Jogo de sedução
15 Capítulo 14 - Amigos
Notas iniciais
O que eu estava escondendo fora a pergunta de Melissa, mãe de Logan. Bem, por onde eu começava? Apesar de não gostar de admitir, estava mantendo muitos segredos recentemente. A começar por não possuir os vinte e um anos necessários para trabalhar na Desire e continuar lá mesmo assim, depois menti sobre minha identidade, omiti para meus pais que havia perdido o emprego e que não tinha condições de pagar mais que dois meses da universidade. Porém, naquela situação o pior de tudo talvez fosse mentir para a família de Logan que nosso relacionamento era real e não somente um acordo.
– Não estou escondendo nada, Melissa – afirmei olhando-a nos olhos.
A lista das mentiras só aumenta, pensei. Será que devo me preocupar em estar ficando cada vez melhor em não falar a verdade?
– Por favor, Lira, não insulte minha inteligência dessa forma. Isso que você e meu filho têm não é amor, então me pergunto: por que estão juntos? O quanto o namoro está te beneficiando?
Epa! Ela achava que o Logan estava me pagando para sair com ele? Que coisa mais absurda!
– Se a senhora continuar me ofendendo dessa forma irei embora. Lembro-me que você era muito mais agradável comigo durante a festa de comemoração do contrato. Então, o que houve para que mudasse seu modo de agir comigo?
– Como conheço o filho que tenho, achei que esse namoro não ia durar nem quatro dias. Mas como durou não me olhe dessa forma por querer saber o que está realmente acontecendo. Logan é meu único filho e me preocupo muito com ele, ainda mais agora com o que está acontecendo com o Edgar – falou divagando um pouco, mas logo se recompôs – Minha última pergunta: você está se aproveitando dele?
Na verdade, minha senhora, seu filho é quem está se aproveitando de mim, afinal meu único benefício é o de poder agarrá-lo quando eu quiser.
– Não. Nós não estamos completamente apaixonados, mas nos gostamos. Isso é suficiente, por enquanto – afirmei.
– Só espero que nenhum dos dois saia machucado desse relacionamento cômodo – falou sorrindo e olhando para a entrada lateral da casa – Veja! Nossos homens estão voltando, por favor não fique tão chateada comigo.
Melissa se inclinou em minha direção e apertou minha mão suavemente, como um pedido de paz. Ela estava certa em perguntar essas coisas, afinal nosso falso relacionamento não estava tão realista assim e ela estava preocupada pela chance de uma estranha estar se aproveitando do dinheiro deles. Logan chegou por trás de mim e fez massagem nos meus ombros, olhei para cima, mas ele não sorria, estava pensando em outra coisa importante. Edgar se sentou ao lado da mulher e beijou suas mãos entrelaçadas com um sorriso triste nos lábios. O que estava acontecendo ali?
– Amor, preciso te mostrar uma coisa no meu quarto. Vem comigo? – perguntou Logan olhando-me nos olhos.
Levantei-me pedindo licença e segui ao lado dele, que me conduzia pela cintura. A casa estava bem diferente da última vez que havia estado nela: a sala imensa agora estava novamente com seus móveis, as cortinas estavam no lugar e um maravilhoso tapete enfeitava o chão. Porém, não mal a analisei, já que a ansiedade e nervosismo do Logan me deixavam aflita.
Subimos a escada e ele me levou para seu quarto. O cômodo era grande e decorada em estilo minimalista, as paredes eram cinzas, havia um tapete creme felpudo no chão, uma escrivaninha com um computador moderno e materiais de estudo e uma cama king size cuja colcha marrom estava perfeitamente arrumada. A luz entrava por uma extensa e límpida janela que possuía vista para o jardim.
– Olha, sei que não é justo com você, mas não podemos terminar por um tempo – afirmou sentando-se na cama segurando a cabeça nas mãos.
