John Widmore - O assassinato de Valquíria Sanchez
9 A criança perdida
Transferi Sally para a sala de interrogatório para que ficasse mais confortável, e enquanto faziam a transferência, requisitei a Mikhail que encontrasse o paradeiro de Salazar Benjamim e de Alejandro Sanchez, junto a uma ordem de comparecimento imediato para Fernando e Fernanda Ramirez. Ao invés de levar um chá para Sally, decidi pegar a máquina que mantinham aqui na Agência, que fazia cafés e chás de vários tipos, certamente esses abutres poderiam ficar um dia sem essas regalias.
Mikhail não conseguiu falar com Fernanda, mas contatou Fernando por telefone, que infelizmente não poderia comparecer, pois estava indo ao velório de sua irmã, Fernanda Ramirez! Eu iria terminar esse interrogatório e ir direto para o velório, falar com Fernando, pois acredito que ele seja o próximo alvo e apenas ele pode me ajudar a encontrar essa criança perdida.
— Mais que coisa, John, vejo que resolveu mudar meu tratamento por aqui. Muito obrigado, querido, mas acho que exagerou um pouquinho.
— Talvez você permaneça aqui mais algum tempo, então acredito que essa máquina lhe será muito útil. Também trouxe uma xícara para você, ela é importada, veio diretamente de Paris, tem até a Torre Eiffel desenhada.
— Realmente é muito bonita, chega a brilhar de tão lustrosa. Não me parece ser algo que você use, sem ofensas. Por que está escrito “Garcia” no fundo dela?
— Não me lembro bem, mas acho que foi um presente que ganhei da família Garcia há alguns anos, devido a resolução de um caso. – Acho que o idiota do Johnny vai ficar muito furioso quando descobrir que deram a xícara dele para Sally, ele ama essa porcaria – Então, Sally, continue me contando sobre o que aconteceu com Valquíria depois que tiraram seus filhos dela.
— Valquíria passou seis meses trancada em seu quarto, nada tirava ela daquele lugar. Ela parou de falar com seu pai, cortando todo o contato com ele, mas permaneceu na mansão, penso que por conta das poucas lembranças que Helena havia deixado ali para ela.
— E então ela te procurou.
— Exatamente. Acho que era uma sexta feira, sim era uma sexta muito ensolarada, quando Valquíria me ligou, dizendo que precisava me ver, mas não quis que eu fosse até ela, disse que viria até minha casa. Ela chegou muito rápido, talvez por ter me ligado já no caminho, ele tinha em suas mãos um presente muito especial, que está comigo até hoje, minha gatinha Lua. Valquíria disse que estava cansada de ficar sob as ordens de Alejandro e que desejava procurar seu filho desaparecido, já que Fernando não revelava seu paradeiro, se mantinha apenas afirmando que o entregou para uma estranha. Mas aquela não era a verdade, Alejandro confirmou certa vez que a criança tinha ido para um orfanato em outra cidade, bem longe daqui.
— Você sabe onde fica este orfanato?
— Não, se soubesse teria dito para Valquíria, teria a levado pessoalmente. Mas nunca soubemos dessa informação, pois além da bela quantia que Alejandro pagou pelo silêncio de Fernando, penso que deve ter ameaçado o pobre coitado para que ele jamais dissesse para onde foi o filho de Valquíria.
— Compreendo a obstinação de Valquíria. Crianças são irritantes, insuportáveis, mas ela não chegou a experimentar isso, se quer viu seus filhos e sendo que um deles morreu, isso deve ter agravado muito a situação.
— Com toda razão, isso mexeu com ela de modo que seus dias se tornaram feitos disso, estava cada vez mais obcecada. Por isso veio até mim, ela queria aprender magia, pensando poder encontrar seu filho vivo. Ela passou alguns anos sob minhas orientações, mas não obteve sucesso, não foi feito nenhum progresso em seu propósito.
— Então estou certo de pensar que isso é tudo farsa, contos de fadas para encantar ignorantes que pensam que são melhores que os outros?
— Nada disso, querido. O que Valquíria aprendeu foram coisas muito poderosas, mas não podiam ajudar a encontrar seu filho, pois precisávamos de um nome para que funcionasse, e como sabe, a criança não foi nomeada por Valquíria. Talvez tenha recebido um nome no orfanato, ou dos pais adotivos, isso não poderíamos descobrir com magia do bem.
Essa afirmação demonstra que, certamente, Valquíria procurou coisas mais pesadas para alcançar seu objetivo. Uma vez que se esteja desesperado ao ponto de perder os próprios valores existenciais, a pessoa se torna disposta a qualquer coisa para conseguir o que deseja, acaba cega pela ambição de realizar seu desejo.
— Foi então que Valquíria optou por procurar coisas muito sombrias, mas mesmo assim parecia que nada poderia ajudar. Foi neste caminho que ela conheceu Ernest Richtraw, um excêntrico bilionário dono de uma grande corporação. Ernest era envolvido com a alta roda da magia negra, sendo membro de uma organização que vocês chamam de Illuminati. Mas fazia parte de outras Ordens secretas, quais não vale a pena citar aqui.
— Por qual motivo, especificamente, ela resolver pedir auxílio para Ernest?
— Ora, detetive, o motivo está agora mesmo com você, em seu bolso desde quando você o pegou no corpo de Valquíria.
O colar de Valquíria! Então realmente não havia sido um presente, mas uma compra paga com sexo!
— Sua cara de espanto mostra que você ainda não se deu conta do poder deste amuleto, John. Este amuleto foi criado na Babilônia, por um grupo de adoradores de Baal, com a intenção de despertar os poderes do demônio em quem possuísse o amuleto.
