Jornada
4 Parte 4
Do lado de fora, as pessoas, raras, continuam com aquele aspecto de quem dedica um longo tempo e um grande investimento na estética. Mesmo seus corpos apresentam contornos, cores e detalhes que a Natureza sempre teve o bom-senso de poupar aos seres vivos. Rapidamente, fui sentenciado, simultaneamente, como feio, pobre e desleixado. Ainda por cima, de sandálias.
Ignoro os transeuntes para me focar nas construções. Decido olhar primeiro as moradas, cada uma apenas brevemente, para não levantar algum tipo de suspeita desconfortável. Na volta, dou total atenção ao comércio.
Em pouquíssimo tempo de observação capto a única regra que impera sobre todas as residências daquele lado da rua: seja diferente das demais. Sobretudo, absurdamente diferente de seus vizinhos imediatos. De modo que, se seu vizinho tem um belo e amplo jardim à frente de casa, com banquinhos, canteiros e postes de vidro colorido, faça sua casa rente à calçada, sem ter jardim algum. Se os moradores ao lado têm uma vasta varanda em algum andar, tenha certeza de não ter nenhuma – ou tenha, no mínimo, cinco, e todas pequeníssimas. Se optarem por uma construção cômoda, plana e arejada, more em uma torre.
Como resultado, em uma rua curta que não exige mais do que alguns minutos de travessia, vejo a infinita possibilidade criativa e arquitetônica que o dinheiro pode bancar, dado um espaço restrito, e que não despenque devido às leis naturais. Disponho-me a fazer um jogo rápido. Vendo uma casa, com seus atributos principais, tento imaginar a próxima antes de erguer meus olhos para ela, mas quase nunca chego perto. Vejo cores que nunca imaginei ver combinadas (ou descombinadas), ficando especialmente surpreso com aquelas que gosto, contra minhas próprias expectativas.
Neste espaço, não sei se vale a regra geral de que a habitação é uma extensão do corpo dos donos – logo, de seus gostos, valores e crenças. É tão artificial, que não duvido as construções agredirem até mesmo os gostos de seus proprietários, que nunca o admitirão... apenas para cumprir com alguma norma ou exigência do grupo, expressar uma individualidade caricatural deste povo alérgico à similaridade e à comparação.
Chego ao final da rua, que termina com um suave declive à direita, imaginando se todo este bairro é um álbum de figurinhas proibido às repetidas.
Poucas pessoas estão passeando por aqui, e imagino que não seja bom para o comércio, que começo a descobrir com mais atenção. Com um espaço menor disponível, as cores são ainda mais contrastantes e quase aglomeradas, com cartazes, letreiros iluminados, decorações complexas, muitos espelhos. Todos os recursos para chamar a atenção de clientes. Exceto anúncios de promoções, observo. Creio que ninguém das redondezas quer sair de uma loja com promoções; isso equivale a ser descoberto com um produto pelo qual pagou menos que todos os demais.
Loja de pequeníssimos móveis acolchoados: todas as superfícies macias para seu toque, em todas as cores. Loja de objetos de vidro colorido: tudo o que você pode ter, de um jeito mais frágil. Loja de tintas de parede: procure o resultado da tinta escolhida entre os milhares de quadradinhos pintados aqui! Loja de talheres e utensílios de cozinha: aqueles que você não quer correr o risco de sujar, e que serão impossíveis de limpar...
Diante do menor movimento, percebo, para além do vidro que nos separa, vários sorrisos (automáticos ou esperançosos?) se acenderem no funcionários enjaulados, fugazes como pirilampos. Veem rápido que não devo entrar. Não tenho o aspecto muito próspero. Sinto em mim uma vaga culpa, como se fosse eu a decepcioná-los.
A primeira surpresa vem da loja de roupas. O sorriso instantâneo de um funcionário se apagou como os demais, metamorfoseado em um olhar fixo de quem formula ideias. Não olha para mim, mas para o que estou vestindo. Em questão de instantes está do lado de fora, na calçada, à minha frente. Não consigo dizer se seus cabelos claros anelados meticulosamente têm mesmo várias cores ou apenas são tonalizados pelas diversas luzes comerciais.
“Olá. Notei que observava a loja. Algo lhe interessa?” pergunta ele, com uma voz macia, para minha túnica.
“A loja é belíssima. Infelizmente, estou apenas de passagem.” Respondo por ela.