– O que houve? Você estava tão decidido a acabar tudo antes da conversa que teve com seu pai, qual é o problema em terminarmos essa mentira? Não me sinto bem fazendo isso com seus pais, eles são bem legais pelo que pude perceber em tão pouco tempo.
– Esse é o problema, eu não posso fazer isso neste momento. É muita coisa para eles lidarem e para ser sincero preciso de alguém do meu lado por enquanto – falou olhando em meus olhos e segurou meus ombros com firmeza – Você faz isso por mim, Lira? Pode ficar ao meu lado?
Sua voz estava desesperada, havia alguma coisa muito séria acontecendo na família dele e ele acabara de descobrir. Porém, não iria forçar a falar se não estivesse se sentindo preparado. Problemas familiares são os mais difíceis de resolver e dependendo da gravidade são um baque para todos os parentes próximos. Diante da minha demora para responder, seu semblante foi ficando cada vez mais desesperado.
– Por favor seja minha amiga. Eu preciso de alguém que me ajude a passar por tudo isso. Sei o que deve estar pensando, eu tenho meus amigos, mas não quero que muitos saibam o que está acontecendo. É facílimo algum deles deixar a informação vazar e isso aparecer nos jornais, fazendo com que todos desacreditem na direção da empresa de meu pai. Eu faço o que você quiser, te pago o valor que desejar, mas por favor não me abandone agora – pediu.
– Logan, não se preocupe. Não quero seu dinheiro, só quero ser sua amiga. Prometo tentar te ajudar a passar por sei lá o que. Quando estiver pronto pode me contar a respeito – afirmei com convicção.
Eu poderia até estar mentindo sobre minha identidade e sobre a aposta, mas Logan precisava de alguém ao seu lado e eu estaria ali para ele. Afinal, éramos um tipo meio estranho de novos amigos e eu era uma boa pessoa apesar de tudo. Logan acariciou minha bochecha e meu pescoço carinhosamente, sem parar de olhar dentro de meus olhos. Seus lábios se aproximaram dos meus delicadamente e nos beijamos. Ele me apertava contra si e mesmo naquela posição um pouco desconfortável era bom senti-lo perto de mim. Seus beijos foram direcionados para meu pescoço transformando-se num leve roçar que me fazia arrepiar inteira.
Seus braços me empurraram para trás delicadamente e assim que minhas costas encostaram no macio colchão, ele já estava em cima de mim beijando-me de forma calorosa. Sua mão deslizava pela lateral de meu corpo enquanto a outra apoiava seu peso. Quando ele tocou meu seio sobre o tecido de meu vestido azul arfei sentindo meu corpo esquentar ainda mais. E tudo se tornou ainda mais intenso quando seus beijos foram descendo do meu pescoço para minha clavícula.
Coloquei minhas mãos sob sua camisa sentindo sua pele se arrepiar com minhas carícias, ele levantou um pouco a saia de meu vestido e roçou os dedos em minha calcinha. Antes que ele pudesse aprofundar seus toques, empurrei-o levemente fazendo-o parar e me encarar de modo questionador, com os olhos repletos de desejo e um pouco de tristeza.
– Logan, você deve ter recebido uma notícia muito ruim hoje e está querendo algo para se distrair. Mas acho que nenhum de nós dois quer realmente fazer sexo desta forma, não é mesmo? Hoje não iremos transar, você precisa de outra coisa para te tirar a atenção disso e eu vou te ajudar – falei sorrindo enquanto acaricia seu cabelo – Seus pais estão nos esperando, vamos?
Ele suspirou e fechou os olhos, apertando a base no nariz com os dedos. Assim como eu, ele tentava se acalmar e controlar sua respiração. Então, abriu os olhos aparentando estar mais calmo.
– Obrigado, Lira. Vejo que não foi só seu rebolado que me fez ficar louco por você, parece que acertei ao te propor ser minha namorada de mentirinha – admitiu saindo de cima de mim e me ajudando a levantar.
