John Wayne - O Viajante do Tempo

1 Prólogo - As guerras nunca mudam


– Mais rápido! Precisamos evacuar essa cidade o quanto antes ou todos irão morrer! — gritou o capitão com sua voz abafada pelo som ininterrupto das sirenes que nos avisavam que um grande desastre viria a acontecer.

O sol fora ofuscado pelas nuvens que carregavam uma tempestade das mais pesadas desde um bom tempo, mas ninguém estava se preocupando com uma possível enchente ou desastres naturais. Pela rua, cada casa estava sendo esvaziada, e enquanto muitos buscavam salvar suas vidas sem olhar para trás, outros apenas aceitavam o destino mórbido que viria em breve... Alguns chegaram ao ponto em que a violência era a única razão para viver, a única forma de viver, e as riquezas que nunca conseguiram estavam agora disponíveis e fáceis de se conseguir. Cada loja, cada mercado, cada casa e cada veículo foram arrombados, destruídos e saqueados. Não havia muito mais para se salvar naquela cidade senão seus habitantes.

Uma corrida desenfreada em busca da vida se desenrolava pelas avenidas principais, com obstáculos e oponentes acirrados, não seriam todos que sairiam vivos dali, mas os que conseguissem certamente seriam uma versão apocalíptica de um ganhador da loteria. Em algumas ruas o controle do exército não existia. Por serem ruas de menor movimentação, não havia fiscalização ali, e as gangues tomavam de conta destes locais ditando quem passava e quem não. Com bloqueios improvisados, o pedágio era definido a partir de quem você era: Homem, mulher, rico ou pobre... Suas características definiam o seu imposto, e na maioria dos casos era pagar ou morrer.

Aos homens, todo o dinheiro e objetos de valor deveriam ser entregues, e se você não possuísse nada que os agradasse, provavelmente não precisaria mais se preocupar em passar pelo bloqueio, pois ali você seria morto. As mulheres eram tratadas com categorias diferentes, as bonitas e as feias. As bonitas precisavam submeter-se à orgias e sexo com qualquer um dos cobradores, as feias não passavam... Não era incomum ver, naqueles poucos instantes de tormento as cenas obscenas e grotescas em cada canto, em cada esquina. Mulheres e homens executados pelas gangues, homens tendo de deixar tudo que carregavam para trás e mulheres sendo submetidas ao estupro.

Passando pelos bloqueios, a cerca de três quilômetros de distância os últimos helicópteros do exército se preparavam para partir. O fim estava próximo, e em pouco tempo nada mais restaria ali. Restavam apenas cinco helicópteros, os últimos botes salva-vidas, cada um com capacidade para dez tripulantes, mas ainda restavam milhares de pessoas lutando por suas vidas... Cada pessoa e família, cada trabalhador e boêmio, todos agora lutavam pelos últimos passes para a sobrevivência. Agora todos eram oponentes, todos eram inimigos.

A alguns quilômetros de distância dali um único objeto metálico rasgava o vento em uma velocidade supersônica. Um míssil carregado com poder suficiente para explodir todo um país tinha seu curso programado... A primeira de muitas outras cidades que seriam afetadas em breve por ataques nucleares, a primeira cidade a ser destruída no dia que culminaria em uma grande guerra. O míssil levaria apenas mais alguns minutos para bater em cheio com o seu alvo, eliminando mais de 300 mil pessoas com uma única carga.

Menos um. E outro. E outro. E outro...

Ao redor das barreiras de contenção de multidões a população lutava entre si pelo último bote salva-vidas, o último lampejo de luz naquele mar de escuridão. Uma grande massa tentava derrubar a pequena cerca que separava os vivos dos mortos. Os militares sabiam que assim que abrissem novamente os portões a mesma tragédia ocorreria como em todas as outras vezes... A multidão inteira se aglomeraria e entraria de uma vez só, obrigando os soldados a disparar contra uma grande maioria, permitindo apenas que dez pessoas passassem. Mulheres e crianças primeiro, diziam eles, mas a regra não era respeitada.

Cinco minutos. Esse era o tempo que a cidade possuía antes de se transformar em um mar de cinzas. Dois helicópteros, mas apenas um deles abrigaria os dez últimos sobreviventes, o outro levaria consigo os militares que mantinham a contenção. E então os portões foram abertos. Os da frente eram derrubados como pinos de boliche e pisoteados enquanto os de trás iniciavam a corrida. O desespero e a esperança nos olhos de cada um enquanto a possibilidade de sobreviver ainda era real, e então os dez foram selecionados. O destino havia escolhido esses como os últimos dez sobreviventes, e estes rapidamente embarcaram.

Dois minutos. Era hora de conter a multidão que continuava a lutar.

– Parem todos eles, não podemos deixar que passem! — ordenou o capitão, enquanto corria em direção ao seu bote salva-vidas junto de outros soldados.

As armas foram levantadas e com pesar nos olhos dos militares que executariam uma das mais difíceis tarefas daquele dia, as travas foram soltas e os gatilhos apertados. O ar foi rasgado e o chão estremeceu com cada corpo que caía no asfalto. As lágrimas de homens e mulheres, tantas vidas e histórias seriam encerradas naquele momento, os entes queridos que despencavam um por um. Cada vida, cada história, cada sorriso de alegria, cada choro de emoção, cada grito de frustração, todos silenciados por um único som, o som do silêncio. Um minuto.

A maior parte dos que arriscaram tudo pela sobrevivência agora estavam no chão, e os que permaneciam de pé eram, aos poucos, derrubados. O sangue espalhava-se pelo chão e os últimos suspiros eram proferidos. Os soldados, em choque, recolheram-se para dentro o último helicóptero que esperava para levantar voo. A última porta se fechou, e a cidade condenada agora dava o seu último vislumbre de existência.

As famílias que não puderam se salvar, agora reuniam-se o mais próximo possível para preservar seus últimos instantes. Os casais davam seu último beijo e abraço, preparando-se para o que estava por vir. Ainda alguns solitários que viravam a última garrafa de bebida de suas vidas, outros olhavam para as fotos de recordações felizes e buscavam manter a lembrança mais feliz possível, enquanto outros apenas fecharam os olhos e tentaram dormir o quanto antes, apenas para entrarem no mundo dos sonhos e de lá, quem sabe, nunca mais sair... O ponto final de suas histórias havia sido escrito, e ele havia chegado. E aconteceu. Uma enorme explosão devastara em poucos segundos toda a região, derrubando tudo que havia sido construído geração por geração, e todos aqueles que encontraram conforto em seus últimos instantes haviam sucumbido à morte. Como em um estouro, tudo havia se desfeito. E quando a poeira baixasse, tudo que sobraria seria apenas um monte de escombros e memórias perdidas.

A alguns quilômetros de distância dali, os helicópteros mantinham curso firme em direção do horizonte, onde o sol se punha, anunciando o início de uma longa noite... Atrás dos botes salva-vidas, o grande ponto luminoso branco e amarelo agora transformara-se numa imensa nuvem de fumaça e fogo. Os fortes buscavam conter as lágrimas, apesar de ser uma tarefa difícil, para os outros só lhes restava chorar pela vida que perderam e chorar pelas outras vidas que se foram... A guerra havia começado, e depois de duas grandes guerras, o mesmo sentimento de dor, desolação e angústia pairavam no ar. As tecnologias mudam, as armas mudam, as estratégias mudam, mas as guerras... As guerras nunca mudam.