“Compreendo.” Responde ele, o que me surpreende um pouco. Achei que não seria tão fácil. “Não é daqui, não é mesmo?” dirige-se desta vez às minhas calças, e não sei se pergunta apenas delas, ou de minha pessoa. Felizmente, a resposta vale para ambas.
“Não, é verdade, acabei de chegar depois de muito tempo desde a última visita, e sequer me troquei.”
Seus olhos relampejam, e finalmente se erguem, parando como que surpresos de me encontrar ali. “Não vou segurá-lo mais. Espero que aproveite sua estadia aqui!” conclui com um sorriso que parece até sincero. Agradeço-lhe com palavras e um cumprimento com a cabeça antes de seguir meu caminho, enquanto o funcionário retorna à sua posição na loja. Tenho ainda tempo de notar que os demais membros da guarda da moda aproximam-se com a intenção de confabular.
Estou um pouco mais distraído do que antes. Loja de calçados: todos os desconfortos possíveis para meus pés (um momento! Tem sandálias!). Loja de candelabros: ainda são usados? Aquele ali está me olhando... Loja de adereços para cabelo e artigos para penteados: os funcionários desta me fixam com tanta esperança que meu coração se aperta; nunca imaginei meus cabelos tão cobiçáveis antes...
O entendimento da situação anterior me cai como uma pedra lançada na consciência. Minhas roupas estrangeiras nunca foram vistas nas redondezas. Nesta terra onde o ineditismo é o maior fetiche, elas foram o prato cheio que fez brilharem os olhos daquele comerciante... e ao confirmar uma origem longínqua, atestei igualmente o exotismo necessário para a confecção e venda de algo inspirado em... bom, em mim. Provavelmente, assim que eu não estiver mais circulando por aí.
Fico por alguns instantes imaginando quem será o usuário destas roupas (com certeza, só um conjunto será feito), visualizando os sujeitos mais diversos dentro delas, com todos os acessórios possíveis (e impossíveis), que nunca imaginará o viajante empoeirado que as tornou possíveis. Ou compráveis.
Prossigo com a análise das lojas e suas fachadas impecáveis, coloridas, iluminadas, reflexo dos habitantes. Na penúltima loja, sinto vontade de parar. De todas, é a mais impossível para mim, para meu alcance financeiro, porém, é a que me cativa, por ter uma espécie de brilho totalmente diferente das outras.
Uma joalheria.
Não observo todas as peças como se tivesse vontade de usá-las. Para a grande maioria lanço o olhar apreciador de quem vê um jardim belo e muito florido, mas que não tem vontade de colher as flores. Parte de sua elegância e magia reside justamente no fato de repousarem ali, sobre tecidos contrastantes, tocadas por luzes que as valorizam, próximas umas das outras para ter seu encantamento somado. Algumas, admito que gostaria de poder presentear a alguém.
Outras, sim, preferiria presentear a mim mesmo.
Sempre admirei quem tem o dom de transformar coisas tão rígidas como metal e pedra em peças às vezes tão diáfanas.
Não sei quanto tempo estou a acompanhar a sinuosidade dos relevos, a comparar as tonalidades metálicas, a perseguir com as pupilas as refrações de luz nos cristais... mas quando ergo a vista, o vendedor ergue sua no mesmo exato momento, e nossos olhares se cruzam.
E permanecemos atados.
Percebo que ele é muito mais... natural do que a média. Alguém que se deixou atingir pela idade, que se permitiu algum acúmulo de peso no ventre, e de gravidade nos vincos da pele. Seu rosto, porém, tem de sobra uma fineza nos traços que confere dignidade e certa fragilidade, um queixo fino e limpo, sobrancelhas arqueadas, e um bom volume de cabelos prateados penteados para trás com esmero. Por sobre os óculos, também fita minhas feições: está avaliando minhas orelhas para brincos? Meu pescoço, para colares?
O olhar desce até minhas mãos. Seu cenho é ligeiramente franzido. Volta a olhar para meu rosto, e me convida a entrar com um assertivo gesto da mão.
Anéis. Ele quer me vender anéis.