Arrumei minha saia e passei a mãos em meus cabelos para ter certeza de que a peruca ainda estava no lugar. Fui surpreendida pelos braços de Logan ao meu redor e fui envolvida em seu abraço. Ficamos próximos tempo suficiente para perceber que seu abraço era muito gostoso e macio, apesar de seus músculos definidos.
– Obrigado mesmo – agradeceu dando-me um beijo na bochecha e entrelaçou nossos dedos – Vamos descer somente para avisar meus pais que ficaremos aqui em cima, eles têm muita coisa para conversar sozinhos.
~ ♥ ~
Era o terceiro filme de ação que eu e o Logan assistíamos em seu quarto. Apesar de eu amar Gigantes de aço, não conseguia deixar de pensar na notícia que poderia deixar a família Campbell tão abatida. Será que eles estavam falindo? Não, isso era impossível. Eles praticamente usavam notas de cem dólares para limpar o suor provocado pela tensão de gerenciar uma das maiores empresas dos EUA.
Nós dois estávamos deitados debaixo das cobertas na cama de Logan, pois a temperatura havia caído drasticamente. Ao olhar para o lado reparei que ele cochilava tranquilamente ressonando um pouco. Minha mão resolveu fazer um cafuné no cabelo dele e quando reparei nisso tentei tirá-la, o que fez com que Logan se remexesse e voltei a acaricia-lo.
Todos os meus planos estão começando a sair de controle, pensei dando um suspiro. Eu deveria estar no dormitório com uma pilha de jornais analisando tudo em que eu poderia trabalhar. Do jeito que estou desesperada até pagaria cinco dólares pelo The NY Times se houvesse a certeza que encontraria nele um emprego que me atendesse bem. Era incrível a quantidade de turistas que vinham para NY querendo comprar esse periódico como lembrança e desistiam após ver seu preço. Quem sabe se eu os vender começo a ganhar algum dinheiro? Tive vontade de me socar pela ideia idiota.
– O que está te preocupando? –perguntou Logan dando-me um susto.
Quando é que ele tinha acordado?
– Preciso de um novo emprego logo, tenho que pagar a fa... Quer dizer, minhas contas de casa. Infelizmente não encontro nenhum que atenda às minhas necessidades de carga horária e salário – desabafei.
Logan passou os braços pela minha cintura puxando-me um pouco mais para perto de si enquanto encarava a cena final do filme que passava na televisão. Pelas suas feições – os lábios comprimidos e o leve franzir do cenho – notei que ele estava pensando em algo.
– Que tal trabalhar comigo em uma das empresas dos meus pais? – perguntou sem me encarar.
Fodeu! Agora sim a mãe dele vai me achar uma vadia interesseira. Com que cara eu poderei chegar na firma e encontrar Melissa esfregando na minha cara que eu só estava ali por causa de seu filho? Eu sei que realmente ela não faria isso, mas minha imaginação já tratou de traçar até nossas vestimentas para a ocasião, então não tinha como me convencer do contrário.
– Logan, eu agradeço, mas não acho uma boa ideia misturarmos as coisas desse modo. Esqueceu-se que sou, ou melhor, era uma dançarina da Desire? Já está sendo muito estranho ter você – logo você, um dos clientes mais frequentes da boate – como amigo, quiçá vê-lo todos os dias em uma ambiente de trabalho – afirmei convicta.
– Eu curso direito, sou um dos estagiários de advocacia da sede principal, você pode ser uma secretária de uma das outras filiais. Que tal algo mais puxado para a arquitetura? Ser estagiária lá é fácil e você parece ser uma pessoa bem criativa pelo que pude ver ao observá-la montando suas próprias coreografias. Além disso, é só lá que há vagas – falou como se já soubesse que eu cursava justamente isso na mesma faculdade que ele – Que tal?
– Passe-me tudo que preciso saber que prometo pensar no assunto – respondi quase sentindo vontade de rodopiar pelo quarto – Seus pais acharão que estou tirando vantagem de você.
