Johanna
3 Ah! Insensato coração...
Notas iniciais
Os caminhões da Amizade chacoalham ao enfrentar o terreno pedregoso. Estou dentro de um deles. Observo o sol iluminar meu ambiente de trabalho. O calor traz sombras bruxuleantes aos meus devaneios, deixando-me mergulhar em profunda reflexão.
Depois de dois anos, sinto-me finalmente em casa. Os risos são verdadeiros, os carinhos são verdadeiros, a vida é verdadeira aqui.
Aos domingos, minha função é levar a colheita à nossa sede, para depois cozinhar e entregar parte dela aos membros da Abnegação. Não é uma tarefa muito difícil. Colocar as mãos na terra é terapêutico, e digo o mesmo sobre ajudar quem precisa.
Entro numa rua cinzenta e comum. É algo que nunca entenderei sobre a Abnegação. Mas não posso julgar. Apenas me concentro em deixar o carregamento com o responsável por isso.
Quando estaciono, sinto meu coração parar. Marcus está acenando para mim e agradecendo pela carga.
— Não acredito! É você mesmo?!
Desço e ofereço-lhe um abraço. Marcus recua um pouco. Acho que os membros daqui não gostam de demonstrações de afeto.
— É você? O novo líder?
— Um deles.
— Isso é incrível! Parabéns, Marcus!
— Obrigado. A propósito, belo vestido.
Sorrio, olhando-me instintivamente. Numa outra época, eu nunca usaria vermelho. Agora, entretanto, precisamos esquecer nossa vida regressa.
Facção antes do sangue.
Amizade antes da Franqueza.
Para quebrar o silêncio inoportuno, resolvo ajudá-lo a colocar tudo em pequenas sacolas, que serão carregadas por cada membro da Abnegação. Este é o trabalho deles. Levar alimentos e auxiliar os Sem-Facção.
Observo Marcus em seus movimentos contidos e sem emoção. Não sei o que o levou a um lugar como este. Aqui, sinto-me o único ser vivente, no meio de tanto cinza. Quando Marcus guarda o último mantimento, seus olhos fixam em mim.
— Preciso ir embora, Johanna. Foi um prazer revê-la — ele diz, inexpressivamente.
— Para onde você vai?
— Eu posso pegar um ônibus, não se preocupe.
— Por favor, eu insisto. Terei que voltar de qualquer jeito.
Vejo seu rosto vacilar por alguns instantes, até assentir e aceitar minha oferta.
Marcus realmente iria para minha sede, resolver qualquer coisa com nossa porta-voz. Não temos líderes na Amizade. Apenas um representante, escolhido por todos.
No caminho, observo a pobreza incolor da Abnegação e dos Sem-Facção, perambulando pelas ruas, esgueirando-se em marquises. Agora entendo o que faz algumas dessas pessoas sentirem-se na obrigação e no prazer de ajudá-las. Meu estômago dá uma volta completa ao pensar no assunto.
Fazemos o trajeto quase em silêncio. Marcus apenas responde quando pergunto sobre sua nova vida. Mas a verdade é que sinto falta dele. Éramos amigos na Franqueza. Quero poder ajudá-lo de alguma forma.
Quando desligo o caminhão e descemos, dirijo-me a ele com o mais baixo tom de voz que consigo:
— Posso te dar um presente?
— Não aceitamos pre...
— Por favor, Marcus — corto sua fala, seriamente — Não seja indelicado. Ainda tenho um estoque em casa. Não vou usar tudo aquilo. Leve, por favor.
Marcus respira fundo e me acompanha.
Quando entramos em casa, vejo Brian. Ele está rodeado de livros de receitas, realmente concentrado. Evito interrompê-lo sem necessidade.
Corro para a despensa e coloco tudo que posso numa sacola de pano para Marcus. Brian percebe a movimentação e grita:
— Está maluca?! Johanna, você vai dar tudo pra esse homem? Johanna!
Brian olha para nós, incredulamente.
— Quem é este homem, Johanna? Vamos ficar sem nada! Olhe pra mim quando estiver falando com você! Johanna! Estava guardando para quando...
— Cale a boca, Brian! — berro em resposta, impaciente.
— Cale a boca?! — seu tom é cortante. Não o reconheço mais — Vai brigar comigo por causa de um careta*?
Meu coração pulsa ao ouvi-lo falar como se ainda fosse da Audácia.
Marcus não diz nada.
— Peça desculpas! — grito.
— Por quê? É seu namorado por acaso?
Brian ri sarcasticamente.
— Foram dois anos de trabalho duro. E você quer desperdiçar tudo?!
— Talvez desperdício seja estar com alguém tão egoísta!
O tempo congela como de costume.
Antes que tenha consciência do ato, Brian me dá um tapa. O suficiente para que eu caia no chão de encontro ao baú de madeira.
Então, Marcus diz, ajudando-me a ficar de pé:
— Na vida, é preciso saber o que se valoriza.
E é tudo antes de meu amigo da Franqueza me tirar de lá.
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