Embora eu não tenha a menor intenção de comprar-lhe qualquer coisa, não consigo me desvencilhar. E isto não se deve somente à autoridade do gesto com que fui chamado; há algo em sua pessoa que me interessa, em sua aceitação de si a despeito da massa aficionada pela estética rebelde, que despreza a natureza... Deve vir de outro lugar, como eu, e não se deixou influenciar. De qualquer modo, aquela poderia ser a situação que me chamou quando escolhi aquela parada do veículo para saltar.
De todas as motivações, apenas a financeira me diz para não entrar na loja. Então eu entro.
Pelo lado de dentro, é ainda mais fácil se ver preso no deslumbramento por aquelas obras. Agora, são claramente artesanais. Entrego-me à contemplação mais viva e livre de cobiça possível, só concedida a quem não tem a menor chance de ser tentado...
“Bem vindo. Pela sua expressão, achei que deveria ver as peças mais de perto.” O senhor me dirige a palavra. Sua voz maviosa é compatível com sua figura. “Procura por algo específico?”
“Procuro pelo prazer de ver coisas bonitas. Com tudo o que vejo aqui, eu deveria estar satisfeito. Até cheio. Mas não consigo me saciar. Sou guloso de todos os sentidos além do paladar, mesmo que minha barriga pareça desmentir.”
Refeito de alguma surpresa, o vendedor solta uma risada breve e cristalina como uma pedra preciosa.
“Então procura joias para os olhos. Por sorte, todas aqui servem a este propósito, e gratuitamente.” Ele responde, com perspicácia. Estou aliviado de saber que não irá me enxotar da loja mesmo ciente de que não serei seu cliente. “Mas sempre por tempo limitado, lamento, já que não sairão daqui e no momento não estou contratando funcionários.” E, de fato, ele estava sozinho na loja.
“O senhor é o artífice?”
“Não o único. Encontrará na loja ainda algumas peças criadas por meu falecido pai, e também de meu avô, dono da loja antes dele. A maioria das joias é obra minha e de minha companheira.”
“Felicito sua família e o senhor por um dom tão extraordinário, e transmita meu elogio a sua companheira.”
“Se tivesse vindo um pouco mais cedo, teria podido dizer-lhe pessoalmente. Ela saiu para selecionar matéria-prima, fazer encomendas e comprar uma ferramenta para nós.” O senhor me diz, e percebo a suave nota de orgulho em sua voz.
“É lindo que ela queira compartilhar deste trabalho. Ser este tipo de artesão não deve ser fácil para as mãos dela.” Respondo.
“Para as mãos de nenhum de nós.” ele retruca, mostrando os dedos e palmas, calosos e marcados um sem-número de vezes. Suas mãos, porém, são ainda delicadas e diminutas.
“Suas principais ferramentas.” Comento, com sincera admiração. Seu sorriso é discreto e satisfeito quando as baixa novamente para os bolsos. Outra vez seus olhos procuram por minhas mãos, um ar pensativo, talvez querendo nelas ler alguma história ou testemunho.
“É mais difícil quando estamos aprendendo...” comenta, com o ar de quem tem a mente em outro lugar. “Cometemos erros bobos, desperdícios...”
“Não é justo se culpar por desperdícios no aprendizado quando o resultado valeu a pena.” Faço um gesto com os braços sinalizando as muitas prateleiras de vidro com os trabalhos. “Pode me mostrar quais lhe dão mais orgulho?”
Os olhos distraídos se reacendem. Acredito ter sido o primeiro a fazer tal pedido. Com um gesto da cabeça, indica uma primeira prateleira à sua direita, e começa para mim uma incursão histórica. Acompanho-o em suas explicações (sempre breves, por medo de me aborrecer, imagino) enquanto tira peças do mostruário para que eu as aprecie melhor. Fico em deleite seguindo o trajeto do metal, os fechos delicados, os suportes para pedras preciosas quase invisíveis, ou com engastes ornamentados que mereceriam uma nova peça só para eles. Às vezes, faço perguntas. Ele me mostra também peças de sua família e de sua companheira e fica encantado quando começo a perceber as preferências de estilo de cada um; chego a identificar o artífice de uma peça antes que ele me diga, e justifica quando me engano.
Depois de algum tempo, tendo ganhado confiança (ou baixado a guarda), o vendedor chega a me entregar nas mãos algumas peças para conhecer seu peso: pedrarias que deixam claro o sacrifício necessário em prol da beleza enquanto outras joias, a despeito de um imenso tamanho, são inacreditavelmente leves. Outra surpresa foi ver que também se vendem peças para a cabeça muito parecidas com coroas, e broches semelhantes às antigas medalhas e condecorações militares e da nobreza estrangeira.
