Johnny Molright & Os Olimpianos
1 Sou lançado a um cachorro assassino
No Acampamento Meio Sangue, o primeiro dia é apenas o segundo. Quando você chega lá, tem toda aquela recepção, as pessoas te cumprimentam, dizem que você é legal e especial, te mostram todo o lugar, dizem o quão perigoso pode ser – e essa é uma das melhores partes –, e por fim te levam a um chalé aparentemente provisório, em que você ficará até seu pai te reclamar. Então você vai dormir – num canto no chão, já que é tudo lotado no chalé onze – e eles te oferecem um colchonete e avisam para manter um olho aberto aos seus pertences, já que Hermes não é tão somente o deus dos viajantes. Enfim você absorve todas aquelas informações loucas e cai no sono, já que seu dia foi bem lotado; se você sonha ou não eu já não sei, não tive sonho nenhum e só acordei quando me sacudiram.
Talvez você não esteja entendendo nada do que eu disse até agora, então vou explicar: o Acampamento Meio Sangue é, até onde se sabe, o único lugar seguro em todo o mundo para pessoas como eu – semideuses. Filhos de um mortal com um deus grego se veem em toda parte nesse acampamento, treinando das mais diversas formas ou simplesmente vagabundeando. São doze chalés principais, para os filhos de todos os deuses olimpianos, cada um para cada deus.
Antes que eu me esqueça, sou Johnny. Tenho treze anos. Sou filho de um deus grego. Minha mãe trabalha na Volkswagen, no Queens, na rua 58. Morávamos num apartamento velho próximo ao trabalho dela e equidistante à minha escola. Levávamos uma vida normal, até. Tirando alguns incidentes estranhos que, pelas histórias que ouvi no acampamento, são comuns, sempre vivemos dentro de uma monotonia confortável. Bom, não acho que seja a hora pra contar como acabei parando no vale em Long Island, porque nem era sobre isso que eu estava falando... Ah, sim, o “primeiro” dia no acampamento.
Eram seis da manhã quando me levantaram, e se havia um esporte com o qual eu nunca me identificava, era o de acordar cedo. Mas ainda assim o fiz sem rodeios, já que não queria dar uma má impressão logo no primeiro dia ativo no acampamento. Junto com todo o fluxo de campistas, saí do chalé onze até chegar num refeitório enorme com gigantescas doze mesas, onde se dispunham várias cadeiras e já várias pessoas. Eu não sentia cheiro de nada além de morangos, e também não via comida em lugar algum, mas todos rodeavam a mesa e espreitavam seus pratos vazios de maneira apetitosa. Resolvi abraçar a oportunidade de ficar calado e sentei-me à mesa onze onde todos os indefinidos e filhos de Hermes se dirigiram. Quando o refeitório parecia lotado, a comida começou a brotar nos pratos: panquecas, ovos e bacons fritos; com os copos aconteceu a mesma coisa: bebidas das mais diversas surgiram e, em meu copo, havia suco de morango. Algo me dizia que eu devia ter pensado no que beber antes do momento, mas devia ser só mais uma loucura minha...
Comi mais rápido do que eu julgava ser possível. Havia chego ao acampamento na tarde passada e desde então não mastiguei nada; porém, só quando mordi a primeira panqueca — primeira de seis, eu acho — foi que percebi o quanto estava faminto. Depois do terceiro ovo, do quinto bacon e do terceiro copo de suco de morango, decidi parar. Primeiro porque eu não fazia ideia do que teria de fazer no acampamento, então se ficasse realmente estufado, seria um inútil. E segundo porque eu não queria dar a impressão de ser um esfomeado, afinal, tinha toda uma reputação a construir naquele lugar.
