Jogo dos Deuses
7 Capítulo VII♙Quando um Deus chora.
Notas iniciais

Loki caminhou com a garota até os portões do palácio, aflito, já sabendo que Odin, seu pai, lhe chamaria atenção, ou pior, lhe puniria por ter mentido.
− Garota estúpida... – Praguejou em um imperceptível sussurro.
Dando um longo suspiro de cansaço e frustração, o príncipe mais novo para perante os guardas, autoritário, fitando-os com arrogância. − Abram-na para mim.
Os guardas, coitados, fitando a pequena garotinha ao lado do trapaceiro, ficaram sem ação alguma, já que qualquer manipulador de magia poderia muito bem se passar por um dos príncipes para poder entrar no palácio e iniciar uma guerra.
Com os lábios tremendo em medo, a pele facial mais branca que o normal, um dos guardas o responde em murmúrios. – Sentimos muito senhor... – Respirou fundo, temendo que aquela fosse a última vez que iria respirar. – Mas não podemos deixá-lo passar.
Tentando manter a calma, não matar um dos guardas, o mago pega o jovem que havia dito que ele não poderia passar, apertando-lhe o pescoço bem diante dos olhos da Singrid.
− Sente muito? – Questionou sarcástico, apertando mais e mais. – Você ainda nem começou a sentir realmente. – Sua maldade era palpável no ar, algo que fazia tantos ali odiarem ele ainda mais. – Eu irei perguntar apenas mais uma vez... – Sorriu, vendo a face do jovem ficar roxa. – Posso passar?
Por mais que estivesse sofrendo, sentindo seus pulmões serem dilacerados pela faltar de ar, ele não deixaria com que a provável duplicata do príncipe Loki entrasse, sendo assim considerado um traidor da família real caso aquele não fosse o príncipe, mas sim um invasor.
Se ele poderia morrer tomando aquela honrada decisão? Sim, ele poderia. Contudo, por mais doloroso que estivesse sendo para ele ficar sem respirar, o bravo soldado não voltaria atrás com a sua decisão, principalmente quando o herdeiro mais novo tinha ao lado uma criança, justamente o ser ele mais desprezava entre os nove reinos.
− N-não posso deixá-lo passar. – Insistiu, perdendo a consciência por causa da falta de ar.
Horrorizados com a crueldade do suposto mago, os outros guardas ficam em posição de ataque, pensando que aquele diante deles fosse realmente uma ameaça para o reino e seus governantes. – Vai pagar pelo que fez com Joheim! – Gritou os guerreiros, prontos para atacar, mas Loki os nocauteia mais rápido que a velocidade da luz, fazendo-os cair no chão, sem forças, totalmente inconscientes.
− Era só terem me deixado passar... – Sorriu o Deus da trapaça, maldosamente, fazendo com que Singrid se revoltar com aquela atitude.
− Como pôde fazer isso com eles, seus próprios guardas, sem se importar se morreriam ou não? – Os olhos claros dilataram-se em revolta.
Loki virou-se para encarar a garota que o fitava com ira, divertindo-se com aquela patética cena dela tentando acordar os soldados abatidos por ele.
Suspirou fundo, sabendo que depois teria de descansar várias horas para poder aguentar os sermões de seu pai. – Mais uma vez só. – Apenas mais uma única vez... – Murmurou, cansado, pegando a garota pelos cabelos, usando seu teletransporte para chegas até as masmorras, local esse onde havia ordenado que trancafiassem a irmã mais velha.
Não demorou nem um segundo inteiro para que ambos chegassem, algo que levaria menos tempo se ele não tivesse usado tanta magia em um único dia. Sim, Loki era o mestre da mágica, disso todos sabiam. Entretanto, até mesmo para o Deus da trapaça havia certas limitações para usar o seu poder.
“Não se pode usar a magia sem dar algo em troca, sem sacrificar algo importante.”