“Para alimentar alguns egos mais clássicos.” Ele me explica, com ar confidente e divertido.
Tendo me mostrado quase tudo que lhe era mais significativo da loja, ele me pergunta por que, mesmo apreciando joias, eu não trazia nada parecido comigo.
“Eu só quis partir sem levar meu mundo comigo. Pelo menos, não pendurado em mim. Mas tenho, sim, alguma coisa. Minhas orelhas também são furadas, mais de uma vez.” Mostro em vão os furos imperceptíveis.
Ele está interessado em saber o que lhe parece um capricho.
“Faz sentido abrir mão de algo para facilitar a viagem. Mas a ausência de algo importante não causaria uma angústia durante todo o tempo? Não é um sofrimento maior do que ter um pouco mais de peso?”
“Não sinto tanta saudade das coisas. Apenas de épocas e entes queridos, e estes estão sempre aqui.” Aponto ao mesmo tempo para a cabeça e o peito.
“Mas os objetos não ajudam a lembrar disso? A não esquecer o que é precioso?”
“Se preciso de algum objeto para lembrar é porque essa importância já não é mais a mesma. E ficar me torturando com a ausência de quem deixei é pior do que a ausência dessas coisas que ficaram para trás.” Respondo novamente. Depois acrescento, para que não pareça que desprezo as obras que são o trabalho e o orgulho deste bom artesão. “Não ignoro o afeto pelas posses. Pelo registro físico de uma história – e estória – que não posso carregar inteira comigo em todos os detalhes. Também não desmereço presentes que ganhei e me proporcionaram momentos de intensa alegria e gratidão. É que parti justamente em busca de uma nova estória... ou de um novo capítulo para minha história. Se trouxesse tanto daquilo que já foi escrito, não teria a mão e o espírito livres para escrever o novo.”
Penso com carinho na flor que trago perdida entre páginas, sem qualquer peso e sem ocupar espaço, um minúsculo acúmulo de minha viagem. Penso ainda na velocidade com que ela, um presente, também se tornara passado.
O vendedor me ouve com atenção, meneando delicadamente com a cabeça, o olhar por sobre as lentes dos óculos.
“Então você não é contra a ideia de adquirir algo ao longo da viagem.” Diz, como se lesse meus pensamentos. Fico um pouco inseguro. Depois de tanto tempo, estaria querendo me vender alguma joia como pretexto de ser um registro?
“Receio que minhas economias não permitam muitas aquisições, sob o risco de precisar interromper a viagem logo em seguida.” Comento, na defensiva. Perspicaz, o senhor solta uma breve risada pelo nariz.
“Já viajei em condições semelhantes. Tenho algo que quero lhe mostrar mas, primeiro, gostaria que compartilhasse um lanche um lanche comigo. Aceita?”
Um pouco surpreso, aceito a generosidade deste vendedor com um grande sorriso. Satisfeito, ele desaparece por uma porta nos fundos da loja, deixando-me com minha curiosidade. Confirmo com uma rápida passada de olhos que todo o ambiente é monitorado, e imagino que as peças estejam protegidas por algum tipo de alarme de segurança; no entanto, continuo admirando a confiança e a coragem de deixar um estranho neste tipo de comércio. Sinto-me grato por isso, e minha simpatia por esta figura aumenta ainda mais.
“Você pode se mexer, sabe? Puxe o banquinho que está perto do balcão e se acomode. Tenho as imagens da loja aqui dentro também, e vejo você plantado como uma árvore aí no meio.” Sua voz chega até mim abafada pela porta, sempre capaz de me adivinhar, como uma criança diante do adulto. Com algum divertimento, puxo o banquinho todo almofadado para o lado externo do balcão, onde me sento. Para os habitantes locais ele deve ser uma daquelas banquetas elevadas; mas se estiver um pouco à frente no assento, consigo tocar o chão com a ponta dos dedos dos pés.
O tempo se passa enquanto aguardo e quase chego a me inquietar. Um cheiro familiar misturado a outros inesperados chega até onde estou.