Notei uma movimentação estranha na mesa: o garoto que eu identificara como monitor cochichou algo no ouvido de uma de suas meio irmãs, e tenho certeza que ele gesticulou suas sobrancelhas grossas na minha direção, mas o movimento foi tão rápido que um segundo depois me esqueci de ter captado o gesto. Todas as pessoas do refeitório agiram em conjunto, pondo-se pé enquanto ouviam o que seus ‘líderes’ tinham a berrar, e logo locomoveram-se acampamento afora. A mesa de Hermes, porém, permaneceu sentada, como se fosse um velho hábito. Deduzi que devia ser alguma forma de fazer com que os novatos não se perdessem totalmente, e, de certa forma, estava dando certo.
Quando só restavam os filhos de Hermes e os indefinidos no interior do refeitório, o monitor se ergueu, e com ele, todos os outros. Meus dedos estavam mais inquietos do que de costume: tateavam meus bolsos à procura do que fuçar, tamborilavam meus braços, coçavam meu queixo, me descabelavam, e tudo isso sem a minha ordem direta; era um impulso mais forte do que eu. Notei novamente a garota a quem o monitor cochichara algo, e ela olhava pra mim com curiosidade. Me senti acuado e ela notou – pude perceber isso em seu meio sorriso sarcástico -, mas desviou o olhar.
- Lilian – disse o monitor, dirigindo-se a essa garota especificamente. – Faça o que eu pedi enquanto digo o resto aos nossos irmãos.
Silenciosa e rápida, a garota esgueirou-se ao redor da mesa, cutucando alguns semideuses e sugerindo que eles a seguissem. Quando senti seu toque em meu ombro, meu coração falhou. Algo nela me intrigava e me assustava ao mesmo tempo, e todos os meus instintos gritavam que ela estava me levando a um lugar em que eu não gostaria de ir. Relutante, afastei-me do banco e a segui. Quando estávamos saindo do refeitório, notei que éramos em todo seis; se eu estivesse certo, ela havia pego apenas os indefinidos para segui-la. Não me senti melhor ao entender isso.
Andamos pelo que pareceu ser uma eternidade, passando pela área dos chalés, pela margem de um riacho cristalino, por uma arena circular imensa lotada de semideuses, e, por fim, chegamos num casebre pequeno como uma estufa, fechado com um cadeado imenso e isolado por algumas barras de ferro. A garota se adiantou à porta, e só então reparei nela de fato: era baixinha, até, por volta de 1,60m, tinha cabelos ruivos que ondulavam até a cintura e não trajava nada excepcional, apenas uma camiseta laranja do acampamento (bem como a minha, laranja berrante com alguns escritos no meio e, embaixo, um cavalo com asas), jeans velhos e all stars. Ela tirou do bolso da calça uma chave grande, que usou para abrir o cadeado. Ela se virou aos seis (quatro garotos, duas garotas) que estavam consigo e colocou uma mão na cintura, arqueando as sobrancelhas.
- Vão ficar aí só me olhando? – resmungou ela. – Olhem o tamanho dessas barras de ferro!
Os seis indefinidos pareceram travar por dois ou três segundos, e então agiram ao mesmo tempo. Levantamos a primeira barra em conjunto, e a deixamos cair num ato que levantou tanta poeira que eu cheguei até a ficar cego por um instante. Já a segunda e última barra tivemos mais cuidado, a içando e colocando no chão com cuidado. Lilian bufou impaciente e abriu caminho em meio a nós, empurrando as duas portas velhas de madeira com um rangido inconfundível. Quando as portas se abriram totalmente, não consegui enxergar nada lá dentro, o teto fazia um isolamento luminoso impecável, mesmo pra uma obra tão velha. A garota entrou e sumiu do alcance dos meus olhos. Porém, dois segundos depois uma lâmpada se acendeu. Lilian reapareceu, e o interior da casinha ficou mais do que visível: prateleiras e mais prateleiras de armas envoltas em poeira.
- Vocês só podem escolher uma. – Lilian alertou, tirando todos do torpor em que submergiram.