— Vai me dizer que isso realmente se concretizou?! Pois sei que essas histórias são apenas lendas movidas pela crendice das pessoas.
— Tem mesmo certeza disso, John? Não tem notada nada de diferente em sua percepção, desde que se apoderou deste amuleto?
Isso era estranho, mas não poderiam ser negadas as coisas que vinham me acontecendo nesses últimos dias. Eu estava tendo visões de Valquíria, ouvindo sua voz, sonhando com ela e ainda por cima, de algum modo estranho consegui ouvir alguns pensamentos das pessoas.
— Não desejo falar sobre isso, Sally. Muitas coisas estranhas têm acontecido, mas não estou certo se estão relacionadas com este amuleto.
— Então me responda uma coisa, por qual motivo ficou com o amuleto, ao invés de tê-lo entregado como prova?
— Simples, velha, eu sabia que os peritos não teriam a capacidade de descobrir detalhes sobre ele. E tive a intuição de que poderia ajudar muito nas investigações.
Sally deu uma risada, em tom sarcástico.
— E agora que sabe tudo sobre ele, por que ainda não o entregou?
Que droga ela estava querendo dizer com isso?!
— Não trabalho de forma convencional, também não preciso te explicar meus motivos. Não sou eu que estou sendo interrogado aqui, velha.
— Querido, esse amuleto é amaldiçoado. Ele desperta poderes em seu possessor, mas traz grandes maldições para sua vida, além de ter o poder da sedução, tão extremo que quem o possui, se torna viciado ao amuleto, não deixando que ninguém fique com ele. Esse amuleto se chama “A Perdição de Baal”, pois recai como praga sobre aquele que se apodera de seus dons. É como uma vingança do demônio, por ter sido manipulado a transferir seus poderes para o amuleto. Mas isso piora, John, levando o apoderado à extrema loucura e na maioria das vezes, ao suicídio.
Não poderia ser verdade, essa velha estava querendo me confundir, tirar meu foco do que realmente importa! É apenas um colar, nada mais, nenhum mal está sendo causado por causa disso! Preciso de mais uma dose, estou suando muito aqui.
— Foi por isso que me desentendi com Valquíria, ela me contou sobre isso, disse que usaria o amuleto para tentar ler a mente de Fernando, ou de seu pai, para descobrir onde tinha ido parar seu filho, pois ela já havia vasculhado todos os orfanatos e não conseguiu descobrir nada. O maior poder desse colar é o dom de ler mentes, atributo do próprio demônio, que usa esse poder para ler a mente das pessoas e as tentar com o que mais desejam, se aproveitando de suas ambições mais íntimas. Eu adverti Valquíria, mas ela não quis me ouvir, estava obcecada com isso. Ela me revelou que não conseguia, de modo algum, ler a mente de Fernando, mas que estava funcionando com outras pessoas, quando, segundo ela, o próprio Baal apareceu em um sonho, usando a forma de Salazar, para lhe propor uma opção.
— E de qual opção estamos falando?
Ela fechou os olhos, deixando escorrer uma lágrima vagarosa.
— O demônio disse que poderia trazer de volta seu filho perdido, mas que para isso ela precisaria realizar um ritual de sacrifício em honra dele. Ele pediu que ela fizesse um grande pentagrama invertido, com símbolos específicos e que erguesse um altar, onde iria sacrificar dois cordeiros, um para cada criança que da carne dela vieram ao mundo. Não sei muito mais além disso, porque Valquíria e eu brigamos, mas nada adiantou, me parece que ela fez esse ritual e acabou morrendo durante. Acredito que Baal tenha interferido nos poderes, de modo que ela não pudesse obter o que queria, assim conseguiu influenciar ela a fazer este ritual.
— E quem poderia ter matado ela? Sabe quem ela convidou para fazer isso?
— Na verdade ela deveria fazer tudo sozinha, foi a regra de Baal para que funcionasse. Você pode achar que sou louca, John, mas penso que o próprio demônio veio matar ela.
Certamente foi um demônio que matou Valquíria, mas um demônio de carne e ossos, chamado ser humano!
Acho que Sally não pode mais ajudar, preciso ir ao encontro de Fernando Ramirez, antes que esse também acabe morto com a língua cortada.
— Sally, não vejo mais motivos para te manter em cárcere, porém você corre sério risco de vida, por isso irá ficar sob a proteção de testemunhas da Agência, sem poder voltar para casa. Vamos achar um bom lugar para você ficar, onde estarão dois agentes vinte e quatro horas com você, até que isso esteja resolvido.
— Eu entendo. Mas tenho um pedido para você antes.
— Sim, estou te ouvindo.
— Poderia telefonar para o petshop do meu bairro e pedir que eles cuidem de meus gatinhos? Eles são muito espertos, mas ainda não aprenderam a se virar sozinhos, aquilo fica uma bagunça.
— Eu percebi, Sally. Deseja mais alguma coisa?
— Oh, claro, que descuidada. Pode mandar que levem a Lua para ficar comigo? Ela já está muito velha e acaba se dando mal na hora da comida, sempre preciso alimentar ela separadamente.
— Como quiser, Sally. Logo voltamos a nos ver, bruxa.
Não havia tempo para pensar, eu preciso ir até aquele velório nesse exato momento e descobrir para qual orfanato a criança foi levada. Vou pegar Bukowsk em sua mesa, tirar ele de cima daqueles relatórios e leva-lo comigo, preciso ensinar a ele algumas coisas sobre arrancar informações de pessoas.
Fale com o autor