“Pode abrir aqui? Fiquei com as duas mãos ocupadas.” A voz suave retorna vindo de logo atrás da porta. Ergo-me imediatamente para abrir. O vendedor passa com uma bandeja repleta, que deposita sobre o balcão. Vejo potes de biscoitos, pães com grãos, frutas pequenas e arroxeadas que desconheço, tirinhas finas de uma carne branca tornada dourada ao ser grelhada, e dois cálices de metal de onde veio o cheiro familiar, exalando vapor.
“Sei que café não combina muito com tudo o que está aqui, mas só tenho isso e água no momento para oferecer.” Ele explica a presença do cheiro que sinto. “E esse é de um tipo excelente, e passado com ervas. Espero que me dê o prazer de me acompanhar.” Está resolvido o aroma que vem junto do café, junto ao convite.
“Será um prazer.” Ajudo a esvaziar um pouco o balcão para achegada da bandeja. “Aliás, sou grato pela generosidade.”
“Não é nada. Você está salvando uma tarde tediosa. E aqui, ninguém bebe café, só um monte de matos fervidos que não tem nem a dignidade de ser apenas um chá! Ele precisa limpar dos intestinos à consciência das suas últimas três gerações, e garantir a elasticidade da pele até morrer!”
Rio com gosto, pegando a bebida e tomando um gole enquanto ainda está bem quente. É realmente bem diferente do habitual, mas sinto que conseguiria inseri-lo com prazer na minha rotina. Começo a admirar o trabalho rebuscado da taça, leve e fina, sem que esta delicadeza seja sinônimo de fragilidade. Até o isolamento térmico é bom.
“Sim, é obra minha. Enjoei de fazer tiaras por algumas semanas.” Meu anfitrião me diz, tendo acompanhado meu estudo da peça, já atacando as tiras de carne dourada. Elogio-o, e ele acena com a cabeça a guisa de agradecimento.
Caímos no silêncio enquanto desfrutamos do lanche e percebo que não há desconforto de sua parte nisso. Imagino que seja alguém habituado ao silêncio no momento de criar, e nas horas vazias de sua loja. Provo cada uma das iguarias e descubro que gosto de tudo, o que me obriga (sofrida obrigação!) a dividir a atenção entre todas.
Não sentimos vontade de criar um assunto às pressas, ou saber mais um do outro. Sabemos que não vamos nos ver novamente. Nosso contato é uma flor colhida, não uma árvore plantada.
Para minha própria surpresa, estou pronto para essa despedida, ainda que preferisse poder manter alguma relação com aquela pessoa tão peculiar e agradável.
“Como eu disse, enquanto estamos aprendendo, desperdiçamos uma porção de material, ou acabamos com algumas coisas nas mãos com as quais não sabemos o que fazer.” Ele recomeça, depois de lançar outro olhar para meus dedos. Salta então de seu banco atrás do balcão e começa a procurar por algo em pequenas gavetas perto da caixa registradora. “Minha companheira acha que já joguei fora... sempre achou mais sensato, já que faz parte de uma... época bem turbulenta da minha vida. Então guardei na loja sem dizer nada...” a busca continua, e termina quando levanta alguns papeis no arquivo. Um pacotinho de papel.
“Meu primeiro anel ficou para meu pai. Eu ainda era criança, praticamente. Ficou enorme, mas ele soube ajustar e usou-o até o fim.”
Enquanto fala, abre o pacotinho, e um anel simples, com uma única pedra achatada e polida desliza para sua palma. Parece bem grande sobre aquela pele curtida e nodosa.
“Este ainda foi um dos primeiros. O terceiro, talvez? Não sei dizer. Dá para ver que é um trabalho ainda bastante tosco e rudimentar.” Ele continua, reaproximando-se de mim. Com meu olhar de leigo, não atinjo a visão crítica de meu interlocutor para as imperfeições da peça. “A pedra sequer tem muito valor. Na verdade, nunca descobri exatamente quais são os minérios presentes, e apreciava somente o fato de que passava do negro ao transparente, passando pelo cinza e pelo branco. Fiz o anel para praticar, com a intenção de usá-lo quando fosse adulto. Dá para ver que eu era bastante otimista em relação à estatura que eu alcançaria!” conclui com uma risada.
