Jogo de sedução
4 Capítulo 3 - Destruída
Notas iniciais
Congelei diante daquelas palavras. Como uma simples frase podia ter tanto efeito sobre uma pessoa? ‘‘Adorei a apresentação, Lira. Ou devo dizer, Lola.’’ Isso ficava vindo em minha mente várias e várias vezes fazendo com que um bolo se formasse em minha garganta. Eu tive vontade de chorar por ter sido descoberta, mas ao invés disso recompus a compostura e olhei Alexander como se não estivesse entendendo o que ele havia dito.
– Não sei do que você está falando, garoto. – retruquei com a expressão indiferente.
Olhei dentro de seus olhos cor de mel e percebi que ele estava se divertindo com tudo aquilo. Neles não havia nem um resquício de dúvida ou confusão, somente determinação e chacota. Tive vontade de socar aquela cara linda de tanta raiva que eu estava sentindo ou então mandá-lo aos chutes de volta para a França com uma bomba no pescoço. Não acredito que esse menino que está aqui há um dia descobriu meu segredo! Como eu consegui vacilar tanto? Por dentro eu estava um turbilhão de emoções, como uma centrífuga trabalhando a todo vapor, mas por fora eu estava impassível.
– Talvez eu tenha me enganado, então. Você é bem parecida com uma menina que estuda aqui. – falou.
– Eu tenho uma irmã gêmea que mora nos dormitórios e estuda nessa faculdade. – afirmei tentando ser convicta, mas para ser sincera nem eu acreditaria nessa desculpa ridícula.
– Oh! Tudo bem então, bem... Acho que sou meio idiota por não ter percebido que você não pode ser a Lola. Desculpe-me. – falou sorrindo.
Ele estava fingindo que acreditava. E eu fingia reconhecer que ele acreditava. Eu queria que fosse isso verdade, mas tinha conhecimento que meu disfarce fora por água abaixo. É, parece que amanhã terei que revistar todo o anúncio de trabalho do jornal. Apesar disso, não me deixei abalar, passei por ele e rumei em direção ao dormitório feminino.
Eu tentava caminhar de modo silencioso, mas estava tão transtornada que o barulho dos meus passos ecoava pelos corredores. Subi a escada, mas antes que eu virasse a esquina para chegar a meu quarto, senti uma mão rodeando minha cintura e outra tampando minha boca impedindo-me de gritar. Tentei morder a mão masculina e me remexi na tentativa de me desvencilhar do homem, mas não surgiu efeito, ele era mais forte do que eu. Senti meu corpo sendo pressionado contra a parede gélida. Diante de mim, Alexander exibia um sorriso divertido enquanto eu o fulminava com o olhar.
O perfume amadeirado dele estava forte e eu conseguia senti-lo sem esforço. Seu cabelo estava rebelde e os olhos cor de mel olhavam-me de modo intenso. Ele estava me provocando, e isso me fez ficar ainda mais brava com ele. O aperto em minha cintura ficou mais forte e ele destampou minha boca, transferindo a mão que estava nela para meu pescoço. Senti seus lábios em minha bochecha e tentei me desvencilhar, mas em um rápido movimento ele puxou o grampo que segurava a telinha da peruca, fazendo-a ficar folgada. Quando percebi o que ele pretendia, comecei a me debater mais em seus braços. Com um sorriso vitorioso naqueles lábios bem desenhados, ele puxou meu cabelo falso, deixando meus fios castanhos caírem como uma cascata em meus ombros. Pelo menos ele não estava tão horrível e grudento hoje, uma vergonha a menos. Pensei sentindo-me derrotada e prestes a chorar.
– Não conte a ninguém. – falei entre dentes e arranquei minha peruca vermelha de sua mão com ferocidade.
Rapidamente saí do corredor e parei diante da porta de meu quarto sem me preocupar em tentar ser silenciosa. Minhas mãos estavam trêmulas e isso dificultou a tarefa de colocar a chave no trinco, mas quando finalmente consegui, entrei rapidamente naquele refúgio.
Tranquei a porta e encostei as costas nela, sentindo uma repentina exaustão. Minhas pernas não conseguiram sustentar meu peso e fui escorregando pouco a pouco em direção ao chão gélido. Não sei quanto tempo eu fiquei encarando a parede até que as lágrimas brotassem de meus olhos, podiam ser horas, minutos ou segundos, mas não importava. Eu havia sido descoberta. No mínimo Alexander ia usar isso para me chantagear.
– Droga de francês! – murmurei entre os soluços.
~ ♥ ~
Senti algo me empurrar pera frente. Meus olhos ardiam por causa do choro e todo meu corpo doía por conta da posição que eu havia dormido e por ter passado todo o restante da noite e o começo da manhã encolhida. Em algum momento desde que entrara no quarto eu havia adormecido no chão sem nem mesmo perceber e agora Bryan estava abrindo a porta e me empurrando.