Num surto de inquietude, curiosidade e ansiedade, me enfiei apressadamente no casebre, varrendo todas as armas com os olhos, ficando extasiado em questão de segundos. Tudo aquilo me cativou de uma forma que eu não estava esperando e, por isso, nada me importou naquele instante senão todos aqueles armamentos. Das mais rústicas às mais elaboradas, das mais velhas às mais novas, das mais longas às menores. Pareciam todas terem um defeitinho aqui ou ali, mas nada que não pudesse ser reparado. Mas apenas uma... tão pouco perto de tudo que eu queria... Me imaginei hipoteticamente em combate... o que eu gostaria de usar? Uma espada? Não sabia se fazia muito meu estilo... Uma lança? Não, duas mãos ocupadas é muito desperdício. Meus olhos se pregaram sobre outro artefato, um pouco mais afastado numa prateleira mofada. Um cabo de madeira reforçada com a empunhadura em couro, duas lâminas de aço indiferentes à poeira que as tragava... sim, era a arma perfeita. Um machado duplo.
Agarrei o cabo da arma e a puxei do seu suporte. A girei entre meus dedos, passando de uma mão à outra enquanto media seu peso, que caía perfeitamente ao meu pulso. Eu sentia que tinha mais facilidade com aquela arma do que deveria ter. Então me lembrei que existia algo além de mim e aquele machado, e olhei em minha volta. A maioria dos indefinidos – com exceção de um garoto que eu ainda não tinha ouvido a voz e uma garota assustada demais pra vasculhar as armas – já havia pegado um armamento qualquer, mas nenhum deles parecia ter a determinação que eu sentia. Lancei um olhar sobre meu ombro, fitando a filha de Hermes que me analisava com a mesma intensidade constrangedora de antes. Decidi deixar a sala de armas, e esperei o resto do grupo do lado de fora enquanto ainda me identificava com meu machado.
Passados poucos minutos, todos deixaram a salinha e, com a mesma união do começo, fechamos a porta dupla, e a semideusa voltou a travar o cadeado. Ela não parecia excepcionalmente feliz naquela manhã, e só havia três explicações possíveis: era tímida a seu modo, não tinha ido com a nossa cara, ou estava de TPM. Talvez os três, sei lá. Nós, os seis indefinidos, parecíamos ter a mesma idade (treze anos), já que nenhum era exageradamente grande ou pequeno; já a filha de Hermes, tinha um olhar mais analítico, uma postura um pouco mais evoluída... aparentava ter quinze anos, mas nem isso devia ter. Novamente ela tomou a dianteira do grupo, e nos olhou com certa pena misturada a um pouco de decepção. Era o tipo de garota difícil de agradar e facilmente irritável. Ia ser ótimo passar um tempo com ela, sério.
- Tá, já escolheram suas armas, agora é hora de treinar. – começou ela. – Já que vocês demoraram pra escolher, e mais ainda pra caminhar, teremos a sorte de ter a arena só pra nós. Enfim, eu vou correndo na frente pra arrumar algumas coisas, vocês já sabem onde fica. Se algum de vocês não aparecer por lá, é melhor ter sorte suficiente pra nunca mais me esbarrar nesse acampamento... E, ah, antes que eu me esqueça, é melhor vocês conversarem um pouco, se conhecerem.
Lilian nos deu as costas e correu tão rápido que eu fiquei cansado só de olhar. Uma vez sós, me senti incomodado. Todos pareciam ratinhos assustados ou simplesmente antipáticos demais para gostar de falar com outros seres humanos — ou meio humanos, tanto faz. Particularmente nunca fui muito adepto do silêncio e da antipatia, então a minha quietude durou, mais ou menos, trinta segundos.
- E aí, gente... – iniciei, não me dirigindo a alguém em especial. – Sou Johnny.
- Sou Peter. – disse o garoto cuja voz eu ainda não tinha ouvido. Me surpreendeu que ele tenha dito algo. Sua voz era meio rouca e baixa, como se quisesse evitar ser guardada na memória alheia. Ele tinha cabelos loiros e uma pele meio pálida, mas seu rosto ranzinza escondia uma simpatia que devia guardar a sete chaves
- Sou Katrina. Hum, prazer. – falou uma garota com ar de patricinha. Era linda, preciso admitir. Cabelos loiros cacheados que brilhavam até o meio de sua cintura, olhos verdes hipnotizantes e pele bronzeada. Parecia fácil de malear, daquelas que gosta de conversar, mas senti algo em seu tom que não me agradou muito... Parecia... legal demais.