Quando se interessou pela arte da mágica, por volta se seus doze anos Asgardianos, Figga, sua mãe, lhe ensinou os princípios básicos da arte da manipulação de magia, dando para ele algo que somente o mesmo poderia ter, uma coisa que Thor não poderia lhe roubar: Um poder inimaginável, incapaz de ser rompido por objetos bárbaros, algo sutil, mas letal.
Todavia, para que um mago usa esse poder dominado por poucos, algo ele deve dar em troca, mantendo o equilíbrio natural do universo. O que ele ofereceu para ser digno de tornar-se um usuário desse poder? Sua força vital, ganhando assim o direito de manipular qualquer tipo de magia existente. Contudo, essa escolha lhe faz ficar fraco conforme a sua magia é usada desenfreadamente, levando-o ao esgotamento físico e mental.
− Onde estamos? – Perguntou a criança atrás de Loki, assustada, apertando o sobretudo que o trapaceiro usava. – Estou com medo.
Por um momento, esquecendo-se totalmente da idade da garotinha, ele sorri, confuso, a questionando logo em seguida. – Medo?
Sua risada não era maléfica como costumava ser, mas sim natural, leve, como se a conversa não fosse com a irmã mais nova da prisioneira, porém com alguém próximo dele.
− Sim... – A garotinha confidenciou ao mais velho, apertando-se mais contra o corpo de Loki. – Lugares escuros me fazem lembrar do que Sigyn passou. – Explicou em um tom de tristeza, ainda podendo ouvir os gritos desesperados da irmã dentro de sua mente.
Loki não ligava muito para o que a garota falava, todavia, ao ouvir o nome da insolente que o desafiara duas vezes sem se importar com o que poderia acontecer com ela, o jovem Asgardiano diminui o ritmo dos passos intencionalmente, caminhando bem mais devagar do que gostaria, já que ele não queria ficar tão próximo daquela pirralha.
Engolindo em seco, deixando seu orgulho de lado, o trapaceiro mostra interesse nas asneiras que a garota tagarelava, questionando-a. – E o que ela passou?
Pega de surpresa pela pergunta do príncipe, a criança crispa os lábios, não sabendo que falar naquele momento. Sua irmã a fez prometer jamais contar para alguém o que acontecia na casa onde elas moravam. Ela não quebraria o voto de confiança que Sigyn havia depositado nela. – Sinto muito... – Sua voz era chorosa, entrecortada, como se tocar naquele assunto com justamente o pai da mentira fizesse suas feridas não curadas sangrar novamente. – Eu realmente queria contar, mas ela me fez prometer jamais abrir minha boca. – Suas curtas penas pararam de caminhas, abraçando Loki por trás, libertando sua dor em forma de lágrimas pesadas e sofridas. – Eu queria livrar minha irmã do sofrimento, mas ela não me permitiu. – Desabafou. – Ela disse que os irmãos mais velhos vinham ao mundo para pegar para eles as dores que poderiam recair sobre os mais jovens. – A angustia era palpável, pesada, afiada como lâminas afiadas, Loki conseguia, mesmo com toda a sua frieza e arrogância, senti-la no ar, sufocando a pequena criança que o abraçava tão desesperadamente.
− Sua irmã disse isso? – Seu tom saíra calmo, baixo, como se aquele diante de Singred não fosse ele mesmo, mas sim alguém capaz de respeitar e tentar amenizar a dor alheia.
− Sim...
− Gostaria de saber em que mundo ela vive... – Sua voz saiu, mas não pôde ser ouvida pela menina, já que o choro dela abafara completamente a voz de Loki.
− Minha irmã vem sofrendo desde criança por causa da mamãe. – Continuou a garota, tímida, chorosa, mas sentindo-se mais confiante perto dele. – Desde muito menininha eu via Sigyn trabalhar feito escrava, sem descanso, sem poder nem ao menos comer, enquanto minha mãe apenas ficava descansando. – Seu tom baixo e fraco se perdia nas frias paredes das masmorras, mas o príncipe mais novo conseguia ouvi-los.
− E o pai de vocês? – Curioso, sem entender a razão da pirralha não tocar no nome do pai delas, pergunta de forma direta, demonstrando em seu tom de voz que não aceitaria meias verdades.