– Ai. – gemi de dor ao me levantar com o protesto dos meus músculos rígidos.
– Que palhaço vomitou na sua cara, Lolita? – perguntou-me Bryan horrorizado assim que entrou no meu quarto.
– Eu preciso arrumar outro emprego. – murmurei sentindo um bolo se formar em minha garganta novamente.
– Você ama dançar na Desire, o que aconteceu? – questionou confuso.
– A droga daquele maldito intercambista francês é que aconteceu! – exclamei furiosa – Ele descobriu meu disfarce e olhe que está aqui há um dia! Uma porcaria de dia já foi suficiente para ele acabar com tudo!
E, novamente, eu estava chorando desesperada. Eu não queria largar o emprego que tanto gostava e nem virar alvo de chantagens. Sabia que chorar não ia me ajudar em nada, mas eu precisava colocar para fora toda aquela frustração e angústia, caso contrário eu explodiria. Vários pedacinhos de Lola decorariam aquele quarto, até que era uma boa ideia. Mas acho que dependendo do tipo de casa que eu projetasse não combinaria muito bem. Quer dizer, isso se eu conseguir terminar o curso.
Eu sabia que se o fato de eu dançar em uma boate masculina chegasse aos ouvidos de minha família, meus pais iriam me arrastar de volta para casa e eu só poderia ver a luz do dia quando completasse cinquenta anos. Isso se eles não me matassem e falassem para todos nossos parentes que eu havia sofrido um acidente. Qualquer que fosse a reação deles, eu nunca iria pôr os pés na faculdade novamente. Bye bye sonho de ser arquiteta e olá prisão domiciliar.
– Opa! Desembuche, garota! Como ele descobriu? – perguntou Bryan sentando na cama e me arrastando até ela.
Ele se sentou no colchão, deitou minha cabeça em suas pernas e começou a passar os dedos no meu cabelo, afagando-os a fim de me incentivar à relaxar e à contar tudo. Dei um suspiro cansado e me acomodei de modo mais confortável.
– Alexander apareceu lá na Desire com uns caras idiotas aqui da faculdade e quando eu estava voltando para o dormitório ele estava me esperando. Eu tentei convencê-lo de que ele estava enganado, mas aquele maldito francês ficou debochando de mim e ainda tirou minha peruca. – falei irritada.
– Como você tentou convencê-lo que você não era a Lola? – questionou olhando em meus olhos.
Essa não. Chegou o momento que eu menos queria, agora ele vai me zoar para sempre! Tentei pensar em alguma outra desculpa, mas parecia que meu cérebro tinha dado pane. Ele havia percebido que eu ia dar alguma resposta idiota e um sorriso já se formava em seus lábios.
– Eu falei que eu e a Lira éramos gêmeas. – murmurei quase inaudivelmente.
– Desculpe, o quê?! Eu não te ouvi, Lolita. – falou com a voz provocante. Ele tinha ouvido.
– Eu disse que a Lira tinha uma irmã gêmea, no caso eu, que estudava aqui! – exclamei agarrando meu travesseiro e o usando para esconder meu rosto corado de vergonha.
Não tardou para que Bryan começasse a ter uma crise de riso histérica. Eu o sentia tremer e as gargalhadas dele chegavam aos meus ouvidos mesmo eles estando tampados. Bati meu travesseiro com força em seu braço, mas ele não pareceu se importar. E então, eu comecei a rir também. Ok, até mesmo eu admito: aquela desculpa foi uma droga. Alguns minutos depois eu já estava com a barriga doendo e com lágrimas nos olhos, mas já estava me sentindo um pouco melhor.
– Eu não vou ir à aula hoje. – falei com a foz triste depois de me recompor das risadas.
– Dolores Maxwell pare de drama, garota! Você vai ir sim às aulas, linda e maravilhosa e vai esfregar na cara dele que não está nem um pouco abalada. Seduza-o que ele não irá dizer nada a ninguém. – afirmou decidido.
– Por que toda a solução para você é seduzir o cara? – perguntei rindo.
– Porque é divertido, oras! Agora vai para o chuveiro e limpe esse vômito de palhaço da sua cara, hoje irei te deixar linda! – exclamou animado.
Levantei-me a contragosto sentindo minha cabeça e meu corpo doerem. Tomei uma aspirina e entrei no banheiro. Tranquei a porta e retirei minhas roupas, entrando na água morna do chuveiro logo em seguida. A água quente contrastava com a temperatura baixa daquele dia e relaxava meus músculos tensos. Lavei o cabelo e retirei toda a maquiagem borrada de meu rosto sentindo-me infimamente mais animada. Talvez, Alexander não faça nada, pensei de modo ingênuo, talvez ele fique quieto e siga sua vida normalmente como se nunca tivesse me visto ontem à noite.
