Jogos da Virtualidade
8 Conselhos.
Notas iniciais
Quando toda aquela baboseira de cerimônia finalmente acabou, os outros selecionados foram para junto de seus auxiliares. Eu não precisei ir até perto d'As Shisus, elas o fizeram antes mesmo que eu pudesse.
A falta de expressões faciais em seus rostos me deixa confuso, eu não sei se elas estão felizes por eu ter sido escolhido o líder do Grupo Onça, ou se estão bravas por eu ter desafiado Kêntrikou. Então, não me acanho e pergunto, antes que elas mudem de assunto.
–Vocês estão bravas? -Pergunto.
–Se nós estamos bravas? -Shisudva me responde com outra pergunta.
–Sim, estão? -Reafirmo.
–Mas é claro que estamos! -Shisuodin aumenta o tom de sua voz metálica.
–Você estava com essa cabeça aonde? Queria morrer?!
–Você não pode insultar Kêntrikou! -Shisudva briga comigo.
–E por que não? Ele nos trouxe para cá! Para nós morrermos! -Eu paro e continuo. -Não sei o porquê de vocês o admirarem tanto assim.
–Sem ele nós não existiríamos Marcael. -Shisuodin diz. -Muito menos você.
–Como assim eu?!
–É o destino Marcael, estava escrito! Você viria de um jeito ou outro.-Shisudva fala.
–Não existe destino, existe o azar. Isso sim existe. -Eu paro e continuo a desabafar. -Existe a fome! A dor! A solidão! Existe a perda.
–Nós sabemos disso. -Elas dizem juntas.
–Não! Vocês não sabem! -Eu espero um pouco e sento numa poltrona. -Vocês são meros computadores. Vocês não têm sentimento. Não podem sofrer.
–Talvez agora não Marcael. -Shisuodin diz.
–O que você quer dizer com isso? -Eu pergunto.
–Esqueça. Vamos logo. -Shisudva dá a ordem.
–Está bem. -Mesmo não querendo eu as sigo, afinal, não sei para onde ir. E ficar sozinha é última coisa que quero agora. -Vamos.
Nós saímos da grande sala e vamos para o corredor. Uma visão rara, o corredor está com movimento, as pessoas que saíram das salas precisam ser guiadas, e creio que o corredor é o único modo disto.
Enquanto estamos andando pelo imenso e sem fim corredor cromado da Virtualidade X, eu pergunto lanço uma pergunta:
–E agora? -Falo por impulso.
–E agora o quê? -Shisuodin me questiona.
–Agora que Kêntrikou me escolheu como líder, o que eu faço? -Paro um pouco, retomo o folego e continuo. -Quais são as minhas obrigações?
–Basicamente, você terá que liderá-los. Isso que um líder faz. -Shisudva me responde.
–Isso é óbvio Shisudva. Um líder tem que liderar algo. -Shisuodin corrige a outra "quase gêmea" a ela.
É a primeira vez que as vejo conversando entre si. Sempre que falavam comigo, somente mencionavam o nome uma da outra. Só me respondiam ou perguntavam coisas. Se não fosse o fato de eu estar numa dimensão paralela e das máquinas, eu diria que elas estão mais humanas.
–Você como líder, Marcael, deve uni-los. -Shisudva diz.
–Como assim? -Eu pergunto.
–Eles estarão temendo e irão desconfiar de qualquer um. Você deverá fazer com que esse medo deles não se torne uma ameaça. Você deverá fazer com que eles tenham confiança. -Shisuodin diz. -Chegamos.
Shisudva dá os comandos na porta e ela se abre como sempre, num X. Eu entro e elas vão logo atrás de mim, com a porta se fechando atrás de suas costas.
Ao entrar eu paro num canto qualquer e fico olhando para elas, sem saber o que dizer, como sempre, a esperar uma ordem delas. Elas estão me encarando, e pelo visto podem ficar ali o dia inteiro, quem sabe uma eternidade.