Muito mais rápido do que com qualquer outra peça antes, entrega-me o anel para que o veja mais de perto. O metal prateado é bem polido, com um engaste bem mais simples do que seus trabalhos posteriores; como ornamentos, apenas uns frisos sinuosos ao redor da pedra, quase quadrada, com os cantos arredondados. Passando o dedo sobre ela, percebo que não é tão perfeitamente lisa quanto parece, e mesmo dura, tenho a sensação de tocar uma pele. A pele da terra. Em poucos instantes, o anel que me chegou gelado às mãos já está morno.
“É incrível para quem só estava começando em um trabalho tão difícil e nem era adulto.” Digo, com sincera admiração, acariciando a joia. “A pedra é excepcional com essas cores. É fácil dizer que sou familiar ao cinza.” É minha vez de rir.
“Como nunca consegui usar nos dedos, usei por algum tempo em uma corrente no pescoço. Quando soube o que representava para mim, minha companheira começou a me dissuadir de usá-lo. Com cada vez mais veemência. Incapaz de jogá-lo fora, apenas escondi em qualquer canto para não nos aborrecermos. Ela não sabe.”
Ergo os olhos como única maneira de fazer a pergunta. Meu interlocutor é perspicaz demais para deixá-la passar batida.
“Eu estava em... transição. Um momento no meio do caminho. Como você parece estar, só que em outro trajeto, sem dúvida.”
Em algum nível, nos entendemos muito melhor do que parece.
“Foi um período ruim, e ela acha que o anel é apenas sinônimo de más recordações. Pode ser que esteja certa.” Seu olhar é rico demais em sentimentos para que consiga compreendê-lo totalmente. “Mas não peguei isso para fazer tratamento psicológico com você. Peguei porque sua mão é a única até hoje em que ele certamente cabe.”
Levo um susto. “Não tenho a menor condição de comprá-lo, e pela história que insinuou imagino que não tenha a menor intenção de dá-lo.”
Abro a bolsa para retirar dela as pedras que são minhas economias. O olhar do vendedor percorre minhas posses com igual surpresa. Seu riso reverbera.
“Essa é sua moeda de troca ao longo da viagem?” ele pergunta, examinando um de meus valores com um olhar experiente, enquanto continuo confuso com o rompante.
“Sim. Trocando por moeda local, imagino que não consiga pagar dois pernoites em algum lugar deste bairro.”
“Acredito plenamente.” Meu interlocutor diz cruamente. Já está examinando a terceira pedra. “Ao mesmo tempo... é com materiais como este que confecciono um monde das joias que vê aqui.”
Ergo as sobrancelhas.
“Sim. Você não pode comprar minhas peças sem o risco de ficar com fome antes de chegar em casa, mas estaria rico se eu fosse comprar de você toda essa matéria-prima. Felizmente ou não, é um negócio que não podemos fazer.”
Ele empurra novamente as pedras em minha direção. Ainda me refaço da surpresa.
“Apenas experimente o anel. Dá para ver que gostam um do outro.”
Sem mais relutar, coloco-o no dedo do meio da mão esquerda. Ele seria grande demais para meu anelar. Um deslize e um ajuste perfeitos.
“Meus olhos ainda não me enganam.” O vendedor está satisfeito. Encaro novamente a pedra de cores fugazes e harmoniosas como eu, ou como aspiro ser. Uma peça do princípio e do meio, procurando um fim. Não tenho mais a força para insistir na negativa. Pego uma de minhas pedras, verde, com algum tamanho, e coloco-a em sua mão sem deixar margem para represália.
“Faltam joias com pedras dessa cor.”
Um assentimento e um sorriso igualmente breves.
“Se me permite o conselho, quando deixar a loja, se tiver terminado o que quer que o trouxe até este bairro, saia daqui. Não aconselho este lugar decadente a ninguém. Fico só pelos negócios. Mas por enquanto, aprecio sua companhia.” Acrescenta, como se temesse estar me expulsando da joalheria.
“Consegue mesmo viver bem neste ambiente de plástico, sendo tão diferente dos outros?”
Pela primeira vez, perco a total capacidade de ler a expressão de seu rosto.
“Mas eu sou tão artificial quanto qualquer outro habitante daqui. Só minha companheira teria o direito de responder a essa pergunta. Do meu lado, gastei tanto dinheiro nesse corpo e nesse rosto quanto qualquer um que encontrar na calçada, e talvez tenha gasto ainda mais tempo. E se você se pergunta por que eu ainda sou velho e não tenho as formas petrificadas dos outros, é apenas porque não sabe, ou finge não saber, como vim ao mundo.”
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