Infelizmente eu sabia que tinha poucas chances disso acontecer. Meu lado pessimista falou mais alto dessa vez e um súbito medo me invadiu. E se quando eu chegasse à sala todos rissem e apontassem para mim? E se ele já tivesse contado para o Logan? Eu não queria perder cem dólares assim! Minhas mãos começaram a tremer só de pensar nessas hipóteses e saí do banheiro enrolada na toalha.
Bryan me esperava impaciente com uma muda de roupa jogada em cima da cama. Ele mexia tanto no meu guarda-roupa que eu já nem ficava constrangida ao pensar nele vendo minhas peças íntimas. Peguei as roupas e troquei-me no banheiro. Ele havia separado uma calça jeans, uma blusa de manga longa xadrez rosa e branco e uma sapatilha branca com um laçinho pequeno na lateral. Fiquei feliz que dessa vez ele não havia pedido para eu usar nada provocante, como ele sempre fazia.
Quando eu já estava pronta, meu amigo secou meu cabelo e deixou-o com um pouco de cachos na ponta. Meu rosto estava pálido, eu estava com olheiras profundas e com fisionomia cansada. Para resolver isso ele passou uma leve maquiagem e me surpreendi com o resultado, eu estava linda! Nem parecia que eu havia chorado horrores a madrugada quase toda.
– Eu não sei o que eu faria sem você, Bryan. – falei pulando em seus braços para um abraço apertado.
– Eu sei, você me ama. – afirmou dando um beijo em minha testa – Agora vamos logo, você não quer chegar atrasada e ser o centro das atenções, quer?
– De modo algum. – afirmei pegando minha mochila e correndo para fora do quarto.
Assim que ele trancou a porta, veio em minha direção e andamos quase correndo até a minha sala de Cálculo. Minhas mãos tremeram e as senti ficarem frias pelo suor. Olhei de modo receoso para Bryan, que me lançou um sorriso carinhoso.
– Estou com medo. – admiti.
– Fique calma, Lolita, vai dar tudo certo. – falou abrindo a porta.
Eu hesitei para entrar e Bryan ao perceber isso me empurrou para dentro da sala, fazendo que eu quase caísse de cara no chão. Algumas pessoas se voltaram para mim e eu senti como se um buraco tivesse sido aberto em meu estômago, porém elas logo voltaram seus olhares para outras coisas. Ninguém estava rindo e nem cochichando sobre mim, e isso era um bom sinal. Bom, não, excelente!
Fui em direção a minha carteira que ficava no sexto lugar da quarta fila sentindo uma imensa tranquilidade me invadir. Não consegui conter o sorriso bobo que havia se formado em meus lábios. Ele não havia contado! Essa frase passava toda hora por minha cabeça como uma espécie de refrão de música.
– Uau! Você está ótima, nem parece que dormiu apenas cinco horas. – falou Alexander sentando-se ao meu lado fazendo meu sorriso morrer.
Na verdade havia dormido menos, mas não falei nada. Olhei para ele de modo zangado imaginando mil formas de matá-lo naquele instante. A que eu mais gostei foi enfiar a caneta em seu pescoço, mas havia muita gente ali e eu não queria ser presa. O cabelo dele estava mais arrumado de que na noite anterior e os olhos cor de mel me encaravam a todo instante. Ele estava usando calça jeans preta, uma blusa estilo social verde musgo com o primeiro botão aberto e as mangas dobradas e um sapato escuro. Aquele homem era muito lindo para ser tão irritante.
– Connard. – xinguei-o.
Ele arqueou as sobrancelhas, escorou no encosto da cadeira, cruzou os braços e deu um sorriso debochado em minha direção. Oh, céus, como ele estava lindo. Pena que ele era um grande maldito e eu quisesse matá-lo toda vez que eu o vejo.
– Vous savez français? Je suis impressionné, Lola. – falou em tom de divertimento.
– Que? – perguntei franzindo o cenho.
– Perguntei se você sabe francês já que me xingou na minha língua, mas pelo visto não. – respondeu.
– Não sei mesmo, só procurei alguns insultos em francês na internet para ter certeza que você entenderia meus xingamentos. – retruquei de mau humor.
Ele deu uma risada contagiante e tive que juntar todas as minhas forças para manter a expressão carrancuda.
– Isso tudo é medo das pessoas descobrirem que você dança na Desire? – questionou-me.
– Fale baixo, imbecil! – repreendi-o olhando para os lados para ver se alguém por perto havia ouvido.
– Relaxa, Lola. O que há demais em dançar em uma boate masculina? – perguntou-me fingindo-se de inocente.
– O que você quer para manter a boca fechada? – perguntei já sem paciência para acabar logo com aquele joguinho.
Alexander deu um sorriso sacana e senti um frio passar por minha espinha. O que será que ele vai querer?
Fale com o autor