− Nosso pai foi morto por um de seus alunos mais geniais. −Os pequenos braços da garotinha soltaram-se do corpo de Loki. – Ele era um grande mestre na arte da magia, algo raro aqui em Asgard. – Respirou fundo, tomando um pouco de fôlego, voltando a falar logo em seguida. – Esse aluno é o filho mais novo de Odin. – Limpando as lágrimas que ainda caiam de seus olhos, ela joga a verdade na face do trapaceiro, sabendo que poderia muito bem ser castigada por afrontá-lo.
− Então, meu mestre, Virtalähde, era o pai de vocês? – Sua voz saiu entrecortada, sentindo um gosto amargo preencher sua boca.
− Sim. – Assentiu. – Ele era.
Processando o que acabara de descobrir, Loki se vira para encarar Singrid, sendo surpreendido por um tímido e triste sorriso da parte dela. – E o que pretende fazer agora que já sabe quem foi o responsável pelo sofrimento de sua irmã? – Sério, sem quebrar o contato visual que tinha com a criança, o mestre da magia a indaga.
A pequena faz um sinal em negação com a cabeça, mantendo o sorriso entre seus finos e ressecados lábios. – Eu não o odeio por ter matado nosso pai, senhor Loki. – Garantiu, tocando a gélida mão dele, surpreendendo-o. – Eu sei que não foi culpa sua. – Suspirou, lamentando o ocorrido de anos atrás. – Meu pai, em um sonho que tive recentemente, disse que você tentou anular a energia bruta de uma estrela negra que poderia dizimar nosso povo, mas acabou sendo infectado por ela, acarretando na morte dele que, para purificá-lo usou a magia proibida de laskenut hehku. – A jovem explicava com maturidade e muita sabedoria, não havendo resquício algum de ressentimento em seu tom de voz.
Todo mundo sabia que Loki matou seu próprio mestre de forma covarde, passando assim a ser nomeado como o trapaceiro, o mentiroso, o caos encarnado. Todavia, como todas as histórias possuem dois lados, o que ninguém sabia era que não foi por maldade, mas sim para evitar uma tragédia que pudesse machucar o coração da única pessoa que o aceitou como pupilo e como um igual.
De todas as coisas que que atormentavam o Deus trapaceiro ao pousar sua cabeça sobre o travesseiro, a morte de seu instrutor era a que mais pesava em seu coração, fazendo-o odiar-se por ainda estar vivo, por ter matado seu mestre, por ter virado as costas para a família dele que o acolhera tão calorosamente sem pedir nada em troca, pelo menos por parte de seu falecido mentor.
− Como pode ter tanta certeza assim que eu não o matei para roubar seu poder? – A pergunta saíra amarga, falha, diferente de seu tom habitual de imponência.
Com um sorriso fraco, entretanto com muita sinceridade, a jovem o responde simplista. – A dor em seus olhos ao falar sobre meu pai é a dor da perda de um ente muito querido. Da impotência que sente por não ter conseguido salvá-lo. Você, mesmo que desejasse com todas as suas forças, não conseguiria matá-lo, não por falta de poder para tal ato imperdoável, mas por amá-lo como se fosse o próprio Odin, seu pai. – Suspirou. – Alguém tão cruel ao ponto de matar seu próprio mestre para obter poder jamais expressaria tristeza nos olhos ao ouvir o nome dele ser pronûnciado.
Sem ter palavras para rebater tudo o que a pequena havia lhe dito, Loki, o trapaceiro, pela primeira vez em sua vida, sem se importar com a presença da menor, permite-se chorar, libertando-se da culpa que o consumia desde muito jovem: A culpa de ter matado, mesmo que por pedido de Virtalähde, antes que a escuridão o dominasse, causando assim o começo de Ragnarok.
Muitos diziam que o coração do herdeiro mais novo era frio, impiedoso, como se fosse feito da mais dura geleira de Jotunheim, o reino dos gigantes de gelo. Todavia, ninguém sabia a imensidão da dor e culpa que ele guardava dentro de si.
