John Star e o patinete rosa.
1 Going nowhere
Notas iniciais
John se olhou no espelho quebrado e sujo pela última vez, odiando, internamente, o que via. Seus traços eram femininos e delicados e talvez fosse isso que mais odiava em si mesmo. Ergueu uma de suas sobrancelhas finas, como se desafiasse o seu reflexo franzino. Por fim, suspirou, e saiu do quarto, arrastando sua carcaça pesada pelo barraco sem reboco e muito menos tinta, sentindo o calor insuportável que a telha fazia em cima dele. Precisava, urgentemente, sair daquele inferno. Seus três irmãos corriam pelo casebre, atirando uns aos outros tomates. John precisava intervir, mas foi interrompido por seu irmão Juba, o famoso Julio Bartolomeu.
- Para de atirar tomates, seus endiabrado. A Tathiellen e a mãe vai matar ocês tudo, cara de bosta emprensada. Já falei que o tomate tá caro, tudo nesse Brasil de merda tá caro, a Dilma Rusefi não facilita pa gente. — Resmungou Julio com a sua política de brasileiro que não faz nada para mudar o estigma e seu sotaque carioca irritante. Mas John Star sabia que ele nem havia votado.
Julio odiava ser irmão de Star, mas não dizia nada. Talvez fosse porque todos na favela diziam que o seu irmão era gay que queria ser mulher. Mas eram só boatos que o seu José Star, o pai dos 7, desmentia, atirando pro alto com sua arma maligna que ele usava pra ameaçar a mulher durante a relação sexual dos dois.
Depois que John passou o dia todo em uma tarefa muito empolgante de chutar pedrinhas e observar a movimentação na favela, fitando aquela linda rua de barro, com um esgoto a céu aberto cortando a passagem, enquanto mulheres passavam com o cabelo pingando creme Kolene, decidiu que voltaria pra casa. E foi caminhando até sua casa. Mas quando Star ia entrando, algum cheiro estranho invadiu o ar. John sentiu um cheiro de podridão, daquele lixão que ele frequentava pra poder comer coisa mais gostosa que tomate e beber leite. Então ele percebeu que o maior traficante estava em sua casa e arrastava o seu José pelos cabelos. John nem ligou, mas era seu pai, então tinha que fingir que se importava. Aproximou-se para perguntar.
- O que você está fazendo com o meu pai? — Perguntou, a voz afeminada saindo um décimo mais alta do que havia planejado.
- Esse velho guarda arma pra ameaçar os outro que eu to ligado, mas dá nada não. Só um papo, o mundo gira e vacilão roda, ta ligado? — E saiu pisando duro. John quase morreu quando ele abriu aquela boca de valão cheio de bafo, mas tentou não morrer ali, naquele chão sujo.
Depois de todo o incidente de mais cedo e o tiroteio usual rolando na favela da rocinha, Star decidiu arrumar a mochila. Recolheu toda a pouca roupa que tinha, tudo isso na calada da noite. Jogou-as dentro de uma mochila velha da nike que usava pra ir à escola e, antes de sair silenciosamente, sua irmã Tathiellen o interceptou.
- Naonde que cê pensa que cê vai, baitolinha?
- Primeiro, eu não sou baitola! E segundo, eu estou indo dar uma volta. Agora sai do meu pé. — John rolou os olhos para cima e cruzou os braços em frente ao peito.
- Se você num é baitola eu so virge. — Tathiellen soltou uma risada de hiena extremamente irritante e voltou a dormir, afinal, ela não tinha mais nada pra fazer mesmo.
John saiu do barraquinho e pegou o patinete rosa de sua irmã menor. Mas não sabia para onde ia e nem o que faria, apenas desceu o morro e finalmente foi parar no asfalto, patinetando rosamente pelas ruas do Rio de Janeiro, aquela cidade linda que escondia umas verdades cruéis por baixo do pano. Uma grande desigualdade social, sair do meio de barracos amontoados e ir parar em prédios organizados e no meio de pessoas bem vestidas.
John andou com seu patinete até uma rua pouco movimentada, onde uma casa com luzes vermelhas chamara sua atenção. Algumas mulheres estavam paradas na frente da casa, vestidas com pouca roupa. Elas o olhavam com desprezo, talvez nojo, mas ele não entendia o porquê.
Quando entrou na casa, quem foi lhe atender foi uma mulher. Ela tinha uma voz grossa e um volume entre as pernas, mas como Star não via problemas naquilo, apenas a seguiu.
- Então quer dizer que a pão com ovo tá querendo vida boa?
- É... E o que é ''pão com ovo''?
- Relaxa, bi. A titia Jaque sabe de um babado fortíssimo que você pre-ci-sa saber. — Jaque balançou seus cabelos azuis de implante para os lados, enquanto fazia cara de merda se achando.
- Pode falar o que é.
- Só tem um jeito de você sair da pobreza, queridinha. Virando prostituta que nem eu. E aí, o que você acha, poc poc? — Então aquilo era uma casa de prostituição?! John Star não conseguia acreditar. Era uma notícia muito forte. John desmaiou do banco que estava e caiu no chão, tamanho fora o susto que tomou.
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