- Ér... eu sou o Carter. – exclamou um terceiro. Era o mais “sem sal” dentre todos, na minha opinião. Um cara nem bonito, nem feio, que mal falava, tinha manias de gago, não parecia muito bom e nada, e... hum... parecia ter medo de viver em sociedade. Mas eu não o repreendia por isso, acho que ele só precisava de um pouco de liberdade.
- Sou Penthus. – falou o último. Eu entendo perfeitamente o porquê d’ele ter sido o último a falar. Penthus? Que diabos de nome é esse? Ele era estranho, e não digo isso só pelo nome. Seu rosto era meio disforme, sua testa era maior do que o normal e seus olhos estavam sempre esbugalhados... desde a hora em que comecei a observá-lo, não o vi piscar uma vez, e falo sério.
A última garota – a que parecia assustada demais pra se mexer na sala de armas – parecia submersa em pensamentos, tão absorta em qualquer coisa que não fosse aquela conversa que decidi não repetir a pergunta, e deixá-la como a real indefinida do grupo. Dali, víamos a imensa arena, uma construção de uns vinte metros de altura com várias rachaduras e algumas “janelas”. Reparei mais um pouco em meus companheiros, a fim de ver o que haviam pegado. Peter trazia uma aljava nas costas e um arco na mão – acho que nesse caso é o conjunto que faz parte da obra, por isso ele tinha dois objetos, e não um somente. Katrina tinha um... espadim nas mãos, que é algo parecido com uma espada, só que em menores proporções e mais usado para perfurações. E nem me pergunte como sei dessas coisas, não serei capaz de te responder. Carter tinha uma espada comum em sua mão, nada de extravagante, bem como ele próprio. Penthus trazia atada às costas uma imensa espada que parecia grande demais para ser suportada por ele, mas, aparentemente, não tinha problema algum em levá-la. A garota que eu não sei o nome tinha uma adaga na mão, que tremia.
Por fim adentramos a arena, e bem como Lilian havia dito, só nós estávamos lá. A filha de Hermes veio ao nosso encontro rapidamente. Ela parecia agitada, como se tivesse que dar um recado urgente... algo que ela não estava tão habituada. Algumas gotas de suor em sua testa não me pareciam provir do cansaço.
- Quiron mandou vocês lutarem contra monstros. – disse ela, tentando de modo falho manter a frieza anterior de sua voz. – Permiti que alguns entrassem, só pra vocês irem se habituando ao estilo do acampamento... se não se acostumarem logo, vão acabar morrendo de uma maneira mais dolorosa.
- Ei. – interrompi. – Monstros? Eu não tive um histórico muito bom com eles pra vir pro acampamento ontem, então acho melhor deixar isso pra outro...
Um rugido alto me causou um calafrio na espinha. Esqueci o que eu estava prestes a dizer. Na arena, monstros apareceram rápido demais. Meus olhos mal puderam compreender a situação, minha cabeça começou a doer meu estômago revirou. Minha mente estava enevoada, mas encontrei calma suficiente pra me fazer lembrar que aquilo era uma situação de vida ou morte. Levantei minha cabeça, segurando com mais firmeza a empunhadura do machado. As criaturas mais bizarras invadiram a arena, e pareciam ser exatas para cada um de nós. Para minha total infelicidade, a maior de todas foi a que mais gostou de mim. Era um cachorro do tamanho de um rinoceronte, totalmente negro e com olhos vermelhos como rubis. Um sorriso diabólico foi esboçado sob o focinho, expondo presas tão afiadas e grandes quanto adagas. Decidi uma coisa: se eu sobrevivesse àquilo, nunca mais iria aonde quer que Lilian mandasse.
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