–Você lembra quais são suas qualidades? -Shisudva quebra o silêncio.
–Bem, acho que são teimosia, esperança e... -Me esqueço da terceira qualidade.
–Mentiroso.... -Shisuodin me lembra.
–Isso foi irônico? -Eu pergunto.
–Não. -Shisuodin diz.
Shisudva se aproxima de mim e começa a falar:
–Os jogos começarão em breve e você deverá estar preparado.
–Onde eles vão acontecer? -Pergunto.
–Ninguém sabe, somente Kêntrikou. -Shisuodin me responde.
–Esse nome me irrita. -Eu digo sem medo.
–Não diga isso. -Shisudva me adverte. -É para o seu bem.
–Foi impulso. -Falo com sarcasmo.
–Não minta. -Shisuodin briga comigo.
–Voltando ao assunto anterior, o que vocês querem dizer com que eu devo estar preparado? Eu vou treinar? -Pergunto.
–Não. -Shisudva diz com firmeza e calma. -Você deverá conhecer bem os seus aliados.
–Ou seja. -Shisuodin se intromete. -Os integrantes de seu grupo.
–Mas, eu nem mesmo sei falar a língua deles! -Exclamo.
–Não é problema. -Shisudva fala.
–Como assim? Eu não sou nenhum tradutor ambulante não! -Eu brigo.
–Os grupos não são a única coisa nova nesses jogos. -Shisuodin começa a falar. -Os participantes podem escolher dentre três equipamentos, um somente, para levar à arena.
–E quais são esses equipamentos? -Pergunto.
–Uma bússola especial, uma lanterna com funções altamente tecnológicas e... -Shisudva é interrompida por Odin.
–...Um tradutor. -Ela anda um pouco. -E você irá escolhê-lo, como também fará alguns de seu grupo escolher.
–Como? Eles fazem as escolhas por si mesmos! Vão simplesmente me ignorar. -Eu pergunto exclamadamente.
–Por isso você deve semear confiança nesse grupo. Um grupo onde os participantes não se confiam, é um grupo morto. -Shisudva explica de modo calmo.
–E suas qualidades podem te ajudar nisso. -Shisuodin fala.
–Basta você ter esperança em si mesmo. -shisudva começa.
–Ter um pouco de teimosia e insistência... -Shisuodin aconselha.
–...E mentir nesse caso não lhe fará mal. -Shisudva termina, e aconselha. -Mas, controle-se! Mentira demais não dará bons resultados.
–Minha vida foi uma mentira, eu sei muito bem o que uma mentira faz com uma pessoa. -Eu respondo com desânimo, e me acanho com a tristeza que recobre o meu coração -Sabe, eu gostaria tanto de poder voltar, e poder valorizar mais a quem me amava. Responder as conversas de Carolina, passar mais tempo com minha mãe. Aproveitar o resto da minha vida.
–Você poderá fazer tudo isso Marcael. -Shisuodin fala. -Basta você se esforçar por aqueles que ama, e vencer os Jogos da Virtualidade. Só assim você poderá voltar para sua casa e aproveitar aqueles que te amam.
–Temo que eu não consiga. -Digo.
–Basta tentar Marcael. Se uma coisa eu aprendi, é que sempre há segundas opções. -Shisudva me consola.
–O que você quer dizer com "eu aprendi". Você é um sistema, ganha suas funções somente.
–Mudemos de assunto. -Shisuodin barra o assunto como se estivessem escondendo algo.
–Pegue sua pílula e vá dormir. -Shisudva fala.
–Mas tão cedo?! -Exclamo.
–Aqui o tempo passa rápido Marcael. -Shisuodin me explica.
Elas se retiram e eu fico na solidão. Vou até a mesa, aperto o botão, espero a pílula subir e a mastigo sem vontade. Logo depois vou para cama, e fico lá, olhando para o teto e pensando em tudo que me aconteceu até agora. Desde a morte de meu irmão, até eu ser um selecionado para os Jogos da Virtualidade.
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