Desde criança recebera as sobras de Thor, muitas vezes sendo deixado de lado por todos, como se nada do que ele fizesse, por mais incrível que fosse, chegasse aos pés do irmão, criando uma rivalidade por parte do mestre em magia, levando-o ao caminho da escuridão.
Mesmo o ferindo por dentro, mesmo não achando justo aquela preferência de Odin por Thor, o trapaceiro mantinha-se calado, guardando para si mesmo a sua infelicidade e descontentamento, sabendo das consequências que poderia sofrer se confrontasse seu pai.
Nunca entendera aquela devoção que Odin tinha pelo mais velho, talvez nunca chegaria entender. Todavia, algo bom em sua existência sem sentido aconteceu, algo que Thor não poderia lhe tomar: A magia.
Durante anos estudou através de livros, aprendendo o básico, mas ele era feliz com aquele pouco de conhecimento, começando a fazer traquinagens por todo o palácio, irritando os adoradores de Thor.
Mas quando percebeu que os livros não poderiam lhe ensinar a verdadeira magia, a magia capaz de ser usada em batalhas, a frustração lhe abateu, mas ele não desistiu. Como era apegado a sua mãe, pediu para que ela o ensinasse, aquecendo seu coração já maculado pelas trevas. Contudo, com o passar dos meses, ele percebeu que ela já não possuía a mesma paciência de antes, levando-o a buscar por outros meios de aprendizado, rompendo assim o único laço restante que ele tinha no palácio.
Meses se passaram, a busca de Loki se tornou cada vez mais desesperada, até que ele encontrou seu humilde mestre em um dia de tempestade. Naquela época, quando ele ainda acreditava nas pessoas, o Deus da trapaça possuía benevolência em seu coração, levando-o a ajudar aquele selvagem.
E foi com aquele pequeno e simples ato de humildade que ele conseguira o direito de tornar-se o pupilo de Virtalähde.
− Você deveria me odiar... – Cochichou em um tom embargado pelo silencioso choro. – Por que não tenta vingar a morte de seu pai me matando?
Em choque, a garota caminha em passos duros até o príncipe, agarrando-o pelo sobretudo. – Você prefere morrer a aceitar que não te odeio? – a pergunta saíra alta, fazendo os guardas saírem de seus postos, correndo na direção de onde haviam ouvido o grito.
− Sim. – Empurrou a garota para trás. – Eu prefiro morrer a ver esses seus olhos com pena. Eu prefiro morrer a saber que não me odeia. Eu prefiro morrer agora mesmo a ver você acreditando que sou bom. E sabe o porquê? Eu sou orgulhoso demais para aceitar esses sentimentos medíocres. E não há possibilidade alguma de eu ser capaz de ter boas emoções. – Seu tom era alto, fazendo Singrid ficar assustada com a mudança de humor tão repentina de Loki.
− É mentira. – Murmurou, hesitante, avançando um paço em sua direção. – Você está sofrendo, eu vejo isso. E o que também posso ver em seus olhos é que você odeia o fato de não conseguir enterrar o passado e seguir em frente.
− Já chega! – Gritou, transtornado, pegando-a de forma bruta pelo braço, arrastando-a pelos corredores sem fim.
Continuaram andando até o Deus avistar um guarda.
− Encontrei essa rata nos corredores do palácio real, armada com uma pequena adaga. – Informou a mentira para o vigia, recebendo um olhar de negação por parte de Singrid.
− Coloque-a junto com a selvagem que me atacou hoje mais cedo. – Ordenou, sendo prontamente obedecido.
− Pode fazer o que quiser para fazer-me odiá-lo, mas eu não o odiarei. – A jovem gritava enquanto era arrastada pelos corredores. – Sigyn sempre acreditou em você, seu tolo, mesmo você não merecendo!
Não se importando com as palavras que a garota dizia para ele, o mago traça seu curso para fora daquele lugar asqueroso, desejado apenas uma única coisa naquele momento: um longo e merecido descanso.
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