpora e me faz adormecer.

***

Meu primeiro e único momento de hesitação: minha mão pára antes de matar o primeiro personagem.

E então não pára mais.