Eu estava precisando de um estágio há tempos e de quebra pegar um numa grande empresa como as da família Campbell era de matar! Imagine como ficará meu currículo com isso! Quando terminar a faculdade terei mais oportunidades de crescer, afinal, aquela empresa não era conhecida como pioneira e modelo de empreendedorismo por contratar todo mundo que batesse à porta. Menos uma preocupação, finalmente.
– Eles não pensam e não pensarão assim de você, Lira, relaxe. Eles têm coisas mais importantes para lidar – disse acariciando meu rosto suavemente com o polegar – Além disso, sou eu quem está tirando vantagem de você, afinal, você não está ganhando nada com nosso falso namoro.
– Você se engana, Logan. Eu estou ganhando um bom amigo com nossa farsa – retruquei sorrindo.
Logan riu e sorri por ter conseguido fazê-lo largar a preocupação por alguns segundos. Virei a cabeça para ver as horas no relógio digital em cima da escrivaninha e quase tive um ataque cardíaco. Levantei da cama num ímpeto assustando o homem ao meu lado.
– Caramba, Lira, vai tirar quem da forca? Quase que você me dá uma cotovelada na cara ao levantar toda desorientada. – reclamou Logan.
– Preciso que você me leve para casa, já são quase onze horas – falei calçando a sapatilha.
Quando fui andar rumo a porta, senti uma mão segurando meu braço e caí sentada na cama pelo impedimento. Olhei para trás com raiva. O que aquele cara queria?
– Fica comigo, por favor – pediu Logan.
Olhei em seus olhos e não vi resquícios de malícia. Aquele era um pedido simples, acho que ele só queria ter uma companhia naquela noite e eu era uma melhor opção que ele ir para a cama de seus pais. Argh! Que droga! Por que ele tinha que me convencer tão rápido assim?
– Tudo bem, mas não iremos transar – falei suspirando e chutei minhas sapatilhas recém-colocadas.
Logan avançou para cima de mim me abraçando e me puxou para trás fazendo-me cair deitada na cama ao seu lado ainda presa a ele. Encaramo-nos por alguns segundos, começamos a rir e ele me soltou. À medida que nossa risada acabava, fiquei olhando o teto sentindo-me verdadeiramente feliz. E daí que as presilhas no cabelo me machucavam e a peruca coçava? Eu ia ficar ali com meu novo amigo, iria ajuda-lo a esquecer por um tempo a notícia que ele recebera hoje, seja lá qual fosse ela.
– Vamos fazer uma brincadeira de responder as perguntas um do outro? – perguntou e antes que eu pudesse questionar o motivo completou – Quero te conhecer melhor.
– Desde que não indague minhas posições sexuais favoritas, sim – disse sorrindo.
– Não prometo nada – avisou rindo – Qual sua cor favorita?
– Bem, deve estar meio obvio pela cor do meu cabelo, gosto muito de vermelho. E a sua?
– Azul. Você é filha única?
– Sim, igual a você. Qual é sua comida favorita?
Logan ficou pensando um pouco, provavelmente listando todas as comidas chiques e caras que ele deveria adorar e eu provavelmente nem deveria conhecer.
– Um delicioso hambúrguer que provavelmente entupirá minhas artérias e fará meu coração explodir um dia – respondeu ficando sério de repente – Você sabe guardar segredos?
Pensei em todos os segredos que eu guardava, estava me tornando uma verdadeira profissional. Deveria até ser remunerada por isso.
– Minha boca é um túmulo – respondi fechando a boca e fingi passar um fechecler com os dedos sobre ela – O que seu pai te contou hoje que fez você ficar baixo astral?
Virei o rosto para observá-lo e ele fez o mesmo. Seus dedos acariciaram minha bochecha e segurei sua outra mão a fim de incentivá-lo a falar e para transmitir confiança. Ele suspirou e deu um leve sorriso sem deixar de acariciar meu rosto.
Então ele contou tudo e no fim da narrativa, seus olhos estavam marejados.
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